Assassino Atemporal

Capítulo 37

Assassino Atemporal

"Esse brat é do Clã Mu."

As palavras de Adrian chegaram como um martelo, definitivas e absolutas, mas dentro da mente de Leo, só criaram caos.

Leo não reagiu externamente, mantendo a expressão atordoada e distraída para sustentar a ilusão de que as drogas tinham feito efeito completo. Mas, por baixo da superfície, seus pensamentos fervilhavam violentamente, tentando entender o que tinha acabado de ouvir.

Clã Mu? Eu?

A possibilidade nunca tinha passado pela sua cabeça até hoje.

Mesmo sem suas memórias, algo lá no fundo rejeitava a ideia completamente, como se seus próprios instintos se recusassem a aceitar o rótulo que acabara de ser colado nele.

O Clã Mu era um dos Seis Grandes Clãs—uma família de guerreiros tão refinados e elite que operavam no auge do poder universal.

Herdeiros deles nasciam em prestígio, criados na riqueza, moldados pelos melhores mestres e estrategistas que o universo poderia oferecer.

E, mesmo assim, ele deveria ser um deles?

Não fazia sentido.

Apesar de toda a lógica que Adrian tinha apresentado—sua circulação tranquila de mana, seus movimentos silenciosos, sua resistência à intimidação—Leo ainda não conseguia se livrar da sensação de que algo estava errado.

Que, por mais que as peças parecessem encaixar-se perfeitamente, tinham sido forçadas, e não se alinhavam naturalmente.

Que alguém—em algum lugar—estava desesperadamente tentando fazer dele um membro do Clã Mu.

Por quê?

Seria um esquema elaborado de um clã menor tentando elevar seu status? Teriam criado um herdeiro falso, na esperança de infiltrar alguém deles na academia sob um nome poderoso?

Ou seria algo mais perverso?

O Culto do Mal estaria por trás disso? Teriam plantado nele um agente dormindo, apagando sua memória para garantir que ele se integrasse perfeitamente à Aliança Justa—esperando o momento certo para ativar sua verdadeira lealdade?

Mas isso também não fazia sentido.

Se o Culto do Mal fosse realmente responsável, ele não sentiria algo—algum instinto enterrado, alguma atração profunda por essa causa? Mesmo que seu eu do passado tivesse laços com eles, o atual não tinha tais inclinações. Nenhuma lealdade. Nenhum sentimento oculto de pertencimento.

Se ele tivesse sido um deles, não deixariam que ele fosse embora tão facilmente.

Isso só sobrava uma possibilidade final e muito mais perigosa.

Que tudo fosse obra de outro Grande Clã.

Um jogo de enganação num nível além do que ele conseguia entender.

Os Seis Grandes Clãs viviam em guerra política constante, sempre manobrando, sempre tramando, sempre procurando maneiras de derrubar um ao outro.

Se um deles o colocara ali, sob a aparência de um herdeiro do Clã Mu, então ele não era apenas um peão—era isca.

Mas para quem? E com qual propósito?

Seus pensamentos avançavam rápido demais para que sua mente lenta e dopada pudesse acompanhar, e ainda assim, através de todas essas teorias, uma certeza se destacava acima de tudo.

'Eu não sou do Clã Mu.'

Ele não sabia como sabia disso. Não tinha memórias, passado para verificar. Mas isso não importava.

Algumas coisas não eram lembradas. Sentidas.

E todo seu ser dizia que ele nunca nasceu nobre.

Ele não era o tipo de pessoa que cresceu numa mansão luxuosa, treinando sob mestres renomados, tendo seu caminho pavimentado por riqueza e linhagem.

Não.

Podia sentir isso até nos ossos.

Ele tinha se arrastado de algo mais baixo. Algo mais duro. Algo mais cruel.

Então, por que—por quê—alguém estaria tentando convencer o mundo do contrário com tanta força?


Antes que Leo pudesse se prender ao pensamento, a voz de Adrian cortou o momento.

"Certo," refletiu o psicólogo, virando uma página nova em seus registros. "Vamos passar para algo mais… direto."

Seu olhar se aguçou. "O que você acha do Culto do Mal? Você sabe o que eles são?"

Leo não hesitou desta vez e respondeu imediatamente.

"Não tenho muita certeza do que eles são, mas ontem visitei a biblioteca para preencher algumas lacunas na minha memória," começou, enquanto Adrian assentia para que continuasse.

"Pelo que li, eles são uma organização ingênua à beira de ser completamente destruída," afirmou de forma direta. "Controlam menos de cinco por cento do território universal e estão em guerra que não podem vencer. O líder deles morreu há dois mil anos, e ainda assim, eles insistem numa causa perdida."

Adrian anotou algo antes de fazer sua próxima pergunta.

"Você tem alguma inclinação a se juntar a eles no futuro? Alguma simpatia?"

Leo balançou a cabeça. "Nenhuma. Parece uma encrenca demais, e não quero esse tipo de problema na minha vida."

Um som suave de alerta.

Verdade.

Um sorriso suave apareceu no rosto de Adrian ao perceber que o aparelho tinha registrado a resposta de Leo como verdade, e ele parecia realmente satisfeito com o resultado da entrevista.

Reabrindo o grosso dossiê que fechara no início da conversa, virou a página onde estavam anotadas as informações de Leo.

Avaliação de Ameaça – Possível Ligação com o Culto do Mal: ➤ NENHUMA.

Força Psicológica como Guerreiro: Acima da média.

Resistência Mental: Notável.

Notas adicionais:

➤ Possível descendente do Clã Mu.

➤ Disciplina natural incomum. Controle mental excepcional.

➤ Um aluno que merece acompanhamento neste ano.

Com um aceno de satisfação, Adrian fechou o arquivo, seu sorriso permanecendo enquanto lançava um último olhar de aprovação para Leo.

"Bem-vindo à Academia Militar de Rodova, Sr. Skyshard," disse com suavidade, tocando o dossiê fechado. "Espero que o resto dos seus testes tenham o mesmo bom resultado deste. Vou ficar de olho em você neste ano—"

"Sabrina—" afirmou, sinalizando para sua assistente.

"Leve-o para a sala de recuperação. Deixe as drogas fazerem efeito direito antes da próxima avaliação."

Sabrina respondeu imediatamente, caminhando ao lado de Leo e colocando o braço ao redor da sua cintura.

Leo, ainda sentindo os efeitos das injeções, mal tinha força para resistir quando ela o puxou para cima, guiando seu corpo quase sem força em direção à saída.

Diferente do começo, quando ela o tratava com indiferença, sua postura agora tinha mudado completamente.

Ao contrário da frieza indiferente de antes, sua postura agora era suave, doce, quase exageradamente gentil, como se tentasse deixar uma boa impressão inicial na cabeça de Leo.

Deliberadamente, ela se aproximou, deixando seu hálito quente roçar contra seu nariz, exalando com um pouco mais de força para garantir que seu perfume floral permanecesse em seu olfato.

Ela estava tentando seduzi-lo. Tentando deixar uma impressão positiva, mas, infelizmente para ela, Leo não se importava com suas tentativas patéticas.

"Você vai se recuperar logo… Eu vou ajudar," disse em tom suave, mas sua voz de mulher safada só fez o estômago de Leo churnar de repulsa.

O cérebro de Leo ainda estava lento, mas não o bastante para não perceber o que estava acontecendo.

Essa vadia era uma interesseira.

Ela tinha ouvido a avaliação de Adrian.

Ela tinha ouvido o termo 'Clã Mu.'

E agora—agora—de um jeito ou de outro—ela tinha decidido que ele valia a pena de se ‘ser ajudada’.

Fato que imediatamente fez Leo odiá-la com todas as forças.

Parecia que seu novo 'status' vinha acompanhado de mais do que apenas atenção.

Vinha com… mudançãs na atitude das pessoas.

Mas ele não tinha intenção de se deixar levar por esse novo status. Ainda não.

Ser confundido com alguém nobre tinha suas vantagens—mas também trazia seu ônus de ser fiscalizado. E, neste momento, fiscalização era a última coisa que ele precisava.

Até descobrir quem realmente era, Leo sabia que era melhor permanecer nas sombras.

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