O Extra é um Gênio!?

Capítulo 439

O Extra é um Gênio!?

A suavidade do calor matinal filtrava através das cortinas finas, a luz dourada se estendendo pelo pequeno quarto de hóspedes que o orfanato havia preparado para eles. Partículas de poeira flutuavam preguiçosamente nos raios de sol, intocadas pela tensão habitual das manhãs de Noel.

Noel abriu lentamente os olhos.

Havia calor contra seu peito.

O calor de Charlotte.

Ela respirava suavemente, calmamente… de forma constante. Seus braços estavam frouxamente envoltos ao redor dele, a testa repousada logo abaixo da clavícula, o cabelo cor-de-rosa espalhado de modo bagunçado sobre o travesseiro que compartilhavam.

Noel não se moveu inicialmente.

Não porque estivesse envergonhado — ele já havia passado dessa fase há muito tempo — mas porque ver Charlotte dormir tão pacificamente, tão abertamente apoiando-se nele, sempre o afetava de alguma forma.

'Ela parece tão relaxada…' pensou, surpreso e aliviado ao mesmo tempo.

Uma onda de sombra se contorcia na borda do colchão.

Noir saiu debaixo da cama, esticando-se com um pequeno bocejo antes de pular para o lado de Noel.

Ela observou a cena com uma expressão de julgamento divertido.

'Você dormiu bem,' comentou. 'Isso é suspeito. Você não dorme bem a menos que alguém esteja grudado em você.'

Noel suspirou. "Bom dia também para você."

Charlotte mexeu-se ao ouvir sua voz.

Seus dedos apertaram brevemente a camisa dele. Depois ela abriu os olhos — dourados, ainda nublados de sono — e olhou para cima, na direção dele.

"…Bom dia, Noel…" murmurou suavemente, encostando-se no peito dele.

Noel ficou estático.

Charlotte percebeu o que acabara de dizer, a posição em que se encontrava… e seu rosto imediatamente ficou cor-de-rosa.

"Eu—qu—queria dizer—nós devíamos… acordar," ela gaguejou, tentando se sentar, mas falhando porque o braço de Noel ainda a envolvia na cintura.

Noel piscou. "…Você é quem está me segurando."

Charlotte olhou para baixo.

Ela era.

Seu rosto ficou ainda mais vermelho. "O—oh…"

Noir deu uma risadinha. 'Láásco.'

Noel passou uma mecha de cabelo atrás da orelha de Charlotte, com uma voz mais suave. "Bom dia."

Ela conseguiu um sorriso tímido e caloroso. "Bom dia…"

Por alguns segundos de silêncio, eles permaneceram assim — compartilhando calor, ouvindo o riso fraco das crianças que se espalhava pelo pátio lá fora. Uma paz que nenhum deles sentia há muito tempo se instalou entre eles.

Então—

BANG-BANG-BANG.

"NOEL!! CHARLOTTE!! VOCÊS JÁ ESTÃO AcordADOS!?!"

Ambos congelaram.

Charlotte enterrou o rosto no peito de Noel. "Já…?"

Noel suspirou. "Provavelmente desde o amanhecer."

Noir saiu de perto da porta. 'Devo fazer ameaças para estabelecer hierarquia?'

"Não," responderam instantaneamente Noel e Charlotte.

Noir resmungou.

Charlotte, relutantemente, soltou Noel, passando a mão pelos cabelos enquanto tentava — e falhava — esconder seu rubor. Noel se sentou ao lado dela, vestindo a camisa enquanto Noir se ajeitava com arrogância na beirada da cama.

Charlotte abriu a porta—

E quase uma meia dúzia de crianças caíram de cara no cômodo.

"VOCÊS JÁ ACORDARAM!!"

"CONVIDA A GENTE PRA BRINCAR ANTES DO CAFÉ??!"

"NOEL, VOCÊ PODE NOS MOSTRAR MAGIC AGAIN?!!"

Noel apenas encarou, boquiaberto.

Charlotte deu uma risadinha suave.

E assim…

O dia oficialmente começou.

Assim que Charlotte abriu a porta completamente, o corredor explodiu de empolgação infantil.

"CHARLOTTE!!"

"NOEL!!"

"NOIRRR!!"

Três crianças imediatamente se agarraram a Charlotte, uma puxou sua perna, outra tentou escalar como uma árvore. Ela riu — brilhante e calorosa — aquele tipo de risada que instantaneamente amolece a todos na sala.

"Ok, ok, uma de cada vez!" disse com alegria, bagunçando seus cabelos. "A gente acabou de acordar, dá um segundo pra respirar."

"Mas o café já está pronto!" anunciou uma menina orgulhosa, apontando escada abaixo como uma comandante à frente das tropas.

Noel levantou uma sobrancelha. "Querem que a gente coma antes de vocês nos raptarem pra brincar?"

"Sim," responderam três vozes ao mesmo tempo.

Charlotte pôs a mão na boca, sorrindo. "Eles são bem… organizados."

Noel resmungou: "Caos organizado."

Noir pulou no ombro dele. 'São minions eficientes. Aprovo.'

"NOIR PODE FALAR!"

"NÃO, ELA SÓ ESTÁ FAZENDO SONS—"

"NÃO, ELA FALA COM O NOEL!"

"NOEL, O QUE ELA DIZ?!"

Noel torceu o nariz, pinçando a ponte do nariz. "Ela diz que vocês são todos adoráveis. E perigosos."

As crianças ficaram boquiabertas, orgulhosas.

Praticamente puxaram eles escada abaixo e entraram no refeitório. A sala já vibrava de risos — mãos pequenas passando pratos, o cheiro de pão quente e mingau doce preenchendo o ar.

Charlotte rapidamente entrou no modo "irmã mais velha".

Ela amarrou o avental oferecido com um sorriso radiante. "Quem quer mais fruta no prato?"

"EU!"

"EU TAMBÉM!"

"CHARLOTTE, COLOCA MAIS NO MEU!"

"VEM NÉ——"

Ela riu enquanto fazia a ronda, colocando fruta, ajustando golas, limpando migalhas do rostinho das crianças. Ela encaixava-se ali tão facilmente que parecia que o mundo sempre tinha planejado aquele momento.

Noel sentou-se ao lado de dois meninos, tentando comer… e falhando miseravelmente.

Um se inclinou demais, chegando muito perto.

"É verdade que você lutou contra um monstro gigante?"

Noel piscou. "Uh— sim. Mais ou menos."

Outro menino puxou sua manga. "Você também salvou uma princesa?!"

"Não, eu—"

Um terceiro subiu na banqueta ao lado dele. "É verdade que você consegue explodir uma casa com magia de fogo?!"

Noel engasgou, respirando de forma errada. "O quê?! Quem te contou—?!"

"A Charlotte falou!"

"Então os heróis explodem as coisas!"

"Promete que não vai explodir o orfanato, Noel!"

Charlotte virou a tempo de ver Noel lutando para não rir ou se desesperar.

Ela cobriu a boca, tentando conter a gargalhada.

"Meninos," ela chamou brincando, "deixa ele respirar um pouco!"

"NÃOOOO!" responderam eles. "Ele é LEGAL!"

Uma menina se inclinou na mesa, fazendo um dramatismo com as mãos no rosto.

"O Noel é tipo um cavaleiro dos contos de fadas!"

"…Eu não sou."

"Sim, você é!"

"Você tem uma espada!"

"E cicatrizes!"

"E quatro namoradas!"

Noel ficou parado, imóvel.

A sala caiu em silêncio.

Charlotte virou-se rapidamente, com o rosto agora vermelhíssimo. Noir quase caiu do ombro de Noel, rindo telepaticamente.

O menino que falou, deu de ombros inocentemente.

"Meu irmão mais velho disse que caras legais sempre têm muitas namoradas. Quero ser como o Noel!"

Noel tossiu de forma tão violenta que quase morreu, batendo com a mão na mesa, com o rosto vermelho.

Charlotte cobriu o próprio rosto com ambas as mãos, entre o choque e a gargalhada.

Um cuidador do outro lado do cômodo gritou, horrorizado,

"QUEM TE CONTOU ISSO?!"

"Meu irmão!" respondeu orgulhoso a criança. "Ele disse que o Noel é superpoderoso, então faz sentido!"

Noel enterrou o rosto nos braços, desejando desaparecer.

Charlotte, ainda rindo baixinho, foi até ele e bateu de leve nas costas em círculos.

"Está tudo bem," sussurrou brincando. "Eles admiram você… por muitas razões."

Ele resmungou, de cabeça baixa, voltando a encostar na mesa.

As crianças começaram a rir às gargalhadas.

Noir sussurrou, satisfeito na mente dele: 'Você é muito influente, pai. Muito.'

"Cala a boca," murmurou Noel.

Charlotte sorriu, com risada suave e feliz, enchendo a sala de calor.

Era uma bagunça. Barulhenta. Caótica.

Mal tinha acabado o café da manhã, quando as crianças se amontoaram ao redor de Noel como uma turminha de filhotes energizados.

"Vamos lá fora!!"

"Mostra magia!!"

"POR FAVOR!! Só um pouquinho!!"

"Noel, você prometeu ontem!"

"Disse que da próxima vez!"

"Eu nunca disse—" tentou Noel se justificar.

Mas era tarde demais.

Quatro crianças empurraram-no pelas costas. Duas puxaram seus braços. Uma tentou levantar Noir — que conseguiu cospe-tepeicamente. E Charlotte veio atrás, rindo com doçura, cobrindo a boca com as mãos.

"Vocês são bem populares," ela brincou.

"Não—estão tentando nos sequestrar!"

"E eles te adoram," ela corrigiu, doce.

E o puxaram para o pátio como um sacrifício heroico.

Noir pulou numa bancada próxima, abanando a cauda. 'Entretenha-os, pai. Ou eu farei.'

"Não preciso de ameaça agora."

As crianças formaram um círculo perfeito ao redor dele, olhos arregalados, pernas pulando de empolgação.

"MOSTRE O MAIS LEGAL!"

"A magia do fogo!"

"A do gelo!"

"Noel, faz a que faz BOOM!"

"NÃO!" Charlotte imediatamente gritou. "Nada de grandes explosões!"

Noel levantou as mãos em sinal de rendição. "Tudo bem, tudo bem. Vou mostrar alguns — pequenos — bem pequenos. Não imitem, não pulem na frente, e não tentem fazer em casa—"

"SIIIM!!"

Uma onda de aplausos quase o cegou.

Noel respirou fundo lentamente.

"Vamos começar simples."

Ele levantou a mão e sussurrou:

"Arco de Fogo."

Uma fina fita de chamas, inofensiva, se curvou de sua mão, girando como uma fita luminosa antes de se transformar em faíscas quentinhas. As crianças ficaram boquiabertas, gritando tão alto que Noel pensou que teria tido uma perda auditiva.

"FAÇA DE NOVO!"

"FOI EM UM LOOP!"

"FAÇA MAIOR!"

"NÃO!" repetiu Charlotte, agora como a responsável adulta.

Noel deu uma risada suave.

Apontou para o céu.

"Glacialis."

Uma pequenina lasca de luz azul girou no ar e explodiu em flocos brilhantes, caindo suavemente como uma neve mágica delicada.

As crianças gritaram.

"UOU!!!"

"É neve!!"

"Neve mágica!!"

"Quero pra meu quarto!!"

Uma menina tentou pegar os flocos com a língua, esticando a língua como uma brincadeira.

Charlotte deu uma risadinha. "Ela vai congelar a língua."

Noel balançou a cabeça carinhosamente. "São inofensivos. É quase só mana fria."

Uma criança puxou sua manga. "Você consegue fazer uma magia de raio?! Uma que ataque rápido! Uma bem rápida!!"

Noel coçou a bochecha. "Apenas… uma versão bem pequenininha."

Ele levantou um dedo.

"Aguja de Tensão."

Um curto clarão piscou na direção dele — só um cintilar de luz azul-branca, com um estrondo agudo. Suficiente para impressionar. Mas não para machucar nem um inseto.

As crianças pularam como se tivessem testemunhado o nascimento de um novo mundo.

"FOI MUITO LEGAL!!"

"ZAPOU!"

"Você me ZAP?!—"

"NÃO," disseram Noel e Charlotte instantaneamente.

"Última magia," avisou Noel. "Depois disso, nada mais."

"Awwww—"

"Muralha de Geada."

Uma pequena barreira de gelo reluzente surgiu do chão, lisa como cristal, alta o suficiente para as crianças mais novas se esconderem atrás.

Eles correram para trás imediatamente.

"ESTAMOS ESCONDIDOS!!"

"NOEL NÃO CONSEGUE NOS ENCONTRAR!!"

"ELE NÃO SABE A ONDE A GENTE FOI!"

Noel olhou fixamente através da parede transparente.

"…Eu sei."

E pararam de se mover.

Uma criança sussurrou bem alto: "Ele é muito inteligente…!"

Charlotte explodiu numa risada, segurando a barriga.

Noel abaixou as mãos, respirando com calma.

"Já chega de mágica por hoje."

"Awwwwww!!"

Mas a decepção deles durou apenas dois segundos, porque agora tinham algo ainda melhor para fazer:

brincar com ele.

Eles o agarraram, puxando-o na direção de um canto do pátio.

"Vamos brincar de pega-pega!!"

"Seja o monstro!"

"Noel, corre atrás da gente!!"

Ele cambaleou para frente, soltando um suspiro desesperado. "Charlotte—ajuda—!"

Charlotte estava perto, sorrindo brilhante e suave, sua alegria genuína.

"Você vai ficar bem," ela riu. "Vai lá, herói."

Noir bufinhou. 'Vou julgar daqui.'

O pátio vivia. As crianças corriam em círculos, gritando de rir enquanto Noel as perseguia com sons exagerados de monstro.

"RAAAWR—!"

"ELE TÁ TRAZ DE NÓS!!"

"CORRAM!!"

"Nooooel, não me coma—!"

Ele diminuía a velocidade a cada poucos segundos, deixando as menorzinhas "escaparem", e então avançava de leve só para fazê-las gritar de novo.

Charlotte observava, sob a sombra de uma árvore florida, com as mãos atrás das costas e olhos dourados brilhando de calor.

O visual acentuava algo profundo dentro dela.

Noel — o garoto que carregava culpa, medo, cicatrizes e um mundo de fardos — estava… sorrindo. De verdade. Livre. O peso que geralmente derrubava seus ombros parecia ausente.

Ele levantou uma criança mais nova nos ombros, girando-a enquanto as outras aplaudiam.

Charlotte sentiu seu coração florescer silenciosamente.

'Ele sempre parece tão cansado… mas com elas, ele parece vivo.'

Duas garotinhas se aproximaram dela, uma puxando a manga com inocência audaciosa.

"Charlotte…"

"Hm?" ela perguntou, se ajoelhando ao nível delas com um sorriso suave.

"Você gosta do Noel?"

O sorriso de Charlotte floresceu sem hesitar — brilhante, honesto e cheio de alegria silenciosa.

"Sim," respondeu simplesmente. "Muito mesmo."

As meninas arregalaram os olhos, chegando ainda mais perto.

"Você vai casar com ele?"

Charlotte sorriu suavemente, cobrindo a boca com uma mão.

"Quem sabe um dia," respondeu brincando. "Mas é um segredo, ok?"

As duas gargalharam e correram, rindo, deixando Charlotte sorrindo sozinha — sem ficar envergonhada, apenas realmente feliz.

Quando ela olhou de volta para o pátio, Noel estava girando uma criança, com risadas ecoando no ar. Ele realmente se encaixava ali, mesmo que ele não visse.

Mas então—

A atmosfera mudou.

Passos. Um murmúrio silencioso se espalhando pelo pátio.

Um cuidador entrou apressado, ofegante.

"Santa Charlotte! Senhor Noel! Orthran… voltou!"

Noel parou no meio do caminho.

Os olhos de Charlotte se arregalaram, cheios de esperança suave e trêmula.

Ela deu um passo à frente—

depois outro—

e então começou a correr.

As velhas portas de madeira rangiram ao se abrir.

Primeiro entraram os guardas-clérigos, formando um caminho.

E no centro…

Um homem alto, vestido com uma túnica, cabelos prateados presos de forma uniforme para trás, profundas rugas no rosto — não de envelhecimento, mas de preocupação — e olhos que suavizaram no momento em que se fixaram nela.

A respiração de Charlotte escapou em um suspiro.

"…Vovô?"

Orthran sorriu — um sorriso pequeno, aliviado, de exaustão após dias de cansaço.

"Charlotte…"

Ela não desacelerou.

Ela saltou direto nos seus braços, envolvendo-o com os braços ao redor do pescoço dele.

Orthran deu um passo para trás, surpreendido com o impacto, depois soltou uma risada sem fôlego enquanto o abraçava firme.

"Minha garotinha…" sussurrou, a voz quebrando. "Senti sua falta mais do que imagina."

Charlotte afundou o rosto no ombro dele, olhos brilhando. "Você está seguro… realmente seguro…"

Noel observava de alguns passos de distância — um sorriso quase imperceptível surgindo enquanto as crianças os rodeavam admiradas.

Orthran acariciou o cabelo de Charlotte mais uma vez, depois levantou o olhar.

Seus olhos encontraram Noel.

Gentilmente, colocou Charlotte no chão, uma mão ainda protetora nas costas dela, enquanto se aproximava de Noel.

Então, Orthran estendeu a mão.

"Noel Thorne."

Noel se aproximou de respeito. Orthran colocou a mão no ombro dele — firme, quente, sincero.

"Obrigado," disse suavemente. "Por estar ao lado dela… por protegê-la, você cumpriu sua promessa."

Noel balançou a cabeça levemente. "Não fiz nada de extraordinário. Só fiquei por perto."

Charlotte cutucou-o com o cotovelo, sorrindo brilhante. "Ele fez muito mais do que isso."

Orthran riu — uma risada cansada, mas sincera.

"Você tem a minha confiança," disse, com os olhos firmes. "Desde agora… completamente."

Orthran olhou ao redor para as crianças que se juntaram a eles, com um sorriso cansado porém gentil no rosto.

"Bem…" ele disse suavemente, "agora é minha vez de sequestrar esses dois para mim."

As crianças começaram a rir às gargalhadas.

Orthran levantou as mãos num gesto brincalhão de rendição.

"Obrigadinho por receberem tão bem, pequeninos. Em breve, devolvo eles pra vocês."

Casal de crianças gritou:

"Não os prendam muito tempo!"

"Trazam eles antes do almoço!"

Charlotte riu, doce e brilhante. Noel suspirou em resignação silenciosa. E Orthran, com carinho nos olhos, indicou que ambos os seguissem.

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