O Extra é um Gênio!?

Capítulo 515

O Extra é um Gênio!?

"Me explica o que está acontecendo", disse Noel, com um tom tranquilo, prático. "O que está segurando e o que não está."

Gustave enxugou a boca com a mão e fez um gesto para o navio. "Casco em bom estado", afirmou. "Sem fissuras, sem infiltrações. É um milagre. A direção foi a pior parte — leme desalinhado, alguns danos internos. Ela não vai se mover sozinha assim."

Ele soltou um suspiro. "Tentamos forçar ela de volta à água. Não avançamos muito."

"Então é força de braço e tempo", disse Noel.

"E mãos", respondeu Gustave. "Que estamos em falta."

Noel assentiu uma única vez e, sem hesitar, fez a próxima pergunta. "Suprimentos."

Os ombros de Gustave relaxaram um pouco. "Melhor do que esperávamos. Algumas lojas foram destruídas ao atingirmos o fundo do poço, mas a maioria resistiu. Comida está boa. Água também. Não estamos morrendo de fome."

Elyra tomou a dianteira ao lado de Noel, cruzando os braços de forma relaxada. "Ele está carregando reservas", disse, lançando um olhar para Noel. "Bolsa dimensional. O suficiente para manter as pessoas vivas se algo der errado." Seu olhar ficou um pouco mais afiado. "Mas isso não é para uso cotidiano. É para quando tudo mais falhar."

"Concordo", respondeu Noel imediatamente.

Ele voltou a olhar para Gustave. "Baixas."

O capitão não tentou evitar o assunto. "Perdemos pessoas", disse em voz baixa. "Um pouco mais de dez. Mais feridos. Mas, considerando o impacto…", ele balançou a cabeça. "Poderia ter sido pior."

O queixo de Elyra se travou. Sua expressão ficou mais dura — não desabando, não rachando, apenas se tornando algo mais frio e resoluto. "Quando sairmos dessa", ela falou de forma firme, "as famílias deles serão compensadas. Adequadamente."

Gustave olhou nos olhos dela e inclinou a cabeça. "Serão lembrados."

Noel deixou o silêncio preencher o espaço por um momento, os sons do esforço e da madeira esticada preenchendo a pausa. Então, ele assentiu uma vez, as prioridades ficando claras em sua mente.

"Certo", disse. "Então, isso é administrável."

Elyra mudou o peso do corpo, virou-se um pouco, cortando a conversa sem elevar a voz. "Antes que avancemos com o navio", ela falou, com tom firme, mas controlado, "precisamos resolver outra coisa primeiro."

Gustave olhou para ela. Noel também.

"Clara precisa de um lugar seguro", continuou Elyra. "Algum lugar onde ela possa se sentar, deitar se necessário. Longe do esforço, longe de brigas."

Não houve preâmbulo. Nenhuma suavização na fala.

"Ela está grávida."

O barulho ao redor não parou. A equipe continuou empurrando. O casco seguiu gemendo. Mas algo no espaço entre o grupo mudou de qualquer maneira.

O olhar de Gustave se dirigiu a Clara.

Ele não disse nada. Não franziu a testa, não elevou a voz, nem exigiu uma explicação. Simplesmente olhou para ela por um segundo a mais do que o necessário, absorvendo a postura dela, as mãos descansando inconscientemente ao lado do corpo, a tensão que ela não conseguiu disfarçar completamente.

Seu silêncio foi pesado.

Clara percebeu. Claro que percebeu. Seus ombros se encolheram um pouco, e ela desviou o olhar, comprimindo o maxilar como se esperasse essa reação e decidisse aceitá-la de qualquer modo.

Gustave finalmente falou, com voz раве y. "Isso muda as coisas."

"Sim", respondeu Elyra.

Noel não interveio. Ninguém mais também. Não havia o que discutir. Nenhuma justificativa que tornasse a situação mais segura do que ela já não era.

Gustave se virou levemente, indicando para o navio atrás dele.

A embarcação se erguia acima da costa, com casco largo e reforçado, revestido de madeira placa e metal tratado com mana, criado para suportar fogo de cerco e campanhas prolongadas. Não era um navio mercante improvisado para rotas comerciais — era uma embarcação de guerra Estermont. Construída para o conflito. Feita com uma quantidade obscena de dinheiro. Mesmo encalhado, batido, carregava a presença silenciosa de algo feito para dominar o mar, ao invés de implorar por passagem.

"Vamos fazer espaço", disse Gustave. "Uma das cabinas internas. Compartimentos reforçados. Mínimo de vibração." Sua voz deixava claro que aquilo não era sugestão. "Ela não ficará perto da tripulação de ponte nem das linhas de carga."

Clara olhou para ele. "Ainda posso ajudar", disse, suavemente, mas com obstinação. "Só que não —"

"Não", interrompeu Gustave. "Aqui não."

Não havia necessidade de explicar mais. Em um navio como aquele, aquelas palavras já indicavam que a decisão já havia sido considerada na estrutura, no protocolo e na prioridade.

Os ombros de Clara se encolheram novamente. Ela desviou o olhar, apertando o maxilar, plenamente ciente do que aquele silêncio e recusa significavam — e por que ela não merecia nem conforto nem indulgência por isso.

Elyra não reagiu externamente, mas sua presença mudou. Este era o navio da família dela. Sua responsabilidade. E a linha que Gustave traçou se alinhava perfeitamente com isso.

Noel e Elyra se moveram juntos na direção da equipe reunida, sem trocar uma palavra. Não precisaram. O navio fazia barulho de esforço — botas arrastando no madeira, vozes tensas chamando contagens e instruções — mas, sob tudo isso, pulsava o ritmo mais silencioso de ferimento: respiração desigual, gemidos reprimidos, o silêncio de quem tenta não chamar atenção para uma dor que não consegue esconder por muito mais tempo.

Charlotte os seguiu.

Ela não tinha dito nada desde a decisão de Gustave, mas Noel sentia a presença dela às suas costas do mesmo jeito, passos leves acompanhando o ritmo. Quando chegaram ao primeiro grupo de feridos, ela parou ao lado de Noel, já escaneando rostos, com postura ereta como se um interruptor tivesse sido acionado.

"Todos que estiverem machucados", disse Charlotte, com voz firme, sem precisar levantar a voz, " alinhem-se. Vou ajudar o máximo que puder."

Houve uma hesitação breve — depois, movimento. Membros da equipe se rearranjaram, apoiaram-se mutuamente, formando uma fila informal com a eficiência silenciosa de quem não precisa ser avisado duas vezes. Alguns evitaram os olhos dela. Outros a olharam como se ela tivesse mudado o rumo do dia.

Noel a observou por mais tempo do que pretendia.

Ele deu um passo mais perto, baixando a voz para que só ela pudesse ouvir. "Você não precisa forçar isso", disse. "Mas pare antes que piore."

Charlotte olhou para ele, o cantinho da boca levantando-se naquele jeito familiar, gentil, que nunca o enganava completamente. "Sei", disse ela. "Vou parar."

Ele não discutiu. Em vez disso, inclinou-se e deu um beijo breve na testa dela. Sua mão ficou suspensa por metade do tempo que ele achou necessário antes de voltar ao lado.

"Por favor", acrescentou suavemente. "Ouça seu corpo."

Ela confirmou com a cabeça uma vez, com olhos firmes apesar do cansaço que já se insinuava, e virou-se de volta para a fila.

A luz dourada floresceu ao redor de suas mãos enquanto a primeira Bênção tomava efeito. O impacto foi imediato. Cor voltou aos rostos pálidos. A tensão diminuiu. Um homem que segurava as costelas endireitou-se com um suspiro de alívio quase risível.

E Charlotte balançou.

Foi sutil. Apenas um passo um pouco mais lento na próxima etapa. Uma respiração segurada por um pouco mais antes de avançar para o próximo. Noel viu, mesmo assim. Ele sempre via.

À medida que a equipe se recuperava, Charlotte desapareceu — a cor escapando, os ombros se encolhendo, cada Bênção tirando um pouco daquilo que ela não recuperava mais. Elyra também percebeu, sua mandíbula se tensionando enquanto assistia ao ciclo se repetir várias vezes: força transferida, equilíbrio mudado, misericórdia paga em silenciosos parcelamentos.

Gustave não ficou para ver a última Bênção fazer efeito.

Esperou até Charlotte se estabilizar — até que a fila diminuísse e o convés parecesse menos uma sala de triagem — antes de falar novamente. Sua voz estava mais baixa agora, dirigida ao pequeno círculo que se formara ao redor de Noel e Elyra.

"Ainda estamos perto do navio", admitiu. "Nem uma vez. O que quer que esteja lá fora…" Ele olhou para além do casco, em direção ao relevo interior onde pedras quebradas e terra deformada desapareciam na sombra. "Não está quieto. E não é algo que se explora sem cuidado."

Noel seguiu o olhar dele.

A ilha se estendia muito além do que tinham visto da borda inicialmente. Camadas de elevação. Estruturas em ruínas, metade soterradas pela terra. Resíduos de mana ainda presos ao ar, como uma tempestade residual. Não era apenas grande — era densa. Do tipo onde problemas não ficam parados esperando para serem descobertos.

Grande demais para ignorar.

O dispositivo ao lado de Noel vibrava novamente, mais agudo desta vez.

"Tem muita gente nessa ilha", disse Theo assim que a conexão foi ativada. "Mais do que na última. Espalhados. Alguns agrupados. Outros em movimento. Alguns escondidos. Ainda não consigo dar padrões claros, mas… está povoada."

Gustave se virou, com surpresa evidente no rosto. "Quem é?"

"Theo", disse Noel. "Ele nos guia desde a primeira ilha. Acompanha os movimentos. Nos avisa antes que tudo fique ruim." Ele fez uma pausa e acrescentou, "Ele foi quem nos avisou que vocês ainda estavam vivos."

Um instante passou.

Então Gustave inclinou a cabeça em direção ao dispositivo. "Obrigado. Parece que você merece."

"Da mesma forma, Capitão", respondeu Theo. "Você manteve o navio inteiro. Isso não foi por sorte."

Um sorriso tênue surgiu no rosto de Gustave. "Anos no mar", disse. "Ensina a não perder o que é importante."

Noel respirou lentamente, as peças começando a se encaixar, formando algo viável, mesmo que desconfortável.

"Vamos proteger o navio", disse. "Finalizar a estabilização da tripulação. Garantir que ela possa se mover quando precisar." Seus olhos voltaram ao interior da ilha. "Depois, lidamos com o Cristal aqui. E, depois —" Sua voz não fica dura, mas fica firme. "Voltamos para buscar Marcus e Roberto."

Ninguém questionou a ordem.

Noel deu um passo à frente.

Então suas pernas cederam.

Não houve aviso. Nenhum tropeço, nem balanço dramático. Num instante, ele estava de pé, focado e falando — e no próximo, a força simplesmente desapareceu.

Elyra o pegou antes que caísse, braços firmes em volta do seu ombro, com precisão instintiva. Ao mesmo tempo, sombras se dissiparam sob ele enquanto Noir emergia de sua silhueta, sua forma expandindo-se até ficar sólida e gigante ao lado deles.

Eles o acomodaram suavemente.

Noel não resistiu. Nem tentou permanecer de pé. Seu corpo ficou mole assim que foi apoiado, respiração superficial, exaustão estampada em cada linha dele.

Noir se colocou com cuidado, permitindo que seu peso se distribuísse em suas costas, sua presença firme e protetora. Ela ficou parada após seu suporte, olhos verdes levantando-se brevemente para os outros, antes de retornarem a ele.

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