
Capítulo 512
O Extra é um Gênio!?
O grupo não se ajeitou com nenhuma intenção específica. Simplesmente… sentaram. Onde suas pernas os entregassem, onde a pedra estivesse menos quebrada. Uma roda solta foi se formando sem ninguém decidir que deveria, próxima o suficiente para que ninguém se sentisse isolado, longe o bastante para que ninguém se sentisse apertado.
Garron apoiou-se pesadamente em um pedaço de alvenaria caída, com o braço esquerdo envolto e imobilizado de modo rough pela Elena, que improvisara uma espécie de bandagem com tecido e crescimento duro como casca de árvore. Ele continuava mexendo os dedos como se estivesse testando se ignorar a dor de algum modo fazia ela parar de ouvir. Mas não parava.
— Odeio isso — afirmou finalmente, quebrando o silêncio. Sua voz não era alta, apenas áspera. — Sentar aqui. Esperar. Sou feito para ficar na frente das coisas e fazer elas pararem de se mover. Não… isso.
Ele indicou vagueando com o braço bom. — Parece que estou peso morto.Elena, que estava ajoelhada perto, ajustou a penúltima linha de luz verde ao redor do ombro dele e recostou-se nas pontas dos calcanhares. Parecia cansada de forma sincera—sem dramatismos, apenas limites atingidos.
— Você está vivo — disse ela, com tom seco, mas gentil. — O que significa que fez seu trabalho. Tudo o que vier depois é bônus. — Ela inclinou a cabeça, observando-o. — Além disso, para constar, peso morto geralmente não mantém monstros do nível do Arquimago ocupados tempo suficiente para que o resto de nós sobreviva.
Garron bufou, uma risada meio escapando antes que ele pudesse parar. — Ainda não gosto disso.
Charlotte se mexeu na posição, com os braços cruzados mais por equilíbrio do que por calor. Não falou desde que se reagruparam, com o olhar baixo, queixo tenso, como se estivesse se mantendo por hábito.
— Não foi só você — disse ela, baixinho. Sem agressividade. Sem defesa. Apenas uma verdade cansada. — Todo mundo exagerou na dose. Você só aconteceu de estar na linha de frente. — Olhou ao redor do círculo sem erguer a cabeça. — Se considerarmos os danos… todos nós pagamos por isso.
Ninguém discordou.
Noel estava de pé ao lado, observando mais do que participando, com os olhos devagar de um rosto a outro. Quando finalmente falou, não foi para corrigir ninguém.
— Não foi limpo — afirmou. Sua voz carregava facilidade, calma, mas sem frieza. — Saimos daqui sem sair ilesos. Não fomos perfeitos na estratégia. — Pausou, deixando aquilo se assentar. Depois acrescentou, mais baixo: — Mas também não foi um erro.
Ele deu um passo à frente e, por fim, sentou-se, apoiando os antebraços nos joelhos, numa postura relaxada que deixava claro que não ia começar a dar ordens.
O peso da atmosfera não durou muito.
Nunca durou mesmo, com esse grupo.
Alguém—Noel, mais tarde—pegou uma garrafa d’água do bolso dimensional e deu um longo gole. Encostou nas pedrinhas quebradas, como se, por um momento, tivesse decidido que o mundo podia esperar. O silêncio que seguiu deixou de ser tenso. Era o tipo que vem quando todo mundo está cansado demais para ficar apressando o próximo pensamento.
Quem quebrou esse silêncio foi Elyra.
Ela estava sentada de cross-legged, ainda parecendo mais exausta do que admitiria, mas seus olhos já tinham aquela perspicácia familiar de novo—a que ela adquire quando já está três passos adiante de todo mundo.
— Sabe — ela falou de modo casual, como se estivesse comentando sobre o tempo — quando isso acabar… quero ter um filho.
Noel se engasgou.
A água entrou torta, e ele tossiu forte o suficiente para seus ombros tremerem. Tentou virar a cabeça para o lado, mas foi um segundo atrasado.
Laziel, que estava sentado bem à sua frente, recebeu a jato total.
— …Eu odeio todos vocês — disse Laziel, bem sem expressão, piscando água dos olhos. — Cada um de vocês. Principalmente você.
Clara soltou uma fungada. Selene, que chegou a sorrir, na verdade sorriu. Até Garron soltou uma risadinha fraca, que virou uma tosse.
Noel limpou a boca com o dorso da mão, ainda meio morrendo. — Eu— eu não— vocês não podem simplesmente— — apontou de modo vago entre Elyra e ele mesmo. — Isso não é uma frase que você solta assim, de boa.
Elyra inclinou a cabeça, olhando para ele, completamente impassível. — Eu acabei de falar. — disse ela, com calma.
Seus olhos se moveram, bem deliberadamente, para ele.
A consequência foi clara.
As sobrancelhas de Elena se levantaram. A cabeça de Charlotte deu uma travada por um segundo. Selene desviou o olhar e voltou, decidindo se concentrar numa rachadura no chão.
— Ual — disse Laziel. — Toma água e acorda assim.
Noel passou a mão no rosto. — Elyra.
— O quê?
— Você está fazendo isso de propósito.
— Claro que estou — respondeu ela, sem nem fingir contrariedade. Depois, deixou a expressão amolar um pouco. — Não agora. Não aqui. Mas algum dia. Quando isso parar de ser… isso.
— Indicou vagamente a ilha destruída, as pedras quebradas, toda a confusão. — Quero algo que não seja só sobre sobreviver.Por um momento, ninguém brincou.
Então Garron clarificou a voz. — Eu, uh, estou feliz por você. Você, futura você.
Charlotte concordou com a cabeça. — Isso… na verdade, é até bem legal.
Noel abriu a boca, fechou de novo, deu mais um gole com cuidado na água e disse: — A gente… conversa sobre isso. Quando não estivermos mais sangrando.
— Combinado — disse Elyra, satisfeita.
Clara ficou quieta durante tudo.
Quietíssima.
Ela estava sentada um pouco separada, com as mãos no colo, observando-os com um sorriso pequeno e estranho, que Noel nunca tinha visto antes. Quando o riso diminuiu e o momento assentou, ela respirou fundo.
— Como estamos falando de planos de vida, — ela disse calmamente — acho que também tenho que dizer algo.
Todos olharam para ela.
Ela hesitou por meia segunda. Então:
— Estou grávida.
O mundo parou.
Não metaforicamente.
De verdade.
Não ficou aberta, a boca de Garron. Laziel congelou no meio do piscar. O cérebro da Elena pareceu travar e precisou reiniciar. Selene parou completamente. Os olhos de Charlotte se arregalaram.
Noel apenas a encarou.
— …O quê? — falou ele.
Clara sorriu, agora um pouco nervosa, um pouco orgulhosa. — O Marcus e eu. Antes de tudo isso. — Ela deu de ombros levemente. — Descobri pouco antes de tudo ir por água abaixo.
A pausa se prolongou.
Até que Elena se levantou de repente. — Clara— você— está bem? Quanto tempo? Está machucada? Algo aconteceu——
A calma não só se prolongou, ela se fechou ainda mais.
— …O quê? — disse Noel.
A expressão de Clara vacilou—não desapareceu, mas perdeu a luz que tinha antes. Ela assentiu uma vez, se firmando. — O Marcus e eu. Antes de tudo isso. — Respirou fundo com cuidado. — Descobri pouco antes de tudo ir por água abaixo.
Desta vez, o que os manteve imóveis não foi o choque, mas algo mais pesado.
Elena foi a primeira a se mover. Cruzou o espaço até ela, sem pensar, ajoelhando na frente de Clara, com a voz de repente toda focusing e contenção. — Quanto tempo? — perguntou. — E não me diga “um pouco”.
— Não muito — respondeu Clara rapidamente. — Bem no começo. Bem bem no começo. Não teria vindo se não fosse seguro.
Ela hesitou, depois acrescentou, em tom mais baixo: — Não imaginava que chegaria a esse ponto assim.Garron rangeu a mandíbula. — Você poderia ter ficado lá atrás — disse, sem acusar— apenas afirmando o óbvio, como se doer fosse ter que dizer em voz alta. — Você não precisava estar aqui.
— Eu sei — respondeu ela. — Mas também não sabia que ia ser assim.
A expressão de Selene ficou afiada, calculista, completamente diferente de estar em combate. — Você devia ter dito — ela disse, sem agressividade. — Nós teríamos ajustado. Rotas. Horários. Tudo.
Charlotte, com as mãos lentamente fechando-se em punhos ao lado do corpo, murmureou: — Você não deveria estar perto de um guardião acorrentado. Não assim.
Clara engoliu em seco. — Não queria ficar pra trás — disse ela, suavemente. — E não queria que o Marcus achasse que fiquei pra trás por medo.
Essa acertou em cheio.
Nenhum de vocês tinha falado ainda.
Ele olhava para a Clara, não por descrença, mas com um peso relato devagar no peito dele. Seus pensamentos reviviam cada salto, cada impacto, cada momento em que o chão quase tinha se desmanchado sob eles.
Ela não deveria estar ali.
Nem passar por aquilo.
Nem por isso.
‘Se alguma coisa tivesse dado errado…’
Ele expirou pelo nariz e finalmente falou. — Você poderia ter me contado — disse. — Eu teria cuidado para você ficar bem longe da frente.
Clara olhou nos olhos dele. — Eu sei.
Esse era o problema.
Ele recostou-se um pouco, apoiando os antebraços nos joelhos. Sua voz baixou, sem o tom cortante. — De agora em diante, — falou, — não vamos tratar você só como mais um corpo no grupo.
Ninguém discordou.
Elena assentiu de imediato. Selene nem precisou. Charlotte já olhava para Clara como quem já tinha se oferecido para ficar de guarda sem precisar falar nada.
O olhar de Noel ficou um segundo a mais em Clara.
Ele não falou alto, mas seu pensamento ficou bem claro:
'Tenho que tomar mais cuidado agora. Mais do que antes.'