O Extra é um Gênio!?

Capítulo 511

O Extra é um Gênio!?

A poeira levou mais tempo do que o esperado para se assentar.

Não por causa da quantidade de poeira, mas porque ninguém se movia para perturbá-la. A praça destruída permanecia exatamente como estava, com as pedras rachadas e dobradas para dentro onde o guardião tinha caído, o ar ainda pesado com o residual de mana e frio. O Espelho continuava onde tinha caído, exposto e pulsando suavemente, sua luz firme agora que nada o prendia — mas ninguém avançava em direção a ele.

Garron tentou se endireitar primeiro.

Ele colocou uma mão contra o chão, dentes cerrados enquanto forçava seu peso para cima, mas suas pernas o traíram na metade do caminho. Seu equilíbrio escorregou, a força se esgotando de repente em vez de lentamente, e ele teria caído com força se Noel não o tivesse segurado pelo ombro e pelo lado.

"Leve," disse Noel, apoiando-o sem hesitação. "Você já passou a fase de fingir que está bem."

Garron soltou um suspiro áspero, que foi meio risada, meio tosse. "Se você mandar eu descansar," murmurou, com a voz arrastada, "vou te ignorar."

Noel ajustou um pouco a pegada, só o suficiente para guiá-lo para trás ao invés de para frente. "Boa," respondeu de modo uniforme. "Então sente-se aí e me ignore de lá."

Dessa vez, Garron não discutiu. Deixou-se cair contra uma laje quebrada, a cabeça caindo para trás enquanto seu peito se estremecia, os olhos se fechando por um segundo mais longo do que o confortável.

A poucos passos dali, Charlotte ainda estava de pé — mas mal.

Ela não tinha se movido desde a queda do guardião, com os ombros tensos, postura travada como se relaxar fosse fazer com que ela desabasse de verdade. O sangue tinha se infiltrado na ponta da manga e secado mais escuro ao longo do tecido, e sua respiração era superficial e irregular, impulsionada mais por teimosia do que por força.

Noel percebeu como seus dedos tremiam quando ela tentou flexioná-los.

Elyra ajoelhou perto do centro dos destroços, com as palmas das mãos pressionadas contra a pedra enquanto desmontava suas últimas estruturas, uma a uma. As linhas de mana se apagavam com relutância, cada cancelamento feito com cuidado, deliberadamente, para que o chão não decidisse acabar de colapsar agora que a pressão tinha sido aliviada. O suor escorria pela testa dela, mas ela não parou até que o último estabilizador se dissolvesse.

Só então, ela recostou-se, com os ombros caindo.

Selene já tinha se apoiado numa parede, deslizando até se sentar com a cabeça encostada na pedra. O gelo ainda permanecia destacado no ar ao redor dela, suas mãos tremendo com uma vibração fina e insistente que ela não se incomodou em esconder.

Ninguém falou.

Eles tinham vencido.

Noel foi o primeiro a avançar na direção do Peça.

Ele deu um passo à frente, como quem se aproxima de algo que ainda pode reagir se for dado a ele um motivo errado. A Presa do Fantasma permaneceu abaixada em sua mão, a sombra quieta ao longo da lâmina agora, sem mais se enrolar ou pressionar contra sua empunhadura.

O Espelho pulsava suavemente no ar aberto. Apenas um ritmo constante e contido de mana que não mais tentava alcançar nada além de si mesmo.

Noir reagiu antes que qualquer outro pudesse.

Ela se aproximou mais de Noel, postura baixa e alerta, ouvidos inclinados para frente enquanto estudava o Espelho de uma distância curta. Não havia hostilidade na sua postura, nenhum rosnado de aviso ou surto de intenção — apenas atenção. Cautela sem medo.

Noel desacelerou, interpretando a linguagem corporal dela. "Você sente também," murmurou.

Noir não respondeu, mas a cauda deu uma piscadela, lenta e medida.

Elyra apoiou-se para se levantar lentamente e se aproximou pelo lado, com movimentos cautelosos enquanto ampliava seus sentidos em direção ao Espelho. Sua testa se franziu quase imediatamente.

"Não está alimentando mais nada," disse ela. "Sem fluxo externo. Sem atração." Ela hesitou, então acrescentou: "E nada está atraindo dele também."

Selene abriu os olhos e olhou de onde estava, observando o Espelho com a mesma atenção distante que usa ao ler um campo de batalha.

"Não é uma âncora," disse ela após um momento. "Nem mais." Sua voz estava cansada, mas segura. "Qualquer papel que tivesse antes… aquela ligação sumiu."

Noel parou a poucos passos de distância.

A compreensão foi se firmando lentamente, mais pesada do que ele esperava.

"Então, não pode ser reutilizado," disse ele baixinho.

Elyra balançou a cabeça. "Não como núcleo. Nem como ponto de ligação." Ela olhou para o Espelho novamente. "Agora é resto. Poderoso, mas inerte nos aspectos que importam."

Noel permaneceu onde estava por alguns segundos mais, com os olhos fixos no Espelho, como se estivesse garantindo que ele não reagiria assim que ele se mexesse. Quando nada aconteceu, ele se aproximou e agachou-se.

Estendeu a mão e agarrou o Espelho. Não houve um surto. Apenas um calor residual, fraco, como algo que se lembra de estar vivo, mas não sabe mais como se mover.

"…Huh," murmurou Noel entre dentes.

Noir ficou tensa ao lado dele por meia piscadela, depois relaxou quando nada aconteceu, a cauda dando uma puxada antes de olhar para outro lado.

Elyra observava atentamente, inclinando a cabeça. "Cuidado," disse ela, não de forma agressiva, apenas cansada. "Está estável, mas isso não significa que seja inofensiva."

"Sei," respondeu Noel. Ele virou o Espelho um pouco na mão, estudando a pulsação fraca e pouco focada da luz interna. "Não está reagindo. Parece mais uma sobra de impulso."

Selene abriu um olho de leve, de onde estava encostada na parede. "Porque é exatamente isso," disse ela. "O que quer que estivesse ligado a ela, desapareceu. Você está segurando resíduo, não um gatilho."

Noel assentiu uma vez, fechou a mão e colocou o Espelho na sua bolsa dimensional. O espaço ao redor dele se dobrou suavemente, o peso sumindo de sua palma.

"Por ora," disse ele calmamente. "Melhor assim do que jogado por aí."

Depois disso, eles se reagruparam, agora mais lentos, movimentos mais cuidadosos do que antes.

Elena já estava ajoelhada ao lado de Garron, com as mãos brilhando com uma luz suave e natural enquanto cuidava de músculos rasgados e articulações estressadas. Garron respirou fundo com um suspiro curto quando ela ajustou seu braço, depois soltou o ar pelos dentes.

"Isso... é desagradável," disse ele.

"De nada," respondeu Elena seca. "E isso é o máximo que posso fazer agora. Posso impedir que piore, mas levará tempo para arrumar direito."

Garron flexionou os dedos, mas parou quando a dor aumentou. "Então, sou inútil."

"Momentaneamente inútil," corrigiu Elena. "Tem uma diferença."

Charlotte ficou um pouco afastada, com os braços cruzados bem apertados contra ela mesma. Quando Elena olhou na direção dela, já começando a preparar uma Bênção, Charlotte imediatamente balançou a cabeça.

"Não," disse ela. "Não vou fazer isso de novo."

Elena franziu a testa. "Charlotte—"

"Falo sério," interrompeu Charlotte, com a voz mais firme do que parecia. "Já estou esgotada. Se eu insistir mais, quem vai cair sou eu na próxima."

Selene soltou um suspiro silencioso. "Ela tem razão," disse. "Forcei o Halo de Gelo Permafrost bem além do que ele aguenta. Meu timing saiu do ritmo. Se algo nos acertar forte de novo, não vou estar tão limpa."

Elyra se acomodou perto, olhando para a tênue sobra de mana ainda grudada ao chão. "Minhas runas mal conseguem segurar," admitiu. "Consigo sustentar. Não consigo ancorar outra luta assim."

Noel escutou sem interromper, depois assentiu uma vez.

"Certo," disse. "Então, vamos deixar de fingir que podemos força bruta no próximo inimigo."

A calma não durou muito.

O dispositivo ao lado de Noel pulsou uma vez, depois outra, o zumbido suave cortando o silêncio do que tinha acontecido como um lembrete que nenhum deles tinha pedido. Noel suspirou discretamente antes de ativá-lo, já sabendo que as notícias não seriam boas.

"Theo," disse ele. "Vai lá."

Theo não se deu ao trabalho de entrar devagar.

"Você sentiu aí do seu lado, né?" disse Theo. "Porque não foi algo local."

A mandíbula de Noel se tense ligeiramente. "Defina não local."

Um breve intervalo, cheio de estática e leituras de mana ao longe, que mudavam rápido demais para ficar confortável. "A Segunda Coluna perdendo energia não foi sutil," continuou Theo. "O que você fez por lá? Ecoou. Outras ilhas reagiram."

Charlotte endireitou-se imediatamente, braços se soltando, apesar do cansaço. "Reagiram como?"

"Movimento," respondeu Theo. "Padrões diferentes dos anteriores. Não são guardiões. Não são as mesmas construções que vocês têm enfrentado."

Selene agora abriu completamente os olhos. "Então, o que?"

"Ainda não sei," admitiu Theo. "Mas alguma coisa mais próxima do centro acabou... acordando. Sistemas mudaram. Rotas se alteraram. É como se o lugar inteiro tivesse recalibrado."

Elyra franziu o cenho, passando o polegar pelo interior da palma. "Quebrar as correntes mudou as regras."

"Exatamente," confirmou Theo. "E não é só isso. As pessoas continuam aparecendo nas minhas leituras. Mais do que na última ilha. Espalhadas, feridas, algumas escondidas."

O ombro de Elena ficou tenso. "Civis?"

"Sim," disse Theo silenciosamente. "E se o centro começou a se mexer, elas estão por conta própria."

O silêncio que se seguiu não foi de choque. Foi de cálculo. Cansaço acumulado com responsabilidade, daquele tipo que não pergunta se você está pronto.

Noel fechou os olhos por um momento, depois os abriu de novo, olhando ao redor do grupo. Machucados. Enxaguados de sangue. Ainda de pé.

"Certo," finalizou.

Ele se ajustou lentamente, a voz firme, mas sem pressa. "Ainda não saímos."

Várias cabeças se viraram para ele.

"Vamos descansar," continuou Noel. "De verdade. Pelo máximo que conseguimos." Seu olhar pairou por Charlotte, depois Garron, depois Selene. "Se entrarmos assim, não salvamos ninguém."

Ninguém discutiu.

A voz de Theo ficou um pouco mais suave através do dispositivo. "Vou ficar de olho."

"Faça isso," disse Noel. "E nos avise se a respiração ficar perigosa."

Ele desligou o dispositivo e soltou o ar lentamente.

"Por ora," acrescentou Noel, mais baixo, "vamos nos sentar. Depois, avançamos."

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