O Extra é um Gênio!?

Capítulo 519

O Extra é um Gênio!?

Marcus havia perdido a noção de quanto tempo estavam na ilha.

Não porque não tivesse tentado contar os dias — mas porque os dias se recusavam a ficar separados. Um se misturava ao outro, quebrado apenas por combates, breves descansos e a sensação constante de estar avançando sem nunca realmente chegar a lugar algum. A luz da manhã tinha a mesma intensidade do crepúsculo aqui. Nem mesmo o sono renovava alguma coisa. Ele acordava cansado, lutava, se movimentava e repetia tudo.

Essa era a única certeza que permanecia.

A ilha lutava constantemente, mas nunca da mesma forma duas vezes. Monstros saíam de fendas na pedra como se a terra tivesse crescido dentes. Outros surgiam de poças de mana corrompida, criaturas meio-formadas que gritavam quando morriam e deixavam nada para trás. Algumas bestas avançavam de forma aberta; outras sumiam no mesmo instante em que eram atingidas, dissolvendo-se como fumaça antes que Marcus pudesse sequer registrar a morte.

Eles se adaptavam.

Agora, Marcus lutava por instinto, movimentos ágeis mas pesados, seu corpo respondendo mais rápido que seus pensamentos. Roberto o acompanhava passo a passo. Não sem esforço — nunca sem esforço — mas com a mesma persistência, a mesma tensão. Sua respiração ficava irregular após combates mais longos. Seus ombros se abaixavam quando paravam. Limpava o sangue de suas armas com a mesma irritação cansada que Marcus sentia no peito.

Pelo menos, aquilo parecia normal.

O que não era normale tudo o mais.

Sem pessoas. Nem uma sequer.

Eles atravessaram estradas destruídas, torres de vigia dilaceradas, edifícios caídos que já tinham sido lares. Marcus encontrou resquícios de uma vida cotidiana — ferramentas quebradas, móveis apodrecidos, pedaços de tecido — mas nenhum corpo. Nenhum sinal recente de fuga. Nenhuma evidência de evacuação ou massacre. Apenas o vazio.

Silêncio.

Era mais pesado do que qualquer monstro que eles enfrentassem.

Marcus percebia isso sobretudo quando paravam de se mover. Quando a luta cessava e sobrava apenas o vento varrendo pedras e o zumbido distante da mana no solo. Naqueles momentos, a pele de Marcus arrepiava, e seus olhos ficavam constantemente procurando espaços vazios, quase esperando que alguma coisa surgisse para provar que ele não estava imaginando.

'Algo está nos observando,' ele pensava mais de uma vez.

Ele nunca dizia isso em voz alta.

Roberto olhava ao redor durante esses mesmos momentos de pausa, queixo apertado, expressão concentrada, igual à que Marcus sabia que provavelmente tinha. Ele não estava relaxado. Não era descuidado. Se fosse para apontar algo, parecia igual de desgastado — tão alerta quanto Marcus.

Ele nunca hesitava. Sempre que Marcus desacelerava, examinando o terreno, Roberto já estaria se movendo, escolhendo uma direção com uma certeza silenciosa. Não de forma imprudente. Não às cegas. Apenas… seguro. Como se a ilha seguisse regras somente ele pudesse enxergar.

Isso deveria incomodar mais Marcus do que incomodava.

Ele explicava para si mesmo que era por experiência. Confiança. Por isso tinha seguido Roberto antes, mesmo em situações piores, sem questionar cada passo. Lutaram juntos por tempo suficiente para que esse tipo de dependência parecesse algo adquirido.

Mesmo assim, conforme avançavam mais para o interior da ilha, Marcus não conseguia afastar o pensamento que lhe atormentava a mente.

Marcus a sentia antes mesmo de vê-la.

O ar mudou — não com som ou pressão, mas com algo mais pesado, como se a própria ilha tivesse tomado uma respiração lenta e deliberada. Sua mão apertou a arma por instinto, músculos tensos antes que seus pensamentos pudessem se organizar. Roberto também desacelerou ao seu lado, passos suaves sobre as pedras quebradas.

Ela estava à frente deles, onde antes não havia nada.

Uma mulher. Por volta dos trinta e cinco anos, talvez mais — era difícil dizer. Sua pele era pálida de um jeito que parecia errado, não exatamente doente, mas esgotada, como se o calor nunca tivesse realmente se instaurado em seu corpo. Uma máscara cobria a metade inferior do rosto, metal escuro moldado de forma suave ao redor da boca, escondendo qualquer traço de expressão ali.

Correntes envolviam seu pescoço até os tornozelos.

Algumas estavam embutidas diretamente na carne dela, desaparecendo sob a pele e reaparecendo em outros lugares. Outras flutuavam livres, suspensas como se a gravidade tivesse decidido que ela estava isenta de suas regras. Elas se moviam e tilintavam suavemente, mesmo sem vento, um som que arrepiava Marcus por dentro.

O ar ao redor dela se distorcia, curvando-se levemente, como uma miragem de calor sem calor.

Marcus abriu a boca para falar.

As palavras morriam antes de serem pronunciadas.

Seu corpo travou, cada instinto gritando ao mesmo tempo a mesma mensagem: Perigo. Não do tipo agudo e imediato — como feras em disparada ou ataques chegando — mas algo mais profundo. Mais antigo. Uma aura que não precisava ameaçar, porque já era a ameaça.

Ela inclinou ligeiramente a cabeça, como se estivesse divertida com sua hesitação.

"Então," ela disse calma, voz clara e medida, "você finalmente chegou a esta ilha."

Marcus forçou a respiração a se estabilizar. "Quem é você?" ele exigiu, mesmo com o coração acelerado. "O que fez com este lugar?"

Ela levantou os ombros um pouco. "Você está atrasado," ela respondeu ao invés disso. "Os outros já vieram. Aqueles que você procurava." As correntes se moveram, apertando quase imperceptivelmente. "Eles não duraram."

O maxilar de Marcus travou. "Você está mentindo."

Ela virou a cabeça o suficiente para que o máscara refletisse a luz. "Será?"

"Noel está com eles," Marcus respondeu firme. "Todos. Em breve estarão aqui. Não estamos sozinhos."

Por um breve momento, nada mudou.

Depois, seus olhos se moveram.

Pararam em Roberto.

O efeito foi imediato.

Sua postura ficou rígida, como uma corda puxada ao limite. Uma inspiração aguda cortou sua calma controlada, e as correntes ao redor dela reagiram violentamente — vibrando, ficando tensas, algumas tilintando como se fossem atingidas por uma força invisível.

Marcus sentiu um calafrio correr por sua espinha.

A mulher deu um passo atrás.

"— Não," ela sussurrou, a palavra quase inaudível, sem aquela compostura de antes.

Marcus virou-se, tomado de confusão. "Roberto?" ele falou, a respiração descompassada. "O que está acontecendo?"

Ele não entendeu exatamente o que havia mudado.

A mulher começou a tremer.

Não havia raiva nela, nem um surto de poder irradiando para fora. Era contido, quase sutil — mas inconfundível. Seus ombros se tensionaram, a respiração ficou superficial atrás da máscara, as correntes vibrando como se respondessem a algo que ela não podia completamente controlar.

Medo.

Marcus sentiu antes mesmo de aceitar.

Sua respiração acelerou, apesar de tentar controlá-la, o peito apertado enquanto seus pensamentos se espalhavam. Não era assim que as coisas deviam acontecer. Ele observou sua postura, sua aura, a tensão no ar, tentando encaixar a lógica naquilo tudo.

Por que ela? Por que agora? O que diabos ela acabou de ver?

Nada fazia sentido.

A mulher abaixou a cabeça ligeiramente.

Ela não ajoelhou. Não se prostrou. Mas algo em sua postura cedeu, como uma estrutura perdendo uma de suas vigas. As correntes afrouxaram só um pouco, já não agressivas — hesitantes.

Quando falou novamente, sua voz estava diferente.

"… Então você ainda está andando," ela murmurou.

Simplesmente uma declaração — porém carregada de um peso mais pesado do que as palavras poderiam transmitir. Algo que só alguém que soubesse dizer entenderia.

Marcus engoliu em seco.

A cada segundo, parecia que o tempo se arrastava lentamente, seu coração pulsando forte demais e abafando tudo ao redor. Seus instintos gritavam para que se movesse, que agisse, que fizesse algo — mas seu corpo simplesmente não obedeceu.

Roberto ainda estava ali, exatamente como antes.

Olhando para eles.

Sorrindo.

Não aquele sorriso cansado e familiar que Marcus tinha visto centenas de vezes após lutas. Não alívio. Não segurança.

Este sorriso era errado.

Desfigurado nas pontas, vazio, sem calor ou reconhecimento. Como se algo vestisse a memória de uma expressão humana sem entender por que ela existia.

Um calafrio subiu pela espinha de Marcus, instalando-se no estômago.

A rejeição o atingiu de uma vez — bruta, visceral. Algo antigo dentro dele recuava, gritando uma ordem sem palavras.

Corra.

E naquele momento, antes que qualquer outra coisa acontecesse, Marcus compreendeu uma verdade terrível:

— aquilo que estivesse ao seu lado agora —

— não era mais o Roberto que ele confiava.

Marcus tentou falar.

"Roberto…?"

Apenas a palavra saiu da sua garganta.

FWOSH.

Um clarão rasgou-o por trás.

Era pior do que aquilo — limpo, preciso, absoluto. Uma lança de luz condensada perfurou suas costas e explodiu de seu peito em um flash de brilho branco-dourado.

Por meio segundo, não houve dor.

Apenas impacto.

Apenas a sensação de algo errado ocupando espaço onde não deveria existir. Sua respiração sumiu de seus pulmões, roubada num instante, e o mundo virou violentamente.

Depois, veio a dor.

Quente como fogo, esmagadora, total e devoradora.

As pernas de Marcus fraquearam, a força cedendo enquanto sangue espirrava pelos pedregulhos à sua frente. Ele caiu de cara no chão, as mãos escorregando inutilmente, seu corpo recusando-se a obedecer como sempre fazia.

Não —

Isso não é —

Roberto —

Os pensamentos se fragmentaram, escorrendo um sobre o outro, enquanto sua visão escurecia. A ilha inclinava, céu e chão trocando de lugar por um segundo assustador antes de se estabilizar, mais frio desta vez.

Ao seu lado, não havia luta.

Sem hesitação.

Roberto continuava de pé.

Ainda sorrindo.

A lança de luz ainda não se dissipara. Estendia-se de sua mão com uma estabilidade sem esforço, zumbindo suavemente, como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo. Como se ele já tivesse feito aquilo antes. Como se sempre tivesse sido capaz.

Marcus tossiu, sangue escorrendo pelos lábios enquanto seu corpo se deitava completamente no chão. Seus dedos se mexeram uma última vez, inutilmente, antes de relaxar no pedra.

O tempo parecia dilatado.

Os sons se tornaram abafados. O vento. As correntes. Seu próprio coração, desacelerando, irregular.

Ele já não podia mais virar a cabeça — mas não precisava.

Ele podia sentir.

Bem atrás dele, a presença de Roberto não havia mudado. Sem aumento de poder. Sem uma liberação dramática. Apenas uma certeza tranquila.

A mulher de correntes permanecia congelada.

Todo o corpo dela estava preso, as correntes penduradas sem movimento, silenciosas, a cabeça inclinada — como uma testemunha que sabia que era melhor não interferir.

A visão de Marcus se obscureceu nas bordas.

'Então é isso,' percebeu uma parte distante dele. 'É assim —'

A ideia nunca terminou.

A última coisa que viu —

a última coisa que ficou gravada na sua consciência que se esvaía —

foi o sorriso atrás dele.

O sorriso do Primeiro Pilar.

Comentários