O Extra é um Gênio!?

Capítulo 513

O Extra é um Gênio!?

A mudança aconteceu sem que ninguém anunciasse.

Eles saíram novamente assim que todos estavam com fôlego suficiente para andar, mas a forma do grupo mudou por conta própria, como água encontrando um novo canal. Clara acabou no centro sem que ninguém precisasse dizer para ela ir lá. Não foi discreto, nem forçado — apenas uma convergência silenciosa, enquanto Elena ajustava seu ritmo ao lado dela e os outros se acomodavam ao redor.

Charlotte caminhava meio passo atrás, olhos levantados para cada telhado e canto quebrado, sem fazer questão de chamar atenção. Selene fazia o mesmo do lado oposto, com o olhar distante, porém atento, interpretando a atração de mana e o peso como sempre fazia. Garron permanecia à frente, apesar do braço, com a postura ainda firme, por hábito, mesmo com o alcance mais curto agora.

Noel percebeu tudo isso.

Foram duas ruas adiante até que Clara falou, a voz calma, mas travada, daquele jeito que fica quando ela está escondendo alguma coisa.

“Eu não quero que me carreguem,” ela disse, olhando para frente, ao invés de para eles. “Ainda posso ajudar. Não quero atrasar todo mundo.”

Noel respondeu imediatamente, porém de forma tranquila.

“Você não está sendo carregada,” ele disse. Seu tom era equilibrado, quase de conversa. “Você está sendo protegida. Isso é diferente.”

Clara virou o rosto na direção dele, as sobrancelhas franzidas levemente. “Parece a mesma coisa, só que num tom mais fino.”

“Não é,” respondeu Noel. Ele diminuiu o passo o suficiente para ficar ao lado dela. “Carregar significa que você é um peso. Não é o caso. Aqui, estamos decidindo até onde o risco vai.”

Ela abriu a boca novamente, pronta para insistir.

Garron a venceu na frente.

“E antes que você discuta,” ele disse, olhando para ela por cima do ombro, “nenhum de nós vai deixar você correr esse risco. Nem revelar isso.”

Clara suportou o olhar dele por um segundo a mais, então expirou pelo nariz e assentiu uma vez. “Tá bom,” ela falou baixinho. “Entendo vocês.”

Ninguém acrescentou mais nada.

O primeiro som de metal veio do lado esquerdo.

Não foi alto. Não foi dramático. Apenas o rangido de algo pesado se soltando dos escombros onde um prédio tinha desmoronado, seguido pelo som errado de passos—lentos demais, desiguais, carregando mana que ainda não aprendeu a se mover como algo vivo.

Selene percebeu primeiro. Charlotte viu um segundo depois.

“Estão atrasados,” ela murmurou.

Formas emergiram da rua quebrada à frente—três, depois cinco, depois mais. Assinaturas de mana de arquimago, mas desajeitadas, dispersas. Construtos e bestas deformadas puxados pelo resíduo ainda grudado na ilha como um cheiro.

Arquimago – Comum.

Por isso Noel seguiu adiante sem pressa.

“Fiquem,” ele disse, sem levantar a voz. Sem olhar para trás. Não foi uma ordem por hierarquia ou pressão — apenas uma declaração do que ia acontecer.

Ninguém se mexeu.

As mãos de Clara cerraram-se ao lado do corpo. Essa era a primeira vez desde a revelação de que ela tinha sido colocada intencionalmente fora do combate, e a tensão era evidente na maneira como ela se inclinou para frente, mesmo contra a vontade. Elena ficou próxima o suficiente para que os ombros quase se tocassem.

Noel exalou uma vez, sombras se soltando ao redor dos pés enquanto se deslocava com habilidade—"Passo das Sombras", levando-o para fora de vista.

Ele saiu de uma sombra atrás do primeiro construto, a lâmina do Revenant Fang já em movimento, enquanto "Impulso de Ignição" flamejava ao longo da lâmina, fogo envolvia o aço em um brilho violento. A espada atravessou a armadura frágil com facilidade, o calor se espalhando enquanto o construto se partia antes mesmo de reagir.

Noel desapareceu novamente, deslizando por uma sombra fraturada projetada por uma parede inclinada. Reapareceu por pouco tempo, apenas o suficiente para lançar a mão à frente, o "Aguente de Tensões" disparando uma linha fina de relâmpago que perfurou o núcleo do próximo monstro. Ele caiu instantaneamente, mana escorrendo no ar.

Mais dois se lançaram contra ele, desajeitados e atrasados.

Noel virou o corpo, "Arco de Fogo" rasgando uma vistosa curva que cortou os inimigos na altura do peito, com as juntas falhando ao mesmo tempo, enquanto metal queimada caía ao chão. Um tentou rastejar pra frente mesmo assim. Noel o acabou sem parar, usando "Gélido" para congelá-lo até que um corte seguinte o partisse em pedaços inertes.

O último grupo tentou se espalhar.

Mas não tiveram chance.

"Chuva de Raios" saltou da mão estendida de Noel, relâmpagos se ramificando de um corpo para o outro, fazendo três alvos ruírem no espaço de um instante, seus quadros fumegando fracamente contra a pedra rachada.

A silêncio retornou rapidinho.

Noel recuou para o espaço do grupo, sombras se retraindo dele enquanto Revenant Fang baixava. Ele não parecia ferido. Não parecia apressado.

Mas também não estava completamente descansado.

Clara respirou fundo, sem perceber que tinha segurado o ar, os olhos fixos nele por mais tempo que qualquer outro.

Charlotte falou baixinho, quase para si mesma. “Eles não são o problema.”

Selene assentiu uma vez, o olhar já voltando além da destruição. “Não. É só barulho.”

Noel olhou adiante, os sentidos se estendendo mais longe. Seu maxilar se apertou um pouco.

“Tem pessoas lá na frente,” ele disse. “Vivas.”

Os sobreviventes não eram difíceis de encontrar uma vez que sabem o que procurar.

Seguiram sinais de vida, e não de mana—pedras arranhadas onde alguém arrastou-se até se esconder, barreiras improvisadas presas entre paredes quebradas, o som suave de respirações que não pertenciam a nada caçando. Pequenos grupos, dispersos e desconectados, cada um agarrado ao que achava que era o refúgio mais seguro quando o mundo começou a desabar.

O primeiro grupo se escondia sob um arco desabado: dois humanos e um anão, todos manchados de poeira e sangue seco. Um deles pulou forte ao ver Noel, as mãos buscando uma arma que já não existia mais.

“Acabou,” Noel disse com calma, parando bem antes do grupo. Manteve as mãos visíveis, a postura relaxada. “Não estamos aqui para te arrastar pra lugar nenhum.”

Isso lhes rendeu olhares desconfiados, ao invés de pânico. Foi suficiente.

Elena se aproximou já ajoelhando, uma luz suave de tom verde emergindo das palmas enquanto examinava ferimentos com destreza. “Fique quieto,” ela murmurou, sem ser rude. “Posso estabilizar. Não posso consertar tudo.”

“Prefiro ficar estável,” resmungou o anão, fraquejando enquanto a dor diminuía.

Mais adiante, encontraram um par de elfos presas em um corredor estreito, uma apoiando a outra com os braços trêmulos. Elyra reforçou o teto rachado acima delas sem comentários, rúbricas passando silenciosamente enquanto transformava o abrigo perigoso em algo que ainda pudesse dar esperança de sobrevivência.

Mais vozes surgiram. Mais rostos apareceram. Humanos, elfos, anões—demasiados para o conforto, poucos demais para dar esperança. Todos exaustos. Todos assustados.

“Os monstros voltaram depois que caiu,” disse um sobrevivente, segurando uma perna enfaixada. “Mais do que antes. Parece que algo percebera.”

Noel concordou. “Faz sentido.”

Alguns fizeram a pergunta direta.

“Podemos ir com vocês?”

“Vocês vão seguir em frente, certo?”

“Por favor—não queremos ficar aqui.”

Noel não evitou a questão.

“Não posso levá-los,” disse de forma equilibrada. “Vamos para um lugar pior, não mais seguro. Vocês atrasariam a gente, e não vou apostar suas vidas fingindo o contrário.”

Algumas faces caíram. Uma mulher parecia que ia discutir.

“Mas,” continuou Noel, fixando o olhar nela, “não vão ficar abandonados. Ajudar vem chegando. Vou garantir isso.”

Ele tocou no dispositivo ao lado, a confirmação de Theo veio rápida, baixa e firme, promessas de monitoramento e rotas de evacuação já em andamento.

“A gente está seguro agora?” alguém perguntou, quieto, pequeno.

Noel não hesitou. “Por enquanto. Essa é a única verdade que não vou mentir.”

Eles deixaram eles reforçados, estabilizados, vigiados.

Quando o grupo se reagrupar na beira da ilha, no começo ninguém falou coisa nenhuma.

Clara ficou um pouco afastada, os olhos fixos nos sobreviventes que estavam para trás—depois se perdeu, espontaneamente, na direção do horizonte.

'Marcus…'

A ponta da ilha desapareceu no ar aberto.

De onde estavam, a próxima ilha flutuava próxima o suficiente para parecer acessível, sua massa deslizando lento e constante contra as correntes de mana. E lá — na meia-sombra contra a luz fraca — estava o navio.

Ele ainda estava inteiro.

Amassado, inclinado, visivelmente deteriorado, mas inconfundivelmente deles.

Mais importante: não estava abandonado.

Figuras se moviam pelo convés e pela rumina quebrada que ligava o navio à borda da ilha. Quase demais para contar à primeira olhada. Elfos, anões, humanos—alguns mancando, outros apoiando tábuas com os ombros, alguns gritando ordens enquanto tentavam empurrar o navio de volta à linha d’água onde devia estar.

“Estão empurrando,” disse Garron, franzindo o olhar. “Na verdade, tentando pôr ele pra frente.”

Elyra respirou fundo, devagar, sem perceber que segurava a respiração. “Então ainda resistiu.”

“E as pessoas a bordo também,” completou Elena, suavemente.

Noel observou a cena em silêncio primeiro. A inclinação do navio. O movimento nervoso, descompassado, do esforço. Ainda não era uma evacuação—era desespero transformado em esforço.

“Esse é o nosso próximo destino,” disse Noel, por fim. “Primeiro, garantimos o navio.”

As mãos de Clara relaxaram um pouco, embora os olhos nunca deixassem a embarcação distante.

“E depois?” ela pediu, já sabendo a resposta.

Noel virou-se então, com voz baixa e firme. “Depois que o navio estiver seguro, vamos buscar o Marcus.”

Ela olhou para o rosto dele, o medo passando pelos aberturas que tentava manter fechadas. “Tem certeza?”

“Tenho,” respondeu ele, sem hesitar. “Se alguma coisa deu errado, já teríamos percebido.”

O dispositivo de Theo emitiu um zumbido suave antes que Clara pudesse responder.

“Ainda não consigo ver aquela ilha,” disse Theo, frustrado, mesmo com a distorção. “O que estiver acontecendo com o Marcus e o Roberto está bloqueando minha visão completamente. Sem imagens, sem projeções. Nada.”

Noel assentiu uma vez, aceitando com calma. “Então, vamos às cegas.”

Ele olhou de volta para o navio, onde a multidão voltava a se mover, madeira rangendo sob a pressão.

“Não podemos perder tempo,” disse Noel. “Eles estão segurando. Vamos garantir que continue assim.”

O grupo ajustou sua formação naturalmente, se fechando enquanto se voltavam para longe da borda.

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