
Capítulo 23
Extra da Webnovel: Reencarnado com uma Habilidade de Cópia
A campainha tocou.
Pontualmente. Metálica. Absoluta.
Cadeiras arranharam o piso de pedra. Escrivaninhas trepidaram. Vozes se elevaram em ondas frouxas, sobrepostas, enquanto a Classe A1 retomava a atividade.
Não por distração.
Pois estava recalibrando.
Tudo tinha mudado.
E nada tinha.
O Triângulo ainda era o Triângulo.
A academia ainda tinha o mesmo cheiro—pedra polida por séculos de ambição, metal quente do uso constante, traços tênues de ozônio e suor no ar, como uma segunda pele.
As pessoas ainda sorriam com facilidade demais.
Ainda observavam com atenção excessiva.
Ainda mediam cada interação como se pudesse virar uma briga, um favor ou uma vantagem futura.
A única diferença…
Era eu.
Levantei-me, joguei minha mochila às costas e entrei no fluxo de saída da Classe A1.
Ninguém me abordou.
Sem cumprimentos casuais. Sem camaradagem forçada. Sem tentativas desconfortáveis de reestabelecer a normalidade.
Isso sozinha já dizia o bastante.
O corredor se ajustou ao meu caminhar.
Não drasticamente.
Não com medo.
Apenas… sutilmente.
Estudantes desviaram o passo meio passo para longe. Conversas reduziram o ritmo, o suficiente para perceber a atenção. Olhares me acompanhavam reflexivamente—e se desligavam na hora que eu notava.
Não tinham medo.
Ainda não.
Eram inseguros.
E a incerteza era terreno fértil.
Ótimo.
Atenção agora era inevitável.
Controle, não.
Nem pensei em acelerar ou diminuir o passo. Sem mostrar confiança. Sem fingir contenção.
Durante um tempo, poder que se revela é poder pedindo para ser testado.
Não tinha interesse em pedir algo.
O setor de treinamento já estava ativo quando cheguei.
Barramentos arcanos vibravam nas zonas de prática. Faíscas de mana reluziam e desapareciam. Lâminas soavam contra molduras reforçadas. Instrutores grunhiam correções na barulheira, tentando impor ordem ao caos que fora institucionalizado há muito tempo.
O Triângulo gostava de fingir que aqui reignava disciplina.
Não era verdade.
Somente resultados importavam.
Crusoestiou entrar em um círculo de prática vazio próximo à borda do salão e comecei a aquecer.
Sem habilidades.
Sem melhorias.
Apenas movimento.
Alonguei os ombros. Verifiquei meus passos. Deixei a respiração se estabilizar em algo suave e natural. Músculos relaxaram sob padrões familiares.
Fiquei atento para não chamar atenção.
Mesmo assim, falhei.
Sussurros atravessaram o espaço, baixos, mas persistentes.
"Dizem que ele copia habilidades."
"Não. É pior que isso."
"Ele venceu Julien sem suar."
"Ouvi dizer que ele tem proteção."
Proteção.
Essa palavra tocou meus pensamentos—e escorregou fora.
Quase ri.
Se ao menos eles soubessem.
"Dreyden."
A voz do Lucas cortou bem no ruído de fundo.
Não me virei imediatamente.
Terminei o estiramento.
Depois encarei-o.
Ele estava a alguns passos, braços cruzados, postura neutra. Calmo, controlado.
Porém, os olhos trabalhavam.
Estudando ângulos. Medindo distância. Comparando essa versão de mim com a que achava que conhecia.
"Você sumiu," ele disse.
"Você também," respondi.
Um leve franzir de testa passou pelo rosto dele antes de suavizá-lo.
Ficamos em silêncio.
Não aquele confortável.
Aquele que pesa sobre o espaço e a intenção, ajustando expectativas em tempo real.
"Vai treinar hoje?" ele perguntou.
"Sim."
"Comigo?"
"Não."
A recusa veio limpa. Sem hostilidade. Sem explicação.
Lucas analisou-me por mais um instante, depois assentiu uma vez.
"Até mais, então."
Ele virou as costas sem insistir.
Inteligente.
Insistir agora revelaria demais sobre ele.
Ou seja, me deixou seguir, sem mostrar interesse.
Fui até um terminal de combate próximo e inseri minhas credenciais.
Adversário: Rank 41 – Partida voluntária
Um número seguro.
Alto o suficiente para importar.
Baixo o suficiente para evitar chamar atenção indesejada dos que observam padrões, não vitórias.
O sistema anunciou com sons.
Do outro lado do círculo, meu oponente entrou—alto, magro, com afinidade de relâmpago. Sua postura era confiante, mas sem exageros.
Alguém competente.
Sem arrogância.
Ótimo.
A barreira brilhou e se posicionou.
"Comece."
Ele atacou primeiro.
Rápido. Preciso. Um impulso de eletricidade disparou na direção do meu peito, com ritmo treinado.
Desviei com o mínimo de movimento, sentindo a energia raspar minha manga. Estática percorreu minha pele, inofensiva.
Sem copiar.
Sem fogo.
Antes que ele pudesse reagir, aproximei-me.
Baixei a cabeça.
Avancei.
Varri.
Meu pé pegou seu tornozelo. Ele reagiu rapidamente—melhor que a média—mas o impulso o traiu por pouco tempo.
Já estava dentro de sua defesa.
Um soco nas costelas.
Controlado.
Força suficiente para afetar a respiração, mas sem quebrar ossos.
Ele recuou cambaleando.
Sisquei-me para trás.
A mensagem estava clara.
Ele hesitou.
Essa hesitação terminou a luta.
Três segundos depois, ele caiu no chão, a barreira piscando em vermelho enquanto o sistema anunciava o resultado.
Vencedor: Dreyden Stella.
Sem aplausos.
Sem suspiros de surpresa.
Apenas silêncio de reconhecimento enquanto os espectadores processavam o que tinham visto—e, mais importante, o que não tinham.
Exatamente como queria.
Alguns instrutores tinham parado de disfarçar que assistiam.
Nenhum deles interferiu. Nenhum me felicitou. Nenhum escreveu nada onde pudesse ser visto.
Aquela contenção dizia mais do que qualquer análise aberta.
O Triângulo não recompensa espetáculo. Ele colhe padrões.
Um estudante vencendo com folga não significava nada. Um estudante vencendo de forma consistente, sem expor como fazia, era tudo.
Observei onde as pessoas estavam. Quem falava baixo com quem. Quem evitava contato visual completamente.
Informações vazavam pelo comportamento.
E naquela noite, a academia confirmou algo importante:
Já não me estavam testando.
Estavam me avaliando.
Pontos de mérito atualizados.
Ranking ajustado.
Saí do círculo de prática sem esperar meu oponente se levantar.
Eficiência importava mais que domínio.
Ao sair do setor de treinamento, uma sensação invadiu-me.
Não olhos.
Intenção.
Alguém não assistia para entender quem eu era.
Estava observando para categorizar.
Não um estudante.
Nem um rival.
Um avaliador.
Ótimo.
Que assistam.
Eu não lhes daria nada fácil para rotular.
Mais tarde, sozinho no meu quarto, sentei na beirada da cama e fechei os olhos.
Não pensei na Maya.
Não revivi sua expressão. Não toquei na dor que permanecia sob a contenção.
Não pensei no futuro.
Sem catástrofes. Sem contingências. Sem finais.
Pensei em máscaras.
Dreyden Stella—gênio, anomalia, estrela em ascensão.
Jack—observador, manipulador, sobrevivente.
Era uma vez, eram coisas separadas.
Agora?
Ambos eram ferramentas.
E ferramentas não hesitam.
Respirei fundo, rolei os ombros, sentindo a tensão residual nas juntas.
Medo teria sido mais fácil.
Na dúvida, mais alto.
Mas o que preencheu meu peito agora era algo mais frio—e muito mais perigoso.
Aceitação.
Reconheci que hesitar me mataria.
Reconheci que contenção é uma arma, não uma virtude.
Reconheci que a versão de mim que se preocupava até onde iria "muito longe" já tinha ficado para trás.
O Triângulo não quebra pessoas com crueldade.
Faz isso ao premiar a eficiência até que a moralidade se torne inconveniente.
Não sou imune a esse processo.
Estou me adaptando mais rápido que a maioria.
E essa consciência me perturbava menos do que deveria.
Abri os olhos.
Amanhã, escalaria novamente.
Não de forma barulhenta.
Nem irresponsável.
Mas intencional.
Porque no Triângulo, as pessoas mais perigosas não eram as mais fortes.
Eram aquelas que aprendem a desaparecer bem na frente de todos.
E eu usei essa máscara toda a minha vida.