
Capítulo 482
O Extra é um Gênio!?
Noel se abaixou ao lado de Laziel, colocou um braço sob seus ombros e o levantou com facilidade. O mago estava completamente mole, a vara escorregando de suas mãos e batendo suavemente contra a pedra. Noel a segurou antes que ela rolasse muito longe e a apoiou contra os degraus.
"Ainda respirando," murmurou, mais por rotina do que por preocupação.
Noir se mexeu ao seu lado, seu corpo se expandindo enquanto sombras se moviam por sua pelagem. Ela não cresceu até o seu tamanho total, apenas o suficiente para ser robusta e com costas largas, uma plataforma viva em vez de uma presença ameaçadora. Noel delicadamente colocou Laziel sobre suas costas, ajustando a posição até que estivesse equilibrado e seguro.
Eles recuaram em direção aos degraus onde Noel tinha se sentado antes. Noir se abaixou cuidadosamente e se enroscou, seu corpo grande formando uma espécie de berço natural. Laziel descansava sobre ela, inconsciente, mas claramente seguro, com a respiração lenta e regular subindo e descendo.
Noel se endireitou e cruzou os braços, observando a cena.
Ele não iria acordá-lo imediatamente. Alguns minutos, talvez mais.
Bastante tempo.
'Ele foi buscar vingança,' pensou Noel, com um sorriso triscando os cantos da boca.
O olhar de Elyra se dirigiu lentamente a ele.
Era aquela expressão. A que ela usava quando já sabia a resposta, mas queria ouvir mesmo assim.
"Foi realmente necessário?" ela perguntou.
Noel piscou, surpreso de verdade.
Não era comum Elyra repreendê-lo abertamente. Ela não era delicada com essas coisas, mas aquilo era diferente. Considerando onde estavam e o que estavam enfrentando, o timing não tinha sido ótimo. Ele percebeu isso no instante em que ouviu as palavras dela.
"... Talvez não," admitiu.
Ele olhou para Noir, tentando aliviar o clima. "Mas foi irresistível, né, Noir?"
Noir não respondeu em voz alta.
Ao invés disso, sua voz entrou na cabeça dele, divertida, mas honesta.
'Foi muito divertido,' ela disse. 'Além disso, assustou bastante Laziel. E... a mamãe pode estar certa. Poderíamos ter escolhido um momento melhor.'
Noel soltou lentamente o fôlego.
"É, você está certa. Minha culpa."
Elyra observou seu rosto por um segundo a mais, depois assentiu uma vez. Um pequeno sorriso surgiu, afiado, mas satisfeito.
"Bom," ela disse. "Pelo menos você entendeu."
Noel olhou de volta para Laziel, que estava deitado de costas sobre Noir, como se nada no mundo pudesse perturbá-lo agora.
Ele balançou levemente a cabeça.
"Acho que devo uma desculpa a ele," murmurou.
Noir deu um movimento rápido com a cauda, claramente desconfiada.
Antes que o momento se resolvesse, Elena avançou.
Suas mãos se fecharam brevemente ao lado do corpo, preocupação clara na expressão enquanto olhava de Laziel para Noel. "E se alguma coisa tivesse atacado enquanto ele estava inconsciente?" ela perguntou. "Ele não conseguiu se defender de jeito nenhum."
Ela respirou fundo, se acalmando. "Fiquei com medo."
As palavras pesaram mais do que Noel esperava.
Ele sentiu a culpa logo de cara. Não por Laziel. Laziel ia reclamar, rir e exagerar por semanas. Essa parte não o incomodava. O que o perturbava era a tensão na voz de Elena e o silêncio de concordância nos olhos de Elyra.
"Desculpe," disse Noel, sem hesitar. "Mesmo."
Ele passou a mão pelos cabelos e olhou de lado. "Queria vingar algo que Marcus, Garron e ele mesmo fizeram comigo na Capital Sagrada. Achava... não sei. Achava que seria inofensivo." Ele fechou uma vez a cabeça. "O timing foi ruim. Essa culpa é minha."
Os ombros de Elena relaxaram um pouco, embora ela continuasse observando-o de perto.
"E se alguma coisa tivesse acontecido," acrescentou Noel, "Noir e eu teríamos resolvido."
Antes que pudessem responder, a voz de Noir entrou suavemente na mente de todos os três.
'Isso é verdade,' ela disse calmamente. 'Meu pai e eu teríamos cuidado disso sem problemas.'
'Agora somos Arquimagos,' acrescentou quase como um comentário de passagem.
Elyra e Elena pararam de repente.
Olharam uma para a outra, depois de volta para Noel.
A expressão de Elyra mudou primeiro. Uma surpresa genuína cruzou seu rosto, afiada e sem filtro. A reação de Elena foi mais suave, mas não menos de surpresa.
"Arquimago?" perguntou Elyra imediatamente. "Quando, Noel?"
Ele não evitou a pergunta. Nunca fazia isso com elas.
"Algumas horas atrás," respondeu. "Logo depois que nos separamos por causa daquele feitiço. Recebi uma missão rápida. Direta ao ponto." Ele deu de ombros. "A recompensa me empurrou."
Ele se ajoelhou novamente ao lado de Laziel, mais por impulso do que por preocupação, colocando dois dedos leves no pescoço dele. A respiração estava firme. Sem irregularidades. Sem distorções de mana remanescentes.
"Ele só está dormindo," murmurou Noel.
Elyra exalou lentamente, fechando os olhos ao processar a informação.
Elena respirou fundo, surpreendida por toda a emoção que não tinha percebido segurar.
"Isso... ajuda," disse, por fim. "Realmente ajuda."
Noel assentiu uma vez.
Noel ficou de pé por mais um momento, então mudou um pouco seu peso, seu olhar voltando de Laziel para Elyra e Elena.
"A parte mais importante," disse, "não é o sistema em si."
Ambas ouviram sem interromper.
"O que importa é o que vem a seguir," continuou Noel. "O Segundo Pilar não será como os outros que enfrentamos até agora. Tudo que vi aqui aponta para o mesmo lado."
Ele lançou um olhar breve para a cidade em ruínas ao redor deles.
"Controle em grande escala. Correntes. Criaturas acorrentadas. Pessoas acorrentadas." Sua voz se manteve calma, controlada. "Esse tipo de controle não vem da força bruta. Vem da autoridade reforçada por mana."
Os olhos de Elyra se aguçaram. "Quer dizer?"
"Quer dizer que ela não está apenas lutando," respondeu Noel. "Ela está comandando. Ou tentando."
Elena franziu um pouco a testa. "Então este lugar não foi tomado pela força."
"Não," disse Noel. "Foi reutilizado. Devagar. De dentro para fora."
Ele deixou que isso se assentasse antes de continuar.
"Por isso o sistema me deu tanto tempo," acrescentou. "Não é para ser uma missão apressada. Se atacarmos direto sem compreender o quão profunda é sua influência, corremos o risco de transformar cada ilha em um campo de batalha."
Elyra cruzou os braços. "Então, vamos nos preparar."
"Vamos coletar informações," concordou Noel. "Encontrar os outros. Descobrir até onde ela realmente estendeu seu alcance."
Elena assentiu. "E então, agiremos."
"Sim," disse Noel. "Nos nossos termos."
Um outro som breve quebrou o silêncio.
Laziel se mexeu novamente, mais visivelmente agora. Seus ombros tencionaram, e seu cenho se franziu como se estivesse emergindo de um sonho ruim.
Todos eles ficaram em silêncio ao mesmo tempo.
Noel virou-se completamente para ele, observando de perto.
Laziel deixou escapar um gemido baixo, apertando a vara com força enquanto sua respiração mudava de ritmo.
Noel levantou a mão levemente, sinalizando aos outros para esperar.
"Aqui começam as explicações," ele murmurou baixinho.
Eles não interromperam o momento.
Esperaram Laziel acordar por conta própria.
Os olhos de Laziel se abriram lentamente.
Por um instante, ele ficou imóvel, olhando para o céu quebrado acima dele, respirando devagar, como se estivesse inseguro se aquilo que via era real ou apenas o resto de um pesadelo.
Então, tudo o acertou de uma vez.
Ele se endireitou com um suspiro agudo, quase escorregando de suas costas, e por impulso segurou sua vara.
"O–O que aconteceu?" ele exclamou. "Onde está? Onde está a fera? Onde está o monstro gigante?"
Ninguém respondeu imediatamente.
O olhar de Laziel finalmente caiu.
Ele percebeu que estava sentado sobre algo quente. Algo sólido. Algo muito vivo.
Devagar, com hesitação, olhou para baixo.
Pelo escuro da pelagem.
Seus olhos se arregalaram.
"...Não," sussurrou.
Noir levantou a cabeça o suficiente para olhar para ele, as orelhas se mexendo.
Reconhecimento surgiu.
Houve um instante de silêncio meio pasmo.
Então Elyra riu. Não ruidosamente, mas de forma aberta, o som cortante e desinibido. Elena a seguiu pouco depois, cobrindo a boca enquanto tentava e não conseguia segurar a risada. Até os lábios de Noel se curvaram sorrindo, apesar de tudo.
Laziel os olhava, mortificado.
"Não estou acreditando," disse, sem expressão. "Era ela?"
A cauda de Noir abanou.
'Sim,' respondeu calmamente.
Laziel deslizou para fora de suas costas, com o rosto corado e as pernas vacilando um pouco. "Você tem ideia do quão assustador isso foi?" ele disparou, apontando vaga atrás dele. "Algo respirando no meu pescoço, sem luz do sol, pingando na minha cabeça—"
Ele tremeu.
"Por que vocês fizeram isso comigo?"
Noel deu de ombros, com as mãos nos bolsos e uma expressão relaxada demais para alguém sendo acusado de guerra psicológica.
"Olho por olho," ele disse. "Lembra da Capital Sagrada?"
Laziel congelou.
Ele abriu a boca, boquiaberto. "Falou sério?" Olhou para Noel com incredulidade. "Foi há meses. Você é realmente tão ressentido assim?"
Noel inclinou a cabeça levemente.
"Talvez," admitiu.
Laziel soltou um suspiro pesado, passando a mão pelo rosto. "Inacreditável."
A expressão de Noel mudou, o divertimento desaparecendo um pouco, sinalizando uma mudança de foco.
"Ok," ele disse, batendo as mãos suavemente. "Brincadeiras à parte. Tem coisas que vocês precisam saber."
O riso cessou.
Laziel olhou entre eles, percebendo a mudança de tom.
"...Isso não parece bom," murmurou.
Noel deixou o silêncio tomar conta por um momento, garantindo que todos prestassem atenção.
"Então, vamos lá: o que realmente aconteceu," começou, com voz firme agora. "Primeiro, nem todos chegaram no mesmo lugar."
"Essas ilhas estão divididas. Espalhadas," explicou. "Eu acabei em uma diferente da que vocês estavam."
Laziel franziu a testa. "Pois é."
"Nada de coincidência," continuou Noel. "Encontrei alguém lá. Um local. O nome dele é Theo."
Esse nome deixou Elyra mais alerta.
"Ele me contou o que aconteceu," disse Noel. "Uma mulher chegou aqui há muito tempo. Não recentemente. Tempo suficiente para as coisas apodrecerem bem." Seu tom permaneceu controlado. "E o Círculo fez o que sempre faz. Não atacaram de fora. Trabalharam por dentro."
"Infiltração," disse Elena baixinho.
Noel assentiu. "De dentro para fora."
Ele mergulhou a mão na bolsa dimensional e puxou um dispositivo compacto, com linhas levemente brilhantes e misteriosas gravadas na superfície. À primeira vista, não parecia mágico.
"Isso nos permite conversar," explicou Noel. "Ele pode nos ouvir. E está ouvindo."
Os olhos de Elyra se arregalaram um pouco. "Nossa família começou a trocar esses dispositivos recentemente," comentou. "Esperamos que se espalhem rápido."
Noel não ficou surpreso. "É claro que sim."
A influência da Estermont se espalhava mais rápido que a maioria dos exércitos.
Noel inclinou a cabeça para cima, apontando para o céu. "Theo também tem um artefato ligado à sua ilha," falou. "É o que permite que ele navegue de longe. Especialmente pelas rotas do norte. Fui o único que viu em ação."
Elyra refletiu. "Então, nossos transportadores provavelmente já cruzaram com ele, mesmo sem saber."
"Prazer em conhecê-lo, Theo," ela disse, se endireitando.
Uma voz vinda do dispositivo respondeu com calma e polidez.
"Por favor, não faça um voto por alguém tão humilde quanto eu," disse Theo. "Sua família já ajudou demais. Os mantimentos que vocês enviam todo ano sustentam muitos de nós."
Laziel piscou. "Hmm."
Ele coçou a cabeça, pensativo. "Então... agora, o que fazemos?"
Noel não hesitou.
"Vamos de ilha em ilha," ordenou. "Encontrar os outros. Reunir todo mundo."
Seu olhar endureceu um pouco.
"E quando estivermos todos juntos," concluiu, "vamos atrás do Segundo Pilar."
A estratégia estava definida.