
Capítulo 521
O Extra é um Gênio!?
Noel permaneceu imóvel, com a Presa do Revenant pendurada baixa ao seu lado, seu peso o estabilizava o suficiente para impedir que se despedaçasse completamente. A lâmina vibrava com um leve zunido, sombras grudadas à sua lâmina como se entendessem a situação melhor do que ele.
Negra estava perto. Sua forma estava meio encaixada em direção a ele, meio voltada para Marcus, sombras eriçadas, dentes à mostra ao mundo. Ela protegia ele com tudo que tinha de restante.
Marcus estava no chão.
O sangue impregnava a pedra sob ele, espalhando-se mais a cada segundo. Era demais. Muito, demais. O peito dele se levantava de forma irregular, cada respiração mais fraca que a anterior, como se seu corpo já estivesse avaliando até onde podia resistir.
'Ele está morrendo.'
O pensamento caiu com uma calma nauseante.
Marcus ia virar pai. Ainda nem sabia disso. Aquela promessa—pequena, frágil, absurdamente esperançosa—gotejava sangue bem diante de seus olhos. E Noel sabia, com uma clareza brutal, que não podia permitir que aquilo acabasse ali.
Fugir não era uma opção.
Se ele virasse as costas, eles o perseguiriam e o desmembrariam antes mesmo dele dar três passos. Se permanecesse parado por muito tempo, eles atacariam de qualquer jeito. De qualquer forma, alguém morreria.
Provavelmente ele mesmo.
À sua frente, a Segunda Pilar permanecia pronta, correntes tensas, postura preparada para atacar. Sua atenção nunca o deixou. Ela esperava.
Então Roberto levantou uma mão.
O gesto foi casual. Quase preguiçoso.
Ele murmurou algo que Noel não conseguiu ouvir, voz baixa, indecifrável.
"Espera," disse Roberto com calma. "Deixe que ele dê o primeiro passo."
A Segunda Pilar congelou instantaneamente.
'Negra.'
Seus olhos esmeralda estavam arregalados. 'Pai—não. Não vou deixar você aqui.' Suas sombras se inflamaram, agitadas. 'Você está em desvantagem. Superado. Você não vai durar.'
Ele não argumentou.
"É o único jeito," enviou de volta, firme a ponto de doer. "Se ele ficar aqui, vai morrer. Você sabe disso."
Negra hesitou. Só por um instante.
Marcus tossiu, sangue borbulhando fracamente nos lábios, e aquela hesitação se quebrou.
Com uma inspiração feroz e irritada, ela se moveu. Sombras surgiram sob suas patas enquanto ela puxava Marcus para suas costas, cuidadosa e desesperadamente ao mesmo tempo.
"…Passo das Sombras," ela rosnou.
A escuridão os engoliu.
Sumiram num piscar de olhos, deixando para trás pedra manchada e um vazio que parecia grande demais.
Noel não olhou para trás.
Ele sentiu isso ao invés disso—a ausência da presença dela apertando forte dentro do seu peito. O silêncio repentino onde sua mente havia estado.
Do lado oposto, Roberto observava tudo com interesse moderado.
"Sempre a mesma coisa," disse ele, quase com carinho. "Se atirar no fogo pra salvar todo mundo." Seus olhos passaram brevemente pela mancha de sangue. "Charlotte vai se virar. Ela sempre se vira." Uma pausa. Um sorriso tênue. "Embora eu me pergunte quanto da vida dela ela já entregou com aquelas Bênçãos."
Noel permaneceu em silêncio.
"E se ela quebrar?" continuou Roberto com leveza. "Pois bem. Ainda tem os outros três."
Algo frio se instalou no estômago de Noel.
Ele apertou ainda mais a Presa do Revenant, sombras rastejando pela lâmina enquanto sua postura mudava.
Noel se moveu.
"Passo das Sombras."
O mundo se colapsou sobre si mesmo, sombras se fechando firmes ao redor do corpo dele enquanto o espaço se desdobrava e o reescrevia num piscar de olhos. Frio, a escuridão puxou—e soltou.
Ele reapareceu atrás da Segunda Pilar.
Perfeito.
Por meio segundo, tudo se alinhou exatamente do jeito que tinha que ser. A Segunda Pilar à frente. Roberto além dela. Ambos numa linha reta, alheios ou indiferentes, enquadrados por ruínas e pedra manchada de sangue.
Era isso.
Noel deu uma respiração funda, sombras surgindo violentamente ao redor da Presa do Revenant, a lâmina vibrando como se reconhecesse o que vinha.
"Rasgo Eclipse."
As sombras explodiram para fora.
Não luz contra escuridão—ausência contra existência. A lâmina avançou, puxando uma meia-lua de vazio atrás de si, o espaço se distorcendo enquanto o ataque rasgava o tecido da realidade. Não era feito para ferir.
Era feito para apagar.
E então—
O mundo virou.
Não—
o mundo simplesmente desapareceu.
Noel de repente estava acima dele.
Não voando. Não se movendo. Apenas… ali.
Olhou para baixo.
Viu seu corpo ainda de pé onde estivera há um instant. Viu as sombras ainda se espalhando, o ataque meio formado, inacabado.
E viu algo mais.
Uma linha fina de luz.
Correndo direto pelo seu pescoço.
'…Ah.'
Ainda não sentia dor.
A cabeça dele não estava mais conectada.
Seu corpo balançou, a Presa do Revenant escorregando de dedos entorpecidos enquanto as sombras perdiam coesão, desabando em nada antes que o ataque pudesse se completar. O vazio se dissipou como fumaça sem fogo para alimentá-lo.
Noel assistiu ao seu próprio cadáver cair.
Viu o sangue subir de forma inesperada, viu a pedra chegar mais perto enquanto sua visão começava a escurecer—não sumindo, mas se quebrando, como vidro sob pressão.
Então era esse o limite.
Era isso que acontecia quando ele cometia um erro demais.
A última coisa que registrou não foi medo.
Foi um pensamento único e furioso—
'Foda.'
E então tudo ficou escuro.
A escuridão se quebrou.
O tempo deu um pulo.
Noel respirou fundo, e o mundo voltou ao normal.
Seis segundos antes.
Pedra sob seus pés. Sangue ainda se espalhando do corpo de Marcus. Presa do Revenant firme na sua mão. A Segunda Pilar na sua frente. Roberto observando, calmo, indecifrável.
Vivo.
Seu coração bateu forte contra as costelas ao perceber tudo de uma vez.
'Morreu.'
Não havia confusão. Nem dúvida. Ele lembrava claramente—o peso, o ângulo errado do mundo, o corte limpo de luz. A morte não tinha sido dramática. Fora precisa.
Sinal de Cinzas.
O pensamento o estabilizou mesmo com o pulso acelerado. Seis segundos voltaram. Um erro apagado.
Não perdoado.
Noel levantou a mão até o pescoço sem pensar, dedos pressionando a pele quente onde sua cabeça tinha sido decepada há instantes. Inteira. Completa. Sua respiração veio alta demais por um momento, depois abrandou enquanto se controlava.
Não repita isso.
Do lado oposto, Roberto inclinou a cabeça levemente.
"…Por que você está tocando o pescoço?" perguntou, genuinamente curioso. "Algum problema?"
Noel não respondeu. O instinto de atacar gritou dentro dele—para repetir o ataque, para ajustar o ângulo, para acelerar—but ele reprimiu com força. Atacar de novo sem pensar só o levaria ao mesmo fim.
À sua frente, a Segunda Pilar permanecia perfeitamente imóvel. Esperando. Correntes tensas, postura inalterada. Ela não tinha atacado.
Porque Roberto não tinha ordenado.
Seis segundos atrás, Noel teria perdido essa leitura.
Agora, via claramente.
Não era uma disputa de iguais.
Era permissão.
Roberto o estudava, olhos estreitando-se levemente. "Você está hesitando," disse. "Isso é novo." Uma pausa. "Aconteceu alguma coisa, Noel?"
A distância entre eles se alongou, pesada e frágil.
Noel apertou ainda mais a Presa do Revenant, mas não a levantou. Pela primeira vez desde o início do confronto, optou por não atacar.
Deixou o silêncio respirar.
Não porque estivesse calmo—mas porque precisava daquele segundo extra para evitar fazer algo estúpido. A Presa do Revenant permaneceu baixa em sua mão, sombras grudadas à lâmina como se aguardassem uma decisão que ele se recusava a dar. Seu pulso ainda latejava forte, seus pensamentos ainda agudos pela lembrança da morte, mas ele os colocou em ordem com força.
Fugir não funcionaria. Atacar também não.
Então, fez o único movimento restante.
"Roberto," falou finalmente Noel.
Sua voz saiu mais firme do que se sentia, áspera nas bordas, mas verdadeira. Sem fingimentos. Sem desafio. Apenas um nome pronunciado do jeito que tinha dito mil vezes antes, ao redor de fogueiras e cidades destruídas.
"Por que você está fazendo isso?"
A pergunta pairou ali, frágil como uma ferida que a violência nunca consegue ser.
Por um momento, Roberto não respondeu.
Quando falou, o sorriso desaparecera por completo.
Se tornou algo mais sério, pesado—como uma máscara que finalmente rachou sob sua própria peso. "Porque estou cansado," disse baixinho. "Porque estou preso nesse ciclo há tempo demais, Noel. Mais do que você consegue imaginar."
Noel não interveio.
"Quero que tudo isso acabe," continuou Roberto. "Quero ser livre." Seu olhar desviou por um instante, para a imobilidade da Segunda Pilar, para as correntes que nunca realmente pararam de se mover. "Existem apenas duas saídas. Alguém me mata... ou Elarin sai da prisão."
O maxilar de Noel se cerrara.
"E você não quer morrer," disse.
Os olhos de Roberto voltaram para ele. "Não," admitiu sem hesitar. "Realmente não."
O ar ficou mais pesado a cada palavra.
"Então, preciso que você se fortaleça," prosseguiu Roberto, em tom baixo, quase objetivo. "Forte o suficiente. Estável o bastante para que ele possa te usar como vessel." O olhar dele intensificou-se.
Não havia triunfo. Nenhuma crueldade. Apenas a inevitabilidade.
"Não escolhi você por acaso," acrescentou baixinho. "Você é o mais próximo que já estivemos. O mais próximo que já estive." Os ombros dele afinaram um pouco, a tensão se transformando em algo pesado e exausto. "Por isso que isso é pior que os outros. Porque desta vez..." ele fez uma pausa, tempo suficiente para magoar. "...quase pareceu real."