
Capítulo 19
Assassino Atemporal
A névoa sombria criada pela mulher se dissipou rapidamente depois que ela ficou incapacitada, revelando novamente toda a varanda.
Os olhos aguçados de Leo imediatamente fixaram-se no oponente, que jazia espalhado no concreto rachado, contorcendo-se de dor.
Seu rosto torcia-se em agonia, e suas mãos trêmulas agarravam a adaga cravada na sua coluna.
Ela tentou desesperadamente puxá-la para fora do corpo, mas o ângulo em que a arma estava alojada tornava impossível que seus braços reunissem força suficiente.
"AARRGH–" ela gritou, seus uivos ecoando pela varanda e irritando os nervos de Leo.
Uma fagulha de irritação passou por seu rosto enquanto o desejo de acabar com a vida dela imediatamente crescia dentro dele. Mas antes que pudesse agir, um brilho tênue chamou sua atenção.
Seu cristal de teletransporte.
Durante a queda, o cristal escorregou de suas mãos e rolou alguns metros para longe, fora do alcance.
Esse detalhe mudou completamente a dinâmica. Ela não era mais uma ameaça; agora, ela estava à sua mercê.
"Por favor… não me mate!" ela soluçou, com a voz rouca e trêmula, seus olhos arregalados e cheios de terror, olhando alternadamente para Leo e Felix.
Leo permaneceu imóvel, com a expressão indecifrável, observando Felix. Sem dizer uma palavra, ele fez um gesto para o cristal com um leve aceno de cabeça.
"Pisoteie," ordenou friamente.
Felix hesitou, com o rosto pálido e os movimentos inseguros. Ainda tinha a marca do susto com o ataque anterior da mulher, e o peso do seu apelo o fez pensar duas vezes.
Porém, o tom de Leo não deixava espaço para negociações. "FAÇA LOGO," mandou, a ordem despertando Felix do estado de choque.
Engolindo em seco, Felix se aproximou lentamente do cristal. Olhou mais uma vez nervoso para a mulher, que ainda implorava por sua vida, antes de levantar o pé e esmagar a pedra brilhante com força.
Dente de sabre.
O cristal se quebrou sob o impacto, liberando uma luz intensa e cegante que, por um instante, engolfou toda a varanda.
Os gritos da mulher cessaram abruptamente enquanto seu corpo se dissolvia em partículas reluzentes, desaparecendo num instante.
E, assim, mais um oponente tinha sido eliminado.
Por um momento, o silêncio pesou no ar, sendo quebrado apenas pela respiração ofegante de Felix. Ele ficou parado, olhando para o local onde a mulher tinha estado poucos instantes antes.
"Ela veio tão rápido—" Felix murmurou, com a voz quase inaudível, seus olhos arregalados revelando seu desconforto.
Leo, no entanto, ficou em silêncio. Seu olhar permaneceu fixo no horizonte, os nós dos dedos ficando brancos enquanto apertava o punhal com força.
Mais uma vez, ele optara por poupar a vida de um oponente destruindo seu cristal de teleporte. E mais uma vez, aquele ato lhe deixava um gosto amargo na boca.
'Por que a poupei?' pensou, cerrando os dentes enquanto um rasgo de ansiedade se formava no peito. 'Ela me pouparia também?'
A resposta era clara—não pouparia. Se as posições fossem invertidas, ela teria cortado ele sem hesitar. E, mesmo sabendo disso, ele mostrou misericórdia.
Será que foi uma tentativa consciente de ser diferente dos assassinos ao seu redor? Para provar a si mesmo que não era como eles? Ou foi simplesmente uma fraqueza ingênua que um dia poderia lhe custar a vida?
'Poupar aqueles que não poupariam a mim… isso não é misericórdia. É burrice,' pensou amargamente.
A lógica dizia que misericórdia não tinha espaço em uma prova como aquela, pois só tolos ingênuos e idealistas se apegavam a noções assim em um lugar feito para premiar a crueldade.
Por mais que ele quisesse acreditar que não era como os demais, algo profundo dentro dele resistia à ideia.
Sempre que poupava alguém, seu corpo reagia com uma sensação física de desconforto, como se a própria decisão fosse algo estranho, fora do comum.
'Será que sou realmente diferente dos outros? Ou sou apenas mais um assassino fingindo ser algo que não sou?'
A dúvida persistia, pesada e incômoda, enquanto Leo cerrava a mandíbula e tentava dispersar esses pensamentos.
'Não posso me dar ao luxo de duvidar de mim mesmo. Aqui não. Agora não.'
Por ora, a ameaça imediata tinha sido resolvida, e isso era o que importava.
"Volte para sua posição," ordenou Leo de forma seca, quebrando o silêncio tenso.
Felix piscou, seu transe quebrado. "C-Certo," gaguejou, recuando em direção à escada com passos instáveis.
Leo retornou ao seu lugar perto da borda da varanda, seus olhos aguçados vasculhando o horizonte escuro em busca de qualquer sinal de movimento.
Apesar dos gritos da mulher e da confusão da luta, Leo decidiu permanecer na varanda pelo resto desta última fase.
Ao invés de uma luta de verdade, os gritos da mulher pareciam uma tortura unilateral, que poderia servir de aviso para outros competidores de que a varanda não era um lugar seguro.
Era uma jogada arriscada, mas também era perigoso mover-se de novo, ainda mais tardiamente na prova, e Leo preferia não correr esse risco.
151 pares restantes.
O fim se aproximava, e a cada segundo, o contador se aproximava do encerramento.
Mas, até lá, Leo e Felix precisavam ficar atentos, pois a prova ainda não tinha acabado.