
Capítulo 50
Extra da Webnovel: Reencarnado com uma Habilidade de Cópia
Dreyden dormiu por duas horas.
Não porque estivesse cansado.
Pois seu corpo ainda era um corpo, e corpos cometem erros quando são obrigados a ficar acordados por muito tempo.
Quando abriu os olhos, o quarto ainda estava escuro. As luzes do Triângulo do lado de fora da janela davam um brilho doentio, estéril—ainda mais como se a academia não suportasse a ideia de uma noite de verdade.
Ele não se moveu imediatamente.
Ouviu.
Não por passos.
Por padrões.
O corredor do dormitório tinha um ritmo: um zumbido distante de drone de patrulha a cada noventa segundos, o clique sutil de uma fechadura aqui e ali, uma tosse de alguém fingindo que não estava acordado nesta hora.
Naquela noite, esse ritmo estava quase normal.
Quase.
Um meio-intervalo de atraso na passagem do drone.
Uma segunda passagem que não deveria existir.
Um silêncio que durou demais.
Ele exalou suavemente pelo nariz.
Eles ainda estavam observando.
Claro que estavam.
Sentou-se e alcançou seu tablet.
Depois parou.
E não o ligou.
Pois o último sinal não tinha vindo pelo tablet dele.
Viera pelo escudo dele.
Seu arquivo em mandarim.
A camada que ele tinha criado especificamente para separar seus pensamentos deste mundo.
Pare de usar mandarim. Você não é o único que consegue lê-lo.
Aquela frase fora escrita com a precisão de alguém que queria que ele soubesse duas coisas:
Primeiro — eles tinham acesso.
Segundo — queriam que ele soubesse que tinham acesso.
Esse era o ponto.
Não a mensagem.
A mensagem era apenas a faca que deixaram no balcão para que ele entendesse que tipo de casa agora habitava.
Dreyden levantou-se e moveu-se silenciosamente até a escrivaninha.
Abriu o arquivo.
Leu a linha novamente.
Não sentiu pânico.
Pânico era para pessoas que acreditavam que a porta estava trancada e, depois, descobri-la aberta.
Jamais acreditei que a porta estivesse realmente trancada.
Só não sabia quem mais tinha a chave.
Colocou os dedos no teclado.
E começou a escrever.
Não uma resposta.
Nem uma confissão.
Uma armadilha.
Criou um novo documento—simples, sem destaque, com título em inglês:
Notas de Estudo – Métodos de Circulação
Preencheu com conteúdo que parecia verdadeiro para qualquer um que não entendesse o que realmente importava:
Alguns padrões de respiração.
Alguns termos copiados de manuais do Triângulo.
Formatação incorreta de fórmulas.
Uma falsa descoberta sobre estabilização na conversão de mana.
Depois, embutiu uma única linha em mandarim no meio do documento, disfarçada entre pontuação e espaços:
你能读这个吗?
Você consegue ler isso?
Não é uma pergunta para ser respondida.
Um anzol com isca.
Se eles reagissem a ela, saberia que não estavam apenas lendo arquivos.
Estavam interpretando o significado.
E o significado exige atenção.
E atenção pode ser rastreada.
Ele salvou o documento e o fechou.
Depois abriu novamente seu arquivo real em mandarim.
Não escreveu uma segunda pergunta.
Escreveu uma frase única—simples, neutra:
Protocolo novo. Supor comprometimento.
Depois, fechou o laptop.
E passou para a segunda camada.
Aquela que não precisou na vida antiga porque ninguém nunca se importou o suficiente para observá-lo tão de perto.
Falsa movimentação física.
Pegou uma caneta na mesa e escreveu três frases curtas na aba interna de um caderno barato:
Alvos Prioritários
Rotas de Mérito
Rotação de Habilidades
Todas falsas.
Todas plausíveis.
Depois, colocou o caderno deliberadamente em cima da mesa, de modo que fosse visível pelo ângulo da janela.
Se alguém estivesse observando com óptica externa, pareceria um hábito descuidado.
Se alguém estivesse observando por acesso interno, pareceria um plano de verdade.
De qualquer forma, eles levariam.
Esse era o ponto.
Ele não tentava mais esconder.
Estava tentando controlar o que fosse descoberto.
No Triângulo, o segredo falhava.
Mas a narrativa poderia ser moldada.
Ele virou-se para o espelho e encarou seu reflexo.
Dreyden Stella olhava de volta.
Um rosto que pertencia a este mundo.
Olhos que já começavam a parecer que não eram totalmente seus.
Ele piscou uma vez.
Lentamente.
"Tudo bem," sussurrou.
"Se você quer ler a minha vida…"
Ele se inclinou um pouco para frente.
"… então você vai ler o que eu escolher escrever."
A manhã chegou do jeito que sempre chegava.
Cedo demais.
Barulhenta demais.
Cheia de pessoas fingindo que não estavam com medo.
Dreyden saiu do dormitório na hora normal.
Nem cedo demais.
Nem tarde demais.
Mantinha a mesma expressão treinada ao longo de semanas: neutralidade calma, aquela que desencorajava conversa.
O corredor se abriu.
Estudantes deram passagem.
Não com reverência.
Com cálculo.
O sistema começou a tratar a proximidade dele como um indicador de risco.
E isso lhe cabia bem.
Ele não queria aliados naquele momento.
Aliados são distrações.
Quando chegou à cantina, o ar estava mais espesso que o normal.
Não por tensão.
Por coreografia.
O Triângulo tinha uma forma de reorganizar o espaço social sem emitir ordens. As pessoas simplesmente aprendiam o novo padrão de segurança.
Dreyden pegou seu bandeja.
Sentou sozinho.
Do outro lado da cantina, Lucas estava com Arlo e outros dois.
Lucas não olhava direto para ele.
Mas seus olhos se deslocavam até a mesa de Dreyden toda hora.
Era discreto.
Mas Dreyden tinha vivido toda a vida lendo o sutil.
Ele entendia o que Lucas estava fazendo.
Lucas não ficava de olho em Dreyden.
Estava de olho na forma ao redor de Dreyden.
Quantas pessoas entravam naquele espaço.
Quantas evitavam.
Quantas “acidentalmente” cruzavam.
Pois a percepção de sorte de Lucas não mostrava só os resultados.
Ela ensinava medo.
Arlo falou alto, esforçando-se demais para parecer normal.
"Mano, por que a galera tá agindo estranha hoje? Tipo, o ar—sei lá—tá mais pesado."
Lucas respondeu em voz mais baixa. "Porque está."
Arlo fez careta. "Isso aí não explica—"
Lucas não completou a frase.
Pois seu olhar finalmente se fixou em alguma coisa.
Não em Dreyden.
Um integrante da equipe.
Uniforme limpo.
Sem insígnia.
De pé perto da estação de bebidas, fingindo conferir um tablet.
Observando a sala com a tédio de alguém que foi pago para ter paciência.
Os olhos de Lucas se estreitaram.
Ele reconheceria aquele olhar.
Não de um professor.
Nem de um funcionário.
De um observador.
Alguém com autorização.
Dreyden não olhou na direção dele.
Não precisava.
Já sabia.
O primeiro passo depois do café da manhã não era treinamento.
Era a biblioteca.
Não a Biblioteca Celestial.
A verdadeira.
A biblioteca física do Triângulo era uma fortaleza silenciosa de informações—estantes densas, salas de leitura privadas, funcionários que podiam silenciar uma sala com um olhar.
Dreyden passou por ela como se fosse parte do lugar.
Ele era.
Solicitou um manual restrito sob seus privilégios de classe.
A garçonete fez uma pausa por um instante antes de conceder.
Aquela pausa dizia duas coisas:
Primeiro — seus privilégios estavam sendo deliberadamente ampliados.
Segundo — queriam ver o que ele tocava.
Pegou o manual e se assentou em um canto.
Não leu.
Observou o ambiente pelo canto do olho.
Três estudantes entraram em cinco minutos após ele sentar.
Todos posicionados de modo a ter linha de visão até sua mesa.
Todos fingindo estudar.
Nenhum virou páginas como alguém que realmente lê.
Observadores.
Não profissionais.
Cerimônias.
Não eram o problema de verdade.
Eram fumaça.
Deixou que observassem.
Depois deu o seu passo.
Abriu o manual e começou a tomar notas—notas verdadeiras, mas sobre o assunto errado.
Escreveu sobre circulação básica.
Observações de nível iniciante.
Coisas nas quais ninguém da Classe A deveria perder tempo.
Fez parecer que ele estava regredindo.
Como se estivesse incerto.
Procurando fundamentos porque o conteúdo avançado era instável.
Estava alimentando o ecossistema.
Uma história.
Uma narrativa que o Triângulo poderia usar se quisesse justificar intervenções depois.
"Dreyden Stella está regredindo."
"Seu crescimento disparou e depois desestabilizou."
"Ele precisa de contenção."
Uma desculpa conveniente para controle.
Queria que eles criassem essa desculpa.
Pois, uma vez que a sustentassem, poderia prever o próximo passo deles.
As instituições adoram roteiros previsíveis.
Essa era a fraqueza delas.
Depois de vinte minutos, fechou o livro e saiu.
Os observadores mudaram de foco para segui-lo.
Ele não deu a eles atenção.
Conduziu-os.
Por três corredores.
Por uma escada.
Passando pela entrada de uma ala de treinamento.
De lá para um corredor de manutenção usado principalmente por funcionários.
Um corredor que tinha uma câmera na ponta e um ponto cego na esquina.
Entrou no ponto cego e parou.
Contou silenciosamente.
Um.
Dois.
Três.
Um segundo depois, alguém entrou no ponto cego atrás dele—passos leves, cuidadosos.
Um estudante.
Não um funcionário.
Um dos observadores da facção.
Dreyden não se virou.
Ele falou calmo, como comentando sobre o tempo.
"Você não é bom nisso."
O estudante congelou.
Dreyden virou devagar.
O rapaz era do Classe B, talvez. Magro. Nervoso. Tentando parecer durão.
"Eu—Eu não—"
"Você está me observando," disse Dreyden.
O garoto engoliu em seco.
Dreyden se aproximou, sem ameaçar. Apenas presente.
"Quer saber o que estou fazendo," continuou. "Para poder contar para alguém. Para transformar informação em mérito. Porque essa é toda a sua personalidade."
O rosto do garoto se fechou.
A voz de Dreyden manteve-se firme.
"Vai dizer isso tudo a eles."
O garoto piscou. "O quê?"
Dreyden se inclinou um pouco, numa voz baixa suficiente para que a câmera no final da sala não captasse as palavras.
"Diga que estou procurando uma forma de estabilizar a conversão de mana. Diga que tenho medo do meu ritmo de crescimento. Diga que estudo circulação iniciante para evitar um colapso."
O menino ficou parado, confuso.
"Por que eu—"
"Porque, se você disser qualquer outra coisa," disse Dreyden suavemente, "vou descobrir. E aí decidirei quanto isso vai te custar."
A garganta do garoto travou.
Dreyden manteve seu olhar fixo por dois segundos.
Depois deu um passo para trás.
"Pode ir," disse.
O garoto não argumentou.
Saiu rapidamente, passos ecoando enquanto fugia pelo corredor.
Dreyden observou-o partir.
Não porque estivesse interessado nele.
Pois aquilo não era sobre o rapaz.
Era sobre a cadeia.
Ele acaba de inserir uma história falsa na rede de boatos—usando uma boca humana.
Agora podia observar para qual direção ela se espalhava.
Quem a repetia.
Quem reagia a ela.
E, mais importante:
Quem reagia rápido demais.
Pois apenas alguém com acessos mais profundos reagiria a uma nova informação antes dela se espalhar naturalmente.
Voltando ao corredor principal, ele retomou o fluxo.
E deixou o Triângulo respirar.