
Capítulo 28
Assassino Atemporal
Os segundos passaram, mas mesmo com o estudante sob o pé de Su Yang ainda se contorcendo, ninguém da turma do calouro interveio.
Parecia que todos tinham aceitado a surra como algo natural, e ninguém tinha coragem de confrontar Su Yang sobre isso.
Talvez fosse por causa de sua origem, pois ele pertencia a um dos seis grandes clãs. Ou talvez por causa de seu olhar autoritário, daquele tipo que desafiava qualquer um a dar um passo à frente—apenas para esmagá-los se o fizessem.
Seja qual for o motivo, o silêncio imperava.
Até—
Clique. Clique. Clique.
O ritmo sincronizado de várias botas ecoou pelo refeitório.
Cabeças se viraram instintivamente na direção da entrada, enquanto um grupo de estudantes do segundo ano entrava, movendo-se com uma autoconfiança desafiante.
No centro do grupo caminhava um jovem de cabelo loiro, com uma presença afiada e refinada.
Era Du Liang. Mais um descendente dos seis grandes clãs.
Seu olhar percorreu o refeitório, questionando-se sobre o porquê do lugar estar tão silencioso naquele dia, até então focar em Su Yang, e entender o motivo.
Du Liang não parecia surpreso.
Na verdade, parecia um pouco decepcionado.
"Su Yang," chamou com suavidade, sua voz nem ríspida nem especialmente amistosa. "Você realmente vai começar brigas no primeiro dia? No refeitório, que coisa..."
Su Yang finalmente olhou para cima, seu pé ainda pressionando o ombro do recruta, enquanto um sorriso sarcástico se formava em seus lábios.
"Há quanto tempo, Primo Du. Eu tava esperando te encontrar aqui na academia, sabe—" Su Yang respondeu, parecendo já conhecer Du Liang, talvez por uma ligação familiar comum.
Du Liang suspirou, como se já tivesse visto aquilo um milhão de vezes antes.
"Se os instrutores te pegarem, a coisa não vai acabar bem," comentou. "Na Academia Militar de Rodova, temos algumas regras. Se você tem uma desavença com outro aluno, deve pedir um duelo oficial. Caso contrário, está quebrando o protocolo da academia, e pode levar uma punição pesada. Felizmente, não tem professores por aqui agora, ou você estaria numa cela disciplinar até agora—"
Alguns estudantes do segundo ano atrás de Du Liang deram risadinhas, claramente divertidos com a situação.
Su Yang tossiu, mas finalmente tirou o pé do ombro do recruta, permitindo que o garoto tossisse e tentasse respirar desesperado.
Porém, ao invés de recuar, Su Yang apenas cruzou os braços e se virou para Du Liang com uma expressão indecifrável.
"Você sabe por que fiz isso?" perguntou.
Du Liang levantou uma sobrancelha, com um interesse levemente despertado.
Su Yang fez um gesto para o recruta que tremia, com uma expressão de nojo.
"Esse verme tentou se passar por descendente do Clã Mu fingindo ter perda de memória."
A expressão de Du Liang mudou um pouco ao ouvir as palavras de Su Yang, o sorriso de diversão desaparecendo de seu rosto.
"Sério?" refletiu Du Liang.
"Sim," confirmou Su Yang, com os olhos estreitando enquanto fitava o candidato a herdeiro, ainda ofegante. "E sabe como eu percebi?"
Ele se agachou um pouco, mantendo o olhar fixo no estudante encolhido.
"Ele anda demais," afirmou Su Yang de forma direta. "Reage a qualquer movimento, treme ao menor sinal, e hesitou quando o bati."
Ele se levantou novamente, voltando-se para Du Liang.
"Um verdadeiro herdeiro do Clã Mu, mesmo sem memórias, responderia instintivamente. Seus ossos se lembrariam do que a mente já esqueceu."
Du Liang ponderou as palavras de Su Yang por um momento, assentindo com a cabeça.
"Você não está errado," admitiu. "Os métodos de treinamento do Clã Mu são extremos. Os reflexos deles deveriam estar tão enraizados que virassem memória muscular. Se esse cara fosse realmente um deles… ele não estaria no chão agora."
O estudante em questão vacilou diante da análise fria, mas nem Su Yang nem Du Liang deram atenção adicional a ele.
Su Yang finalmente recuou, ainda visível sua frustração, mas contida.
"Na próxima vez, vou solicitar um duelo formal," murmurou. "Mas não espere que eu vá segurar minha barra."
Du Liang sorriu de leve. "Ótimo. Era assim que tinha que ser."
Com isso, a tensão no refeitório finalmente começou a diminuir.
Os estudantes mais velhos logo seguiram em frente, deixando o calouro ferido no chão, e Su Yang—embora ainda exibindo sua arrogância—voltou à sua mesa sem dizer uma palavra.
O ambiente do refeitório foi gradualmente voltando ao normal, mas uma lição não dita ficou clara para todos os calouros na sala.
Os seis grandes clãs governam esta academia.
E, a menos que você pertença a eles—seria bom ficar fora do caminho.
********
Leo absorveu toda aquela troca como uma esponja, processando cada palavra, cada movimento, cada regra não dita.
Era uma lição.
Uma lição de hierarquia. De reputação. De como se resolvem conflitos nesta academia.
Se algum dia ele se encontrasse em confronto com Su Yang, ficou claro que recuar não seria uma opção.
O herdeiro do Clã Su não era do tipo que deixava as coisas passarem, nem que respeitava submissão.
Se você não reagisse, se não se firmasse, Su Yang continuaria empurrando, escalando, humilhando.
Esse era o tipo de pessoa que ele era.
E Leo não tinha intenção de ser sacos de pancada de ninguém.
Por isso, ele realmente esperava nunca se encontrar em conflito com aquele louco.
Havia uma crueldade nas ações de Su Yang que o deixava desconfortável—não por medo, mas pela ausência total de hesitação.
Su Yang não era apenas arrogante. Era inteligente, impiedoso e parecia possuir habilidades suficientes para sustentar essa postura.
Ele andava com uma certeza própria.
Uma certeza que vinha de saber exatamente onde se encaixava no mundo, de ter sido criado em um ambiente onde era indiscutivelmente superior aos outros.
Até a maneira como falava, como se portava, como caminhava—tudo refletia sua origem.
Leo nunca tinha prestado muita atenção a como a postura de alguém podia revelar tanto, mas agora, após observar a interação de Su Yang e Du Liang, entendeu.
Existem sinais. Subtis, mas inegáveis.
O passado de um homem não está apenas nas palavras—mas também na postura, nos instintos, na maneira como se move por uma sala.
E se for assim, então Leo tinha um problema.
Porque ele não conhecia seus próprios sinais.
Não sabia o que suas maneiras de agir diziam sobre ele.
Nem mesmo sabia o que elas deveriam dizer.
Sua perda de memória não era apenas uma inconveniência—era um enorme ponto cego.
E, pior ainda, sem suas memórias, ele sentia que faltava o contexto para entender metade das conversas ao seu redor.
Cada menção aos Seis Grandes Clãs, ao Clã Mu ou aos Herdeiros, eram apenas nomes para ele, fragmentos de um quadro maior ao qual ele não tinha acesso.
E, em um lugar como a Academia Militar de Rodova, não conseguir decifrar esse quadro maior era, sem dúvida, uma grande desvantagem.
Leo cerraram um pouco a mandíbula, uma determinação silenciosa se formando dentro de si.
Ele precisava consertar isso.
Precisava aprender sobre esse mundo, e rápido, porque se não começasse a preencher as lacunas na sua compreensão em breve… ele não seria apenas mais um recruta sem rosto. Seria uma presa—caçada antes mesmo de entender as regras do jogo.