
Capítulo 479
O Extra é um Gênio!?
A palavra trancou a magia no lugar.
A sombra sob as botas de Noel se intensificou, deixando de se agarrar à areia para se estender para fora — primeiro tênue, depois mais profunda, mais escura — até cruzar a água como uma respiração presa finalmente libertada. Não se rasgou. Não estalou.
Ela se conectou.
Por um instante, o mundo se comprimiu ao redor dele. Não a sensação de cair, mas de ser deslizado entre duas superfícies que sempre estiveram mais próximas do que pareciam. A pressão envolveu suas costelas, firme e orientadora, como a corrente de um rio profundo puxando-o de lado em vez de para baixo.
O mar desapareceu.
Não abruptamente — apenas sumiu, deixado para trás como uma escuridão distante e paciente que já não lhe dizia respeito.
Então, a pressão aliviou.
Noel emergiu de outra sombra, desta vez acumulada sob as raízes retorcidas de uma árvore torcida. A casca, como tecido de cicatriz, se erguia acima dele, galhos curvados pelo vento e pelo sal. Ele caiu de joelhos por instinto, uma mão apoiada na terra úmida.
Não por dor. Apenas por hábito.
Inspirou uma vez. Depois, de novo.
O mundo permaneceu estável.
“…Hah.”
O som escapou antes que ele pudesse detê-lo — uma respiração curta, silenciosa, de descrença mais do que de risada. Noel se levantou, olhos vasculhando o terreno desconhecido enquanto os últimos fios de sombra se desprendiam do casaco.
Alguns quilômetros.
Ele conseguia sentir a distância agora, não como esforço, mas como memória, como recordar uma longa estrada já percorrida.
'Ela aguentou,' disse Noir pelo vínculo, excitada, vibrando sob suas palavras. 'Limpa. Estável. Sem arrasto algum.'
Noel flexionou os dedos, esperando quase um tremor tardio. Nada aconteceu. Sua mana estabilizou-se facilmente, profunda e sensível, como a água voltando à quietude depois que uma pedra passou por ela sem fazer ondas.
"Então é assim que deve sentir," murmurou.
Ainda mal terminou de formar o pensamento quando algo mudou.
Folhas farfalharam — de forma errada. Não vento. Não pássaros.
A cabeça de Noel se levantou de repente, seus sentidos se agudizaram. Assinaturas de calor piscavam entre as árvores. Assinaturas de mana baixa e densa pressionavam na periferia de sua percepção, cruas e agressivas.
Múltiplas.
Precisava estar muito perto.
Os ombros de Noel ficaram firmes, enquanto a mão direita se dirigia lentamente para a Presa do Ressurgente. O breve momento de satisfação desapareceu, substituído por uma atenção aguçada.
"Deu ruim pra dar uma relaxada," murmurou.
Eles surgiram da floresta com um ruído de metal arranhando e correntes arrastando.
Sentinelas acorrentadas.
Corpos humanoides blindados com ferro opaco, articulações envoltas em correntes que tilintavam e estalavam a cada passo. As cabeças eram máscaras lisas, sem feições, divididas apenas por fendas estreitas que brilhavam com uma luz baixa e feroz. As correntes não eram algemas — eram âncoras, alimentando mana de volta ao núcleo de cada constructo, ligando-os em um nó móvel de agressividade.
Eles não hesitaram.
Nenhum hesitou também.
"Ranged de fogo."
Uma lâmina curva de calor rasgou a linha de frente. O aço se partiu como madeira úmida. Três Sentinelas caíram ao meio, limpas, antes mesmo das outras perceberem o ataque.
[Você matou uma Sentinela Acorrentada (Adepto – Elite).
Você recebeu 0,01% de Progresso do Núcleo.]
[Você matou uma Sentinela Acorrentada (Adepto – Elite).
Você recebeu 0,01% de Progresso do Núcleo.]
[Você matou uma Sentinela Acorrentada (Adepto – Elite).
Você recebeu 0,01% de Progresso do Núcleo.]
Noel nem parou para ler.
"Agulha de Tensão."
Relâmpagos avançaram em linhas cirúrgicas rígidas, pontiagudas. Atravessaram armaduras de peito, cortaram as núcleos de corrente, e se conectaram ao solo molhado além. Mais duas Sentinelas travaram no meio do carregamento e caíram, fumegando.
[Você matou uma Sentinela Acorrentada (Adepto – Elite).
Você recebeu 0,01% de Progresso do Núcleo.]
[Você matou uma Sentinela Acorrentada (Adepto – Elite).
Você recebeu 0,01% de Progresso do Núcleo.]
Então, tentaram atacá-lo em enxame — correntes se estendendo, ganchos tilintando contra pedra e casca de árvore. Noel sentiu a força do mana ligado deles, rudimentar, mas pesada, como uma rede jogada tudo de uma vez.
"Ralé de Corrente."
O primeiro raio atingiu uma Sentinela exatamente na máscara. O segundo e o terceiro saltaram instantaneamente, arcos nos correntes que os conectavam. A eletricidade percorreu os elos, transformando a formação numa espécie de instrumento de execução. Cinco corpos caíram quase ao mesmo tempo, com o metal vibrando ao som do impacto.
Notificações se acumularam mais rápido agora. Rápido demais para contar individualmente.
O aroma de ozônio e ferro queimado invadiu a floresta.
Em vez de recuar, Noel avançou.
"Surto de Ignição."
Fogo envolveu a Presa do Ressurgente, denso e obediente, enquanto a sombra se enroscava nas chamas em vez de enfrentá-las. Ele passou através dos Sentinelas restantes como uma linha sendo traçada e apagada ao mesmo tempo. Cada movimento cortava correntes primeiro, depois estruturas — desativando-os antes mesmo que percebesse que tinham perdido a coesão.
Corpos de ferro caíram. Correntes ficaram frouxas.
Mais notificações piscavam na periferia da visão — de novo, e de novo, e de novo.
Quando o último Sentinela Acorrentada caiu, a clareira estava cheia de metal destruído e elos fumegantes. Noel ficou no centro, o peito subindo firme, a lâmina ainda em chamas.
Silêncio se instaurou.
A presença de Noir tocou seus pensamentos, alerta e um pouco maravilhada. 'Pai… você não está economizando energia nem por um instante.'
Noel olhou ao redor, finalmente avaliando o que sobrara. Dezena de mortes. Ameaças de nível Adepto–Elite neutralizadas em minutos. A mana dele nem diminuiu como deveria.
"…Pois é," admitiu em voz baixa. "Percebi."
Essa foi sua primeira luta como Arquimago.
E ele quase destruiu tudo sem querer.
Os últimos Sentinelas Acorrentadas quebraram a formação assim que entenderam o desequilíbrio.
Pé de metal cavou sulcos na terra enquanto se viravam, correntes tilintando freneticamente. Eles não estavam recuando com estratégia — apenas por instinto. Quaisquer que fossem as ordens que os moviam, não os prepararam para esse tipo de oposição.
Noel os observou por meio segundo.
Depois, soltou o ar pelo nariz.
"Então é esse o limite," disse calmamente.
Ele avançou.
"Perfurador de Tempestades."
Relâmpagos envolveram-o em uma linha apertada, não saindo em faíscas, mas comprimindo-se até gritar. O mundo se estreitou numa linha violenta enquanto ele desaparecia, reaparecendo no espaço entre duas criaturas em fuga. O impacto aconteceu antes mesmo do som — o metal implodindo para dentro enquanto a carga elétrica perfurava os núcleos diretamente.
Ambas as Sentinelas se dobraram, as correntes ficando frouxas, os corpos caindo em pedaços ao chão.
Os monstros restantes nem tiveram tempo de fugir.
Noel não os perseguiu com raiva. Não havia uma onda de sangue, nem uma necessidade de provar algo. Ele cruzou a distância como um pensamento — rápido demais, limpo, com o poder respondendo antes mesmo de formular sua intenção.
Uma tentou levantar o braço.
Um arrepio de geada prendeu o movimento.
Outro avançou às cegas.
Fogo cortou o ar.
Um terceiro nunca percebeu Noel já ter passado por ele.
Quando tudo acabou, a clareira havia ficado quieta.
Cinquenta corpos dispersos na terra queimada, rochas fragmentadas — formas de metal retorcidas entre correntes quebradas, algumas meio derretidas, outras congeladas nas articulações, outras simplesmente abertas e vazias. As árvores na borda da clareira exalavam vapor, com a casca queimada pelo relâmpago que passou muito perto.
Noel permanecia no centro de tudo. "Status."
Uma chime familiar soou na borda de sua percepção, seguida da confirmação final.
[Progresso Atual do Núcleo: 0,72% — Núcleo de Mana: Arquimago]
Ele ficou olhando por um longo momento, depois lentamente soltou a mão do cabo de Revenant Fang. A chama da lâmina diminuiu. O relâmpago retornou ao seu núcleo. A sombra se ajustou ao invés de estalar.
Só então percebeu.
Os dedos dele estavam tremendo.
Não de cansaço.
De contenção.
"…Isso não é ótimo," murmurou Noel baixo.
A presença de Noir pressionou contra ele, firme mas calma. 'Você não está perdendo o controle,' ela disse. 'Só ainda não aprendeu onde estão os limites.'
Noel assentiu uma vez, com o olhar percorrendo a clareira destruída.
"Se eu continuar lutando assim," disse calmamente, "vou acabar quebrando alguma coisa que preciso que continue inteira."