
Capítulo 494
O Extra é um Gênio!?
A prefeitura se erguia no centro da ilha como um monumento ferido, sua ampla fachada de pedra envolta por correntes pesadas que desapareciam nas paredes, janelas e ruas além. Mesmo de longe, a pressão era palpável. Mana impregnava o ar em correntes lentas e inquietas, e sob tudo isso pairava uma sensação inconfundível de que algo estava sendo forçado a obedecer.
Era aqui.
Segundo Harper e Maria, tudo convergia para este lugar. Os habitantes acorrentados. A rede de controle espalhada por toda a ilha. E, em algum ponto dentro daquela estrutura imensa, o Fragmento que alimentava a influência do Segundo Pilar.
“Ninguém mais forte que o Ascendente está guardando isso,” Harper falou baixo, enquanto se aproximavam, olhos fixos no edifício. “Se tivesse alguém assim, já saberíamos.”
Só essa informação já deveria facilitar as coisas. Com as pessoas reunidas aqui, romper a força bruta era possível. Mas o olhar de Noel varreu o tamanho do lugar, os inúmeros corredores e salões visíveis através de janelas quebradas e arcos abertos.
O problema não era força.
Era escala.
“Não sabemos onde está o Fragmento,” disse Noel, parando bem na entrada. “Este lugar é grande demais para atacarmos de forma impulsiva.”
Ele virou-se para o grupo, com a voz calma e ponderada. "Noir e eu vamos procurar. Usarei ‘Salto das Sombras’ para atravessar o prédio e evitar confrontos diretos.”
A cauda de Noir balançou uma vez em confirmação, sua forma já se mesclando mais próxima à sombra dele.
“O restante, fica na resistência,” continuou Noel. “Contenham eles. Desacelerem. Não machuquem alguém de verdade, se puderem evitar. Quanto menos feridos deixarmos para trás, menos Charlotte precisará consertar depois.”
Harper hesitou, depois franziu o cenho levemente. “Charlotte…?”
“Ela consegue curar grupos grandes,” respondeu Noel simplesmente.
Os olhos de Harper se arregalaram, compreendendo de uma só vez. “Você quer dizer… a Santa. Charlotte.”
Noel não o corrigiu. Apenas assentiu.
A prefeitura avançava agora, correntes rangendo suavemente como se sentissem a aproximação. O que quer que estivesse lá dentro já se agitava.
“Estamos perto,” disse Noel. “Daqui em diante, não vamos perder tempo.”
As portas da prefeitura abriram-se com um gemido baixo, e a cena além delas roubou o pouco de ar que o grupo ainda tinha. O interior não era tanto um salão quanto uma jaula viva. Correntes estendiam-se em todas as direções, sobrepostas e entrelaçadas, prendendo corpos a pilares, grades, varandas, até ao próprio chão. Centenas de pessoas estavam de pé ou ajoelhadas, olhos opacos, movimentos rígidos e lentos, como se cada pensamento precisasse passar por ferro antes de chegar às extremidades.
Humanos formavam a maior concentração, suas roupas rasgadas e gastas. Elfos estavam entre eles, silhuetas mais altas presas com a mesma firmeza, orelhas abaixadas, expressões vazias. Anões presos ao chão, músculos tensos sob corpos compactos, dentes cerrados em resistência silenciosa. E dispersas entre eles, estavam outras raças nativas das Ilhas do Norte, todas reduzidas ao mesmo estado. Rostos diferentes. Correntes iguais. Perda de vontade igual.
Não havia tempo a perder.
No instante em que o grupo entrou, as correntes reagiram. Metal raspando pedra. Corpos se movendo em uníssono, atraídos por comandos que não eram seus.
“Agora,” falou Noel suavemente.
Selene foi a primeira. “Pressão Gravitacional.”
O ar se tornou espesso em bolsões súbitos, grupos inteiros de pessoas acorrentadas sendo forçados a se ajoelhar, a gravidade pressionando-os sem quebrar ossos ou ar. Elena seguiu imediatamente, sua mana espalhada baixa e ampla. “Flor de Armadilha.” Cipós irromperam de rachaduras no chão, formando-se ao redor dos tornozelos e pernas, mantendo os corpos no lugar com precisão, não com força destrutiva.
Harper bateu seu bastão no chão, a terra respondendo com ondas controladas. Pedra elevou-se formando conchas largas e curvas, dividindo o salão, isolando trechos da multidão e protegendo civis de impactos aleatórios. Elyra e os demais moviam-se entre esses setores, reforçando barreiras, redirecionando movimentos, transformando o caos em algo pouco mais que uma bagunça sob controle.
E, através de tudo isso, Noel desapareceu.
“Salto das Sombras.”
Ele se misturou entre silhuetas sobrepostas, surgindo sob escadas, atrás de pilares, nos pontos de escuridão criados pelas próprias correntes. Cada reaparecimento durava apenas um instante, antes de ele desaparecer novamente, tecendo entre o grupo sem tocar ninguém, sem revidar. Uma corrente tentou alcançá-lo, e ele já estava em outro lugar, sombra se dobrando e se desdobrando como uma respiração contida que finalmente se liberta.
Noir acompanhava-o, silenciosa e invisível, sua presença sempre ao seu lado enquanto avançavam mais fundo no prédio. O barulho aumentava atrás deles—metal, gritos, feitiços quase atingindo o perigo—but Noel não olhava para trás.
O tempo apertava.
Algum lugar à frente, enterrado em escritórios e salas fechadas, o Fragmento aguardava.
As sombras carregaram Noel e Noir além do último corredor, entrando em um local que parecia errado no instante em que cruzaram o limiar.
O escritório era espaçoso, elevado acima do resto do edifício, com janelas altas que ofereciam vista para a cidade acorrentada lá embaixo. Papéis espalhados sobre uma mesa ornamentada, prateleiras carregadas de livros e selos que falavam de governança e ordem—coisas que há muito tempo haviam se deteriorado aqui. Correntes perfuravam as paredes como veias, convergindo para um ponto central na sala.
O Fragmento flutuava ali.
Suspenso a poucos centímetros do chão, preso numa teia de correntes grossas e pulsantes, exalava uma mana densa que pressionava os sentidos de Noel como uma respiração presa. Este aqui estava íntegro. Completo. Sua energia era constante, alimentando-se das correntes que se espalhavam por toda a ilha.
E não estava sozinho.
Algo movia-se entre Noel e o Fragmento.
O guardião avançou, sua forma alta e distorcida, forjada de metal sobreposto e carne escura que não parecia pertencer ao mesmo tempo. Diferente dos outros, não havia correntes perfurando seu corpo. Nem sinais de restrição. Sua presença era pesada, enraizada, como se a própria sala se curvasse levemente ao seu redor.
Este não era um refém.
Era um carcereiro.
Do lado de fora, o ruído da batalha ecoava entre pedra e ferro—feitiços colidindo, correntes tensionando, vozes gritando com urgência controlada. Noel sentia tudo isso mesmo sem olhar. Os outros estavam resistindo, mas não para sempre.
Ele respirou fundo lentamente.
Este era o núcleo. O coração de tudo.
Na mão, Noel segurou sua Lâmina do Revenant, seu peso familiar trazendo estabilidade enquanto sombras se apertavam aos seus pés. Ao seu lado, Noir se inteirou completamente na sombra dele, sua presença se enroscando, pronta para atacar no instante em que ele se movesse.
Aqui, não havia por que segurar.
Noel deu um passo à frente, olhos fixos no guardião.