
Capítulo 443
O Extra é um Gênio!?
A manhã seguinte chegou com um peso que parecia pressionar a Capital Santa, como uma tempestade prestes a desabar.
A Grande Catedral já estava viva.
Do aposento nos fundos, atrás da nave principal — uma sala alta e abobadada, com pilares de pedra-mana esculpidos — Noel ouvia o eco de passos, vozes e os sinos ao longe que começavam a tocar ao amanhecer.
Clangor.
Clangor.
Clangor.
Cada batida soava como um anúncio ao mundo:
O Santo retornou.
Charlotte estava próxima a uma das altas janelas de vitrais, as cores suaves pintando seus cabelos com tons de ouro e rosa. Ela vestia seu uniforme formal de Santa — branco com detalhes prateados, bordado com fios de rosa pastel que brilhavam suavemente com mana sagrada. Eram simbólicos, majestosos… e pesados.
Noel observava enquanto ela ajustava as mangas com concentração silenciosa.
"Está bem?" perguntou suavemente.
Charlotte exalou, a respiração levemente trêmula. "Não sei se ‘bem’ é a palavra certa."
Ela se virou para ele com um pequeno sorriso — nervosa, mas sincera.
"Ontem trocamos o credo numa sala de inicio de corredor… e hoje estou anunciando meu retorno para o mundo inteiro."
Noel deu uma risadinha suave. "Bem-vinda à política."
Charlotte inflou as bochechas numa pequena expressão de reproche. "Eu prefiro curar crianças."
Noel deu um passo mais perto, ajustando o pequeno laço atrás do colar dela. "Vai dar conta."
Um toque na porta soou, ecoando na sala.
Um jovem clerigo espiou, ofegante.
"Santa Charlotte — a nave principal está se enchendo rapidamente. Pessoas de todos os distritos chegaram assim que ouviram os sinos."
Charlotte piscou surpresa. "Já?"
"Já," confirmou o clerigo. "Tem multidões chegando ao pátio externo. Algumas estão chorando. Outras trouxeram oferendas. E o coral já está se aquecendo."
Noel levantou uma sobrancelha. "Isso… rápido."
Orthran entrou na sala pelos fundos, com os trajes fluindo com autoridade. Sua expressão era séria, mas os olhos suavizaram ao ver Charlotte.
"A cidade esperou por uma Santa que lidera com compaixão," disse calmamente. "Eles vão ouvir você."
Charlotte inspirou fundo, se equilibrando. "Espero que sim."
Orthran deu um passo à frente, colocando a mão no ombro dela.
"Hoje, anunciamos seu retorno. Mas lembre-se — você define o tom de toda a crença que virá a seguir. Fale com honestidade, Charlotte. Com convicção. Você escolheu um caminho difícil… agora, caminhe sem medo."
Noel viu seus ombros se erguendo, seus olhos dourados focando com nova determinação.
Fora, os sinos tocaram outra onda de ressonância — mais alto, mais profunda, balançando os vitrais.
Charlotte sussurrou: "Eles estão esperando."
Noel assentiu, oferecendo sua mão sem hesitar.
Ela a tomou.
Juntos, caminharam em direção às portas duplas que levavam à nave principal — onde milhares aguardavam e a história iria mudar.
Quando as pesadas portas duplas se abriram, o som que os recebeu não foi caótico — mas reverente.
Trajes varrendo o mármore.
Sussurros ecoando sob os abóbadas.
E então… um silêncio profundo, uníssono.
A Grande Catedral estava cheia até a capacidade.
Fileiras de sacerdotes de branco e ouro alinhados de cada lado da nave.
Irmãs de roupas pálidas ajoelhadas, com as mãos juntas em oração.
Jovens acólitos nas primeiras filas, com olhos arregalados de admiração.
Vários grupos de órfãos — bem vestidos e guiados por tutores — sentados em silêncio, com a excitação quase estampada nos rostos.
Esse era o coração da Igreja. Terra sagrada. Sem comerciantes. Sem cidadãos comuns. Sem viajantes de passagem. Apenas os fiéis e devotos.
Charlotte entrou lentamente, com Noel à sua direita e Orthran à sua esquerda.
O coral interrompeu o canto no meio do hino. Uma milhar de cabeças se curvou ao mesmo tempo.
"Santa Charlotte…" alguém sussurrou com reverência trêmula.
"Ela voltou…"
O espaço parecia diferente com ela ali — mais brilhante, quase mais quente.
A luz do sol através do domo de vitrais espalhava faixas de cor pelo chão, refletindo suas vestes e dispersando rosa e prateado ao redor dela, como chamas suaves.
Noel percebeu que ela estava nervosa ao notar o leve tensionar de seus dedos… mas ela não demonstrava na expressão.
Ela caminhou até o púlpito central — um altar elevado de pedra antiga — e apoiou as mãos na borda. O olhar dela percorreu a nave:
Para os sacerdotes em postura rígida.
As irmãs retendo a respiração.
Os acólitos inclinados para frente, com admiração reluzente.
Crianças olhando como se fosse uma história viva.
E Noel, observando à margem, um orgulho apertando o peito.
A voz de Charlotte elevou-se ao espaço sagrado:
"Obrigada… por se reunirem aqui hoje."
Tudo ficou em silêncio.
"Retorno não apenas como Santa… mas como alguém que acredita profundamente nesta Igreja e nas pessoas que a servem."
O salão ouviu como se estivesse enfeitiçado.
"Nosso mundo muda. O mana muda. A forma como vivemos muda. E nossa fé… também precisa mudar."
Uma onda de choque percorreu o povo.
Sussurros.
Até algumas sobrancelhas levantadas.
Charlotte não hesitou.
"A Igreja seguiu tradições há séculos. Muitas são preciosas. Muitas devem ser protegidas. Mas algumas já não refletem mais o mundo que orientamos."
Ela respirou, com firmeza.
"E eu pretendo mudar isso."
Suspiros perceptíveis cortaram o silêncio.
"Vou revisar as regras que um Santa deve seguir. Revisarei as tradições que já não servem aos fiéis. E atualizarei partes do nosso credo para guiar esta era — não a passada."
Acólitos trocaram olhares empolgados.
Várias irmãs assentiram suavemente, aprovando.
Padres mais velhos se endireitaram, os olhos se estreitando.
Charlotte prosseguiu, firme:
"Não pretendo liderar por medo ou hábito. Liderarei com verdade, compaixão e determinação. Nossa Igreja não deve ser uma relíquia… deve ser uma luz."
O ambiente parecia elétrico — carregado de esperança e tensão.
Noel soltou o ar lentamente.
Por um instante, a Catedral reteve a respiração.
Então—
um som agudo e raspando cortou o silêncio.
Uma cadeira sendo empurrada para trás.
Um sacerdote mais velho — alto, magro, com olhos fundos e uma túnica com bordas de prata — saiu de sua fila. Sua expressão não era de raiva… mas de ferimento. Como se as palavras de Charlotte tivessem atingido algo sagrado dentro dele.
"Santa Charlotte," ele disse, com a voz reverberando pelo espaço abobadado, "o que você propõe… beira a heresia."
O olhar de Charlotte não vacilou. "Pai Rhedon, nada do que eu disse contradiz o coração da nossa fé."
"Isso," ele disse de forma aguda, "é exatamente o que me preocupa."
Mais dois sacerdotes avançaram por trás dele.
Depois, quatro.
Uma pequena facção se formando em tempo real.
Rhedon apontou para o púlpito com uma mão tremendo.
"Nosso credo resistiu por séculos. Guiamos nações. Sobrevivemos a guerras e calamidades. E agora você nos pede para mudar tudo numa manhã?"
Sua voz subiu, carregada de incredulidade:
"Mudar as regras da santidade? Alterar as próprias escrituras?"
Charlotte abriu a boca—
mas Noel se adiantou, com a voz calma e firme.
"Pai Rhedon. Ninguém está destruindo nada. Tudo que ela pede é que ouçamos—"
Rhedon o interrompeu imediatamente.
"Você não é clérigo, garoto."
A palavra caiu como um tapa na Catedral.
Noel não vacilou. Simplesmente se endireitou.
"Sei. Mas sou alguém que viu o que existe além dessas paredes. Alguém que lutou por esta Igreja mais do que a maioria que está aqui."
Ele pausou o suficiente para o eco se acalmar. "Você não precisa me ouvir. Mas, pelo menos, escute ela."
Alguns sacerdotes desviaram o olhar, desconfortáveis. Os órfãos assistiam com olhos grandes e incertos. Os lábios de Charlotte se abriram suavemente — surpresa, tocada.
Mas Rhedon apenas balançou a cabeça.
"Não. Não permitirei que a fundação da nossa fé seja remodelada por uma Santa que mal viveu uma década de serviço."
Um murmúrio de concordância percorreu os sacerdotes mais velhos.
Charlotte deu um passo à frente, com voz mais suave do que esperavam:
"Não estou pedindo para seguir cegamente, Pai. Peço que pense. Que veja o mundo como ele é agora. Para me ajudar a guiá-lo."
Mas Rhedon se curvou — rígido, frio, formal.
"Não posso."
Sem esperar permissão, virou-se e saiu. Cinco sacerdotes o acompanharam. Depois, mais dois. Suas vestes deslizaram pelo mármore com som cortante ao saírem.
Noel sentiu um peso no estômago.
'Não pode ser tão fácil… claro que não.'
Charlotte os observou partir, com expressão firme, mas por trás, carregada de sombras. Não zangada, nem com medo. Apenas… triste.
Orthran abaixou o olhar, com o peso da liderança sobre os ombros.
E a Catedral, antes unida, agora parecia dividida ao meio.
A primeira rachadura… de muitas vindouras.
As portas pesadas se fecharam com estrondo atrás dos sacerdotes saídos, e a Catedral mergulhou em um silêncio tenso, ecoante.
Charlotte respirou fundo, mais cansada do que gostaria de admitir.
Orthran colocou a mão sobre o peito, como para se estabilizar. "Os primeiros a sair," murmurou, "foram sempre aqueles mais rígidos na tradição."
Noel assentiu — mas seus olhos já vasculhavam o salão.
O ar parecia… mais pesado.
Um leve tremor passou por sua bota.
Noir.
Ela saiu debaixo do manto dele, com o pelo eriçado, levantando a cabeça para cheirar o ar.
Sua voz chegou como um sussurro na mente dele:
'Pai… cheiro de algo ruim.'
O pulso de Noel se apertou imediatamente.
Ele se ajoelhou meio passo, fingindo ajustar a bota para esconder a forma como sussurrou de volta:
'Tem certeza? A bênção mensal de Orthran deveria manter qualquer perigo afastado a quilômetros.'
A cauda de Noir balançou inquieta.
'Tenho certeza. Mas… é estranho. Não sinto um inimigo.'
Noel estreitou os olhos levemente.
'Nem uma presença.'
'Nem uma sensação.' Pausa — depois um pequeno ronco de preocupação. 'É como… um mau presságio. Uma coisa errada. Algo não está bem neste lugar, pai.'
O estômago de Noel contraíu.
Claro. Porque por que o sistema lhe daria uma missão de 30 dias para salvar a Igreja se a única ameaça fosse política?
Orthran se aproximou silencioso, com preocupação marcada nas rugas ao redor dos olhos.
"Noel?" Ele olhou para Noir. "Algo errado?"
Noel se endireitou. "Ainda é cedo para dizer."
Nosso maior cuidado seria necessário, mas Noir pulou para o ombro dele, como uma sombra vigilante.
Ela voltou a sussurrar na mente dele: 'Deveríamos procurar hoje à noite. Por favor? Como antes.'
O peito de Noel aqueceu um pouco com o pedido familiar.
Em voz baixa, disse suavemente: "Sim. Vamos procurar hoje à noite."
A cauda de Noir curvou-se feliz. 'Justo como nos velhos tempos, pai.'
Noel permitiu-se um pequeno sorriso. 'Sim… como nos velhos tempos.'
Mas seus pensamentos escureceram.
'Bênçãos ou não… algo conseguiu passar.'
'Ou então, já tem alguém aqui.'
No outro lado da nave, Charlotte finalizava um discurso para um grupo de irmãs mais novas, com expressão calma — mas Noel conhecia bem ela para perceber a tensão por trás.
Orthran se aproximou, colocando uma mão tranquilizadora no ombro dela.
Charlotte ofereceu um sorriso pequeno e reconfortante, mas apertou discretamente o tecido do manto. Ela estava firme pelo bem de todos — mas Noel via a tensão sob a superfície.
Um sino soou suavemente no fundo da Catedral, indicando o fim do encontro. Acólitos e irmãs começaram a se dispersar em murmúrios baixos, alguns olhando para Charlotte com admiração… outros, com desconfiança.
Noel se aproximou dela, Noir ainda no ombro como um guardião atento.
Os olhos de Charlotte suavizaram ao encontrarem os dele.
"Você se saiu bem," disse Noel em voz baixa.
Ela expirou, deixando a fachada escorregar por um instante. "Não esperava tanta resistência tão rápido."
Orthran apareceu ao lado, com as mãos cruzadas atrás das costas, ombros pesados, mas firmes.
"A resistência era inevitável," disse suavemente. "Mas você manteve-se firme, Charlotte. Eles vão seguir, mesmo que nem todos percebam ainda."
Charlotte assentiu, mas seus pensamentos claramente corriam. "Sabia que esse caminho seria difícil. Mas vê-los saindo assim… dói mais do que imaginei."
Noel tocou seu braço rapidamente — só um toque breve, mas suficiente para apoiá-la.
"Mudar o mundo dói antes de ajudar, sempre."
Ela lhe lançou um pequeno sorriso de gratidão.
Orthran olhou entre eles, com expressão quente mas pesando suas palavras. "Precisaremos de tempo. Dias, talvez semanas. Enviar mensagens. Garantir apoio. E Rhedon e aqueles que o seguiram não ficarão calados." Seus olhos escureceram. "Eles espalharão dúvidas."
"Um movimento contrária," murmurou Noel.
"Exatamente." Orthran fez uma pausa, acrescentando: "Mas temos o que eles não têm." Colocou a mão sobre o ombro de Charlotte. "Verdade. E a vontade de proteger os fiéis, não a instituição."
Os olhos de Charlotte brilharam um pouco mais — esperança reacendendo.
Mas Noir… Noir não relaxou.
Ela pressionou suavemente a cabeça contra o queixo de Noel, sussurrando na sua mente:
'Pai… o cheiro está ficando mais forte.'
O pulso de Noel se acelerou.
Charlotte percebeu imediatamente. "Noel? O que houve?"
Ele não mentiu. "Noir sente algo errado."
Orthran se endireitou num instante, alerta.
A expressão de Charlotte se afinou — não de medo, mas de foco. "Dentro da Catedral?"
"Ainda é difícil dizer," respondeu Noel. "Mas, seja o que for… está perto."
Orthran falou com tom mais baixo. "Então, esta noite, após as luzes se apagarem, começamos nossa investigação."
Charlotte assentiu sem hesitar. "Assim seja."
Mas Noel balançou a cabeça suavemente.
"Não," disse. "Vocês duas devem descansar esta noite."
Charlotte piscou, surpresa. "Descansar? Noel, isso nos envolve a todos—"
"Exatamente. Por isso mesmo," Noel interrompeu com gentileza, "vocês duas carregaram bastante hoje. E se for algo sério, for o que for… só vai piorar se se desgastarem assim."
Orthran franziu a testa. "Noel—"
"Deixe comigo hoje à noite," disse Noel com firmeza, mas de modo tranquilo. "Se acontecer algo, se eu encontrar qualquer coisa, venho direto falar com vocês. Prometo."
Charlotte hesitou, com preocupação nos olhos.
Noel se aproximou mais, baixando a voz só para ela.
"Descansar é importante. Você fez algo enorme hoje. Algo maior do que muitos conseguiriam. Precisa de um tempo para respirar."
Ela relaxou os ombros.
Orthran soltou um suspiro longo, cansado. "Você fala como se já tivesse decidido."
"Eu decidi," respondeu Noel. "Hoje à noite, deixo por minha conta. De tudo."
Noir assentiu orgulhosa do ombro dele, com a cauda balançando. 'O pai está certo. Estão exaustos.'
Noel olhou para ambos.
"Vão dormir um pouco. Se algo estiver errado, vou descobrir. E assim que souber, vou procurá-los."
Charlotte deu um sorriso caloroso e grato.
"…Ok," ela sussurrou. "Confiamos em você."
Orthran deu um lento aceno. "Muito bem. Mas tenham cuidado."
Noel conseguiu um sorriso suave.
"Sempre."