O Extra é um Gênio!?

Capítulo 440

O Extra é um Gênio!?

Quando Orthran sinalizou para que eles seguissem, o barulho brincalhão do pátio começou a desaparecer ao fundo.

Crianças ainda riam, ainda chamavam Charlotte pelo nome, ainda se agarravam aos portões enquanto assistiam os três se afastar — mas a cada passo de Noel, o calor do orfanato escorriva cada vez mais para a memória, substituído pelo silêncio frio e polido da Capital Santa.

Charlotte caminhava ao lado dele, os dedos buscando contato leve com os dele, como quem procura uma confirmação. Sorriso dela tinha amaciado, ficando menor — não triste, mas consciente.

Orthran liderava com passos lentos. Sua presença, tão gentil com as crianças, agora se transformava de volta na do Sumo Sacerdote: postura ereta, mãos unidas atrás das costas, olhar fixo, peso em cada movimento.

Passaram sob o arco que marcava os limites do terreno do orfanato. Além dele, o caminho subia suavemente em direção à silhueta imponente da Catedral Principal.

Noel expirou suavemente.

Um minuto atrás, ele corria atrás das crianças no pátio.

Agora, sentia-se como se marchasse para uma batalha feita de palavras e verdades.

Charlotte olhou de relance para ele. Seus olhos dourados carregavam preocupação e determinação ao mesmo tempo.

"Está bem?" ela perguntou baixinho.

'Provavelmente não,' Noel pensou. Mas acenou com a cabeça. "Sim. Só... mudando o clima."

Charlotte riu baixinho. "É uma mudança bem dramática."

Até Noir, encolhido na sombra aos pés de Noel, murmurou na cabeça dele:

'Pelo menos eles não tentaram escalar você de novo, pai.'

Noel pinçou a ponte do nariz. "Por favor, não me lembre disso."

Orthran não virou a cabeça, mas claramente ouviu a aproximação deles. Sua voz soou suavemente, vindo de trás:

"Vocês dois ficaram mais próximos."

Charlotte ficou vermelha instantaneamente. "V-Avô..."

Noel tossiu, olhando para qualquer lugar que não fosse Orthran.

Mas o tom do velho não tinha brincadeira nem severidade — apenas uma satisfação silenciosa.

Quando chegaram aos portões da Catedral, tudo mudou.

Duas filas de guardas clericais ficaram em formação, formando um caminho estreito até a entrada. As armaduras reluziam com runas de mana fracas, e os destacas que carregavam estavam iluminados por bênçãos ativas — camadas de proteção e magia de detecção.

Noel sentiu isso imediatamente.

Fios afiados de mana sagrada, entrelaçados entre os pilares. Sigilos de barreira semiocultos por trás do arco externo. Uma pressão sutil no ar, como estar à beira de uma tempestade.

"Isso é novo," ele murmurou para si mesmo.

Charlotte assentiu, com a expressão se fechando um pouco. "As defesas não eram assim antes."

Orthran desacelerou — não parou, mas deu uma pausa para que pudessem assimilar aquilo.

"Não podemos nos descuidar como fizemos na última vez," ele falou baixinho. "O que aconteceu durante o ataque à Capital... mudou tudo."

As sobrancelhas de Noel se levantaram. Orthran prosseguiu:

"Sou grato pelo que fizeram naquela noite, Noel. Talvez eu não saiba todos os detalhes, mas sei o suficiente para entender que, sem você, as coisas poderiam ter acabado muito pior."

Noel olhou para baixo, desconfortável. "Apenas fiz o que pude."

Charlotte apertou um pouco a mão dele, de forma gentil, como um lembrete de que humildade não era a mesma coisa que verdade.

Orthran virou-se para os guardas. Eles fizeram uma reverência, abrindo as portas da catedral.

Dentro, havia um mundo de mármore polido e silêncio sagrado.

A luz dourada através dos vitrais pintava seus rostos com cores que mudavam — azul, roxo, carmesim — como bênçãos passageiras flutuando sobre a pele enquanto caminhavam.

As portas pesadas se fecharam com um eco profundo.

Os passos de Charlotte desaceleraram, os dedos se apertando mais ao redor de Noel.

Noel podia sentir o peso de estar ali novamente.

A lembrança de se infiltrar no salão subterrâneo sob o próprio altar piscou na sua mente.

'Não devia estar entrando aqui com tanta facilidade depois de invadir o lugar,' pensou.

Noir riu na cabeça. 'Pelo menos desta vez você entrou sem usar o rosto da Charlotte.'

Noel fez careta. 'Podemos não falar nisso?'

As bochechas de Charlotte ficaram quentes. "Noel... quase te prenderam."

Noir ronronou com orgulho. 'E depois resgatado pela sua namorada. Uma atuação bem dramática.'

Noel massageou as têmporas. "Não fui preso... estava a segundos de ser pego."

Charlotte corrigiu suavemente: "Você quase entregou que era você para um guarda enquanto disfarçado de mim."

"…Tudo bem, valeu."

Orthran olhou por cima do ombro, sem perceber o caos mental vindo dele. Sua voz chegou de maneira suave:

"Sigam-me."

Ele os guiou por trás do altar, até um corredor estreito ladeado por estátuas de santos antigos e clerigos ancestrais. Noel percebeu algo diferente — pequenos selos brilhantes gravados no chão.

"Eles não estavam aqui da última vez…" ele murmurou.

Orthran não desacelerou. "O inimigo explorou nossos pontos mais fracos. Certifiquei-me de que não possam fazer isso novamente."

Noel sentiu um calafrio na espinha.

Também percebeu algo mais — um sussurro frio, metálico, na parte de trás da cabeça.

[ Missão Atualizada ]

Evitar que a Igreja Santa caia em desespero.

Tempo restante: 21 dias.

Ele exalou secretamente. 'Ótimo. Sem pressão.'

No fim do corredor, uma porta estreita e discreta de pedra — simples, sem marcações.

Charlotte reconheceu de imediato.

"Essa é sua sala particular... né, vovô? Mudou um pouco desde a última vez que vim aqui."

Orthran assentiu, colocando a mão num sigilo que pulsava com reconhecimento e destrancou a pedra.

"Sim. Vamos conversar lá dentro."

E ao começarem a abrir a porta com um som baixo e pesado —

Noel sentiu a mudança.

A temperatura do orfanato desapareceu por completo.

O que esperava naquela sala era a verdade. Uma verdade pesada, frágil, perigosa.

A porta de pedra se abriu totalmente, e uma friagem familiar se espalhou — a mesma respiração vazia de mana que os recebeu meses atrás.

Noel sentiu a transformação instantaneamente.

Não era terreno novo.

Era onde lutar ao lado um do outro…

Onde Charlotte lançou pela primeira vez toda a força de sua bênção…

Onde Orthran sangrou, recusando-se a cair…

A sala carregava o peso dessa memória, como uma cicatriz.

Orthran entrou primeiro, a túnica arrastando na moldura. Charlotte veio logo atrás, e Noel entrou por último, Noir deslizando ao pé dele como uma sombra que pertencia ao lugar.

As escadas que desciam em espiral não eram mais assustadoras.

Eram lembretes.

Charlotte tocou levemente a corrimão, olhos dourados suaves.

Ela passou os dedos pela pedra do corrimão, os olhos dourados se estreitando ao estudar os selos brilhantes gravados no corredor.

"…É estranho," ela murmurou. "Essas defesas não estavam aqui na minha última visita."

Noel olhou para as paredes, surpreso. "Você não esteve aqui recentemente?"

Charlotte assentiu suavemente. "Sim, para visitar. Quando nos separamos, mas naquela época a segurança ainda estava em andamento."

"Quando lutamos aqui… era tudo confusão. Mas vendo assim agora… parece diferente."

Noel concordou com um murmúrio. "Sim. Muito aconteceu aqui."

Noir murmurou na cabeça dele. 'E tudo explodiu aqui.'

'Por favor, não me lembre disso,' Noel respondeu.

Orthran não comentou os murmúrios silenciosos, mas diminuiu um pouco o ritmo, reconhecendo o peso do local.

Quando chegaram ao final, ele abriu a pesada porta de madeira escura — revelando o escritório particular de sempre.

Nada tinha mudado.

As pilhas desiguais de pergaminhos. A mesma luminária pendurada no teto. A mesma mesa na qual Charlotte uma vez empurrou um clérigo corrompido.

O ar ainda carregava um leve cheiro de incenso antigo e mana persistente.

Charlotte entrou lentamente, quase em um sussurro. "…É menor do que lembro."

Orthran sorriu levemente. "Os cômodos sempre parecem maiores quando sua vida está em perigo."

Noel respirou fundo, sem perceber que estava segurando a respiração. "Você se saiu bem naquela época."

Orthran sorriu suavemente antes de fazer um gesto em direção às cadeiras ao redor da mesa redonda.

"Sentem-se."

Charlotte e Noel se acomodaram. Noir se enrolou debaixo da mesa, a cauda tocando na bota de Noel em um gesto de tranquilidade silenciosa.

Orthran permaneceu de pé por alguns momentos, acendendo uma vela e olhando para a marca de queimada na parede, como se fosse uma ferida antiga.

Quando finalmente se sentou do lado deles, o ambiente mergulhou em um silêncio profundo, familiar.

Um silêncio que lembrava gritos, aço, luz sagrada.

Orthran entrelaçou as mãos.

"Charlotte," ele disse suavemente, "você escreveu que há uma verdade que preciso ouvir. Uma verdade que não se encontra em relatórios. Uma verdade sobre Elarin… e sobre o deus que servimos."

Charlotte engoliu em seco.

Noel colocou a mão na perna dela, sob a mesa — dando suporte.

Eles não podiam revelar tudo.

Nem Noctis.

Nem a outra dimensão.

Nem a totalidade da queda de Elarin.

Orthran percebeu a tensão, mas não insistiu.

"Você pode falar livremente aqui," ele garantiu. "Sem julgamentos. Sem punições. Apenas a verdade."

Noel exalou.

"Algumas verdades," ele falou com cuidado, "são perigosas não porque sejam proibidas… mas porque podem quebrar as pessoas."

Charlotte concordou. "E precisamos ter muito cuidado com o que revelamos."

O olhar de Orthran se apertou de dread e compreensão.

"Então é tão grave quanto eu temia."

Seus olhos se voltaram para o pergaminho selado que Charlotte lhe enviara sobre Elarin.

"…Então me diga," ele sussurrou, com a voz tremendo, "o que puder dizer."

Charlotte respirou fundo.

"Havia verdade nas histórias antigas," ela disse suavemente. "O deus que seguimos… foi bom. No início."

Os dedos de Orthran se apertaram.

"Mas depois," Charlotte prosseguiu, "algo mudou."

Orthran fechou os olhos — um movimento lento, sofrido.

"E as pessoas," Noel acrescentou em voz baixa, "não podem saber a razão completa. Não agora. Não assim."

As mãos de Orthran tremeram sobre a mesa.

"…Então me diga," ele sussurrou, "o que deve ser feito para que nossa fé não ruína."

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