O Extra é um Gênio!?

Capítulo 436

O Extra é um Gênio!?

O sino marcando o final das aulas da manhã ecoou suavemente pelos corredores da academia enquanto Noel seguia em direção ao escritório do diretor. Seus passos eram lentos, firmes — não hesitantes, apenas resignados. Noir caminhava ao seu lado pela primeira vez, ao invés de na sombra dele, a cauda agitava-se inquieta.

"Você parece estar indo para a execução," ela murmurou.

"Eu estou indo para o Daemar," Noel sussurrou de volta. "Mesma coisa."

Ao chegarem ao escritório, a porta de madeira polida estava entreaberta. Noel bateu uma vez.

"Entre," respondeu a voz tranquila de Daemar.

Noel empurrou a porta. Daemar estava sentado atrás da mesa, pilhas de papéis de um lado, uma xícara de chá fumegante do outro. O diretor de olhos violetas levantou o olhar assim que viu a expressão de Noel.

"Essa não é sua cara habitual," disse Daemar, deixando a pena de lado. "Então. Aconteceu alguma coisa."

Noel entrou, fechando a porta atrás de si. Noir pulou na cadeira, sentando-se ereta como se fosse parte da reunião.

"Diretor," começou Noel, "preciso solicitar… uma licença."

Daemar piscou uma vez. Depois, mais devagar.

"Uma licença," repetiu, recostando-se na cadeira. "Da academia. Durante o mês de abertura do semestre."

"É, mais ou menos um mês," respondeu Noel.

Daemar não disse nada inicialmente. Apenas estudou Noel — a tensão nos ombros dele, a seriedade no tom, a urgência sutil que tentava esconder.

Finalmente, o diretor cruzou as mãos.

"Sente-se," disse. "E explique."

Noel se acomodou.

A voz de Noir sussurrou na parte de trás da sua mente: 'Vamos lá…'

Noel respirou fundo.

"É sobre a Capital Santa," disse. "E sobre Charlotte."

Os olhos de Daemar se aguçaram instantaneamente.

"...Estou ouvindo."

Noel se endireitou enquanto o olhar de Daemar se fixava nele — afiado, paciente e impossível de evitar. O tipo de olhar que dizia: nem pense em mentir para mim.

Ele esfregou as mãos uma na outra antes de falar.

"Charlotte recebeu uma convocação," disse. "Do próprio Orthran."

A expressão de Daemar não mudou, mas algo se tightenou no ar — a mudança sombria de um homem que compreendia a gravidade da situação num instante.

"O Papa," murmurou Daemar. "E o que ele quer da Santa?"

Noel respirou lentamente.

"Porque Charlotte lhe enviou uma carta."

As sobrancelhas de Daemar se abaixaram levemente. "Uma carta?"

"Sim," continuou Noel. "Depois de toda a confusão na território de Thorne — os ataques, as revelações, tudo o que ela testemunhou — ela reportou tudo diretamente ao Orthran. E… ele não é do tipo que ignora algo assim."

Daemar recostou-se na cadeira, expressão indecifrável, mas com uma tensão perceptível.

"Entendo." Ele fez uma pausa. "E eu não sabia que ela tinha escrito a ele."

"Não é sua culpa," disse Noel. "Ela só nos contou recentemente. E… tem mais uma coisa."

Daemar levantou um pouco o queixo, esperando.

"Charlotte não é só a Santa," disse Noel em voz baixa. "Orthran é o avô adotivo dela. Ele praticamente a criou na Capital Santa antes dela vir para a academia."

Um lampejo de compreensão cruzou o rosto de Daemar — surpresa misturada com uma camada nova de seriedade.

"Isso," murmurou, "são informações com… implicações muito importantes."

"Sim." Noel assentiu. "Depois do que aconteceu na propriedade de Thorne, faz sentido ele querer que ela volte pessoalmente. Para ouvir tudo diretamente dela. E para garantir que ela esteja segura e sem ferimentos."

"E você," disse Daemar, com os olhos assentindo lentamente e em tom sério, "quer uma licença de um mês porque pretende acompanhá-la."

Não negou. "Sim. Ela não deve ir sozinha. E depois de tudo que aconteceu? Orthran vai querer questionar quem estiver envolvido."

Daemar refletiu disso — lentamente, com consideração.

"E esse é o objetivo deste pedido?"

"…Parcialmente," admitiu Noel.

O olhar de Daemar se intensificou. "A outra parte?"

Noel respirou fundo lentamente, escolhendo bem as palavras — não mentir, mas sem revelar aquilo que nunca poderia explicar.

"É a Charlotte," disse em voz baixa. "Você sabe o quão importante ela é… como Santa. Especialmente agora."

A expressão de Daemar mudou — não surpresa, mas atenção plena.

"Continue."

"Mesmo que este mês tenha sido tranquilo," prosseguiu Noel, "sabemos que a paz nunca dura muito. E depois do que aconteceu na propriedade de Thorne…" Ele balançou a cabeça. "Não dá para prever o que pode vir a seguir. Se Orthran quer vê-la pessoalmente, ela não pode ir sozinha."

Daemar cruzou as mãos à frente, analisando cada palavra.

"Então, você acredita que é necessário acompanhá-la."

"Sim," confirmou Noel,sem hesitar. "Para protegê-la — e para garantir que nada a pegue de surpresa. Ela é mais importante do que muitos percebem."

Daemar permaneceu em silêncio vários segundos, com seus olhos violetas fixos em Noel, carregados do peso de alguém que mede futuros, não palavras.

Por fim, ele respirou lentamente.

"Entendo," murmurou. "Considerando a posição de Charlotte… e os perigos recentes… seu raciocínio é válido."

Outra pausa.

"E você pretende estar ao lado dela caso alguma coisa aconteça."

"Exatamente," respondeu Noel.

Daemar assentiu uma vez — decidido, controlado.

"Então, seu pedido faz sentido," disse. "E aprovarei sua licença."

Ele recostou na cadeira, pensativo.

"Charlotte não pode enfrentar perigos incertos sozinha," acrescentou em voz baixa. "E se você acredita que sua presença é necessária… confio no seu julgamento."

Noel inclinou levemente a cabeça. "Obrigado, Diretor."

Daemar ajustou as mangas do casaco, com os olhos se estreitando um pouco em reflexão.

"Então, diga-me," disse. "Quando pretende partir?"

"Em uns dois dias," respondeu Noel. "Assim que tudo estiver pronto. Como a Capital Santa fica em outro continente, precisaremos embarcar num navio. Isso levará alguns dias."

Ele coçou levemente a bochecha. "E Charlotte quer preparar exatamente o que vai dizer. Não quer errar."

Daemar concordou. "Compreensível. O Papa não costuma ouvir qualquer um sem motivo…"

Noel quase resmungou internamente: 'Bem… isso não é totalmente verdade. Ele definitivamente tem uma queda pela Charlotte.'

Afinal, Orthran mesmo adiou por um ano completo os deveres de Santa dela, deixando-a viver livre até completar dezoito anos.

E agora, faltavam apenas quatro meses.

As palavras seguintes de Daemar cortaram direto nos pensamentos de Noel.

"Nicolas me contou que Charlotte recebeu uma única chance aqui, por um ano," disse calmamente. "Ou seja, ela tem apenas quatro meses restantes antes de voltar à Capital Santa… e retomar seu papel como Santa."

Os ombros de Noel caíram ligeiramente. "Sim," admitiu. "É assim mesmo."

Daemar o observou por um momento — tempo suficiente para entender a carga na expressão dele.

Porém, não insistiu. Simplesmente assentiu uma vez.

"Então, é melhor você se preparar," continuou Daemar. "Se o próprio Papa a chamou, faz sentido que você a acompanhe. Especialmente após o que ocorreu na propriedade de Thorne."

Noel fez uma reverência. "Obrigado, Diretor."

Daemar acenou com a mão. "Hm. Mas antes de partir—evite negligenciar seus estudos. Prefiro não repetir o que aconteceu na última vez."

Olhou de lado para Noel com expressão apontada.

"Ainda acho que você recebeu tratamento demais."

Noel deu uma risada genuína — lembrando-se do truque de cola que Daemar tinha lhe dado na prova escrita. "Obrigado, Professor Daemar. Sério." Seu sorriso suavizou. "Você sempre foi meu professor favorito."

Daemar estalou a língua e desviou o olhar, mas o brilho sutil em seus olhos violetas denunciu a diversão.

"Vai lá então," murmurou. "Antes que alguém comece a pensar que só me importo contigo."

Noel inclinou levemente a cabeça, com um pequeno sorriso enquanto se dirigia à porta.

"Sim, senhor."

Daemar o acompanhou com o olhar até a saída.

Noel retornou ao dormitório da Classe S com passo firme, o peso da conversa com Daemar ainda carregado no peito.

O corredor estava silencioso — incomumamente — com o sol filtrando pelas janelas altas em suaves listras.

Ao abrir a porta do seu quarto, quatro pares de olhos se voltaram imediatamente para ele.

Charlotte estava na beira da cama, as mãos cruzadas no colo.

Elyra encostada na parede, com os braços cruzados; Selenne sentada com postura perfeita na cadeira de Noel, e Elena à janela, observando calmamente, mas com atenção.

"Você voltou," disse Charlotte, levantando-se imediatamente.

"Sim," respondeu Noel, fechando a porta atrás de si. "Daemar aprovou."

Selenne inclinou a cabeça. "Foi rápido."

"Ele não tinha muita escolha," disse Noel, esfregando a nuca. "A situação da Charlotte… não dá para ignorar."

Os dedos de Charlotte puxaram nervosamente a bainha da manga. "Então, ele entendeu?"

Noel se aproximou, baixando um pouco a voz.

"Ele sabe que você foi convocada. E que só lhe restam quatro meses até ter que voltar à Capital Santa."

O olher dela se apertou, mas ela não desviou o olhar.

"E ele disse que faz sentido eu te acompanhar."

Elyra deu um murmúrio de reprovação. "Bom, óbvio."

Elena concordou com um aceno. "O Papa não a convocaria por coisa pouca."

Selenne fixou o olhar. "Será que sabemos exatamente o que ele quer?"

Charlotte hesitou, então segurou novamente a carta dobrada.

"Não… mas ele quer ouvir o que aconteceu na propriedade de Thorne direto de mim. Meu avô sempre preferia a verdade cara a cara, ao invés de palavras no papel."

Elyra sorriu discretamente. "Um homem de teatro. Justo."

Noel cruzou os braços levemente. "Vamos partir em dois dias. Viajar de navio significa que a viagem propriamente dita levará um tempo."

Charlotte engoliu em seco. "Dois dias… Isso é logo."

"Sei," murmurou Noel, ao lado dela. "Mas é melhor assim. Se der errado, reagir tarde pode ser pior."

Elena saiu da janela, expressão séria.

"Então, hoje à noite vamos ajudar a Charlotte a organizar o relato do que aconteceu. Detalhes fazem diferença."

Selenne acrescentou: "E vamos ajudar a reunir tudo que vocês precisarem."

Charlotte olhou ao redor — para todos eles.

Para a certeza. Para a lealdade.

Com voz suave, emocionada apesar de tentar manter a calma, ela agradeceu: "Obrigada… a todos."

Um breve silêncio — caloroso, sólido, reconfortante.

Noel olhou para as três garotas, com sobrancelhas ligeiramente levantadas. "E… vocês não querem vir também?"

Elyra deu uma risada. "Por favor. Se fosse perigoso, talvez. Mas isso parece uma formalidade política, não um campo de batalha."

Selenne assentiu. "Além disso, o conselho estudantil está afogado de trabalho. Serafina não consegue lidar com tudo sozinha."

Elena cruzou as mãos de forma educada, mas seu sorriso tinha uma leve fadiga. "Sim. A academia está… mais exigente este ano. Muito mais do que antes."

Noel piscou. "Certamente…" Ele expirou lentamente, apertando a ponte do nariz. "Sim, percebi. Estou vivendo esse pesadelo graças a vocês três."

Elyra riu de leve. "De nada."

Selenne completou com secura: "Considere isso desenvolvimento de personagem."

Elena sorriu suavemente. "Acreditamos no seu potencial, Noel."

Noel suspirou. "Isso parece coisa que o Daemar diria."

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