
Capítulo 442
O Extra é um Gênio!?
O silêncio se acumulava no escritório pouco iluminado, pesado e sem fôlego.
Orthran permanecia perfeitamente imóvel, mãos entrelaçadas tão firmemente que suas knuckles ficaram brancas. Seus olhos fixavam-se em Charlotte e Noel—dois jovens que agora carregavam uma verdade mais pesada do que qualquer coisa que ele tivesse suportado em décadas de serviço.
E então sua voz quebrou o silêncio.
"Se não for a verdade que conhecíamos," ele sussurrou, cada palavra tremendo, "então o quê? No que os fiéis devem acreditar agora?"
Charlotte respirou suavemente.
Noel percebeu suas mãos se apertarem no colo sob a mesa, e discretamente passou os dedos de leve contra os dela, em sinal de apoio.
Orthran inclinou-se para frente, olhos buscando—implorando.
"Vocês dizem que não podemos revelar toda a verdade. Que não podemos continuar a mentira," ele murmurou. "Então me diga... o que ainda resta? O que devo dizer aos anciãos, aos sacerdotes, às crianças que rezam todas as noites? Como conduzo pessoas que de repente não têm mais chão sob os pés?"
Sua voz quebrou na última palavra.
Charlotte engoliu em seco, o coração apertando dolorosamente. Ela nunca tinha visto seu avô parecer tão pequeno. Mas agora, sentado na meia-luz de uma lanterna, ele parecia um homem diante de um abismo.
Ela forçou sua voz a ficar firme.
"Vô… vou explicar tudo. Tudo o que tenho pensado. Mas primeiro você precisa saber de uma coisa."
Orthran esperou, respiração tensa.
Charlotte continuou, suave, mas inexorável:
"A verdade que descobrimos… é demasiado grande. Se a compartilhássemos com o mundo exatamente como é, eles seriam esmagados. As pessoas perderiam a esperança. A fé colapsaria. E o desespero se espalharia mais rápido do que a corrupção jamais conseguiu."
Noel assentiu silenciosamente ao lado dela.
Os ombros de Orthran desabaram, o sofrimento aprofundando as linhas no seu rosto.
"Então me diga," ele sussurrou. "Como podemos manter a esperança deles quando a base foi uma mentira?"
A expressão de Charlotte suavizou—gentil, resoluta.
"Nem tudo foi mentira," ela disse. "E o que era verdade… é aquilo que vamos preservar."
Orthran olhou para cima, com atenção renovada.
"O que você quer dizer?"
Charlotte cruzou as mãos na mesa, inclinando-se um pouco para frente.
"Não podemos conservar toda a doutrina," ela admitiu. "Mas podemos preservar aquilo que importa. Aquilo que inspirou as pessoas. Aquilo que as ajudou a viver vidas melhores. Aquilo que foi real, mesmo depois que a história distorceu."
Noel os observava silenciosamente, a tensão se acumulando lentamente no peito.
Isso não era mais apenas contar a verdade.
Era partir e reconstruir a fé de um continente inteiro.
Charlotte respirou mais uma vez, reunindo coragem.
"Vou explicar minha ideia," ela disse suavemente. "Como reconstruir a doutrina para que ela proteja os fiéis, ao invés de destruí-los."
Orthran fechou os olhos por um breve momento—depois assentiu.
"Então fale, criança," ele murmurou. "Estou ouvindo."
"Primeiro… preservamos todas as partes da história que eram verdade. As partes que as pessoas amam. As partes que lhes deram esperança."
Ela levantou um dedo.
"Elarin foi bom."
Outro dedo.
"Ele ajudou a humanidade quando ela enfrentava dificuldades."
Outro.
"Ele trouxe mana ao mundo e ensinou as pessoas a usá-la com segurança."
E mais um.
"Ele protegeu o mundo mais vezes do que a história sequer lembra."
A garganta de Orthran apertou, mas ele permaneceu em silêncio.
A voz de Charlotte mudou—mais gentil, mas mais firme.
"Mas retiramos tudo aquilo que pode destruir as pessoas."
Olhou diretamente para ele.
"Não dizemos que ele ficou louco."
"Não dizemos que ele foi selado."
"Não dizemos que foi traído ou impedido por outro deus."
"E absolutamente não mencionamos um colapso divino."
A respiração de Orthran ficou presa.
Noel também percebeu a mudança—o medo que surgia nos olhos envelhecidos do velho.
Charlotte prosseguiu, calma e firme.
"Em vez disso," ela disse, "nós oferecemos a eles uma verdade que possam aceitar."
Orthran sussurrou, "E qual é essa verdade?"
Charlotte respirou fundo.
"…É sobre Noctis," ela murmurou baixinho.
Noel sentiu um calafrio — Orthran pronunciara o nome com reverência e horror, como se invocasse um capítulo proibido de escrituras.
Orthran recostou-se, exalando com tremor.
"Sempre suspeitei que a história apagava mais do que revelava," disse. "Noctis… sua existência só foi sussurrada uma vez nos registros mais profundos. Um irmão… um protetor nas sombras. Mas nada mais. Sem detalhes. Apenas fragmentos."
O olhar de Charlotte suavizou-se.
"Então, agora, damos ao mundo a verdade que eles podem aceitar."
Orthran engoliu em seco, ouvindo com atenção rígida.
Charlotte prosseguiu:
"A batalha final, aquela que dizem que Elarin morreu lutando contra 'algo mau'—não foi o que eles pensam."
Ela continuou suavemente:
"Não contamos que Elarin perdeu o controle. Ou que seu poder o levou além da sanidade."
Sua voz suavizou ainda mais.
"Porque o mundo nunca soube de nada disso. Para eles… Elarin simplesmente desapareceu."
A respiração de Orthran ficou presa; uma expiração profunda, tensa.
Charlotte inclinou-se um pouco mais perto, falando com clareza cuidadosa:
"Portanto, ao invés de dizer que ele 'caiu' ou 'quebrou', enquadramos a verdade de uma forma que o povo possa aceitar. Dizemos que seu corpo não suportou a quantidade de mana que carregava. Que sua divindade atingiu um limite que nenhum ser deveria ultrapassar."'
Orthran assentiu lentamente—compreendendo agora, embora ainda sem concordar plenamente.
"…Um overload," ele murmurou. "Um esforço que ele suportou sozinho… até seu corpo não aguentar mais."
Charlotte afirmou com a cabeça.
"Sim. Uma colisão causada por poder demais, responsabilidade demais."
Justamente… consequência de tentar salvar demasiadas pessoas."
O rosto de Orthran se contorceu, a dor marcando sua expressão.
"E, como o mundo só sabe que ele desapareceu," Charlotte prosseguiu, "nosso credo simplesmente preenche a lacuna: que no momento do desaparecimento, ele escolheu proteger o mundo uma última vez."
A respiração de Orthran ainda estava irregular, os dedos tremendo levemente contra a mesa de madeira. A luz da vela tremeluzia em seu rosto, revelando uma mistura de tristeza, entendimento crescente… e algo como medo.
Charlotte observou-o em silêncio por um momento.
Depois, inspirou mais uma vez—mais profundo, mais firme.
"Há mais uma mudança que quero fazer," ela disse suavemente.
Noel virou a cabeça em direção a ela.
Orthran levantou os olhos.
Charlotte prosseguiu:
"Se apenas recontarmos os momentos finais de Elarin, não estaremos consertando a doutrina. Só estaremos remendando."
Sua voz tornou-se mais firme.
"Quero reconstruir toda a fundação. E, para isso… precisamos incluir Noctis na história."
Orthran congelou.
Noel sentiu seu coração apertar.
Charlotte continuou, firme:
"O mundo acredita que Elarin caminhava sozinho. Que todos os milagres, cada ato de proteção, cada descoberta foi feito com uma divindade solitária."
Ela balançou a cabeça suavemente.
"Isso nunca foi verdade."
Os lábios de Orthran se abriram. Ele não interrompeu.
Charlotte colocou uma mão suavemente sobre o coração.
"Desde o momento em que Elarin descobriu o mana… Noctis estava lá."
Sua voz ficou um pouco mais forte.
"Quando Elarin aprendeu a moldá-lo, Noctis aprendeu ao seu lado."
"Quando Elarin ajudou a primeira pessoa no mundo—não importando sua raça—Noctis foi quem o incentivou."
"Quando Elarin curou os feridos, Noctis os carregava até ele."
"Quando Elarin enfrentou terrores surgidos das primeiras tempestades de mana… Noctis esteve ao seu lado."
Orthran engoliu em seco, a verdade o abalando silenciosamente.
Charlotte parecia decidida agora—devotada, convicta.
"Elarin foi brilhante. Elarin foi extraordinário. Mas nunca esteve sozinho. Sua lenda é incompleta sem aquele que caminhou ao seu lado desde o começo."
Noel sentiu uma ponta de orgulho crescer no peito—Charlotte não estava apenas reescrevendo doutrina.
Ela estava reconstruindo toda uma fé.
"E quero que o povo saiba disso," ela disse. "Quero que eles aprendam que força de verdade não é algo solitário. Que os milagres que eles prezam não vêm de um ser perfeito sozinho… mas de dois irmãos que acreditaram no mundo juntos."
Orthran lentamente baixou as mãos do rosto.
"…Você quer tornar Noctis uma figura central," ele sussurrou, com a voz rouca. "Um cofundador da nossa crença. Um deus de força silenciosa… o protetor oculto."
Charlotte assentiu. "Sim. Porque ele foi."
"Mas se fizermos isso," Orthran falou vacilante, "vamos reescrever séculos. Cada escritura. Cada hino. Cada oração ensinada às crianças…"
Charlotte encarou-o com determinação calma.
"Vô… o mundo precisa de uma fé baseada na verdade, não na perfeição."
"Uma fé que ensina que até mesmo os deuses precisaram de alguém ao lado."
Charlotte concluiu, com voz gentil, mas inabalável:
"Elarin não construiu o mundo sozinho. E aqueles que o seguem também não devem. Que os fiéis aprendam que parceria, compaixão e força compartilhada sempre foram a base de tudo, desde o começo."
Orthran ficou em silêncio por um longo momento, seu olhar fixo na vela que tremulava, enquanto as implicações de tudo que Charlotte dissera giravam na sua mente como uma tempestade.
Então, muito lentamente, ergueu os olhos.
"E se perguntarem," ele murmurou, a voz frágil, mas firme, "onde está esse irmão agora…? O que aconteceu com ele? Por que não entrou na luz depois que Elarin desapareceu?"
A pergunta pairou no ar, pesada e inevitável.
Charlotte não hesitou.
"Noctis salvou o mundo," ela disse suavemente. "Ele salvou seu irmão… e salvou todos nós."
A respiração de Orthran tremeu.
Charlotte prosseguiu com precisão cautelosa:
"Contamos que, quando Elarin enfrentou a calamidade final, Noctis esteve ao seu lado. E, no momento decisivo… Noctis executou o ato final que preservou o mundo."
Seus olhos, brilhando de ternura—pelo que era verdade, e pela mentira que a envolvia.
"Não é falso," ela sussurrou. "Ele realmente o salvou. Mesmo que o mundo nunca conheça o verdadeiro significado."
Orthran fechou os olhos por um momento, absorvendo tanto a verdade quanto a sua versão mais segura.
Depois:
"Então, digamos," ele murmurou, "que os dois irmãos protegeram o mundo juntos… mas, nesses momentos finais, foi Noctis quem agiu?"
"Exatamente," disse Noel antes que Charlotte pudesse responder.
Ambos olharam para ele.
Noel inclinou-se um pouco, com voz calma, segura, deliberada.
"Pense assim: Elarin e Noctis são ambos protagonistas dessa história. Ambos moldaram o mundo. Ambos trouxeram esperança. Ambos salvaram vidas."
Ele fez uma pausa.
"Mas, se destacarmos o ato final de Noctis… se fizermos dele quem garantiu que o mundo sobrevivesse quando o fardo de Elarin ficou grande demais… ele se torna a pedra angular da nova doutrina."
Orthran respirou lentamente.
"…E assim podemos preservar o legado de Elarin sem mentir."
Noel assentiu.
"É uma meia-verdade," ele admitiu abertamente. "Mas uma meia-verdade é melhor do que uma vida construída em mal-entendidos completos."
Olhou para as próprias mãos por um momento.
"Apenas algumas pessoas nesse mundo sabem o que realmente aconteceu. Você, Charlotte, eu… e um punhado de outros."
Sua voz ficou mais suave, carregada de responsabilidade.
"E teremos que conviver com isso."
A expressão de Orthran se fechou—mas ele assentiu.
Noel continuou:
"Mas, talvez, um dia… quem sabe não tão longe daqui… possamos contar toda a verdade. A verdadeira verdade. Quando o mundo estiver pronto."
Noel não estava falando de doutrina.
Ele não estava falando de fé ou escrituras.
Ele quis dizer:
"Quando derrotarmos o Segundo Pilar."
"Quando vencermos o Primeiro."
"Quando o mundo não estiver mais na borda."
A voz de Charlotte suavizou com essa compreensão.
"Sim," ela sussurrou. "Um dia. Quando o perigo passar… quando o mundo puder suportar."
Orthran olhou entre eles—surpreso, assustado, mas também cheio de uma esperança frágil, emergente.
"…Então vamos construir uma doutrina que possa resistir até esse dia."
Orthran esfregou a testa com uma mão trêmula, como se séculos de doutrina pesassem diretamente sobre seu crânio. A vela entre eles queimava até metade, cera escorrendo como lágrimas lentas.
Quando finalmente falou, sua voz saiu despojada.
"Isso… não será fácil."
Charlotte e Noel trocaram olhares rápidos—não de surpresa, mas de reconhecimento. Eles sabiam.
Orthran continuou, olhando a granulação da madeira da mesa como se estivesse lendo o futuro ali.
"Sou o Sumo Pontífice," ele murmurou. "E Charlotte… você é a Santa desta geração. Nossa influência é maior que de qualquer clérigo ou monarca."
Ele levantou os olhos para eles—cansado, sábio, dolorosamente ciente.
"Mas mesmo com nossas posições… mesmo que todos os Cardeais se curvassem a essa nova doutrina sem questionar… não há centenas de fiéis."
Sua voz baixou a um sussurro.
"Não há milhares."
Uma pausa.
"Há milhões."
A palavra pairou no ar como uma pedra caindo.
Noel sentiu Charlotte ficar imóvel ao seu lado.
Orthran se inclinou para frente, mãos entrelaçadas com força.
"Milhões de fiéis. Milhões que viveram suas vidas acreditando em uma única história—uma história mais antiga que impérios. Uma história que seus pais acreditaram, e seus avós antes deles. Mudar a doutrina não é apenas uma questão política."
Seu fôlego tremeu.
"É invasivo. Penetra na alma. Muitos resistirão. Outros rejeitarão. E, se feito de forma ruim… toda a Igreja poderá ruir."
Charlotte engoliu suavemente, mas sua determinação não vacilou.
"Não podemos deixar isso acontecer," ela sussurrou.
"E não acontecerá," disse Orthran, embora a incerteza atravessasse sua voz. "Mas precisamos de um plano. Devemos decidir em quais cidades isso será divulgado primeiro. Quais sermões mudarão silenciosamente. Quais hinos serão reescritos antes do anúncio. Quem pode ser confiável para espalhar essa nova base… e quem deve ser vigiado."
Ele exalou com força—um homem se preparando para a guerra.
"E acima de tudo… devemos agir rapidamente."
O coração de Noel desacelerou, depois acelerou novamente.
Rápido.
De repente, sentiu um sussurro frio, metálico, roçar a borda de sua consciência:
[ Missão ]
Não deixe a Santa Igreja cair no desespero.
Tempo restante: 20 dias.
Noel não hesitou, mas os números se marcaram na sua mente como uma contagem regressiva para o desastre.
Vinte dias.
Vinte dias para reestruturar uma religião.
Vinte dias para moldar a fundação espiritual de milhões.
Vinte dias para evitar o caos, a revolta ou o colapso.
E Orthran não sabia. Ele não poderia saber. Nenhum poderia, exceto Noel… e as mulheres que confiaram suas vidas a ele.
Noel respirou lentamente, mascarando a pressão que se acumulava sob suas costelas.
"Faremos um plano," ele disse calmamente, embora o peso interior triplicasse. "E o seguiremos passo a passo. Nada apressado. Nada imprudente."
Orthran assentiu, aliviado pelo tom firme de Noel.
A mão de Charlotte tocou levemente a de Noel sob a mesa—aquela carícia silenciosa, de quem conhece bem.
Mas então ela inspirou…
e endireitou a postura.
"Acho," ela disse suavemente, "que precisarei retornar ao meu cargo de Santa um pouco mais cedo do que planejava."
Noel piscou. Ele tinha acabado de dizer: "Nada apressado ou imprudente."
Charlotte sorriu timidamente.
"Noel… também quero ficar mais tempo na academia. Amo lá. Mas…"
Ela colocou a mão sobre o coração. "…Também tenho um dever com o mundo. E acho que é hora."
Noel abriu a boca—mas Charlotte levantou um dedo.
"E não pense que isso significa que vou te deixar," ela acrescentou com um bocadinho de biquinho. "De jeito nenhum. Você vai ter que arranjar tempo para me visitar." Ela fez uma pausa… e depois sorriu mais brilhante. "Ou, na verdade… talvez eu possa chegar a um acordo com o Vô para morar na cidade de Valon. Assim, você me teria bem ao seu lado."
Noel ficou sem palavras.
Incrédulo.
Ele não estava acostumado a nenhuma namorada tomar decisões daquela maneira tão casual—e, ainda assim, ele confiava nelas mais do que em qualquer coisa.
"…Você tem certeza?" ele perguntou baixinho.
Charlotte assentiu, olhos dourados firmes.
"Claro."
Noel respirou fundo, um sorriso suave surgindo.
"Isso aumenta muito nossas chances."
Orthran, que permanecera em silêncio por respeito, finalmente falou—olhos gentis, com preocupação carregada na voz.
"Charlotte… você tem certeza disso? Podemos encontrar outro caminho. Ainda há tempo de aproveitar sua juventude antes—"
"Vô," Charlotte o interrompeu com um sorriso caloroso, "quando eu oficialmente voltar a ser Santa, farei umas mudanças."
Orthran piscou.
Charlotte inclinou a cabeça, brincando.
"As regras que a Santa precisa seguir estão um pouco defasadas, não acha? Acho que alguém precisa arrumar isso."
Orthran a olhou por meio segundo…
E então riu—uma risada suave, cansada, verdadeiramente orgulhosa.
"Talvez você esteja certa," ele disse. "Parece que nossa geração é a que está defasada."