Extra da Webnovel: Reencarnado com uma Habilidade de Cópia

Capítulo 29

Extra da Webnovel: Reencarnado com uma Habilidade de Cópia

Lucas sempre confiou em sua força.

Não de maneira cega, como fazem os arrogantes—ele não era tolo de acreditar que o poder o tornava invencível—mas na forma como uma pessoa confia nos próprios pulmões para respirar e nas próprias mãos para segurar.

Desde que acordou, força era a única coisa em sua vida que não mentia. Respondia quando ele a chamava, aumentava de intensidade quando exigia dela, e calava quando ele acalmava seus pensamentos. Mesmo quando seus treinos se tornavam brutais, mesmo quando perdia lutas ou era encurralado, sua força ainda seguia regras. Ainda fazia sentido.

Ultimamente, nada mais fazia.

O ginásio de treinamento estava vazio quando ele chegou. Isso não era estranho—Lucas preferia os horários em que o resto da academia dormia, quando o ar ficava mais frio, sem olhos que tentassem lê-lo nem sussurros que criassem histórias ao seu redor.

O Triângulo nunca dormia de verdade, mas ficava mais vazio. Drones de patrulha passavam em intervalos. Salas distantes tinham luzes acesas. Em algum lugar mais longe, soava o barulho do metal e alguém gritava correções para uma dupla de sparring. Aqui, porém, o silêncio mantinha a sala como uma tampa.

E, por algum motivo, nessa noite, o silêncio parecia errado.

Não que Lucas estivesse nervoso. Ele não ficava nervoso. Mas sua pele formigava como se o próprio ar esperasse um erro. Ele mexeu os ombros, soltou os pulsos e puxou a espada com um movimento suave e familiar.

A lâmina emitiu um zumbido suave ao sair da bainha—equilibrada, limpa, melhor do que ele mereceria se a academia fosse justa ao distribuir artefatos. Lucas assumiu sua postura, expirou pelo nariz e direcionou mana para seus canais exatamente como tinha feito mil vezes antes.

A mana acelerou.

Demasiado rápido.

Não foi uma subida suave. Não foi um fluxo controlado. Subiu pelo braço como uma coleira estourada—afiada, errática, quente de um jeito que não combinava com a própria temperatura dele. O aperto dele ficou mais firme por instinto.

Ele tentou redirecionar, ampliar o caminho, suavizar a turbulência antes que chegasse ao pulso e ao ombro. Já tinha corrigido problemas de fluxo antes. Ajustado a pressão na hora do combate. Sabia como fazer.

Uma dor atravessou seu pulso.

"Tch—!"

A espada escorregou de suas mãos e caiu com um estrondo metálico que ecoou pelas paredes do ginásio. Lucas cambaleou pra trás, segurando o braço enquanto a mana se dispersava de forma irregular pelo sistema dele.

O sentimento que deixou foi uma fisgada no estômago—a não a exaustão habitual, nem a fadiga conhecida após uso excessivo, mas algo oleoso e errado, como um resíduo que não deveria estar em um corpo humano.

Lucas cerrrou a mandíbula e forçou a respiração a se acalmar. Flexionou os dedos. A dor persistia, aguda na articulação, e o interior dos canais dele parecia… irritado. Como se tivesse sido raspado.

Isso não era fadiga. Ele sabia o que era fadiga. Nem era uma sobrecarga simples. Sobrecarregas queimavam. Faziam tremer, deixavam o centro do corpo vazio. Mas isso era diferente.

Era instabilidade.

"…De novo," Lucas murmurou, mais irritado do que assustado. A raiva era mais fácil. Raiva não fazia questionar a si mesmo.

Um riso baixo respondeu.

Ele não ecoou no salão. Ecoou em sua cabeça.

Você está forçando.

Lucas parou. A voz não era alta, mas tinha um peso que fazia o espaço parecer menor. Antiga. Paciente. Divertida a um jeito que não tentava esconder sua superioridade.

"Zagan," disse Lucas baixinho, olhando para a espada no chão. "O que você fez."

Não fiz nada, respondeu o demônio com preguiça. Você fez.

Os dentes de Lucas rangiam. "Minha mana nunca se comportou assim antes."

Porque, antes, Zagan afirmou, você estava emprestando.

As palavras atingiram mais fundo do que a dor. O peito de Lucas se apertou, não de pânico, mas por uma realização inesperada de que ele não tinha total compreensão do que estava fazendo.

"Emprestando? Do que você está falando?"

Uma pausa, como se o demônio gostasse de deixar a dúvida crescer.

Significa que você não estava produzindo uma mana verdadeira. Você só canalizava o que eu permitia. Um fluxo controlado. Uma torneira, não uma nascente.

Os dedos de Lucas cerraram em um punho. "Então o que mudou?"

Você mudou, respondeu Zagan. Seu corpo se adaptou. Seus canais se alargaram. Seu núcleo aprendeu padrões que não deveria ter aprendido. Você não está mais só canalizando. Está tentando gerar.

O coração de Lucas pulou, mesmo sem querer.

"Isso… é bom, não é? Significa que estou evoluindo."

Silêncio.

Depois, a voz do demônio voltou, mais fria do que antes.

Não.

Lucas engoliu em seco. "Por quê?"

Porque humanos não foram feitos para gerar mana, disse Zagan com simplicidade. Você pode hospedá-la. Pode carregá-la.

Você pode emprestá-la em pequenas quantidades mediante um contrato. Mas quando seu sistema começa a imitar… ela se torna instável. Torce seus canais. Muda seus instintos. E, se você insistir demais, ela vai queimar você por dentro.

Lucas olhou para a mão trêmula. O ginásio parecia de repente luz demais, aberto demais. Ele forçou os ombros a abaixar, tentou controlar a respiração. "Por que agora?"

Porque você chegou perto de um limiar, respondeu Zagan. E porque você está perto de pessoas com quem não deveria estar.

Antes que pudesse evitar, uma imagem surgiu em sua mente: Dreyden Stella—Jack—de pé na arena, demasiado calmo, sorrindo como quem observa uma máquina funcionando. O jeito como se move sem exageros. Como nunca parece surpreso. Como observa Lucas como se ele fosse um problema futuro, não uma pessoa.

"...Você quer dizer ele," disse Lucas.

Zagan não se incomodou em negar.

Doesn't fear him, the demon said. Which is worse.

Lucas franziu a testa. "Isso não faz sentido."

Vai fazer.

Lucas abriu a boca para argumentar, mas os passos no corredorEcoaram lentamente na entrada do salão—calmos, constantes, sem pressa. Lucas virou rapidamente.

Jack estava na porta, com as mãos nos bolsos e expressão neutra, como uma lâmina que não revela emoções. Nada amigável. Nada hostil.

Apenas presente. Seus olhos varreram o salão num único olhar: a espada no chão, a leve distorção do mana residual no ar, a postura de Lucas, o pequeno tremor no pulso dele.

"Seu posicionamento estava errado," disse Jack calmamente, como quem comenta um pequeno erro de treino. "Você está compensando demais com mana."

A coluna de Lucas ficou tensa. "Quanto tempo você esteve me observando?"

"Tempo suficiente."

Jack entrou no salão. Seus passos eram silenciosos, mas não furtivos—ele não se movia como quem tenta esconder algo. Movia-se como alguém que não se importa em ser notado. Isso era quase pior. "Isso não foi normal," acrescentou, apontando para o resíduo no ar.

"Você teve fluxo irregular por dias."

Os olhos de Lucas se estreitaram. "Me espionou."

Jack deu de ombros. "Eu sigo padrões. Os seus mudaram."

A garganta de Lucas apertou. O demonio na cabeça ficou quieto—muito quieto. Lucas odiava aquela calmaria mais até do que a voz de Zagan.

"Tem acontecido com mais frequência," admitiu Lucas, porque negar seria inútil.

Jack assentiu uma vez, como se já tivesse esperado a resposta. "Entendi."

Lucas olhou para cima, repentinamente atento. "Você entendeu?"

"Você faz pausas entre as transições," disse Jack, com tom clínico e calmo. "Não no tempo de reação. No tempo de decisão. Você hesita, depois força a passagem para compensar. Como se estivesse negociando com algo antes de agir."

Um frio percorreu as costas de Lucas. Essa descrição era demais—precisa demais. Invasiva demais.

"…Você percebe demais," disse Lucas.

"Hábito," respondeu Jack.

Ficaram em silêncio por um momento, um silêncio que não era vazio, mas medido. Lucas sentiu vontade de dizer algo afiado, algo defensivo, algo que criasse distância novamente.

Mas a verdade já estava clara: Jack tinha visto Lucas falhar, e não ficou impressionado. Não... ficou surpresa.

"Você acha que estou instável," disse Lucas.

Jack ponderou as palavras. "Acredito que você está mudando mais rápido do que seu sistema consegue suportar."

"Pareces um instrutor," zombou Lucas, embora sua voz saísse áspera demais.

"Instrutores reportam problemas," disse Jack. "Eles adiam a ação até o problema virar lição. Controle nenhum adia."

A força de Lucas apertou o pulso machucado. "E você, agora, é a Supervisão?"

Os olhos de Jack ficaram duros—não ameaçadores, mas honestos. "Não. Sou aquele que te avisa o que acontece se notarem primeiro."

Lucas ficou encarando-o. "Fala."

Jack não hesitou. "Se sua instabilidade de mana ficar visível no momento errado, alguém na autoridade decidirá que você é uma ameaça ou um recurso. Eles vão te consertar ou te abrir para ver como funciona. E o 'conserto' deles não vai se importar se você sobreviver a isso."

O peito de Lucas apertou. Odiava que as palavras de Jack não soassem dramáticas, mas práticas. Como uma previsão do tempo.

A voz de Zagan voltou à mente de Lucas, divertida.

Ele não está errado.

Lucas fechou os olhos por meio segundo, controlando sua ira. "Então o que? Você veio me avisar por bondade?"

A expressão de Jack permaneceu igual. "Bondade tem seu preço."

Os olhos de Lucas ficaram mais afiados. "Então por quê?"

Jack olhou para a espada no chão, depois de volta para Lucas. "Porque, se você colapsar na hora errada, vira problema de todo mundo. Inclusive meu."

A honestidade do rosto dele doeu mais do que qualquer insulto. Lucas não sabia se devia sentir-se ofendido ou aliviado. Pelo menos, Jack não fingia.

Ele se abaixou, pegou a espada de Lucas pela empunhadura sem pedir, e segurou na mão estendida. Lucas hesitou—então aceitou. No momento em que seus dedos quase se tocarm, Lucas sentiu uma sensação estranha, como se a presença de Jack estivesse mais fria do que o ambiente ao redor.

"Não force mana quando seu fluxo disparar," disse Jack. "Se sentir turbulência, pare. Reinicie. Deixe estabilizar. E pare de mostrar esse estilo de espada em público."

Lucas se tensou de novo. "Você ainda nisso?"

"Sim," respondeu Jack. "Porque você não é o único que percebe."

"Quem mais?"

Jack não respondeu diretamente. "Bastantes pessoas, para que o risco não seja teórico."

Lucas engoliu em seco. "E se eu não conseguir parar?"

A visão de Jack o fitou com firmeza. "Então aprenda a esconder melhor, até conseguir."

Essa foi a coisa mais perigosa que Jack falou. Não foi o aviso, nem a ameaça da Supervisão. Foi a sugestão de que o segredo era normal. Que esconder-se era aceitável. Que a sobrevivência importava mais que regras.

Jack virou as costas para sair.

"Espera," disse Lucas de repente, surpreendendo a si mesmo. Jack parou, mas ainda não virou. O orgulho de Lucas lutou contra sua necessidade—e, por uma vez, a necessidade venceu. "Se piorar… você vai contar pra alguém?"

Jack demorou o suficiente para Lucas quase pensar que não iria responder. Então, sem emoção, disse: "A menos que se torne problema meu."

Lucas não sabia se isso era um alívio ou uma navalha na garganta. Antes que pudesse decidir, Jack saiu, e a porta deslizou silenciosamente com um som mecânico suave.

Lucas ficou sozinho, com a espada na mão, sentindo o vazio do salão engolindo-o novamente. Seu pulso ainda doía. O resíduo no ar continuava estranho. Zagan riu suavemente, satisfeito.

Você viu? sussurrou o demônio. Até seus aliados te avaliam pela utilidade.

Lucas apertou a espada até as juntas ficarem brancas. " Cala a boca."

Zagan soltou uma risada fina, que virou diversão.

Você quis poder. Poder vem com correntes. A diferença é se você consegue enxergar essas correntes.

Lucas olhou para o reflexo da lâmina.

Ela tremulava suavemente no metal, seu rosto distorcido pela curva. Pela primeira vez desde que entrou no Triângulo, ele sentiu algo que raramente permite-se sentir: medo. Não medo de perder uma luta, não medo de morrer—ele já tinha aceitado que a morte era possível no dia em que entrou nesta academia.

Medo de virar algo que ele não controla.

Se a mana mudasse ele, se reescrevesse seus instintos, se o tornasse… menos humano, então o que sobraria dele? O que aconteceria se Zagan decidisse que Lucas já não era mais útil? O que aconteceria se Jack decidisse que Lucas agora era uma ameaça?

Lucas respirou lentamente, abaixou a espada e relaxou os ombros. Forçou-se a soltar a postura, a parar de insistir, deixando a turbulência se acalmar. O resíduo oleoso desapareceu um pouco, embora ainda deixasse um gosto estranho em seus canais.

Ele odiou que o conselho tivesse funcionado.

Em algum outro lugar da academia, Jack caminhava pelo corredor com passos firmes, do jeito que ia a todos os lugares—como se não pertencesse ao fluxo da vida estudantil, mas a algo abaixo disso. Sua mente já se reorganizava. A instabilidade de Lucas ainda não era desastre. Era um aviso. Uma rachadura.

Rachaduras podem ser exploradas.

Ou podem te engolir se você as ignorar.

Jack não gostava de imprevisibilidade. Não gostava de variáveis emocionais. Lucas era ambos—especialmente com um demônio sussurrando em sua mente. Jack quase podia sentir a tensão invisível ao redor do protagonista ultimamente, como se o ar estivesse levemente curvado por onde ele passava. Mana não era só poder; era uma assinatura. Deixava rastros. Rastrejos atraíam atenção.

E atenção atraía instituições.

Eventualmente, a Supervisão notaria Lucas. Isso era inevitável. A única questão era quando, e sob quais condições. Jack não precisava que Lucas fosse estável para sempre—só que fosse pelo tempo suficiente. Tempo suficiente para que sua própria posição se solidificasse.

Tempo suficiente para que os fios do submundo que ele começou a puxar se tornassem balas de verdade. Tempo suficiente para que os movimentos das sombras de Maya se tornassem um ativo ou se revelassem uma ameaça.

O ritmo de Jack nunca mudou, mas seus pensamentos se tornaram mais frios.

Lucas não estava quebrado.

Nem ainda.

Mas já não era mais confiável.

Isso o tornava uma arma futura a ser direcionada…

Ou uma ameaça futura a ser descartada.

Jack chegou à esquina, passou sob uma luz fraca do corredor, e por um momento seu reflexo apareceu no painel de vidro ao lado—o rosto de Dreyden Stella encarando de volta, calmo e composto, olhos vazios de pânico.

Ele não parou.

Ele não hesitou.

Ferramentas não hesitam.

E ele também não mais.

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