
Capítulo 481
O Extra é um Gênio!?
A rua à nossa frente se abria em um espaço mais amplo, com construções recuando como se a própria cidade tivesse decidido parar de fingir que ainda vivia.
Noel diminuiu o passo.
Não porque precisasse, mas porque já não havia mais motivo para correr.
O centro interno da cidade se revelava adiante, vazio de uma forma que parecia mais pesada do que os destroços geralmente pareciam. Nenhum civis dispersos. Nenhum movimento de pânico. Nenhum sinal de evacuação recente. Apenas pedra, ruas rachadas e construções que ainda permaneciam erguidas mesmo sem seu propósito. Era mais como um lugar que havia sido simplesmente abandonado no meio de uma respiração.
Vozes distantes de feitiços ainda ecoavam pelas ruas atrás deles. Estalos fracos de mana, flashes de cores refletidos por janelas quebradas. Os outros ainda lutavam, limpando o que restava.
Mas esses sons estavam desaparecendo.
Noel parou de gastar mana.
O fluxo que tinha sido constante desde sua chegada desacelerou até se estabilizar em uma imobilidade, denso e silencioso dentro dele. Ele não o rejeitou. Também não o reprimiu. Simplesmente deixou que descansasse, como um peso que não precisava mais ser movimentado.
À frente, Noir terminou o que havia começado.
Na sua forma colossal, ela destruiu os últimos grupos de monstros com uma eficiência que beirava o desprezo. Correntes se quebraram. Collares se despedaçaram. As criaturas mal tiveram tempo de reagir antes de serem esmagadas ou dilaceradas, sua resistência acabando no instante em que começava. Não havia necessidade de coordenação, nem comandos gritando, nem tempo a se preocupar.
Noel assistia sem interferir.
O controle agora importava mais que a velocidade.
Quando os últimos ecos de combate desapareceram à sua frente, o centro da cidade se revelou por completo. Uma escada ampla levava até o que parecia ser a estrutura principal. Não um palácio, nem uma fortaleza, mas algo de natureza administrativa. Um lugar pensado para supervisão. Para autoridade. Um tipo de edifício que existe para observar tudo ao redor.
Noel subiu os degraus e se sentou.
A pedra estava fria sob ele, poeira grudando em seu casaco. Ele não se incomodou em aparar; tinha chegado muito mais cedo que os outros. Isso era óbvio. O ritmo dele tinha sido mais rápido. A rota mais limpa. O que fosse que ele precisasse fazer na sua ilha, tinha terminado rapidamente.
Agora, havia tempo.
Ele deu um leve arco para trás, apoiando os antebraços nos joelhos, com os olhos fixos na praça vazia abaixo. A cidade não reagia à sua presença. Não se mexia nem se agitava. Simplesmente permanecia em silêncio.
Por trás dele, os sons distantes de conjuração continuavam a diminuir.
Em breve, desapareceriam completamente.
E Noel esperava.
A janela do sistema permanecia na borda da sua visão.
Ele ainda não a havia fechado.
Não precisava lê-la novamente para saber o que dizia. Os números já estavam gravados na sua mente, mais pesados que qualquer recompensa ou aviso que já tivesse recebido.
Tempo Restante: 100 Dias.
Noel exalou lentamente.
Cem dias de um total de cento e vinte. Mais de três meses. Quase um terço de um ano.
Era estranho.
Cada missão que ele tinha recebido antes dessa impulsionava-o com urgência. Objetivos claros. Limites rigorosos. Pressão que obrigava decisões rápidas e ações ainda mais ágeis. Essa aqui, de modo algum, se parecia com isso. O sistema não estava apressando-o. Não o estava encurralando.
Se acaso, era deixando espaço para ele.
Tempo demais.
“Por que tanto tempo assim?” ele se perguntou. “O que você espera de mim?”
Isso não parecia uma missão que pudesse terminar com uma só batalha ou um golpe decisivo. Era mais amplo. Mais lento. Como algo que se desenvolveria peça por peça, querendo ou não.
Uma campanha, não um confronto.
A mão de Noel se moveu sem pensar, os dedos tocando a espessa pelagem negra repousando no seu colo. Noir tinha se aproximado em algum momento, sua forma monstruosa tinha desaparecido, seu corpo menor estava confortavelmente enroscado contra ele. Ela estava alerta, mas calma. Observando a cidade do mesmo jeito que ele.
"Você acha que a luta contra o Segundo Pilar será difícil?" Noel perguntou em voz baixa.
As orelhas de Noir se mexeram.
'Não sei, papai', ela respondeu após um instante. 'Pelo que me lembro das suas memórias... correntes. É isso que me chama atenção.'
Noel assentiu levemente, incentivando-a a continuar.
'Cada criatura que enfrentamos aqui tinha uma', Noir continuou. 'No pescoço delas. Embutida. E não são só monstros. As pessoas também. Todas parecem estar presas por alguma coisa. Como se estivessem atadas, mesmo sem saber.'
O olhar de Noel se endureceu um pouco enquanto ouvía.
"Era isso que eu pensava," ele disse. "Se ela controla milhares assim, seu poder deve estar no nível de Arquimago."
Controle nessa escala não vem de força bruta. É autoridade imposta através de mana. Através de sistemas. Através de correntes que não precisam estar tensionadas para serem sentidas.
Noir se moveu, levantando a cabeça só o suficiente para olhar para ele.
'Podemos lidar com isso,' ela afirmou com certeza. 'Sempre conseguimos.'
Sorriso pequeno apareceu nos lábios de Noel.
"É," ele respondeu suavemente. "Vamos conseguir."
Sua mão se moveu novamente, devagar, acariciando suavemente o topo da cabeça dela. Noir relaxou sob o toque, acomodando-se mais plenamente contra ele, ambos esperando.
Por um tempo, nenhum deles falou.
Aquela quietude se alongou, pesada, mas não desconfortável, como a pausa entre inspirações e expirações. Noel manteve o olhar na praça vazia, observando nada acontecer. A cidade não resistia ao seu destino. Simplesmente suportava.
Eventualmente, ele quebrou o silêncio.
"Eles sempre fazem a mesma coisa," Noel falou em voz baixa, com o tom grave. "Não importa onde os encontrarmos."
As orelhas de Noir se mexeram, ouvindo.
"O Círculo não conquista abertamente," continuou. "Eles não marcham com exércitos ou destroem cidades, a menos que precisem. Preferem controle. Devagar, invisível, paciente."
Seus dedos pararam por um instante no pelo de Noir, depois seguiram seu movimento gentil.
"Na academia, foi Dior," Noel prosseguiu. "Eles não tentaram matá-lo. Tentaram moldá-lo. Plantar dúvidas. Empurrá-lo exatamente onde queriam, até que ele não soubesse mais quais pensamentos eram seus."
Noir deixou escapar um som de concordância baixa.
"E a Capital Santa," Noel falou, com a mandíbula se cerrando um pouco. "Lá, eles miraram mais alto. Se tivessem sucesso, toda a Igreja estaria corrompida por dentro. Fé torcida. Autoridade distorcida. Pessoas seguindo mentiras sem perceber que eram mentiras."
Seus olhos se desviaram, distantes agora.
"Tharvaldur também. O reino anão. Mesma estratégia. Influência primeiro. Pressão depois. Transformam os líderes, e o resto segue, quer eles queiram ou não."
O padrão se tornava claro quando se percebia.
Dominar.
Prender.
Corromper de dentro para fora.
Correntes invisíveis no começo. Nenhuma violência explícita. Apenas controle cuidadosamente sobreposto ao tempo, até que a resistência parecesse inútil.
Noir levantou a cabeça novamente, apoiando o queixo levemente na coxa dele.
'E toda vez', ela disse, firme e certa, 'nós os paramos.'
Noel exalou pelo nariz, uma risada silenciosa escapando dele.
"Pois é," ele falou. "A gente conseguiu."
Nem toda luta foi ganha limpidamente. Nem todos escaparam sem cicatrizes. Mas o Círculo nunca conseguiu exatamente o que queria. Nem totalmente. Nem em qualquer lugar que importasse.
Por trás deles, os últimos ecos tênues do conjuramento finalmente desapareceram.
Mais nenhuma faísca de mana refletida nas paredes distantes. Mais nenhum impacto atravessando ruas quebradas. Só o silêncio, completo e sem interrupções.
A cidade ficou parada.
Noel notou a ausência imediatamente. Era como se uma linha tivesse sido cruzada. Um ponto alcançado.
Ele se endireitou um pouco, a mão ainda repousando na cabeça de Noir, os olhos estreitando-se enquanto ouvia a quietude que se seguia.
"Essa parte acabou," ele murmurou.
A cauda de Noir se mexeu uma vez.
'O que quer dizer que a próxima está chegando.'
Noel se levantou dos degraus, a poeira caindo de seu casaco enquanto se movimentava. Só então, ele realmente percebeu como parecia. Areia grudada no tecido por causa da queda anterior, manchas mais escuras onde o sangue de monstros havia secado, as bordas de suas botas carregadas de sujeira. Ele passou a mão na manga, por hábito, depois parou. Não importava.
Noir deslizou do colo dele e pousou ao seu lado, com as orelhas apontando para o extremo oposto da praça.
Três figuras se aproximavam.
A primeira vinha com passo firme, postura reta, ritmo tranquilo. Elyra von Estermont destacava-se imediatamente. Roupas vermelho escuro com as cores de sua casa, perfeitamente arrumadas, sem poeira ou sangue. O cabelo negro, agora solto — não trançado —, caía liso e impecável, como se a cidade toda não tivesse conseguido deixá-la com uma mancha sequer. Seus olhos cinzentos se levantaram, afiadores, já escaneando o espaço à frente.
Logo atrás, vinha Elena von Lestaria. Tons mais suaves, verdes e cores naturais que se misturavam com o ambiente. Seu cabelo estava preso em uma langa de cavalo, deixando as orelhas élficas completamente visíveis. Ela se movia com cautela, os olhos percorrendo os prédios destruídos, os sentidos claramente em alerta.
E então, vinha a terceira.
Laziel cambaleava atrás deles, apoiado pesadamente na bengala, os ombros caídos, como se o peso de toda a cidade tivesse se depositado só nele.
"Não aguento mais," ele resmungou alto. "Por que tive que seguir vocês até aqui? Cada passo que dou sinto que vou morrer. Este lugar é amaldiçoado. Quero um banho quente, uma cama macia, e pelo menos três meses sem sair da academia."
Elyra nem reduziu o passo.
"Você sabia exatamente no que estava se metendo," ela respondeu de forma seca. "Parecia não hesitar quando entrou. Para de reclamar e continue andando."
Noel observava a cena, um sorriso quase invisível se formando. Uma memória surgia sem controle. Água fria. Risadas. A Capital Santa.
Sua boca se tensionou num sorriso.
Antes que Elyra pudesse perceber completamente, Noel murmurou: "Passo Sombrio."
O espaço onde ele estava se foldou sobre si mesmo, e ele desapareceu.
Elyra parou instantaneamente.
Elena parou um instante depois, sentindo a mudança. Elyra olhou para ela e levantou um dedo, sinalizando silêncio.
Laziel continuou andando.
"Por que paramos?" ele reclamou, sem perceber. "Você viu outro monstro? Por favor, diga que não tem mais nenhum. Se tiver que lutar de novo—"
Ele finalmente percebeu o silêncio.
As duas meninas tinham se virado para olhá-lo.
Laziel desacelerou, confuso. "Por que vocês estão olhando assim para mim?" Ele engoliu em seco. "Tem alguma coisa atrás de mim, é isso?"
Laziel sentiu antes de ver qualquer coisa.
A atmosfera atrás dele mudou, pesada e incorreta, como se o próprio espaço tivesse se inclinado mais perto. Ele apertou a pegada na bengala enquanto um calafrio subia pela coluna vertebral.
Depois, algo pousou no seu ombro.
Era pesado.
Quente.
Laziel parou de repente.
Lentamente, com dificuldade, ele virou a cabeça para cima. Não havia mais luz do sol. O céu destruído acima tinha desaparecido, engolido pela sombra. Sua respiração ficou presa enquanto uma presença espessa pairava sobre ele, tão perto que podia senti-la respirar.
Algo úmido espirrou sobre seu cabelo.
"…N...não," Laziel murmurou.
Sua imaginação preencheu o restante rapidamente demais. Presas. Saliva. Uma mandíbula massiva pairando logo acima da cabeça dele, pronta para fechar. Seus joelhos tremeram, os olhos reviraram, e ele caiu de cabeça, sem fazer mais som.
Por um instante, a praça permaneceu perfeitamente imóvel.
Então Noel saiu das sombras ao lado da forma enorme.
"…Huh," ele disse, piscando. "Não achei que funcionaria tão bem."
A silhueta negra gigante atrás de Laziel se moveu, as sombras se dobrando para dentro enquanto Noir encolhia, sua forma monstruosa se dissolvendo na forma menor, mais conhecida. Ela andou até Laziel, cheirando-o uma vez e, ao notar seu estado, fez careta.
'Ele desmaiou,' ela comentou. 'De modo dramático.'
Noel coçou a nuca. "Pois é. Percebi mesmo."
Elyra exalou, a tensão saindo de seus ombros, e se agachou ao lado de Noir. Sem hesitar, ela tocou a pelagem da loba, acariciando gentilmente atrás das orelhas.
"Você é realmente impossível," ela disse, com carinho na voz. Depois olhou para Noel. "Você chegou rápido. Será que também veio pra essa ilha?"
Antes que pudesse responder, a voz de Noir entrou na mente de Elyra e Elena ao mesmo tempo.
'Oi, mamães.'
Elena parou por um instante, depois riu suavemente, aliviada. Ela avançou e envolveu Noel com seus braços, segurando-o por mais tempo do que o normal.
"Fico muito feliz que esteja bem," ela sussurrou, com a voz quase inaudível, enquanto pressionava a testa contra o peito dele por um instante. Depois recuou só o suficiente para beijá-lo, com ternura e calor.
Elyra não esperou muito. Levantou-se, deu um passo à frente, ficou na ponta dos pés e beijou Noel sem cerimônia. Confiante, natural, como se fosse a coisa mais normal do mundo.
Noel soltou uma respiração tranquila, nem percebeu quanto havia segurado, um sorriso pequeno se formando nos lábios.
"Também estou feliz por vocês duas estarem bem," ele disse sinceramente.
Depois, seu olhar caiu.
Laziel jazia estendido na pedra, inconsciente, com a bengala frouxamente segurada em uma mão.
Noel suspirou.
"…Provavelmente devemos acordá-lo antes de explicar qualquer coisa."