
Capítulo 438
O Extra é um Gênio!?
Após vários dias de viagem, finalmente surgiram as altas paredes brancas da Capital Sagrada — erguidas como uma fortaleza silenciosa acima das densas florestas do leste de Elarith. Quanto mais o carrinho se aproximava, mais pesado parecia o ar. Não sufocante — mas carregado, como se a mana estivesse em posição de alerta.
Noel inclinou-se um pouco para fora da janela, estreitando os olhos. Fios finos de luz cintilante envolviam as paredes externas em movimentos lentos e circulares, transformando-se como uma teia viva.
— Huh — murmurou. — Isso é novidade.
Charlotte olhou para cima, de seu assento. — O que foi?
— Magia de barreira — explicou Noel. — Poderosa. E tecida em camadas. — Ele tocou a língua suavemente no céu da boca. — Da última vez que vim aqui, nada disso estava ativo.
As sobrancelhas de Charlotte se levantaram. — Orthran deve ter reforçado as defesas recentemente.
— Sim — murmurou Noel. — Ou alguém deixou ele nervoso.
O carrinho desacelerou ao chegar ao portão imenso. Clérigos-guarda de armadura formaram uma dupla fila, cada um portando uma staff gravada com escritura rúnica. Seus rostos eram severos, treinados, inabaláveis — e cada um focou diretamente em Noel no instante em que ele saiu.
O guarda mais próximo deu um passo à frente, a testa franzida.
— Declare sua identidade e filiação.
Noel piscou. — Sério? Nós acabamos de—
Mas antes que pudesse terminar, uma voz suave veio de trás dele.
— Bom dia.
Charlotte saiu do carrinho, com seus cabelos cor-de-rosa capturando a luz da manhã, os olhos dourados brilhando mesmo na sombra do portão. A mudança na postura dos guardas foi instantânea — costas retas, olhos arregalados, sussurros rompendo a disciplina rígida.
Um deles quase deixou a staff cair.
— Santa Charlotte…!
Ele se curvou tão rapidamente que Noel pensou que pudesse se partir ao meio.
— Perdoe-nos! Não percebíamos— Por favor, entre. Entre imediatamente!
A tensão evaporou em segundos. Noel expirou pelo nariz, aliviado.
— Certo. Claro.
O papa do portão — um homem idoso com barba prateada bem aparada e vestes com um leve brilho de mana — avançou.
— Santa Charlotte, — falou cordialmente, — sua presença honra a Capital. Seu avô não está na catedral principal neste momento — ele está visitando a igreja em Lestaria para falar com as crianças — mas você é bem-vinda para descansar aqui dentro.
Charlotte assentiu com educação. — Obrigada.
Enquanto passavam pela fila de guardas, Noel inclinou-se um pouco na direção dela e sussurrou:
— Estou começando a parecer seu adereço.
Charlotte sorriu um pouco. — Então você é bem útil.
Noel revirou os olhos, mas o canto da boca se levantou mesmo assim.
Para além do portão, a Capital Sagrada se estendia em um esplendor silencioso — templos de pedra branca, jardins vibrando com mana sagrada, e a silhueta distante da Grande Catedral surgindo como uma coroa acima de tudo.
A Capital Sagrada sempre parecia silenciosa, mas o orfanato tinha um jeito diferente.
Enquanto Noel e Charlotte caminhavam pelas ruas de mármore, passando por santuários e jardins iluminados por um leve mana sagrado, a atmosfera mudou. O ar aqui tinha um calor mais convidativo. Mais suave. Mais vivido.
O orfanato ficava atrás de um pequeno pátio, com flores amontoadas de forma desordenada, claramente plantadas por crianças. No instante em que Charlotte empurrou o portão—
Uma comoção explodiu.
— Santa Charlotte!
— Ela voltou!
— Charlotte! Charlotte!!
Meio dúzia de figuras pequenas correram na direção dela — roupas levemente tortas, sapatos amarrados de forma improvisada, rostos iluminados de empolgação. Elas se jogaram contra suas pernas, braços, capa, tudo ao mesmo tempo.
Charlotte riu suavemente, ajoelhando-se para abraçá-los todos de uma vez. — Também senti saudades.
Noel observava de um degrau atrás, com um sorriso discreto surgindo nos lábios. Ela realmente era diferente aqui — mais suave, mais radiante, quase brilhando de uma forma que não tinha nada a ver com mana.
Um dos crianças, um garotinho com cabelo loiro desgrenhado e olhos castanho-escuros, finalmente percebeu Noel ali, parado.
— Quem é ele? — perguntou, apontando com ousadia.
Outra garota, mais velha e corajosa, franziu os olhos para Noel, desconfiada. — Ele é seu namorado?
A face de Charlotte corou na hora. — N-Não... isso não—
Noel engasgou ao respirar. — Uau. Direto ao ponto.
As crianças se aproximaram mais, esperando.
Charlotte clareou a garganta, reuniu-se, e então disse com firme orgulho:
— Ele é o herói de quem falei. Aquele que ajudou a salvar a Capital Sagrada.
Todos os oito pares de olhos se arregalaram como moedas.
Algumas prenderam a respiração.
Uma garotinha pequena cochichou: — Ele não parece um herói… ele parece cansado.
Noel levantou uma sobrancelha. — Obrigado. Isso realmente aquece meu coração.
As crianças riram, achando que ele falava sério.
Charlotte escondeu um sorriso atrás da mão.
Uma das cuidadoras saiu do portal — uma mulher mais velha com olhos gentis. Ela fez uma leve reverência.
— Santa Charlotte. Que prazer vê-la novamente. As crianças estavam esperando por seu retorno.
Charlotte levantou-se, tirando a poeira dos joelhos. — Eu passarei um tempo com elas quando puder. Prometo.
Ela olhou para Noel, e sua expressão mudou — mais suave.
— Noel e eu temos algo que precisamos fazer primeiro.
Noel assentiu, com a voz baixa, porém firme. — É. Queria visitar… um bom amigo meu.
A expressão da cuidadora suavizou com compreensão. Ela não pediu nomes. — O cemitério ainda está aberto. Leve o tempo que precisar — estaremos aqui quando voltar.
Charlotte colocou uma mão no braço de Noel. — Voltaremos depois.
A cuidadora assentiu, guiando as crianças de volta para dentro.
Enquanto Noel e Charlotte se afastaram do portão, ele olhou para ela.
— Elas realmente te adoram.
Aos lábios de Charlotte surgiu um leve sorriso. — Eu também adoro elas.
— E me chamar de herói…? — brincou Noel.
Charlotte virou a cabeça, com as bochechas aquecidas. — Você é um.
Noel não respondeu — as palavras ficaram presas, profundas e instáveis dentro dele.
Seus olhos se desviaram para a colina distante onde ficava o cemitério.
O cemitério ficava além dos jardins do norte, onde a mana sagrada se tornava mais escassa e as ruas de mármore davam lugar a caminhos de pedra calada.
Charlotte e Noel caminharam lado a lado em silêncio, o ar aqui mais frio — não por causa do vento, mas pela memória.
A colina surgia suavemente diante deles.
Noel diminui primeiro o passo.
Ele conhecia bem esse caminho.
Charlotte olhou para ele, com passos suaves e respeitosos. Ela simplesmente permaneceu perto, o suficiente para que ele sentisse que ela estava ali.
No topo da colina, o mundo se abria em fileiras de simples lápides brancas. Sem entalhes elaborados, sem decorações — apenas nomes, datas, orações silenciosas gravadas em runas suaves.
Noel encontrou rapidamente o que procurava, sem precisar procurar.
Erick.
A imagem veio sem convite na sua mente:
A forma retorcida de Erick.
Aquela voz quebrada chamando seu nome.
O apelo nos olhos dele pouco antes de Noel acabar com ele.
Charlotte permaneceu atrás dele no começo, dando espaço.
Ela esteve lá naquele dia — sabe exatamente o que ele estava pensando.
A voz de Noel saiu áspera, quase inaudível.
— Eu deveria tê-lo salvado mais cedo.
A respiração de Charlotte ficou presa, mas ela deu um passo adiante, colocando suavemente uma mão no ombro dele — não para consolá-lo, mas para mantê-lo firme.
— Noel — sussurrou ela — você não o falhou.
Ele não olhou para cima. O maxilar se tensou.
— Eu o matrei, Charlotte.
Charlotte ajoelhou-se ao lado dele, apertando os dedos ao redor do braço dele. — Você terminou com o sofrimento dele. Você lhe deu paz quando ninguém mais conseguiu. Isso não é a mesma coisa.
Noel fechou os olhos, forçando a respiração a manter-se equilibrada.
— Eu fico pensando… se eu tivesse notado os sinais antes, se tivesse agido mais rápido—
Charlotte imediatamente negou com a cabeça. — Ele já tinha partido quando encontramos. O que fizeram com ele… ninguém conseguiria desfazer.
O vento mudou, tocando a espada de brinquedo do Erick.
Noel a olhou, a voz se quebrando um pouco. — Ele era um menino bom. Corajoso. Leal. Protegia as outras crianças mesmo com medo.
Os olhos de Charlotte ficaram brilhantes, a voz suave, mas firme.
— E ele confiava em você. Até o fim, confiou que você o ajudaria. Noel… ele escolheu morrer como ele mesmo, não como um monstro. Por sua causa.
A garganta de Noel apertou dolorosamente.
Desta vez, ele não tentou esconder.
Charlotte manteve a mão sobre a dele, quente e firme. Não para tirá-lo do luto — apenas para ficar com ele nele.
Após uma longa, pesada pausa, Noel finalmente se levantou.
Colocou uma flor fresca ao lado da espada de brinquedo, os dedos permanecendo um instante a mais na pedra.
— Eu não vou deixar que o que aconteceu com ele aconteça com mais ninguém.
Charlotte assentiu silenciosamente e entrelaçou seu braço ao dele enquanto caminhavam de volta pelo caminho.
O caminho de volta ao orfanato estava mais silencioso agora — mais leve em alguns aspectos, mais pesado em outros.
A memória de Erick permanecia entre eles, mas a presença constante de Charlotte impedia que a dor engolisse Noel completamente.
Quando retornaram ao portão do orfanato, as crianças que ainda brincavam lá fora pararam por um instante… e então explodiram em sorrisos.
— Vocês voltaram!
— Santa Charlotte, você terminou a sua tarefa?
— Noel! Você voltou de novo!
Algumas das mais novas correram para abraçar as pernas de Charlotte, enquanto outras acenaram animadas para Noel.
Elas tinham ficado fora por pouco tempo, mas, para crianças, mesmo uma hora parecia uma eternidade.
Charlotte ajoelhou-se para mexer nos cabelos delas. — Só precisávamos passar lá para visitar um amigo. Mas sim — estamos de volta.
Noir saiu da sombra de Noel e, imediatamente, foi acolhida por mãos carinhosas.
'Aceito carinho', declarou de forma grandiosa.
Noel suspirou — mas com um sorriso que não tinha aparecido antes.
As crianças insistiram com inocência.
— Brinca com a gente de novo!
— Pode mostrar um pouquinho de magia?
— Vamos lá — estávamos ensinando Noir a brincar de pega!
Ele cedeu.
Por um tempo, ficaram brincando no pátio.
Noel se deixou levar em uma brincadeira bêbada de correr, meio desengonçada.
Charlotte perseguia as crianças menores, que tentavam escalar ela como se fosse uma árvore.
Noir atravessava entre as pernas, rosnando triunfante.
Sorrisos — verdadeiros, brilhantes — aqueceram o espaço que antes estava tomado por luto.
Eventualmente, Irmã Mariel saiu e falou com suavidade, mas firmeza:
— Está na hora, pequenos. Deixem que Santa Charlotte e Sir Noel descansarem. Orthran voltará amanhã de manhã. Vocês podem ficar aqui a noite toda.
Charlotte assentiu e segurou a mão de Noel com confiança suave.
— Vamos dormir — ela sussurrou. — Amanhã… tudo começa de novo.