
Capítulo 514
O Extra é um Gênio!?
As sombras se agrupavam diante de quem quer que fosse agir primeiro.
Não avançaram de repente ou se prenderam de uma só vez. Engrossaram-se. A escuridão acumulou-se ao redor dos pés, espalhando-se para fora, infiltrando-se na pedra como tinta. A luz não desapareceu de uma só vez — ela foi apenas tornando-se um pouco mais fraca, até que todos tivessem a sensação de que ela se acomodava nos ossos.
Não havia espetáculo algum.
Apenas cansaço.
Noel permanecia no centro. Sua postura era firme, a respiração controlada, mas a tensão aparecia em detalhes: um leve reflexo nos dedos antes de paralisá-los novamente, a sutil demora antes de as sombras responderem ao seu chamado. Ser um Arquimago só adiava o custo. Nunca o eliminava.
Sem dizer uma palavra, os demais se aproximaram.
Uma mão repousou em suas costas. Outra, no seu ombro. Os dedos tocaram seu braço, seu manto, fixando-se nele. Não houve formação ou comando explícito. Todos entendiam.
Isso não poderia ser feito muitas vezes seguidas.
Noel também sabia disso. Sentia no âmago, na resistência crescente das sombras, na pressão que teimava em não desaparecer, não importando o quanto ele se aceitasse. Podia forçá-la — mas cada tentativa deixaria menos dele mesmo para o que viesse a seguir.
Ainda restavam mais de noventa dias na missão.
Marcus não tinha esse tempo.
Ele exalou lentamente, tentando acalmar o barulho em sua cabeça. Não tinha vindo sozinho para as ilhas, e, naquele momento, entendeu o quanto aquilo era importante.
Depois, percebeu Noir.
Ela se acomodou diante dele, serena mesmo com a escuridão se contorcendo ao redor de suas patas. Seus olhos roxos encontraram os dele sem julgamento. Ela via a fadiga, as contas, a tensão que ele não havia liberado desde que tudo começou.
'Papai,' sua voz tocou sua mente, firme e tranquilizadora. 'Você pode diminuir o ritmo. Marcus e Roberto vão ficar bem. Os outros também. Assim que chegarmos à próxima ilha, as coisas vão se estabilizar.'
Noel manteve o olhar por um segundo além do necessário.
Depois, sorriu — pequeno, cansado, mas sincero.
"Passo das Sombras."
A escuridão respondeu.
Todo o grupo dissolveu-se em sombra, os corpos perdendo definição até se tornarem uma escuridão pura que se enrolou para dentro e desapareceu. Não houve som. Nenhum clarão. Apenas um vazio limpo onde tinham estado.
De fora, os sobreviventes assistiam em silêncio, incapazes de desviar o olhar do espaço vazio deixado para trás. Técnicas avançadas de sombra eram raras. Aprendê-las já era difícil por si só. Carregar outros através delas assim era algo totalmente diferente.
Quando a ilha foi deixada sozinha novamente, um sentimento de expectativa permanecia no ar, pesado e não dito.
As sombras já tinham desaparecido.
A sombra se desfez sob o casco.
Elas surgiram direto sob o navio encalhado, a escuridão deslizando de volta ao lugar como se nunca tivesse sido perturbada. O espinhel sobressaía acima, marcado e encaixado na pedra, seu peso pressionando a ilha como uma teimosa recusa a se mover. Por meio segundo, ninguém falou — todos simplesmente registraram seu local.
A mão de Noel se levantou por impulso, apontando uma vez para o espaço aberto antes que as sombras o soltassem completamente. Não era uma ordem. Apenas um reflexo. Um hábito de garantir que ninguém aparecesse meio dentro de uma parede ou pior.
Depois, virou-se, já verificando.
Elyra ficou ereta, respirando firme apesar do palor pálido no rosto. Elena deu uma rodada nos ombros, testando o movimento, olhos afiados e presentes. Selene e Charlotte estavam vigilantes, olhando para fora em direções opostas, sem dar sinais de novas feridas.
Garron percebeu o olhar de Noel e respondeu sem pensar, flexionando os braços uma vez, depois novamente, como se desafiasse seu corpo a discordar dele. Não houve reação — pelo menos, não visível. Ele deu um breve sinal de cabeça que dizia o suficiente.
Depois, veio Laziel.
Ele nem tentou ficar de pé.
Desabou de joelhos assim que as sombras o soltaram, uma mão apoiada na pedra enquanto vomitava violentamente, os ombros sacudindo. Seu rosto tinha tomado um tom impressionante de verde, os olhos marejando de lágrimas como se o próprio mundo o tivesse ofendido pessoalmente.
"Ah, não, sério..." conseguiu dizer entre respirações. "Isso — isso não é — não é natural."
Alguém bufou. Talvez fosse Clara. Mesmo Selene remexeu a boca antes de desviar o olhar.
O momento não quebrou a tensão, mas a soltou um pouco. Só o suficiente.
Noel assimilou tudo, então voltou o olhar para o navio.
Estava inteiro.
Marcado, preso e bem encalhado — mas inteiro. O casco não tinha se dividido. O masto ainda resistia. Cordas pendiam soltas na lateral, e ao redor, as pessoas se esforçavam e gritavam, mãos pressionadas na madeira, tentando, desesperadamente, empurrar a embarcação de volta para a água. O ranger da madeira ecoava sobre a pedra, ritmado e teimoso.
Eles estavam mantendo tudo sob controle.
Noel exalou lentamente.
'Bom,' pensou. 'Ainda não estamos atrasados.'
Noel esperou até Laziel respirar de forma estável, pelo menos o suficiente para que pudesse ser chamado de estável, antes de agir.
Ele não se aproximou de Clara como um comandante verificando uma unidade. Caminhou devagar, parando perto o bastante para ela não precisar olhar para cima, perto o bastante para que o barulho do navio e da multidão se tornassem o pano de fundo.
"Está tudo bem?" perguntou em tom baixo.
Clara assentiu quase imediatamente. "Sim," ela respondeu. "Estou." Ela hesitou, depois acrescentou: "O bebê também."
Os ombros de Noel relaxaram um pouco. Não tinha percebido o quanto estavam tensos até então. "Ótimo."
Seus olhos cruzaram os dela por meio segundo, pousando em Laziel, ainda ajoelhado, claramente reconsiderando todas as escolhas de vida que tinha feito.
"Não estou... tão mal quanto ele," disse Clara, com um sorriso discreto surgindo nos lábios enquanto seguia o olhar dele. "Se isso ajudar."
E ajudou. Um pouco.
Noel a olhou de novo. "O Marcus sabe de tudo?"
O sorriso desapareceu — não abruptamente, mas com sinceridade.
"Não," disse Clara. "Não contei pra ele." Ela respirou fundo lentamente. "Se ele soubesse, não teria me deixado vir. Ia insistir que eu ficasse pra trás, e eu—" Ela se interrompeu, sacudiu a cabeça. "Não podia fazer você passar por isso sozinha. Ainda posso ajudar."
A voz dela ficou mais firme, mesmo com as mãos mantidas entrelaçadas na frente do corpo. "Somos uma equipe."
As palavras ficaram no ar.
Elyra se aproximou, sem invadir, mas também sem ficar de fora. O tom dela não foi ríspido. Não precisava.
"Essa não foi uma boa escolha, Clara," ela falou com calma. "Contra o Arquimago—Elite, você poderia ter perdido o bebê. Fácil."
Clara não tentou reagir. Não discutiu.
Elyra continuou, com o olhar firme. "Agora que temos o navio, isso parou. Você não se aproxime mais da linha de frente."
Charlotte acenou com a cabeça uma vez. Selene não comentou, mas sua postura mudou sutilmente — concordando sem palavras. Até Garron ficou quieto, com a mandíbula cerrada e o olhar fixo adiante.
Ninguém discordou.
Clara fechou os olhos por um instante e, depois, assentiu. "Ok."
Noel sentiu o peso se firmar totalmente.
Marcus não era mais apenas alguém que eles precisavam alcançar.
Ele era alguém com quem Noel não podia se dar ao luxo de se decepcionar — nem agora, nem depois de tudo isso.
Ele olhou de novo na direção do navio, o esforço dos corpos contra a madeira, o ranger do esforço ecoando pelos rochedos.
"Vamos buscá-lo," disse Noel, mais para si mesmo do que para os outros. "Ambos."
Passos lentos chegaram primeiro que o próprio homem.
Eles eram vagarosos, irregulares, o som de alguém se movendo com cuidado mais do que com cautela. O grupo reagiu por instinto — mudaram posturas, elevaram a atenção — mas ninguém agarrou uma arma.
A silhueta surgiu de lado ao casco, delineada pela sombra do navio. Ombros largos, casaco desgastado, postura carregada pelo peso da responsabilidade, não por ferimento.
"Capitão," disse Noel de forma tranquila.
Gustave parou de repente ao vê-los direito.
Por um segundo, apenas encarou. Então sua visão se fixou em Elyra, e o suspiro que claramente vinha segurando saiu de uma vez.
"Senhora Elyra," disse com a voz rouca de alívio. "Que as marés sejam generosas." Ele balançou a cabeça uma vez, quase como para si mesmo. "Começava a pensar que o pior tinha acontecido."
Elyra entrou com a cabeça. "Ainda estamos aqui."
"Isso é mais do que eu poderia esperar," respondeu Gustave. Seus olhos percorreram o restante deles, avaliando com eficiência de um marinheiro — ferimentos, exaustão, quem ainda se mantinha de pé ou fingia. A boca dele se fechou um pouco ao olhar para Laziel, ainda pálido e ajoelhado, depois relaxou novamente.
"O navio aguenta," continuou Gustave. "Por pouco, mas é teimoso. O casco está inteiro. A direção está uma bagunça. Temos tripulantes feridos e menos mãos para mover ela sem ajuda." Ele olhou de volta para a ilha ao fundo. "E não podemos ficar. Não assim. O chão está ficando... agitado."
Noel concordou lentamente, já montando o quadro na cabeça.
Eles não haviam chegado à segurança.
Chegaram à próxima responsabilidade.
"Vamos estabilizar o navio," disse Noel. "Cuidar da tripulação. Fazer ela se mover." Seus olhos se voltaram por um instante em direção ao horizonte — em direção à ilha que não podiam ver. "Depois, voltamos atrás pelo Marcus."
Gustave o estudou por um momento, depois assentiu com firmeza. "Então é melhor começarmos a trabalhar."
Ao redor, a tripulação continuava empurrando, a madeira gemendo sob a tensão, vozes roucas, mas determinadas.
Noel olhou para o navio mais uma vez, sombras que antes o carregavam, sem uma fuga fácil debaixo de seus pés.