O Extra é um Gênio!?

Capítulo 505

O Extra é um Gênio!?

A rua por onde caminhavam era estreita e silenciosa, com edificações próximas o suficiente para projetar sombras longas sobre as pedras. Nada se movia. Nenhuma pressão tocava os sentidos de Noel, nem um leve zumbido de mana hostil escondido sob a superfície. Qualquer conflito que havia ocorrido ali já tinha acabado, resolvido de forma definitiva.

Por um tempo, nenhum deles falou.

Charlotte caminhava um passo à frente, com as mãos entrelaçadas atrás das costas, seu ritmo firme, mas sem pressa. Noel a observava de lado, notando a tensão que ela ainda não tinha conseguido desfazer completamente. Não era mais medo. Era mais como algo que ela carregava há tempo demais e ainda não tinha deixado para trás.

"Eu vi como você saiu dele," Noel falou finalmente. Seu tom era equilibrado, cuidadoso para não forçar. "Você não o machucou."

Charlotte diminuiu um pouco a caminhada, mas não parou.

"Mas quero saber o que aconteceu," ele acrescentou.

Ela respirou fundo, os dedos se curvando por um instante antes de relaxar novamente.

"Noel… ele não era mais ele mesmo," ela disse. Sua voz estava mais baixa agora, sem o tom cortante que usou antes. "Aconteceu rápido. Num instante ele estava andando de um lado para o outro, no outro não conseguia respirar direito." Ela olhou para o chão enquanto caminhava. "Ele ficava dizendo que não conseguia se mover, que algo ruim estava por acontecer."

Noel franziu a testa levemente. "…Um ataque de ansiedade."

Charlotte assentiu.

"Eu não percebi logo de cara," ela admitiu. "Ele sempre foi forte. Barulhento. Confiante. Fiquei achando que ele ia se recuperar." Sua voz ficou mais baixa. "E ele não se recuperou."

Ela parou então, virando-se o suficiente para que Noel pudesse ver claramente sua expressão.

"Ele não quis ouvir," ela disse. "Nem a mim, nem a razão. Quanto mais eu tentava acalmá-lo, pior ficava." As mãos dela se cerraram às suas laterais. "Tava com medo de piorar as coisas se eu continuasse, ou que alguma coisa nos caçasse."

"Então você o segurou," Noel falou.

"Sim." Ela desviou o olhar novamente. "Eu o nocauteei. Não porque fosse perigoso." Uma breve pausa. "Porque ele estava apavorado."

Ela engoliu a saliva, depois continuou, mais firme agora.

"Achei que fosse melhor ele acordar calmo do que se desmontar enquanto eu ficava lá parada, sem fazer nada."

Noel não respondeu imediatamente.

Continuaram andando, o resto do grupo surgindo entre os edifícios à frente. Garron jazia onde tinha sido deixado, respirando devagar e regular.

Quando Noel finalmente assentiu, foi de maneira quase automática, quase distraída.

"Você fez a coisa certa," ele disse.

Prosseguiram caminhando num ritmo tranquilo, aproximando-se do grupo sem pressa. As ruas ao redor permaneciam em silêncio.

Noel olhou ao redor novamente, agora observando com atenção real.

"Este lugar parece vazio," ele comentou. "Ao menos nesta parte." Seus olhos percorreram uma rua lateral, depois uma arcada desmoronada. "Foi assim quando vocês chegaram?"

Charlotte balançou a cabeça.

"Não," ela respondeu. "No começo, não." Ela hesitou, depois completou: "Havia coisas mexendo por aqui. Não estavam vindo atrás de nós, só… observando." Ela fez um movimento vago com a mão, como se empurrasse algo invisível para o lado. "Você sentia. Como se a ilha estivesse de olho."

Noel franziu levemente. "E agora?"

"Agora está quieto," Charlotte respondeu. "Depois que Garron perdeu o controle, depois que eu o derrotei, tudo se afastou." Ela olhou para Noel de lado. "Parece que a ilha decidiu nos deixar em paz."

Noel ficou em silêncio um momento.

"Então você não avançou," ele disse enfim.

"Não," Charlotte respondeu imediatamente. Sem hesitar. "Eu não quis."

Ela diminuiu um passo, o olhar indo na direção do grupo, que já estava bem à vista.

"Não senti que esta ilha fosse ser conquistada por nós sozinhos," ela continuou, mais baixa agora. "Não como as outras. Toda vez que pensava em ir mais fundo, parecia errado. Como se forçar fosse piorar as coisas."

Noel respirou fundo lentamente. "…Então você esperou."

Charlotte confirmou com a cabeça.

"Sim," ela disse. "Esperei." Um sorriso tímido e constrangido surgiu nos lábios dela. "Tinha a sensação de que você ia aparecer."

Ele olhou para ela.

"Sei como isso parece," ela acrescentou rapidamente. "E sei que não faz muito sentido." Ela deu um leve encolhido de ombros. "Mas confiei nisso. Confiar em você, acho."

Noel não brincou com ela desta vez.

"Isso não foi passivo," ele disse. "Foi uma escolha."

Charlotte não respondeu, mas os ombros dela relaxaram um pouco com aquilo.

Eles voltaram a caminhar pelo espaço aberto onde o grupo aguardava, a tensão se deslocando quase que instantaneamente quando Charlotte surgiu ao lado de Noel. Nada dramático aconteceu. Ninguém se adiantarou. Foi algo mais sutil — um alívio coletivo, como se todos estivessem segurando alguma coisa e, finalmente, pudessem relaxar o aperto.

Elena já estava ajoelhada perto de Garron novamente, com uma mão pairando sobre o peito dele, olhos atentos ao verificar sua respiração pela terceira vez.

"Ele ainda está estável," ela disse, olhando para cima. Um sorriso pequeno apareceu ao ver o olhar de Charlotte. "Fez a coisa certa."

Charlotte mudara de posição, olhando para o lado. "Só não queria que ele se machucasse," ela respondeu. "Ele não estava pensando direito."

Clara estava parada a alguns passos, de braços cruzados, bem fechados. Quando finalmente relaxou, foi visível pela queda de ombros dela.

"Fico feliz que você estivesse aqui com ele," ela falou suavemente. "Vocês dois." Olhou para Noel por um momento, depois voltou a olhar para Garron. "Pânico faz gente fazer besteira."

Laziel se agachou na beirada da área, os dedos tocando o chão, percebendo a mana ambiente. "Ela tem razão sobre a ilha," disse calmamente.

Elyra se virou lentamente, tomando mais uma vez o ambiente ao redor antes de assentar a cabeça. "Esta ilha não está ativa agora," disse. Seus olhos focaram em Noel. "Sem pressão do Guardião. Sem energia acumulada. O que quer que fosse pra acontecer aqui, ainda não começou."

Selene permaneceu em silêncio, mas sua postura relaxou um pouco, os olhos deixaram de varrer cada sombra.

Noel assentiu uma vez. "Vamos esperar um pouco," disse. "Deixar Garron acordar de verdade."

Olhou para Charlotte depois. Sem zombar, sem sorriso. Apenas firme. "Depois, seguimos. Juntos."

Charlotte piscou, depois sorriu — pequeno, sincero, a tensão finalmente desaparecendo de sua expressão. "Era disso que eu tinha esperança."

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