
Capítulo 444
O Extra é um Gênio!?
A noite caiu sobre a Capital Santa, com um brilho tênue de lampiões de mana brilhando ao longo das ruas distantes. A Catedral finalmente silenciou — sem passos, sem debates tensos, sem sussurros sobre doutrina. Apenas quietude.
Noel respirou lentamente ao prender o último fivela de sua armadura leve.
Não era equipamento de batalha — ele não queria alarmar ninguém — mas o suficiente para protegê-lo se algo desse errado.
Noir pulou na mesa ao seu lado, cauda enrouladaa de forma ordenada ao redor das patas.
"Você parece que vai pra guerra," ela disse, não com desdém, mas de forma brincalhona.
"Espero que não," respondeu Noel em tom baixo. "Mas… melhor prevenir do que remediar."
A sala era pouca iluminada, quase só por uma vela. As sombras dançavam nas paredes a cada pequeno movimento, e o silêncio parecia ainda mais espesso que o normal.
Noel verificou seus itens dentro da Bolsa Dimensional:
– Duas poções menores de cura
– Uma ampola de restauração de mana
– Um amuleto da sorte que Charlotte lhe deu "só por precaução"
E lá fora, a Presa do Espinho, presa ao seu quadril.
Ele fez uma pausa.
Charlotte.
Orthran.
Ambos dormindo em algum lugar da Catedral agora — exaustos de um dia que abalou os alicerces da fé deles e da próprio cidade.
Ele ainda ouvia a voz cansada e corajosa de Charlotte ecoando de mais cedo:
"Confiamos em você."
Ele fechou a mão ao redor do amuleto.
'Faltam dezenove dias,' lembrou-se. 'Dezenove dias para impedir que a Igreja colapse.'
Uma missão de que ninguém mais sequer tinha conhecimento.
Noir se espreguiçou, então pulou para o seu ombro, sua voz baixando para um sussurro.
'O cheiro está mais forte agora, Dad.'
"Mais forte como?"
'Mais nítido. Como se estivesse despertando.'
Noel sentiu um frio correr pela espinha.
"Então não era só estresse mais cedo…"
'Não.' Noir: orelhas achatadas. 'Algo está errado nesta cidade. Muito errado.'
Noel se aproximou de uma janela e a abriu um pouco. A Capital Santa jazia abaixo dele — silenciosa, mas com um brilho fraco sob a luz da lua. Um lugar que deveria ser o mais seguro de todo o continente.
"Não faz sentido," murmurou. "A bênção de Orthran, as runas de proteção… nada malicioso ou corrompido deveria conseguir entrar."
'Eu sei,' respondeu Noir. 'Isso é que me assusta.'
Noel fechou a janela suavemente e olhou ao redor do cômodo uma última vez.
"Vamos."
As garras de Noir clickaram suavemente em seu ombro enquanto ela se acomodava no lugar.
Juntos, entraram no corredor dim, a luz da vela tremendo atrás deles, enquanto a porta se fechava com um clique suave.
A busca noturna tinha começado.
Os corredores de pedra da Catedral estavam silenciosos neste horário — silêncio demais.
Normalmente, mesmo à noite, Noel ouvia murmúrios suaves das freiras em patrulha, orações distantes ocasionais ou o barulho suave de alguém cuidando de castiçais.
Hoje? Nada.
Nem mesmo o som suave habitual do mana fluindo pelas paredes.
A cauda de Noir se contorceu inquieta no ombro de Noel enquanto eles avançavam em direção ao pátio externo.
'Pai… o cheiro está puxando para o centro da cidade.'
"O centro?" Noel franziu o cenho. "Não as muralhas?"
'Não. Algo está errado dentro da cidade.'
Isso fazia ainda menos sentido.
Monstros, seres corrompidos, restos demoníacos — qualquer coisa perigosa — sempre tentava passar de fora, atingindo as runas protetoras ou tentando escapar da barreira.
Mas esse cheiro…
Vinha de dentro.
Passaram sob um arco que levava à praça principal da Capital Santa. Ladrilhos de mármore se estendiam pelo espaço aberto, brilhando suavemente sob a luz da lua refletida por centenas de superfícies polidas. Estátuas altas dos Santos permaneciam silenciosas e solenes, lançando longas sombras sobre a praça vazia.
Noel hesitou.
"Parece uma cidade fantasma."
Noir farejou agudemente. 'É fraco, mas… está aqui.'
Noel ativou uma fina camada de mana ao redor dos olhos — uma técnica de varredura que aprendera há muito tempo — mas a praça parecia perfeitamente normal.
"Alguma coisa?" ele sussurrou.
'…É estranho.' Noir pulou do ombro dele e pousou suavemente no mármore. 'Não sinto cheiro de pessoa. Nem de besta. Nem de demônio. É como uma… anomalia. Como se o ar estivesse doente.'
Noel respirou lentamente. "Isso não ajuda."
Noir lançou um olhar perspicaz para ele. 'Pai. Não estou brincando. O ar em si parece que algo o tocou.'
Ele se agachou ao lado dela.
"Corrupção?"
'Não.'
"Decadência?"
'Não.'
"Resíduo de mana?"
'…Talvez?' Noir soou insegura pela primeira vez naquela noite. 'Mas não é um tipo que eu reconheça.'
Isso atingiu Noel mais forte que qualquer outra coisa.
Noir conseguia identificar qualquer criatura — viva ou morta — pelo seu cheiro. Ela podia sentir corrupção a quilômetros de distância. Detectar rastros de mana das próprias Colunas.
Mas isso?
Totalmente desconhecido.
Noel escaneou a praça novamente. Lanternas brilhavam ao longe. Bandeiras da igreja balançavam suavemente com o vento frio. Nenhuma alma na rua.
Ele se levantou, com os olhos estreitados.
"Vamos verificar o bairro do mercado. Se algo estiver se movendo pela cidade, encontraremos pegadas ou impressões de mana lá."
Noir assentiu, com passos silenciosos enquanto avançava na direção da saída. Seguia na frente para guiá-lo.
Juntos, entraram nas ruas estreitas — a luz da lua filtrando entre os prédios, o ar ficando cada vez mais frio — seguindo um cheiro que não deveria existir…
Noel desacelerou.
"…Não há vento."
A pelagem de Noir eriçou-se. 'Pai… está mais forte aqui.'
Ela avançou rapidamente, com o focinho no chão, seguindo uma trilha que não deveria ser possível.
Chegaram a um pequeno pátio de pedra atrás de um galpão de armazenamento desativado — um lugar tão escondido que até a maioria do clero tinha esquecido sua existência.
Noir parou de repente.
Sua orelhas achatadas. Sua cauda balançou. 'Pai… aqui.'
Noel se aproximou com cautela — mana se acumulando discretamente nas pontas dos dedos, pronto para reagir caso algo saltasse.
Nada aconteceu.
Ao invés disso…
Noir apontou com a pata.
Para um objeto no chão.
Um fragmento de cristal levemente brilhante. Claro, mas com um tom dourado suave, como se tivesse luz vivendo dentro dele. Quase do tamanho de uma unha.
A respiração de Noel ficou presa.
"…O que é isso?"
Noir não falou imediatamente.
Ela farejou.
Uma, duas vezes. Então recuou.
'Pai… esse cheiro…'
"O quê?"
'É mana. Não está corrompida. Não é demoníaca. Não parece besta. Não é humana.'
Ela hesitou — raro para ela.
'Só senti algo assim uma vez.'
Noel sentiu o mundo ao redor parado.
"…Onde?"
Noir olhou para ele com seus olhos violetas.
'No dia em que enfrentamos a Primeira Coluna.'
Noel congelou.
Completamente.
Um medo frio e nauseante lhe tomou o peito — mais profundo que surpresa, mais profundo que medo.
A Primeira Coluna.
O monstro que quase matou Nicolas. Aquele que quebrou metade de uma fortaleza. O que roubou o tesouro da família Thorne. O que Noel ainda tinha pesadelos em imaginar.
E havia algo aqui…
Algo que carregava seu cheiro.
"…Não." A voz de Noel quebrou. "Não, isso é impossível."
A Capital Santa era o lugar mais seguro de todo o continente.
Bênçãos, barreiras, proteção divina — nada corrompido deveria conseguir entrar a menos de cem quilômetros.
Então como—
Noir deu um passo mais perto, farejou de novo, então recuou imediatamente.
'Não é ele, pai. Não sinto o cheiro dele em lugar nenhum. Nem perto de nós. Nem na cidade. Nem mesmo um traço. Apenas… isso.'
Noel exalou com dificuldade.
Seu coração ainda pulsava forte, mas parte do terror se soltou.
"Então esse fragmento…" ele murmurou, olhando para o cristal brilhante no chão, "não é a Coluna. É só algo que ele deixou para trás."
Noir concordou.
'Sim. Um rastro.'
Noel engoliu em seco. Suas mãos tremiam um pouco — e ele odiava isso.
"Achei que tinha acabado de lidar com esse bicho por enquanto…" ele sussurrou.
Mas lá estava.
Exatamente na sua frente.
Um fragmento carregando a mana da Primeira Coluna — a mesma mana que quase destruiu seu mundo.
Mais uma vez, Noir fez um círculo ao redor dele, o focinho tenso, com cuidado concentrado.
'Pai… é só isso. Eu prometo. Eu sentiria se ele estivesse por perto da Capital Santa.'
Noel se forçou a respirar.
Devagar.
Profundamente.
"…Tudo bem. Então vamos levar isso para o Orthran."
Noir sentou ao seu lado, encostando seu corpinho pequeno na sua perna — para se sentir mais firme.
'É só um pedaço, pai. Nada mais.'
Noel assentiu… mas não acreditava completamente.
Porque se a Primeira Coluna tinha deixado algo dentro da Capital Santa…
A verdadeira questão era:
Por quanto tempo aquilo estava aqui? E quantas mais ainda poderiam estar esperando para serem descobertas?
Com mãos firmes, Noel sustentou a bolsa com cuidado, mesmo que seu pulso ainda estivesse acelerado. O cristal pequeno pulsou uma vez — fraco, inofensivo, mas claramente errado — antes de desaparecer dentro do tecido encantado.
A bolsa se selou com uma suave ondulação de mana.
Noir aproximou-se, os olhos fixos no local onde o fragmento tinha estado.
'Pai… o que você acha que é isso?'
Noel não respondeu de imediato.
Ele se endireitou lentamente, limpando o pó das mãos, forçando sua respiração a ficar regular. O ar frio da noite picava seus pulmões, ancorando-o.
"Eu não sei," ele murmurou finalmente, com voz baixa. "Sinceramente, não faço ideia."
Saíram do pátio e se esconderam em uma das vielas laterais, sombras se alongando sobre as paredes de pedra. Noel manteve uma mão próxima à bolsa dimensional por instinto — como se o fragmento pudesse tentar escapar de repente.
Noir voltou a caminhar ao lado dele, olhava para cima com ansiedade.
'Se veio da Primeira Coluna… por que deixou aqui? E por que agora?'
Noel franziu a testa, o maxilar apertado.
"Desde que ele roubou o cristal da família," disse calmamente, "eles ficaram em silêncio."
'Verdade…'
Noel concordou.
"O Círculo," ele disse. "Tudo relacionado a eles ficou em silêncio."
Ele olhou para a praça vazia que se estendia em direção à Catedral.
"Isso não é um bom sinal."
A cauda de Noir caiu um pouco.
'Então… estão preparando algo?'
"É o que me assusta," admitiu Noel. "O silêncio do Círculo geralmente significa que estão planejando algo grande. E se a Primeira Coluna deixou isso aqui…"
Ele balançou a cabeça.
"Não gosto nada disso."
Noir deu um passo mais perto, tocando levemente a calça dele.
'Vamos descobrir, pai.'
Noel parou na base dos degraus da Catedral.
"Vamos perguntar ao Orthran amanhã," finalmente disse. "Ele pode saber que tipo de cristal é esse."
Ele deu um leve tapinha na bolsa de mana.
"Mas, por hoje… isso fica escondido."
Noir, inquieta, moveu a cauda de um lado para o outro. 'E agora, pai?'
Noel olhou mais uma vez para a praça vazia, com os olhos cerrados.
"Vamos ganhar mais um pouco de tempo," murmurou. "Vamos revisar a área novamente. Se tiver mais alguma coisa aqui fora… precisamos encontrá-la."
Noir assentiu com determinação, os olhos violetas brilhando com coragem.
'Então vamos procurar em cada canto.'