
Capítulo 480
O Extra é um Gênio!?
A cidade ia se revelando aos poucos.
Ruas de pedra ao invés de terreno deformado. Fundamentos de construções ainda de pé, paredes rachadas, mas reconhecíveis, becos dispostos com intenção e não com distorção. Em comparação com a ilha do farol, esse lugar parecia… mais sólido. Ferido, mas não torto.
Noel caminhava num ritmo constante, os botas ecoando suavemente contra o asfalto. Ao seu lado, Noir sentou-se brevemente em um degrau quebrado, observando a rua à frente com uma atenção silenciosa antes de seguir atrás dele novamente. Ela não falou. Não precisava.
"Esse aí foi habitado," murmurou Noel.
Antes que pudesse pensar mais, uma vibração tênue pulsou dentro de sua bolsa dimensional.
Ele parou.
A sensação era sutil, quase fácil de passar despercebida—mas agora ele a reconhecia. Noel estendeu a mão e puxou o dispositivo metálico compacto que Theo lhe dera. A superfície pulsou mais uma vez, então uma voz familiar, cansada, veio através.
"Noel. Agora posso te ver."
Noel exalou lentamente, uma ponta de alívio escapando antes mesmo que pudesse contê-lo.
"Você está na ilha do grupo Elyra von Estermont," continuou Theo. "Todos estão lá."
Essa informação chamou sua atenção.
Noel desacelerou, o olhar levantando-se em direção aos distritos internos.
"Entendi," disse em tom calmo.
Theo não pausou.
"Boa luta… ou melhor dizendo, massacre. Nunca vi nada igual."
Noel fez uma leve careta, esfregando a nuca enquanto seguia caminhando.
"Ah… desculpe por isso," respondeu. "Ainda não controlo totalmente minha força. Mas não se preocupe—vou deixar suas ilhas intactas." Noel fez uma pausa por um momento. "Acho que sim."
Um som seco veio pelo dispositivo. Não era bem risada, mas dava pra entender.
"Contigo aqui," disse Theo, "acredito que vamos recuperar as ilhas, cedo ou tarde. Você só não percebe ainda o quanto isso importa."
Noel não respondeu de imediato.
"Agora, o que importa," continuou Theo, "é que seus amigos não estão mais na costa. Pelo menos não por enquanto—mas eles começaram a se mover. Para o centro da ilha."
Noel parou na beira de uma avenida larga.
A rua principal.
Ela cortava a região como uma coluna vertebral, levando mais para dentro da cidade, onde construções mais altas se erguiam. Essa ilha parecia diferente da de Farois—menos destruída. Quase… preservada.
"O caminho é bem simples," alertou Theo. "Mas vai estar cheio de monstros, garoto. Você vai ter que cortar seu caminho—ou usar de novo sua Habilidade de Passo Sombrio."
Theo hesitou, depois acrescentou:
"Embora isso levante uma questão. Como exatamente planeja mover todos eles entre as ilhas?"
A mandíbula de Noel se tensionou.
Ele não respondeu imediatamente.
"Não sei," admitiu por fim. "Vamos descobrir quando chegar lá."
Uma respiração profunda atravessou o dispositivo.
"Então, que assim seja," disse Theo. "Por ora, boa sorte. Se precisar de orientação, use o dispositivo. Ainda posso te acompanhar."
"Os outros grupos também estão se movimentando. Os que não estão são a tripulação—eles estão protegendo o navio."
Noel assentiu uma vez, mesmo que Theo não pudesse ver.
"Obrigado, Theo."
"Só mais uma coisa," acrescentou Theo. "Siga a rua principal. Ela leva direto ao centro. Pode ainda encontrar pessoas… ou descobrir que já foram levadas."
"Tenha cuidado."
O dispositivo ficou em silêncio.
Noel o abaixou lentamente, recolocando-o na bolsa. Ficou ali por um momento, observando a longa avenida infestada de monstros à sua frente.
Noir parou ao seu lado, sentada calmamente, olhos fixos na frente.
Noel respirou fundo.
Depois, deu o primeiro passo na rua principal.
A rua principal se estendia adiante como uma cicatriz atravessando a ilha.
Pedra rachada, barracas abandonadas, fragmentos de edifícios inclinados em ângulos errados—este lugar já tinha sido vibrante. Agora, era apenas um corredor cheio de movimento que não deveria existir.
A primeira coisa que Noel percebeu foi o som.
Metal arrastando sobre pedra.
Baixo, pesado, ritmado.
Entre os edifícios colapsados, eles surgiram.
Formas serpentes rastejando pela rua, corpos cobertos por escamas grossas, opacas por sujeira e sangue seco. Outros os seguiam em quatro patas—feras que pareciam lobos ou javalis distorcidos, músculos deformados por controle, não por crescimento.
Todos eles usando correntes.
Elos grossos e pesados, firmemente presos ao pescoço, alguns embutidos na carne, outros fundidos diretamente no osso. As correntes não arrastavam inutilmente—puxavam, apertavam, corrigiam. Cada movimento era guiado.
Ascendente – Raro.
Noel não parou de caminhar.
Ele levantou uma mão casualmente.
"Flecha de Fogo."
Uma lâmina curva de chama comprimida avançou em linha reta, cortando a rua com um único movimento. Três serpentes ligadas por correntes foram cortadas ao meio antes mesmo de avançar, seus corpos se desintegrando em seções fumegantes.
[Você derrotou Serpente Encadeada (Ascendente – Raro).
Progresso do Núcleo: 0,02%]
[Você derrotou Serpente Encadeada (Ascendente – Raro).
Progresso do Núcleo: 0,02%]
[Você derrotou Serpente Encadeada (Ascendente – Raro).
Progresso do Núcleo: 0,02%]
Mais surgiram imediatamente, como se as correntes tivessem ordenado isso.
Os olhos de Noel se estreitaram—não por preocupação, mas por incômodo.
"Glacialis."
Um espinho de gelo denso avançou, expandindo-se ao impactar. Dois monstros foram congelados no meio do movimento, com as juntas travando na hora. O gelo não durou muito—pois Noel o quebrou um instante depois, com um relâmpago.
[Você derrotou Monstro Encadeado (Ascendente – Raro).
Progresso do Núcleo: 0,02%]
[Você derrotou Monstro Encadeado (Ascendente – Raro).
Progresso do Núcleo: 0,02%]
Um serpente avançou de cima.
Noel nem olhou para ela.
"Agulha de Tensão."
Um raio fino de relâmpago atravessou sua cabeça, o corrente ao redor do pescoço tilintando inutilmente enquanto o corpo caía ao chão.
[Você derrotou Serpente Encadeada (Ascendente – Raro).
Progresso do Núcleo: 0,02%]
Mais alvos se concentraram à frente.
"Rajada de Corrente."
Um relâmpago surgiu, pulando de um pescoço encadeado ao outro. corpos se contorceram, escamas escureceram, e a rua encheu-se do cheiro forte de metal e carne queimados.
[Você derrotou Monstro Encadeado (Ascendente – Raro).
Progresso do Núcleo: 0,02%]
[Você derrotou Monstro Encadeado (Ascendente – Raro).
Progresso do Núcleo: 0,02%]
Noel finalmente sacou a Lança dos Espectros.
"Supressão de Incêndio."
Fogo envolveu instantaneamente a lâmina. Ele avançou pelos monstros restantes numa cortina de movimento, cada golpe preciso—exagerado, mortal. Correntes se partiram. Corpos caíram.
O sistema continuava a notificar.
O progresso mal se movia.
E Noel não diminuía o ritmo.
Ele apenas seguia em frente, chamas, geada e relâmpagos limpando a rua como se fosse entulho. Já se ajustava, já aprendia o que significava mover-se como um Arquimago.
A rua começou a se abrir.
Edifícios se afastaram da via, suas fachadas queimadas e rachadas, correntes balançando soltas de portas destruídas e postes quebrados. Menos monstros saíam agora. Os que saíam hesitavam—o instinto finalmente se ajustando à realidade.
Ele sentiu antes de ouvir.
Uma distensão no ar. Mana se movendo com intenção.
Então—uma explosão à frente.
Uma detonação controlada, moldada e apoiada.
Noel parou por meio segundo, inclinando a cabeça.
"…Isso não é aleatório," murmurou.
Outro impacto veio, mais incisivo. Concentrado. O som de algo sendo fixado no lugar antes de ser destruído. Fios de mana cuidadosamente sobrepostos, como andaimes ao redor de um ataque.
Magia de suporte.
Noel expirou pelo nariz. "Elyra."
Uma terceira onda percorreu a rua, mais verde, mais selvagem—mas controlada. Vines se ergueram entre as pedras, não espalhando-se descontroladamente. Agarraram, restringiram, e se retrairam ao terminar a tarefa.
"Elena," falou baixinho.
Depois, veio a última assinatura.
Um pulso limpo, quase clínico. Sem mana desperdiçada. Sem força excessiva. Uma magia feita para uma coisa só, executada com perfeição, e que cessou no instante exato em que foi concluída.
Noel sorriu, mesmo que de relance.
"…Laziel."
Os monstros restantes não tiveram chance de reagir.
Noel se moveu.
"Espeto de Tempestade."
Relâmpagos explotaram ao seu redor enquanto a rua se achatava numa linha reta, cegante. Ele reapareceu a vinte metros à frente, os botas escorregando na pedra rachada enquanto uma fera encadeada tentava—sem sucesso—virar-se.
"Supressão de Incêndio."
Fogo envolveu Revenant Fang, apertado e obediente. Um golpe só. A corrente se quebrou com um som parecido com ferro rasgado. A criatura caiu antes mesmo de entender que estava morta.
Outro saiu de um beco lateral.
"Agulha de Tensão."
O feitiço atravessou seu crânio e saiu pelo outro lado. O corpo caiu no meio do passo.
Um grupo avançou junto—correntes batendo, bocas abertas.
"Rajada de Corrente."
Relâmpagos saltaram, dividiram-se e rasgaram todos eles rapidamente. Caíram no mesmo lugar, fumaça saindo de coleiras quebradas e escamas queimadas.
A rua à frente já se estava limpando, magia de ambos os lados convergindo ao mesmo ponto. O som do combate ficava mais agudo. Mais próximo. Familiar.
[Progresso Atual do Núcleo: 1,20% — Núcleo de Mana: Arquimago]
Noel olhou uma vez para a notificação—e depois a dispensou.
Esse poder tornava a limpeza das ruas algo trivial.
Revenant Fang quase se movia sozinha.
Noel não parou para conjurar mais magias—ele fluía. Cada passo o levava adiante, como se resistência tivesse deixado de ser algo a ser considerado. Correntes se partiam ao toque da lâmina com um grito como ferro rasgando, corpos caindo em pedaços antes mesmo de terminar de se virar para ele.
Labaredas traçaram o caminho da espada, depois travaram, e logo after, racharam com relâmpagos. Monstros avançavam e morriam no meio do movimento, seus ataques interrompidos antes de começarem de fato. A rua enchia-se do cheiro de metal queimado e carne ferida, elos quebrados rolando inúteis pelo chão.
Ao seu lado, as sombras se intensificaram.
Noir emergiu em sua forma plena numa explosão de massa negra e músculos, sobressaindo sobre os edifícios destruídos—oito metros de presas, garras e fome. Ela atingiu os monstros de frente, sem delicadeza, sem cautela. Espetou, devorou, rasgou colares de controle e tudo que estivesse preso a eles, com força devastadora.
Ela também não desacelerou.
Seres sumiam em sua boca, esmagados e engolidos como se fossem obstáculos a serem removidos. Sua presença se expandia, dominante e absoluta, fazendo os monstros restantes hesitarem—tamanho o medo que ela inspirava, por um instante.
Noel aproveitou a hesitação.
Outro passo. Outro golpe. Outro corpo derrotado.
O sistema continuou notificando nos bastidores. O progresso quase não avançava.
Ele não se importava.
Seguiu em frente—a lâmina vibrando, as sombras caminhando ao seu lado, a rua se abrindo na sua frente—já se ajustando, já aprendendo, já compreendendo o que significava se mover pelo mundo como um Arquimago.