O Extra é um Gênio!?

Capítulo 520

O Extra é um Gênio!?

A ilha atrás deles já não parecia mais um campo de batalha.

Não porque estivesse pacífica — ainda havia vozes reverberando pelas ruas destruídas, ainda o som de cabos sendo ajustados e barcos sendo preparados — mas porque o pior já tinha passado. As correntes haviam sido rompidas. O Pilar tinha sido capturado. O que restava era movimento. Movimento controlado, deliberado, que não mais dependia de um homem se esgotando ao ponto de esvaziar-se para manter tudo unido.

Noel permanecia perto da borda da clareira, sombras naturalmente se acumulando aos seus pés, respirando steady. Testou uma vez — apenas uma faísca, um meio passo — e sentiu a puxada familiar do Shadow Step responder sem resistência. Sem tontura. Sem uma tensão que rasgasse por detrás dos olhos. Sua mana não recuava da ideia.

"Tô bem," disse, calmamente, antes que alguém pudesse questionar. "Não sou invencível. Mas consigo nos mover. Mais de uma vez. Não vou desabar igual antes."

A decisão veio rapidamente após isso, quase inevitável uma vez dita em voz alta. Todos começariam a se deslocar para a próxima ilha — todos, exceto Clara.

Clara ficou perto do navio, uma mão descansando inconscientemente contra o abdômen enquanto a tripulação trabalhava ao redor dela. Ela não protestou, não insistiu em ser útil como costumava fazer. A prioridade tinha mudado, e ela sabia disso. O bebê vinha primeiro. Sua segurança vinha primeiro. Todo o resto podia queimar, se fosse preciso.

"A tripulação vai ficar com você," disse Elyra, firme. "Você não estará sozinho."

"E agora que os outros navios estão livres," acrescentou Laziel, olhando em direção ao porto onde embarcações recém-libertadas estavam sendo preparadas, "os habitantes da ilha podem se mover por conta própria. Suprimentos, gente — rotas já estão se formando."

Pela primeira vez desde que essa missão começou, Noel não era o gargalo.

A voz de Theo, fraca e distorcida como sempre, veio pelo dispositivo ao lado de Noel: "Ainda há interferência." Ele informou. " Igual de antes. Não consigo enxergar a ilha de Marcus. Nenhum padrão. Nenhum movimento. Nada."

"Tem alguma solução?" perguntou Noel, embora já soubesse a resposta.

Uma pausa. Então, "Não."

O objetivo era claro e brutalmente simples. Chegar até Marcus e Roberto. Enfrentar o Segundo Pilar. Terminar o que eles começaram. A linha do tempo dizia que estavam perto — perto o suficiente para Noel quase sentir o fim se aproximando, como uma porta prestes a fechar.

'Quase acabado,' pensou. 'É isso que parece.'

O que ele sabia, era exatamente o motivo pelo qual aquilo era perigoso.

Ele se virou para o grupo, encarando cada um deles — Noir atento e tenso, Charlotte silenciosa mas resoluta, Elena firme, Elyra aguçada, Laziel pálido, mas de pé, Garron tão sólido como sempre.

"Vamos nos mover juntos," disse Noel. "Sem desvios. A gente encontra eles, enfrenta o Segundo Pilar, e acabou aqui."

Ninguém falou inicialmente.

Não era hesitação — apenas aquele silêncio tranquilo em que todos entendiam o que estava por acontecer e não sentiam necessidade de encher com palavras. Noel ficou quase por acaso no centro, não porque assumira posição, mas porque os outros naturalmente se aproximaram mais.

Um por um, eles estenderam a mão.

Noir foi a primeira, pousando a mão nas costas dele, sólida e quente, com garras quase contidas. Charlotte seguiu, com toque leve mas deliberado, dedos descansando entre as omoplatas como se estivesse se ancorando tanto quanto ele. A mão de Elena veio em seguida, cuidadosa, firme. Elyra também não hesitou — sua mão pousou com confiança familiar, um aperto rápido que dizia mais do que qualquer piada que pudesse fazer. Laziel foi o último, um pouco pálido, queixo travado, mas presente. Garron colocou a mão mais baixa, firme, fixando-se.

O peso disso tudo caiu sobre Noel de repente. O apoio.

Logo atrás deles, alguns passos para trás, Clara observava.

Ela permanecia junto ao navio, envolta por um manto grosso contra o vento, a tripulação se movendo silenciosamente ao redor. Ela não parecia assustada. Pelo contrário — parecia focada, como se já tivesse aceitado seu papel nessa parte da história. Ainda assim, quando seus olhos encontraram os de Noel, uma coisa suave cintilou ali.

Elena virou um pouco o corpo, olhando por cima do ombro. "Ei," ela falou suavemente. "Não se preocupe, Clara. Voltaremos." Ela sorriu, pequena mas sincera. "Marcus e Roberto também. A gente não deixa ninguém pra trás."

O sorriso de Clara ficou verdadeiro dessa vez. Levantou uma mão e acenou, devagar e cuidadosa, como se não quisesse apressar o momento. "Sei," disse ela. "Só… não sejam idiotas."

Elyra resmungou. "Nem promete."

Isso trouxe uma risada quieta — breve, frágil, mas verdadeira.

Noel respirou fundo, se acalmando. As sombras sob seus pés mexeram-se em resposta, como se estivessem aguardando permissão. Elas se estenderam para fora, longas e fluidas, tocando botas e capas, subindo pelas pernas e enlaçando os corpos sem resistência.

Charlotte se tensionou por meia fração de segundo, depois relaxou ao sentir aquilo — familiar, controlado.

O mundo se dobrou.

O som desapareceu primeiro, depois a luz. A ilha sumiu num piscar de olhos, substituída por aquela estranha sensação de peso zero que vem com Shadow Step, como cair de lado através da própria silhueta.

E, tão rápido quanto começou, acabou.

As sombras se desfizeram.

Seus pés voltaram a tocar terra firme — pedra diferente, ar diferente, de um peso estranho. O cheiro estava errado. Velho. Obsoleto. Como algo deixado ali por muito tempo.

Noel se endireitou lentamente.

Chegaram.

Por um instante, nada aconteceu.

A ilha não os recebeu com gritos, ou terreno desmoronando, ou algum pressentimento imediato de desastre. Nenhum monstro emergiu das sombras. Nenhuma pressão opressiva pressurizou seus peitos. Apenas pedra irregular sob seus pés e um céu que parecia um pouco mais sombrio, mesmo sem nuvens lá em cima.

Os olhos de Noel se moveram rapidamente, numa tentativa de escanear sem parar. Todos ainda estavam de pé. Charlotte parecia firme. Elena já verificava a área com concentração silenciosa. Garron deu uma voltinha nos ombros, como se estivesse se soltando depois de uma longa viagem. Elyra respirou fundo e olhou ao redor, sem parecer impressionada, mas alerta.

Porém, Laziel cambaleou um pouco.

Elyra percebeu imediatamente, chegando perto. "Ei. Você tá bem?"

"Tô," murmurou Laziel, massageando a têmpora. "Só… ainda tonto. A sombra mexe comigo."

"Então," ela respondeu. "Tenta não vomitar em ninguém."

Ele soltou uma risada fraca. "Sem promessas."

Noel os observou por mais um segundo. Sem feridos. Sem sangue. Sem sinais de luta por perto.

'Ótimo,' pensou.

E então a voz de Noir cortou direto na cabeça dele.

'Papai.'

Sem calor. Sem provocações. Apenas urgência — suficiente para fazer a respiração dele ficar presa.

'O Segundo Pilar está nesta ilha.'

Noel congelou.

Seus dedos eriçaram ao lado, e seu estômago caiu rápido, como se tivesse perdido um degrau na escada.

Antes que pudesse processar aquilo —

'E…' Noir hesitou, algo que ele quase nunca sentia dela. 'O Primeiro Pilar também.'

A cor saiu do rosto de Noel.

Elyra percebeu instantaneamente. Ela não precisava de Noir. Não precisava de Theo. Ela só precisava olhar para ele. "Noel," ela pediu, avançando um passo. "Tem alguma coisa errada?"

Ele demorou a responder. O maxilar se apertou, olhos desfocados por meia fração de segundo enquanto tudo se encaixava na cabeça dele.

"Eles estão aqui," finalizou.

Os ombros de Charlotte ficaram rígidos. "Quem?"

"O Segundo Pilar," respondeu Noel. Sua voz era plana, quase desacreditada. Depois, acrescentou em tom menor, mais pesado: "E o Primeiro também."

A calmaria que se seguiu não foi barulhenta.

Foi de espanto.

As orelhas de Elena se mexeram abruptamente. A expressão de Garron se endureceu. Laziel parou de esfregar a própria cabeça totalmente.

"Ambos?" perguntou Elyra. "Aqui?"

Noel assentiu com a cabeça.

Por um instante, a confusão passou pelos rostos de alguns. Depois, a compreensão veio imediatamente.

O Primeiro Pilar não esperou.

Ele não se ocultou atrás de camadas ou rituais. Movimentou-se cedo. Removeu ameaças antes que crescessem.

Assim como tentou com Nicolas.

Noel engoliu em seco.

"Merda," disse baixinho.

Nãoir não esperou.

Assim que a percepção se estabeleceu, ela saiu em disparada, sua forma se desfazendo em sombra enquanto avançava, deslizando entre trechos de escuridão como se fossem portas abertas. Num segundo ela estava ao lado de Noel — e no próximo, sumiu.

"Noir—!" Noel não completou a palavra.

Ele foi atrás dela.

Sombras se levantaram instinctivamente, envolvendo suas pernas enquanto ele avançava, com "Shadow Step" encadeando-se rapidamente. A ilha se turbava, o terreno se dobrava e se desfazia enquanto ele cortava distância com saltos violentos.

Logo atrás, ouviu Elyra gritar seu nome. Garron xingou. Alguém tropeçou. Tentaram seguir — mas não conseguiram acompanhar.

Primeiro, o cheiro.

Ferro. Grosso. Fresco.

Sangue.

Noel saiu violentamente de Shadow Step, as botas escorregando no pedra rachada, enquanto a cena se consolidava de repente.

Três figuras.

O Segundo Pilar, com a pele pálida contrastando com a paisagem sombria, correntes mudando e ressoando ao seu redor. Ela estava na postura de um predador que ainda não terminara de se alimentar.

À sua frente, Roberto.

Ofegante, os ombros subindo e descendo. Parecia exausto, como se tivesse sido levado ao limite.

E ao lado dele —

Não.

Marcus estava no chão.

Não de joelhos.

Nem se preparando.

Deitado.

Havia sangue demais.

Espalhado sob ele numa poça escura que se impregnava na pedra, manchando o chão rachado como se algo tivesse sido rasgado aberto ali. O corpo de Marcus estava torcido, em um ângulo errado, um braço mole, dedos enroscados como se tentassem segurar algo que já não estava mais ali.

"Marcus!" a voz de Noel saiu dele.

Ele já corria.

Desceu de joelhos ao lado dele, as mãos tremendo enquanto pressionava — pescoço, pulso, procurando por tudo quanto era lugar.

Nada.

O peito dele ficou tenso.

A ansiedade conquistou-o de repente, roubando-lhe o ar —

Até que.

Um pulso.

Débil e irregular. Quase invisível, mas real.

Noel respirou fundo, áspero. "— Ele tá vivo."

Quase nada.

A lâmina do Revenant Fang se moveu para sua mão, sombras se ajustando ao aço como se reconhecessem o que vinha por aí. Noel se colocou de pé e avançou sem hesitar, colocando-se entre Marcus e o inimigo.

"Vamos lutar com ela primeiro," disse, com a voz baixa, tensa. "Agora."

O Segundo Pilar inclinou um pouco a cabeça, as correntes movendo-se em resposta.

Roberto riu.

Silencioso. Quase divertido.

"Atrasados," disse. "Marcus é—"

"Cala a boca," Noah retrucou, sem olhar para ele. "Foca no que tá na nossa frente."

Algo estava errado.

A certeza veio como um impacto retardado — tarde demais, mas inegável. Noel a sentiu lá no fundo do estômago, na forma como o ar atrás dele de repente se moveu.

A voz de Noir explodiu na sua cabeça.

'PAPAI, SE APARTA DELE!'

O instinto dominou completamente.

"Shadow Step!"

A palavra saiu dele em um grito.

O mundo virou de lado.

A luz explodiu onde Noel havia estado uma fração de segundo antes.

Um pilar de brilho ofuscante perfurou o céu, destruindo pedra, lançando fragmentos de destroços em uma onda de choque violenta. O solo rugiu enquanto era esculpido, o calor atravessando o ar de um jeito que nada tinha a ver com fogo.

Noel reapareceu ao lado de Marcus, ofegante, com o coração batendo tão forte que doía.

Ele fixou o olhar na cratera fumegante.

Depois, virou-se.

Roberto ainda estava de pé.

Sorrindo.

Apenas… sorrindo.

Por quê?

E de repente, todas as pequenas coisas se alinharam.

Todos os momentos que não faziam sentido. Todas as lutas que ele tinha deixado pra trás. Todo silêncio que tinha durado um segundo a mais.

Depois de tanto tempo.

Depois de tudo.

Seu melhor amigo.

Seu aliado.

O Primeiro Pilar.

Noel sentiu algo dentro dele se fragmentar. Uma rachadura fria, que se espalhava pelo peito e se instalava ali.

Ficou congelado, a lâmina do Revenant Fang abaixada ao seu lado.

Noir ao seu lado, sombras enroscadas e rangendo.

Marcus morria aos seus pés.

E ambos os Pilares estavam na sua frente.

Pela primeira vez desde que esse pesadelo começou, não havia um plano esperando para ser executado. Nenhum espaço para queimar.

Apenas uma verdade clara e brutal ecoando na cabeça dele:

'Se eu não pensar bem rápido nisso… eu morro.'

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