O Extra é um Gênio!?

Capítulo 504

O Extra é um Gênio!?

Sombra se enrolou sobre si mesma sem cerimônia.

Sem sobressalto. Sem cambalear. Apenas o som silencioso do peso retornando sob seus pés enquanto a ilha se acomodava ao redor deles.

Noel foi o primeiro a perceber. Seus botas tocaram uma pedra sólida, rachada em certos pontos, mas estável — um tipo de chão que já não tentava desabar. A pressão no peito dele, após o Passo das Sombras, ficou por um segundo mais longa do que o habitual antes de aliviar, uma lembrança dura de quantas vezes ele tinha insistido recentemente.

— …Tudo certo — disse após uma breve pausa.

Não houve resposta imediata da ilha. Nenhuma força pressionando de volta contra seus sentidos. Nenhum mana hostil rastejando por sua espinha. Apenas o ar aberto, vento abafado e o cheiro tênue de pedra queimada.

Isso já dizia o suficiente.

Elyra deu alguns passos à frente, com o olhar rápido, observando tudo ao redor. Os danos eram evidentes assim que se sabia onde procurar. Uma seção de calçamento quebrada aqui. Uma parede rachada ali. Marcas de impacto aglomeradas juntas, ao invés de dispersas.

— Feriado rápido, — ela disse. — Forte, mas controlado.

Selene ficou um pouco atrás deles, com as mãos relaxadas mas em prontidão, o olhar fixo na rua à frente. Ela não comentou, o que, por si só, dizia bastante.

Elena se deslocou para o lado, escaneando cantos e becos, procurando movimento, ouvindo mais do que vendo. — Não sinto ninguém em pânico — ela murmurou. — Se havia civis ou prisioneiros… já foram embora. Ou nunca estiveram aqui.

Noel assentiu.

Ele também conseguia sentir. A ilha não estava tensa. Não estava prendendo a respiração. Qualquer conflito que tinha ocorrido aqui já tinha chegado ao fim.

Ele se agachou brevemente, pressionando os dedos contra a pedra. O resíduo era fraco, mas inconfundível. Mana sagrada, limpa e afiada, sobreposta às marcas evidentes de força física.

— Ela esteve aqui, — Noel afirmou.

Elyra olhou de volta para ele. — Charlotte.

— É, — ele confirmou. — E ela não deixou isso arrastar demais.

As marcas não eram desleixadas. Nenhuma destruição excessiva. Nenhuma instabilidade persistente. Alguém entrou, resolveu e garantiu que o problema tivesse terminado de uma vez por todas.

Noel se endireitou, levantando o olhar para as ruas internas da ilha. O que quer que tivesse acontecido aqui, não estava mais em andamento. Garron não estava mais lutando. Isso era uma notícia muito boa… ou indicava que tudo tinha saído do controle rápido demais.

Ele não se demorou nesse pensamento.

— Vamos seguir, — disse Noel. — Sem desvios.

Ele olhou mais uma vez para as ruas quietas à frente.

— Encontrar Charlotte e Garron, — acrescentou.

Não precisaram ir longe.

As pistas os levaram por uma rua secundária, onde os destroços ficavam ainda mais restritos, a pedra marcada e rachada em um raio apertado, como uma tempestade forçada a parar no meio do giro. No final dela, Garron estava deitado de costas contra um muro baixo, braços ao lado do corpo.

Ele estava inconsciente.

Noel desacelerou imediatamente, levantando a mão para impedir que os outros entrassem correndo. O peito de Garron se elevava e caía em um ritmo constante, profundo o suficiente para ser claramente normal.

Elena já estava ajoelhada ao lado dele, com os dedos pairando por um momento antes de verificar seu pulso, depois a respiração, e a tênue tensão que ainda persistia em seus músculos.

— Ele está bem, — ela disse após um instante. — Só foi derrubado. Forte, mas limpo.

Elyra se agachou um pouco ao lado, com o olhar fechado ao observar o chão ao redor dele. Duas adagas estavam embutidas na pedra perto dos ombros de Garron, anguladas para dentro. Bastante próximas de serem movidas abruptamente. Mas longe o suficiente para que nenhuma tivesse transpassado a pele.

— Ela não queria machucá-lo, — Elyra disse suavemente.

Noel não respondeu de imediato. Observou as adagas, depois o rosto de Garron. Não havia medo congelado ali. Nem dor. Apenas a expressão frouxa de alguém cuja corporeidade tinha sido instruída, de forma bem firme, a se apagar.

— Não, — disse por fim. — Ela queria que ele parasse.

Selene ficou alguns passos atrás, com os braços soltos ao lado do corpo. Olhou para Garron uma vez, depois tirou o olhar, já juntando as peças.

— Ele não se acalmava, — ela disse. Sem mais.

Isso foi suficiente.

Noel respirou lentamente pelo nariz. Não era difícil imaginar Garron perdendo o controle. Pressão, isolamento, a ausência de respostas — eram ingredientes comuns na sua luta. Quando isso parava de funcionar, alguma coisa precisava ceder.

Charlotte tinha intervido antes que a situação ficasse feia demais.

Noel se recostou rapidamente, verificando Garron mesmo, depois voltou a ficar de pé. — Ainda não podemos mexer nele, — afirmou. — Até que acorde sozinho.

Elena concordou com a cabeça. — Melhor assim.

O olhar de Noel voltou a seguir a rua à sua frente, até onde os danos desapareciam em direção ao nada. Charlotte não tinha ido longe. Não iria.

— Ela está perto, — disse.

O grupo não discutiu. Garron permanecia inconsciente, respirando de forma constante, enquanto a ilha permanecia quieta ao redor, como se estivesse esperando que quem tivesse acabado com a luta voltasse a aparecer.

Não hesitou.

— Você fica com ele, — ordenou Noel, voltando a agir. — Se ele acordar, mantenha a calma.

Elyra concordou com um aceno prático. Elena permanecia ajoelhada ao lado de Garron, ajustando-lhe a posição para maior conforto. Selene deu alguns passos para trás, com o olhar na rua, atento, mas relaxada, assim como Clara e Laziel.

Então, Noel seguiu sozinho.

Quanto mais avançava de distância dos demais, mais a ilha ficava silenciosa. Não vazia, mas tranquila — como um lugar que já tinha superado seu momento mais difícil e agora aguardava o próximo. Os sinais de conflito desapareceram completamente após algumas curvas, substituídos por pedra intacta e ar ainda.

Até que então, ouvi algo.

— Noel?

Ele parou.

A voz vinha de cima, aguda e inconfundivelmente familiar.

Noel inclinou a cabeça e olhou para cima, em direção a um telhado baixo, onde uma figura se escondia parcialmente atrás de um parapeito quebrado.

— Como você sabe que estou aqui? — ele chamou de volta.

Charlotte inclinou-se para frente ligeiramente, espiando para baixo. Seu traje branco e dourado estava sujo, as mangas arregaçadas, a postura casual, como se estivesse esperando, e não se escondendo.

Ela sorriu.

— Eu senti seu cheiro, — ela disse simplesmente. — Você lembra que tenho um olfato bom, né?

Noel piscou uma vez, então riu, mesmo contra sua vontade.

— …Certo, — falou. — Esqueci disso. Você realmente é como um cachorro nisso.

A expressão dela desapareceu.

Os olhos de Charlotte se estreitaram instantaneamente, o ar ao redor dela mudando o suficiente para ser perceptível.

— Você acabou de me chamar de cachorro? — ela perguntou docemente.

Noel congelou.

Ela pulou do telhado numa única e suave ação, caindo alguns passos na sua frente. O som foi leve. A expressão que ela lhe deu, nem tanto.

— Quer acabar como Garron? — Charlotte continuou, inclinando a cabeça. — Porque eu posso providenciar isso.

Noel levantou ambas as mãos imediatamente, o sorriso já de volta.

— Ei, ei. É um elogio. Mais ou menos, — ele disse. — Você me achou rápido. Isso é impressionante.

Ela olhou para ele por mais um segundo, depois estufou a língua e virou as costas.

— Idiota, — resmungou.

Noel a seguiu, ainda com um sorriso sutil.

Nos bastidores, a ilha permanecia em silêncio, Garron inconsciente, o grupo aguardando.

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