
Capítulo 516
O Extra é um Gênio!?
A primeira coisa que Noel percebeu foi um movimento.
Não forte o suficiente para acordá-lo de susto, não intenso o bastante para parecer perigoso. Apenas uma oscilação lenta e constante que carregava peso por trás dela, balançando-o suavemente de um lado para o outro. Levou alguns segundos para seus pensamentos se organizarem, para a sensação deixar de ser abstrata e se tornar reconhecível.
Um navio.
Seus olhos se abriram para um teto de madeira reforçado com linhas de mana finas, que brilhavam tênue onde a luz os tocava. O ar também estava diferente—mais frio, carregando traços de sal e madeira úmida. Cada subida e descida confirmava isso ainda mais.
Já estávamos na água.
O instinto prevaleceu antes que a razão pudesse alcançá-lo. Noel tentou se sentar, os músculos se tensionando por hábito.
Seu corpo se recusou.
A força se esvaziou na metade do movimento, deixando seus braços tremendo enquanto ele exalava com força e recuava. Tudo parecia mais pesado do que deveria, como se seus membros ainda não tivessem se lembrado de como responder.
Ao seu lado, alguém se mexeu.
Selene sentou-se ao seu lado, as costas apoiadas na parede da cabine. Seu cabelo curto azul estava levemente bagunçado, a postura relaxada, os olhos fechados. Por um instante, ela parecia estar dormindo.
Noel se moveu novamente, e nos seus olhos cianos se abriu imediatamente.
Eles o fixaram sem hesitar.
— Você acordou — disse ela em voz baixa.
Ela se inclinou de repente, uma mão pressionando suavemente contra o ombro dele enquanto a outra escorregava pelas costas. Com cuidado controlado, ajudou-o a se sentar, guidando o movimento de modo que seu corpo não desistisse completamente.
— Cuidado — murmurou Selene. — Você ainda está fraco.
Noel se deixou apoiar nela, sem disfarçar. — O que aconteceu? — perguntou, a voz áspera. — Desmaiei?
Ela assentiu.
— Sim. De novo.
Não havia reproche em seu tom, apenas preocupação tecida de familiaridade. — Você se esforçou demais — ela acrescentou suavemente. — Como sempre.
Noel levou a mão aos cabelos, passando os dedos por eles ao exalar. — Achava que tínhamos tempo.
— Você disse que sim — respondeu Selene. — Que poderíamos desacelerar.
O navio range ao redor deles, o ritmo constante preenchendo o breve silêncio.
Noel fechou os olhos por um momento, sentindo o peso do próprio corpo, o cansaço ainda forte, agarrando-se a ele. Seguro. Apoiado. E ainda—
Ultrapassado pelos seus próprios limites.
Quando abriu os olhos novamente, não discutiu.
Simplesmente aceitou.
Noel levantou a mão para os cabelos, os dedos passando lentamente por eles, distraidamente. Ainda encostado em Selene, a presença dela ao seu lado era firme, o que o ajudava a se sentir mais estável do que queria admitir.
— Não consegui desacelerar — disse em voz baixa.
Selene não interrompeu. Esperou.
— Theo não consegue ver a ilha — continuou Noel. — Nem a do Marcus, nem a do Roberto. Há interferência por toda parte—espessa o bastante para que nem fragmentos passem.
Seu maxilar se tensionou um pouco. — Isso me incomoda mais do que um colapso alguma vez incomodou.
Selene virou a cabeça para ele. — Interferência nem sempre significa perigo.
— Não — concordou Noel. — Mas significa que alguma coisa não quer ser vista.
O navio range novamente, a madeira se ajustando à água, como se pontuasse o pensamento.
Selene observou a expressão dele por um instante antes de falar. — Marcus é forte — disse calmamente. — Você sabe disso. Mesmo que algo dê errado, ele consegue se virar.
— Eu sei — respondeu Noel, sem hesitar. — Mas isso não é o que me assusta.
Ela hesitou, depois acrescentou: — E o Roberto... ele mudou. Tem sido mais confiável ultimamente. Mais do que antes.
O olhar de Noel se perdeu na parede oposta, sem foco. — É exatamente por isso que tenho medo.
Selene fez uma leve expressão de dúvida. — Noel—
— Você lembra o que Noctis nos disse? — interrompeu suavemente. — Que não devemos confiar cegamente naquelas que estão mais próximas. Que o mais perigoso nem sempre se revela à primeira.
O silêncio se estendeu entre eles.
— Tenho medo do Roberto — falou finalmente, em voz baixa, despida de bravata. — Do que ele pode ser. Ou do que já virou.
Selene não recuou nem reprovou. Ela simplesmente escutou.
— Noir também sente isso — acrescentou Noel. — Ela anda desconfortável perto dele há um tempo, e geralmente ela não erra nessas coisas.
Isso chamou a atenção de Selene. Sua expressão mudou — não de medo, mas de consideração.
— Você acha que isso não é suspeita — ela falou lentamente. — Que é mais instinto.
Noel assentiu uma vez.
— Paranoia grita — disse ele. — Mas isso aqui não. Só... está ali, esperando.
Selene hesitou um pouco antes de responder.
Ela o observou por alguns segundos, realmente avaliando-o desta vez—não o estrategista, não aquele que está sempre calculando riscos e possibilidades, mas o menino ao seu lado, com os ombros pesados, os olhos cansados de um jeito que nada tinha a ver com mana ou ferimentos.
Então ela se moveu.
Ela se aproximou mais e o abraçou sem dizer uma palavra, com cuidado para não jogá-lo, nem fazer parecer súbito ou forçado. Uma ação silenciosa, natural, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. Sua testa descansou levemente contra o ombro dele enquanto o segurava, firme o suficiente para que ele sentisse, suave o bastante para que não se sentisse preso.
Ela ficou ali.
Noel travou por meio segundo, mais surpreendido pela simplicidade do que pelo contato em si. Depois, seu ar saiu devagar, uma exalação longa, relaxando a tensão do corpo enquanto se inclinava sem pensar nela.
Seus braços se levantaram espontaneamente, envolvendo as costas dela.
O balanço constante do navio continuava ao redor deles, a madeira soltando rangidos suaves, a água tocando o casco como um sussurro distante e repetitivo. O mundo não parava por eles—mas, por um momento, parecia longe o bastante para não pressionar.
Noel encostou o queixo levemente no ombro dela, os olhos fechados. Seu corpo ainda exausto, pesado, mas o peso no peito parecia aliviar de uma forma diferente. Não se foi. Apenas... foi compartilhado.
Depois de um tempo, Selene se moveu levemente, cuidadosa ao soltar os braços. O abraço terminou sem cerimônia, sem constrangimentos. Ela permaneceu próxima, com o ombro ainda roçando o dele.
Noel ficou imóvel por alguns segundos após o abraço se soltar, com medo de que se mexer rápido demais pudesse quebrar o delicado equilíbrio que haviam encontrado. Então, respirou lentamente e se ajustou, o suficiente para olhar para ela com atenção.
— Quanto tempo? — perguntou.
Ela sabia exatamente o que ele quis dizer.
Selene demorou um pouco, hesitando, e isso disse mais do que as palavras poderiam. Quando finalmente falou, sua voz era calma, cuidadosa.
— Uns poucos dias — respondeu. — Você ficou inconsciente o tempo todo.
Noel piscou.
— Dias — repetiu, mais baixo agora. Apoiou-se na parede, olhando para os plâsticos de madeira sem realmente ver. — Isso... é mais do que eu imaginava.
Mais do que ele gostaria.
Selene o observou com atenção. — Você precisava disso — disse. — Seu corpo já tinha dado sinais de cansaço. Se tivesse insistido mais—
— Eu sei — interrompeu Noel, sem ser ríspido, mas rápido. — Sei. Não estou discutindo.
Ele exalou e esfregou o rosto com uma mão, os dedos deslizando lentamente. — Ainda assim, não estou feliz com isso.
Um leve sorriso apareceu nos lábios de Selene. — Eu imaginava.
Ela se ajeitou um pouco e acrescentou: — É melhor verificar a missão. Para ver como está o andamento.
Noel hesitou por meio segundo, depois assentiu. — ...Sim. Você tem razão.
Ele se endireitou mais um pouco, mais por hábito do que por força, e murmurou: — Status.
Um brilho azul se abriu diante dele, a janela do sistema se estabilizando quase instantaneamente.
[Status da Missão]
Tempo Restante: 91 Dias
Noel olhou fixamente para a tela.
— Merda — resmungou.
Selene levantou uma sobrancelha. Ele quase imediatamente a notou. — Desculpe. Não quis dizer isso —
— Está tudo bem — ela afirmou seca. — Já ouvi coisas piores. De você.
Ele soltou uma respiração curta, que poderia ter sido uma risada, e dispensou a janela com um movimento de dedos. A luz azul desapareceu, deixando para trás o som suave do casco rangendo.
— Uns poucos dias — repetiu Noel, agora mais para si mesmo. — No fundo, só... desabei de tudo.
— Nada quebrou — disse Selene. — Pelo menos aqui dentro, não.
Noel assentiu lentamente. Por mais estressado que estivesse, havia algo mais sob isso—algo inesperado. Seu corpo não doía. Sua mana se mantinha estável. Limpa.
— ...Estou bem — admitiu. — Na real, bem mesmo. Não só “posso me mexer”.
A expressão de Selene suavizou. — Porque você finalmente descansou.
Noel fechou os olhos brevemente, depois os abriu de novo, com o olhar mais firme.
— Acho que isso quer dizer que acabou — disse baixinho. — A pausa, quero dizer.
O navio continuava balançando sob eles, firme e constante.
O tempo não parou por ele.
E agora que estava acordado de novo, não podia se dar ao luxo de ficar para trás, ainda mais com Marcus lá fora.