O Extra é um Gênio!?

Capítulo 491

O Extra é um Gênio!?

O garoto foi o primeiro a se mover.

Pedaços de terra se desprendiam da rua e disparavam em direção a Noel numa sucessão rápida, compactados e afiados, transformados em projéteis rudimentares mais pela força bruta do que por finesse. Noel desviou-se quase com falta de esforço, as pedras explodindo ao seu lado e acertando seções de pedra destruída. Ele sequer precisou piscar.

Por um instante fugaz, o padrão despertou nele uma lembrança familiar.

Marcus.

A magia da Terra estava por toda parte. Qualquer um podia lançar uma pedra. Mas, no nível em que Marcus lutava, aquilo se tornava algo completamente diferente—pressão, timing, controle tão preciso que poderia matar com um único erro. Noel passara incontáveis horas treinando contra esse elemento, aprendendo como ele fluía, onde hesitava, onde se entregava demais.

E foi aí que percebeu.

O garoto tinha poder. Um poder de nível Ascendente, denso e violento, do tipo que poderia esmagar a maioria dos oponentes imediatamente. Mas seu controle era rough. Seus movimentos eram diretos, reativos, impulsionados por compulsão mais do que por intenção. Forte—mas pouco refinado.

Os olhos de Noel se estreitaram.

—Então é isso, — pensou. —Um dos pesados das Ilhas do Norte.

Fazia sentido. Se a Segunda Coluna quisesse apagar inimigos rapidamente, esse era exatamente o tipo de arma que ela apontaria contra eles. E Noel, depois de tudo que havia feito, não era apenas mais um alvo. Ele era o alvo.

Outra saraivada veio.

Noel colocou o pé no chão e falou sem elevar a voz. "Muralha de Gelo."

Gelo surgiu do chão, grosso e sólido, formando uma barreira ampla a tempo. Terra violenta bateu contra ela, rachando a superfície, mas sem conseguir atravessar. O impacto enviou tremores pela muralha, que resistiu—por pouco.

Por trás dela, Selene não hesitou.

Ela levantou a mão e desencadeou "Impulso Glacial."

Lanças de gelo afiadas avançaram em rápida sequência, com trajetórias precisas. Não eram direcionadas à carne. Não buscavam vitais. Cada espinho tinha o mesmo alvo.

As correntes.

Metal ressoou quando o gelo atingiu aço.

Clink!

Clink!

O som ecoou pela rua, frio e definitivo.

As correntes não se partiram.

Selene apertou a mandíbula. Por um momento, uma faísca de frustração passou por seu rosto. Não havia raiva, nem amargura—mas algo mais calado, mais pesado. Uma lembrança de quando ela havia sido mais forte que Noel. Quando ela ditava o ritmo.

Ela não ficava irritada por ele ter a superado.

Ela só não queria ficar para trás.

Noel sentiu isso sem precisar olhar. Baixou a voz, mais para si mesmo do que para qualquer um. "Então sou mesmo só eu..."

Seu aperto ao Revenant Fang apertou um pouco mais. 'Ou tem algo mais?' pensou. 'Alguma condição que estou deixando passar?'

As correntes tremeram novamente, mais alto desta vez, enquanto o par controlado avançava com precisão.

Selene ajustou sua postura, respiração equilibrada enquanto mudava de tática. O gelo se espalhou pelos seus solados ao levantar a mão e falar: "Floração Gélida."

O solo respondeu de imediato. Flores de gelo pálido irromperam da pedra rachada, pétalas se desdobrando em espirais irregulares enquanto o frio inundava a rua. O feitiço não queria perfurar ou partir. Avançava lentamente, buscando tornozelos e pernas, tentando bloquear os movimentos ao invés de destruí-los.

O garoto reagiu instantaneamente.

A terra sob seus pés levantou uma placa áspera, levantando tanto a si quanto a menina acorrentada o suficiente para evitar o avanço do frio. O solo se compactou sob força bruta, formando uma plataforma irregular que os isolava do chão congelante. Não era elegante, mas funcionou.

Foi quando a garota se moveu.

Calor surgiu do nada enquanto ela esticava as mãos para frente e disparava "Lança de Chamas". Uma corrente de fogo rugiu, atingindo a barreira de gelo que Noel havia levantado. Vaporeu-se em uma explosão sonora, enquanto o Muralha de Gelo começava a derreter, com rachaduras se espalhando e pedaços escorregando, colapsando.

Noel não esperou ela falhar completamente.

Com o gelo afinando e a visão turva pelo vapor, murmurou: "Passo Sombrio."

Sua forma se dissolveu no ar no meio do suspiro, sumindo enquanto a muralha se desfezia. Não havia vestígio de onde tinha ido, nem ondulação para seguir. Num instante, ele estava lá. No próximo, só sobrava névoa e água caindo.

Ele apareceu atrás deles.

Noel se moveu rápido, mas contido, torcendo sua pegada no Revenant Fang e acertando mais com a beirada do cabo do que com a lâmina, mirando na base do pescoço do garoto. Um golpe limpo. Bastante para nocauteá-lo.

Ou assim seria.

O chão explodiu para cima entre eles, formando uma coluna de terra que surgiu do nada. O impacto pegou Noel no meio do movimento, jogando-o por sobre a cabeça, seu corpo torcendo antes de atingir o chão com força e deslizar alguns metros sobre pedra quebrada.

Ele rolou uma vez e se levantou de joelhos, dentes cerrados.

Ascendente.

Um degrau abaixo dele, mas perto o suficiente para importar.

Noel limpou o pó da boca e inspirou lentamente. Poderia acabar com aquilo em segundos, se soltasse tudo. Sabia disso. Mas as correntes ao redor deles tremulavam a cada movimento, lembrando que esses não eram inimigos por acaso.

Adotou uma postura mais firme, olhos afiados.

'Não posso superá-los physicalmente,' pensou. 'Preciso que eles cometam um erro.'

Para que abaixem a guarda.

Sem destruí-los no processo.

"Selene!" gritou Noel.

Os olhos deles se cruzaram na rua fragmentada. Verde esmeralda com ciano, e ela não hesitou. Selene levantou a mão e falou com calma precisa: "Prisão Gravitacional."

O ar parecia mais espesso. Pressão caiu sobre as duas figuras acorrentadas, deformando o espaço ao redor enquanto a gravidade aumentava como uma maré invisível. Pedras rangeram. O garoto cambaleou, as botas arranhando o chão enquanto forçava as mãos para baixo, com dentes à mostra.

A terra respondeu ao comando.

Um casulo rústico surgiu debaixo dos pés deles, envolvendo-os por dentro. Camadas de solo compactado endureceram, formando uma gaiola primitiva, absorvendo o peso aos poucos. Rachaduras se abriram na superfície, aprofundando-se a cada segundo, à medida que a gravidade aumentava, persistente e paciente.

Noel avançou, músculos tensos, todos os sentidos atentos. Quando aquilo se quebrasse, ele estaria lá. Revenant Fang estava preparado, com a pegada firme, já calculando ângulos e força. Só o suficiente para derrubá-los. Mais que isso, não.

Nos seus olhos, Clara se ajustou, mana de água se formando ao redor das mãos. Ela permaneceu concentrada na garota acorrentada, esperando o fogo reascender para apagá-lo assim que surgisse.

Finalmente, o casulo cedeu.

Desabou com um estrondo oco e pesado, pedaços de terra se desfez sob a pressão.

Não havia nada dentro.

Noel prendeu o fôlego. Seus olhos se arregalaram instantaneamente.

A terra se moveu.

Ela surgiu de trás.

"Cuidado!" gritou Noel.

Chamas se projetaram em arco num estrondo súbito, enquanto a garota avançava com fogo na ponta das mãos. Clara levantou os braços, a água se formando na hora, bloqueando o ataque, vapor e fogo se confundindo numa resistência dramática. Ela recuou, tossindo, o equilíbrio ameaçado por um instante.

Foi o bastante.

O garoto bateu sua staff no chão, e a terra respondeu com velocidade brutal. Uma força irregular se espalhou sob os pés de Clara e a lançou para trás, levando a força das pernas. Ela caiu dura e permaneceu imóvel.

"Clara!" gritou Selene, escapando por pouco do golpe seguinte direcionado a ela.

As correntes tremeram violentamente enquanto o par controlado se reagrupava, respirando pesado, os olhos vazios de vontade.

Noel parou por um breve instante.

Clara estava caída.

Seu controle tinha custado caro.

Ele se endireitou lentamente, mana circulando mais fundo, sombras se apertando ao redor de seus pés enquanto a mandíbula se cerrava.

Ele tinha segurado; mas alguém havia pago o preço.

E a pergunta que não podia mais ignorar se tornou dura e implacável:

Será que podia ainda se dar ao luxo de misericórdia?

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