
Capítulo 478
O Extra é um Gênio!?
A torre emitia um silêncio que parecia conquistado, mais do que vazio.
Noel ficava próximo à janela estreita, mãos repousando na pedra fria, observando o mar que se estendia entre silhuetas desfeitas de ilhas. Agora que o choque havia passado, o peso de tudo que Theo revelou começava a apertar mais forte. Não era um pânico — algo pior. Escolhas. Muitas escolhas, todas com suas consequências.
Logo atrás dele, Theo sentou-se envolto em um cobertor que Noel tinha puxado do bolso, com ambas as mãos ao redor de um copo de água. Noir permanecia perto dos botins de Noel, orelhas eriçadas, olhos nunca completamente relaxados.
Foi Noel quem quebrou o silêncio primeiro.
"Não vou direto para o centro," disse, voz baixa e firme. "Ainda não. Se eles estão dispersos como você descreveu, minha prioridade é reunir todo mundo. Selene, Elyra, Charlotte — especialmente Marcus. Não vou arriscar a vida deles por velocidade."
Theo acenou lentamente, como se já esperasse essa resposta.
"É assim que deve ser," respondeu. "O centro não foi feito para ser conquistado às pressas. Pelo menos, não como está agora."
Noel virou-se da janela. "Então me ajude a entender o mapa. Não hipóteses — como as ilhas estavam distribuídas antes de tudo desabar."
Theo recostou-se, olhos levantando para o teto como se estivesse mapeando memórias na pedra. "Há camadas," disse após um momento. "Sempre houve. Primeiramente as ilhas externas — pequenas, instáveis. Depois anéis internos com caminhos mais claros. A ilha central fica como um nó, tudo mais apertando ao redor dela."
"Quantas?" perguntou Noel.
"Bastantes para que nenhuma rota fosse segura de um jeito só," respondeu Theo. "Mas também suficientes para que o movimento dependesse de pontos de referência. O farol era um deles. Não só luz — posição. Mesmo nas tempestades, as pessoas sabiam onde estavam em relação a ele."
Noel absorveu a explicação, assentindo de leve. "Então, mesmo agora... você ainda consegue orientar as coisas."
"Consigo," disse Theo. "Não posso mais movernavios. Mas posso observar. Acompanhar mudanças. Dizer qual ilha se aproxima mais, quais parecem erradas para pisar."
Noir olhou para Noel, quase encostando o focinho no dispositivo. 'Isso o torna mais útil do que metade dos exploradores com quem trabalhamos.'
Noel quase sorriu.
"Então é assim que funciona," falou sozinho, mais para si do que para alguém. "Eu me movimento. Você fica aqui. Você observa o tabuleiro enquanto estou nele."
Theo cruzou o olhar com ele, uma firmeza se estabelecendo por trás dos olhos cansados. "Então, serei seu ponto fixo," disse. "Alguém precisa permanecer parado para que o resto de vocês possa se mover."
Noel respirou fundo, a decisão se formando como uma peça que encaixa perfeita.
"Certo," concordou. "Este é nosso ponto de partida."
Theo levantou-se da cadeira com um ruído silencioso, articulações protestando, sinal de que há tempos não mexia naquela postura, e fez sinal para Noel segui-lo para dentro do farol.
"Me dá um minuto," disse. "Tem coisas aqui que não toco há bastante tempo."
Ele movia-se lentamente, com propósito, como alguém que navega por um lugar gravado na memória muscular, não na visão. Atrás de um painel entortado perto da parede interna, pressionou a palma contra uma costura que não se encaixava exatamente na pedra. O painel escorregou com um clique surdo, revelando um compartimento raso, coberto de poeira e ferramentas envelhecidas.
Theo vasculhou ali, afastando bobinas de fio, caixinhas de metal e caixas seladas cujas bordas amoleceram com o tempo. Por fim, endireitou-se e virou-se, segurando algo pequeno na mão.
Colocou na palma de Noel.
Era um dispositivo metálico compacto, do tamanho de dois dedos de largura. Liso, com bordas gastas. Sem assinatura de mana perceptível a Noel.
"O que é isso?" perguntou Noel, virando-o de cabeça para baixo.
"Um comunicador," respondeu Theo de forma simples. "De alcance curto. Frequência e ressonância." Ele bateu na lateral com um dedo. "Você fala nele. Se a peça correspondente estiver perto o bastante, o som é transmitido."
Noel piscou, depois soltou um suspiro silencioso, increduloso. "Você está me dizendo que ficou com isso o tempo todo?"
Theo deu de ombros. "Era útil antes da quebra das ilhas. Menos depois." Pausa. "Até agora."
Noir se aproximou, quase encostando o focinho na peça. 'Está limpo', observou. 'Sem fios de encantamento. É... estranho.'
"E impressionante," murmurou Noel. Virou o dispositivo na mão, sentindo o peso e o equilíbrio. Soltou uma respiração de espanto e respeito ao mesmo tempo. "As pessoas subestimam o que dá para fazer sem magia," falou. "Todo mundo tão focado em feitiços que esquece que ferramentas podem fazer o mesmo — às vezes, melhor."
Theo bufou suavemente, com um toque de orgulho se colando à sua exaustão. "Magia faz barulho," respondeu. "O acabamento é que não. Por isso dura mais tempo."
Noel concordou com um aceno, seu olhar voltando para o mecanismo. O que aquele enano tenha ajudado a criar não era movido pela sede de poder — eles estavam resolvendo um problema. E isso era evidente. "Certo," disse por fim, ajustando cuidadosamente o dispositivo. "Isso muda tudo."
Deixaram o farol para trás enquanto a luz se retraía, retomando seu ritmo de vigília constante.
A descida abriu-se para a borda externa da ilha, onde pedra dava lugar ao mar aberto. Noel parou ali, firmando os botins enquanto absorvia a vista à frente.
Água se estendia entre as ilhas — escura, lisa, e calma demais para a distância que cobria. A terra mais próxima pairava a mais de cinco quilômetros, sua silhueta distorcida pela névoa e pela distância. Ilhas menores ao redor flutuavam além, como degraus quebrados que nunca tocavam o chão completo.
Mar aberto, engolindo o espaço entre eles.
Noir avançou ao lado, os focinhos parando na orla da praia. Ela cheirou o ar, as orelhas voltadas para a ilha distante, uma sombra se movendo suavemente na pelagem, como se a própria lacuna a incomodasse.
Noel não falou primeiro.
Ele mediu. Distância. custo de mana. Margem de erro. Antes, tentar algo assim teria sido imprudente.
Agora... era incerto.
Por fim, quebrou o silêncio, a voz baixa.
"Me diga a verdade," disse Noel. "Se eu tentar atravessar essa distância com um único Passo das Sombras… isso aguenta?"
Noir não respondeu de imediato. Fechou os olhos, a sombra se fechando ao redor do pequeno corpo, a ligação entre eles se alongando como uma linha invisível.
Depois, olhou para ele.
'Sim', ela disse, sem hesitação. 'Não porque seja fácil. Porque você agora consegue.'
Noel levantou levemente uma sobrancelha, convidando por mais.
'Antes, a gente forçava o espaço a se dobrar,' continuou Noir. 'O puxávamos para abrir e torcer para que não rasgasse de volta. Agora… ela ouve você. Você pode ser uma sombra igual ao meu pai.'
Pausa.
'E não somos mais luz,' acrescentou. 'Não vamos nos dispersar.'
Noel deixou aquilo se assentar, a fé no poder dele se firmando.
O mar abaixo permanecia indiferente. Paciente. Pronto para reivindicar tudo o que fosse subestimado.
Ele assentiu uma vez.
"Certo," disse simplesmente.
Noel deu um passo mais perto da orla, a ponta do casaco mexendo ao vento. Sombras começaram a se aglomerar sob seus pés, espalhando-se sobre as águas.
Depois, falou claramente.
"Passo das Sombras."
As sombras se fecharam mais forte.