O Extra é um Gênio!?

Capítulo 517

O Extra é um Gênio!?

Noel deixou as palavras repousarem por um momento, depois olhou de volta para Selene. Ela ainda estava próxima, sentada ao seu lado, com postura relaxada, porém atenta — como esteve desde que ele acordou.

"…Então," ele disse em voz baixa, coçando a nuca. "O que aconteceu enquanto eu estava fora?"

Seu olhar passou por ela, na direção da vibração sutil sob as tábuas do piso. Agora, o movimento era constante, inegável. "O navio já está na água," acrescentou. "O que indica que você não ficou só esperando eu acordar."

Selene respirou pelo nariz, um leve sorriso cansado cruzando seu rosto. "Pois é. A gente não ficou."

Ela inclinou a cabeça um pouco, pensando. "Por onde eu começo…?" Depois de um segundo, assentiu sozinha. "Tudo bem. Como você percebeu — vamos falar do navio."

Ela se ajeitou, confortável, enquanto falava. "Depois que você desabou, todos nós tiramos um tempinho para descansar. Nada longo, mas suficiente para recuperar o fôlego. Charlotte, especialmente, precisava disso." Selene desviou o olhar brevemente. "Ela vinha usando as Bênçãos sem parar. Curando todo mundo, de novo e de novo. Quando acabou, estava completamente exausta."

Noel franziu o cenho. "Deixa eu adivinhar. Vocês não deixaram ela continuar."

"Claro que não," Selene respondeu imediatamente. "Assim como com você. Ser a Santa não significa que ela pode se destruir." Seu tom suavizou. "Ela ainda é nossa amiga."

Noel assentiu uma vez. "…Bom."

"Depois disso," continuou Selene, "Garron, Elena e o pessoal focaram em mover o navio. Elena usou raízes para estabilizá-lo por baixo — manteve-o firme enquanto trabalhávamos." Ela levantou uma mão ligeiramente. "Eu congelei um caminho sob o casco. O bastante para que ele deslisse limpo na água."

Os olhos de Noel se arregalaram um pouco. "Isso… na verdade, foi bem inteligente."

Selene sorriu, só um pouco. "Deu certo."

Ela prosseguiu sem pausas. "Quando flutuamos, os outros cuidaram dos reparos. Selaram buracos, reforçaram áreas frágeis, consertaram o que tinha sofrido danos." Sua expressão ficou ainda mais tranquila. "Também organizamos as provisões. Algumas tinham sido deslocadas quando o navio mudou de posição."

"E aí?" Noel perguntou.

"E, na verdade, estamos em melhor condição do que pensávamos," disse Selene. "Mais comida. Mais água. Suficiente para respirar um pouco."

Noel respirou fundo lentamente, a tensão nos ombros aliviando-se. "Isso é um alívio," ele comentou sinceramente.

Noel ia responder quando notou o som.

Vozes abafadas, vindo além da porta da cabine. Não apressadas, nem tensas — apenas pessoas conversando, se movimentando, existindo. Um ruído que só aparece quando as coisas estão… estáveis.

Sua testa se enrubeceu ligeiramente.

Sem pensar, seguiu o som, com o olhar vagueando pela sala até parar na mesinha perto da parede mais distante.

Algo repousava ali.

Noel parou de repente.

Era um Fragmento.

Escuro, cristalino, com a superfície rachada, marcada por veias familiares de energia condensada. Ele o reconheceu imediatamente — mesma forma, a mesma imobilidade opressiva como todos os outros que haviam reivindicado até então.

Sua respiração ficou presa por meio segundo.

Antes que pudesse dizer algo, uma cintilação azul familiar se desdobrou diante dele.

[Fragmento encontrado.] [Você enfraqueceu o Segundo Pilar em 5% de seu poder.]

[Total: 20%]

Noel fixou o olhar na notificação.

"…Conseguiu," ele disse em voz baixa.

Selene seguiu seu olhar e assentiu. "Conseguimos."

Ele voltou a olhar para o Fragmento, com a mente acelerada. Eles tinham conseguido segurá-lo. Mais uma parte arrancada da influência do Pilar — e ele nem sequer tinha acordado ainda para isso.

"Quando?" ele perguntou. "Quer dizer… como?"

Seus dedos se fecharam ligeiramente contra o tecido sob ele. "Precisou lutar por isso? Alguém se machucou?"

Não havia acusação na sua voz. Apenas a sensação do vazio deixado pela ausência.

"Eu estava fora," continuou Noel, levantando os olhos para Selene. "Então preciso entender. Como vocês conseguiram pegar o Fragmento da ilha?"

Antes que Selene pudesse responder, as sombras aos seus pés se moveram.

Elas se afastaram suavemente dele, reuniram-se e subiram até que Noir emergisse de sua silhueta, solidificando-se no meio do movimento. Ela pousou suavemente no colo dele, com as patas pressionando suas pernas enquanto olhava para cima com uma expressão de clara insatisfação.

"Você não devia se esforçar assim, pai," disse Noir, com as orelhas voltadas para trás. O tom dela não era raivoso — mas firme, decepcionada, numa mensagem que cortava mais fundo. "Sei que quer acabar tudo logo. Entendo. Mas se gastar toda sua energia, ninguém ganha com isso. Só que a gente fica mais devagar."

Noel abriu a boca, depois a fechou de novo.

“Humpf,” resmungou Noir suavemente. "Já avisei os outros que você está acordado," acrescentou. "Eles vão chegar logo."

Selene tocou suavemente o pelo de Noir, arranhando atrás das orelhas dela. Noir se curvou na mordida cálida, com os olhos semiabaçados por um instante, antes de olhar novamente para Noel, claramente ainda insatisfeita.

Noel baixou o olhar e assentiu uma vez. Não discutiu, não tentou se explicar.

'Justo,' pensou.

Selene retirou a mão e, enfim, continuou. "Não podíamos simplesmente ficar parados," disse. "Enquanto as coisas ainda estavam em movimento. E enquanto tínhamos capacidade para fazer algo."

Ela se ajustou, firmando-se antes de seguir. "Clara ficou na embarcação. Essa parte não tinha discussão. Ela já fez o suficiente, agora precisa focar nela e no bebê."

A expressão dele amoleceu um pouco, e ele assentiu novamente.

"O resto de nós foi para a ilha," falou Selene. "Eu, Elyra, Elena, Charlotte, Garron e Laziel. E alguns membros da tripulação, para apoio."

O olhar dela se intensificou ao relembrar. "A cidade lá era… maior que qualquer outra que tínhamos visto até agora. Não só gigante, como viva. E as correntes…" Ela fez uma pausa, escolhendo bem as palavras. "Elas estavam mais fracas. Como se já estivessem deteriorando há muito tempo."

Noel franziu o cenho. "E as pessoas?"

"Livres," respondeu Selene simplesmente. "Humanos. Anões. Elfos. Todos vivendo sem as correntes que os prendiam."

Ele a olhava, perplexo. "…Isso não faz sentido."

"Eu sei," respondeu ela. "Foi estranho. Mas era verdadeiro."

"Não houve lutas," continuou Selene. "Nem resistência. As pessoas lá nos levaram direto até o Fragmento. Foi o próprio povo que nos mostrou onde estava." Ela soltou um suspiro suave. "São milhares deles, Noel. Milhares."

O navioRangeava sob eles enquanto aquilo se assestava.

Selene deixou o silêncio durar um instante, dando a Noel tempo para processar tudo. Quando falou novamente, seu tom mudou — menos reflexivo, mais objetivo.

"Ainda estamos ajudando eles," disse. "Na ilha, quero dizer. Não pegamos o Fragmento e fomos embora."

Noel levantou os olhos. "Como?"

"Usando o próprio navio," explicou Selene. "Para deslocar as pessoas entre as ilhas. E suprimentos também. Elas estiveram isoladas por muito tempo, mesmo sem as correntes."

Ela se recostou um pouco. "E estávamos esperando por você."

"Por mim?" Noel repetiu.

Selene assentiu. "Tem navios lá. Muitos deles. A antiga frota das Ilhas do Norte." Ela fixou o olhar nele. "As correntes ainda estão intactas. Você é o único que consegue cortá-las limpo."

Noel entendeu imediatamente.

"Com esses navios livres," continuou Selene, "não precisarão mais de você para mover todo mundo com Passo das Sombras. Sem saltos constantes. Sem se esgotar só para manter tudo em movimento." Sua voz ficou mais suave. "Você já sobrecarregou sua mana uma vez. Não vamos deixar que você faça isso de novo."

Noel respirou fundo lentamente, a tensão se aliviando profundamente no peito. 'Eles pensaram nisso,' ele percebeu. 'Não só na missão — mas nele.'

"…Valeu," disse baixinho.

Antes que Selene pudesse responder, a porta da cabine se abriu.

Primeiro entrou Elena, os olhos se iluminando ao vê-lo acordado. Elyra entrou logo depois, claramente aliviada. Charlotte veio por último, ainda com cara de cansada, mas sorridente na mesma.

"Aí está você," disse Charlotte, atravessando a sala sem hesitar. "Estávamos perguntando quando você ia acordar."

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