
Capítulo 441
O Extra é um Gênio!?
A dúvida pairava no ar iluminado por velas:
“…o que deve ser feito para nossa fé não desmoronar?”
A voz de Orthran ainda tremia, como se temesse a resposta mais do que a própria verdade.
Charlotte abaixou o olhar.
Noel sentiu sua coxa ficar tensa sob sua mão — um aviso silencioso que ele já aprendera a reconhecer. Algo dentro dela estava mudando. Algo que ela não tinha planejado dizer.
Ele se inclinou mais perto, sussurrando quase sem respirar.
“Charlotte… siga o plano,” ele murmurou. “Apenas contamos fragmentos. Nada mais.”
Ela não confirmou com um aceno, não respirou nem piscou.
Ao invés disso, ela respondeu — tão baixo que quase passou despercebido.
“…Noel… não posso mentir para o vovô.”
O coração de Noel afundou.
Os dedos de Charlotte se cerraram firmemente no colo.
“Ele merece a verdade,” ela sussurrou, a voz tremendo de convicção. “Tudo isso. Tudo que aconteceu. Tudo que vimos.”
O sangue de Noel gelou.
“Charlotte,” ele murmurou rapidamente, os olhos arregalados, “isso não era o que combinamos. Você tem certeza?”
Charlotte engoliu — não por medo, mas por determinação.
“…Sim.”
Noir ficou rígida sob a mesa, a cauda sombria pausando no movimento. ‘Pai… isso parece perigoso,’ ela advertiu mentalmente.
'Eu sei,’ Noel respondeu silenciosamente.
Ele se inclinou um pouco mais, a urgência escorrendo em sua voz.
“Charlotte… se você contar demais, se passar do que planejamos—”
“Eu sei,” ela interrompeu, cortando suavemente o aviso dele. “Mas não vou mentir para ele. Não sobre isso.”
Seus olhos dourados se ergueram, brilhando com algo entre medo e determinação.
“Eu tenho que dizer, Noel. Tenho que contar a verdade sobre o que realmente aconteceu.”
Antes que ele pudesse detê-la —
antes que pudesse argumentar, implorar ou lembrá-la do perigo —
Charlotte se endireitou na cadeira.
Ela virou para encarar Orthran de frente.
Seu semblante permaneceu firme.
Sua determinação, inabalável.
A respiração de Noel congelou.
Ele soube, naquele instante, que Charlotte estava prestes a quebrar a única regra que haviam jurado seguir.
Charlotte ergueu a cabeça.
Orthran levantou os olhos para encontrá-la, e por um momento os três simplesmente respiraram na mesma pesada quietude — aquele silêncio que antecede uma lâmina caindo.
Então Charlotte falou.
Lentamente. Com cuidado. Mas com uma profundidade que apertou o peito de Noel.
"Vovô," começou ela, sua voz suave, porém firme, "as pessoas acreditam que nosso deus foi traído por corrupção… ou por trevas… ou por algum mal invisível."
Orthran assentiu com força. "São histórias passadas de geração em geração, sim."
Charlotte inspirou fundo. A chama da vela entre eles tremeu, como se percebesse sua intenção.
"Mas a verdade… não é tão simples assim," ela disse em voz baixa. "Elarin não foi traído pelo mal. Ele foi selado. E não por um monstro. Não por um inimigo antigo."
Orthran franziu as sobrancelhas.
Seu fôlego deu uma pausa quase imperceptível.
"Selado…?” Ele se inclinou para frente. “Por quem?”
Noel sentiu o estômago se contorcer. Tentou intervir — suavemente, com cuidado.
“Charlotte, podemos explicar isso sem—”
Mas Charlotte manteve sua fala.
“Pelo irmão dele.”
Noel fechou os olhos.
Orthran ficou imóvel. Seus dedos, que estavam entrelaçados pouco antes, lentamente se soltaram.
“...O irmão dele,” repetiu. “Quer dizer… as histórias eram incompletas? Que Elarin tinha um irmão?”
Charlotte assentiu lentamente.
“Sim.”
A voz de Orthran tremeu.
“Não temos registro disso. Nenhuma escritura sequer sugere—”
“Porque foi oculto,” interrompeu Charlotte suavemente. “Porque a verdade era perigosa demais.”
Orthran olhou para ela com os olhos arregalados.
“Perigoso como?”
Charlotte hesitou — apenas um instante — mas foi o suficiente para Noel sentir um calafrio percorrer seu corpo como fumaça fria.
'Charlotte, pare.' Ele segurou discretamente seu joelho sob a mesa.
Mas Charlotte continuou falando, suas palavras deliberadas na forma — e não no peso.
“Aquele que o selou… cuidou dele profundamente,” ela disse. “Ele não foi corrompido. Seu amor não se virou para algo sombrio.”
Orthran piscou, surpreso com a correção súbita.
Charlotte prosseguiu, sua voz suave, porém cortante com a verdade:
“Ele selou Elarin porque Elarin estava se perdendo. Porque ele começava a ficar instável… perigoso. Porque o mundo estava em risco.”
Orthran congelou.
“Instável…?” ele sussurrou.
Charlotte assentiu.
“Sim. Elarin não era mal. Não era malicioso. Mas o poder que carregava — a pressão sob a qual vivia — começou a quebrá-lo. E se Noctis não tivesse atuado… Elarin teria destruído tudo sem perceber.”
A mão de Orthran cobriu a boca, a respiração tremendo.
“Então o irmão não o traiu,” ele sussurrou. “Ele tentou salvar o mundo… e talvez até salvar Elarin de si mesmo.”
A voz de Charlotte ficou ainda mais suave.
“Sim. Foi um ato de amor… mas também de necessidade. Ele não queria fazer isso. Isso o quebrou. Mas ele fez porque não tinha outra saída.”
Noel observou Orthran encolher-se, como se o peso desse conhecimento lhe pressionasse séculos nos ombros.
E Charlotte terminou em silêncio:
“Noctis selou Elarin… para proteger o mundo. E para poupar seu irmão de se tornar aquilo que nunca quis ser.”
Silêncio.
Um silêncio tão profundo que parecia ecoar dentro das paredes de pedra.
Orthran não falou inicialmente. Suas mãos tremiam na mesa.
Quando finalmente falou, sua voz saiu crua — sem autoridade, sem calma, apenas carregada de dor.
“...Por toda a minha vida,” ele sussurrou, “ensinei aos fiéis que Elarin desapareceu lutando contra um mal antigo. Que ele caiu numa batalha final gloriosa para proteger a humanidade.”
Charlotte abaixou o olhar, ouvindo.
O fôlego de Orthran tremeu.
“E a história que se espalhou por gerações…” Sua voz caiu ainda mais. “…era que ele foi morto por outro deus. Uma entidade de poder igual. Alguém que se virou contra ele na última hora.”
Ele balançou a cabeça lentamente, a desesperança marcando cada linha de seu rosto.
“Mas as escrituras nunca nomearam esse deus. Sempre ficou como uma sombra — um traidor sem nome.” Seus dedos se fecharam sem esperança. “E eu contei essa história a milhares de pessoas. Ano após ano. Cerimônia após cerimônia.”
Ele olhou para a lamparina na mesa como se fosse uma lápide.
“Eu acreditei nela. Completamente. Ensinei que Elarin morreu um mártir, morto por uma força das trevas. Nunca imaginei…” Sua voz quebrou. “…que a verdade fosse muito diferente da lenda.”
Charlotte se aproximou, seus olhos dourados suavizados por compaixão.
“Você não mentiu,” ela murmurou. “Você carregou apenas a versão que o mundo pôde suportar.”
Orthran fechou os olhos com força, sua expressão contorcida pela angústia.
“Mas eu transmovi uma história de areia,” ele sussurrou. “Uma morte que não foi verdadeira. Um assassino que nunca existiu. Um vilão inventado porque a verdade era pesada demais…”
Ele pressionou uma mão sobre o coração.
“…e eu espalhei essa ilusão.”
A respiração de Orthran ficou irregular, seus dedos tremerem sobre a mesa de madeira enquanto a verdade reconstruía tudo que ele acreditava.
Mas antes que o desespero o consumisse completamente—
Noel falou.
“Orthran… você está enganado em uma coisa.”
Orthran levantou os olhos, vazio e ferido.
Noel continuou.
“Seus ensinamentos não eram todos baseados na areia. Nada disso.”
Charlotte olhou para Noel, surpresa — ela não esperava que ele falasse agora, depois de tudo que ela tinha revelado.
Ele se endireitou, sua voz ficando mais firme.
“Elarin era bom. Verdadeiramente. Era gentil, compassivo… um protetor. Tudo que você ensinou, de que ele era a luz guia da humanidade — isso era real.”
Orthran piscou, a respiração presa.
“E as histórias,” continuou Noel, “sobre ele ajudando os primeiros humanos… também não eram mitos. Ele foi o primeiro a tocar mana. O primeiro a compartilhá-la. O primeiro a ensinar outros a usá-la.”
Orthran começou a relaxar lentamente, buscando esperança.
“Ele moldou o mundo. Tornou-o mais seguro. Elevou civilizações inteiras com as próprias mãos.”
Charlotte assentiu suavemente ao lado.
Orthran sussurrou, com a voz tremendo:
“Então a essência da nossa doutrina… ainda é verdadeira.”
“Sim,” disse Noel. “A maior parte dela, sim.”
Orthran engoliu em seco, a tensão nos ombros aliviando um pouco—até que Noel acrescentou novamente.
“Mas algo mudou quando Elarin atingiu o Rank de Manacode.”
Orthran se endireitou imediatamente.
Noel continuou, calmo e deliberado:
“Sua mente… quebrou.”
A lamparina piscou, lançando sombras longas na sala.
“Não foi corrupção,” explicou Noel. “Não foi trevas. Foi pressão. Poder. Visão. Algo que ele viu — ou sentiu — o despedaçou.”
Orthran se inclinou mais para frente, a respiração curta.
“E quando sua mente quebrou,” disse Noel baixinho, “ele mudou. Ele não era mais o mesmo deus.”
Orthran finalmente encontrou sua voz.
“Como você sabe disso, Noel?”
A sala parou.
Noir parou de mexer sob a mesa.
A respiração de Charlotte se estabilizou.
E Noel respondeu com calma e sinceridade:
“…Porque Noctis me contou.”
O rosto de Orthran ficou pálido.
“V–ocê… falou com ele?”
Noel confirmou com um aceno.
“Sim. Uma vez.”
Charlotte colocou a mão sobre o peito, tentando manter o equilíbrio enquanto Orthran se levantava, o choque refletido em sua expressão.
“Você conheceu o irmão de Elarin…” Orthran sussurrou. “Aquele que o selou… aquele que as escrituras apenas sugerem às sombras… você falou com ele?”
“Sim,” disse Noel. “Eu ouvi. E, quer eu goste ou não… aprendi o que realmente aconteceu.”
Orthran caiu na cadeira, como se as pernas o tivessem abandonado.
Noel continuou suavemente:
“Nãoctis não selou Elarin por ódio. Ele o amava. Tentou pará-lo. Mas a mente de Elarin se fora — e o mundo estava em perigo.”
O silêncio se aprofundou — profundo, tremendo, sufocante.
Então…
Charlotte avançou.
Sua voz firme.
“Vovô… não podemos deixar as pessoas descobrirem a verdade real. Não assim. Elas se destruiriam. Perderiam a esperança — e a fé às vezes é a única coisa que mantém o mundo de pé.”
Orthran levantou os olhos para ela, atordoado.
Charlotte continuou:
“Precisamos mudar a doutrina. Ajustá-la para proteger os fiéis — não destruí-los.”
Ela colocou a mão na mesa, inclinando-se levemente para frente.
“Não podemos revelar a verdadeira história. Mas podemos dar uma versão que seja segura. Uma que honre o que era verdadeiro… e proteja o que deve permanecer oculto.”
Noel concordou ao lado dela.
“E dessa vez,” ele acrescentou silenciosamente, “a Igreja não ensinará mentiras. Apenas uma versão da verdade que as pessoas possam suportar.”
Orthran não respondeu.
Ele apenas os olhou — surpreso, dilacerado, ouvindo com cada fibra do seu ser… porque não tinha escolha a não ser ouvir.