O Extra é um Gênio!?

Capítulo 477

O Extra é um Gênio!?

"Uma garota…?" Noel repetiu baixinho, sem interromper, apenas testando a palavra como se ela pudesse mudar de forma ao ser dita em voz alta.

Theo assentiu uma vez. O movimento foi discreto, quase relutante. "Sim. Uma garota."

Ele recostou-se um pouco na cadeira, os olhos vagando em direção à estreita janela do farol onde o mar se estendia de forma artificialmente plana, como uma chapa de vidro opaco. "Naquela época, não causava alarme. Visitantes não eram raros na época. Essas ilhas eram perigosas, com certeza — mas não proibidas. Comerciantes vinham. Algumas pessoas permaneciam por uma estação. Outras só vinham para ver o lugar e partir com histórias."

Sua boca formou algo que poderia ser um sorriso, se não estivesse tão cansada.

"Tínhamos problemas. Monstros na água. Criaturas que sussurravam na sua cabeça se você permanecesse tempo demais. Tempestades capazes de partir um navio ao meio se interpretasse mal o vento." Ele olhou de volta para Noel. "Mas o que você enfrentou lá fora? Aquilo no mar?"

Theo balançou lentamente a cabeça. "Isso não existia antes."

Noel não respondeu imediatamente. As palavras ficaram pesadas no peito dele, geladas. "Então foi colocado ali," ele disse finalmente. Não foi uma pergunta.

"Sim", Theo respondeu sem hesitar. "Colocado lá. Como uma trava acrescentada a uma porta que sempre esteve aberta."

Noel sentiu as peças se encaixarem. Isso não era uma mutação. Não foi um acidente. Era uma construção. Infraestrutura. O jeito da Círculo.

Theo continuou, com a voz mais firme agora que tinha começado. "Na época, esse farol era exatamente o que parece ser: um farol. Eu guiava navios entre as ilhas, evitava que eles se destruíssem em correntes escondidas ou recifes que gostavam de se mover quando você não olhava." Ele deu um toque leve na mesa. "Não era só luz. Eu ajudava... a direcionar as coisas. Equilibrar rotas. Tornar a passagem possível."

Noel memorizou isso. 'Tornar a passagem possível.'

"O navio chegou como qualquer outro," Theo continuou. "Cargo de comércio. Materiais de construção. Suprimentos. Mesmo trajeto de sempre, que usamos há anos. Mesmo selos de segurança." Ele hesitou, depois acrescentou, "Valor esteve envolvido. Por uma das casas nobres. Estermont, se minha memória ainda não me traiu no final."

A mandíbula de Noel se tensionou quase imperceptivelmente.

"E a bordo daquele navio," Theo falou suavemente, "estava ela."

Ele ainda não descreveu ela. Apenas deixou a palavra pairar no ar.

"A ilha central é grande," Theo prosseguiu. "Mais de duzentas mil pessoas viviam lá. Mercados. Distritos. Famílias. Quando as coisas mudaram... não foi rápido. No começo, não." Seus dedos se curvaram contra a madeira. "Mas agora? Muitos deles são como eu era. Vivos. Conscientes. E incapazes de se mover."

O silêncio tomou conta do farol, pesado e opressivo.

Theo exalou lentamente, os ombros afundando como se a própria memória carregasse um peso invisível.

"Não foi uma mudança gradual," disse calmamente. "É aí que as pessoas erram ao imaginar. Não havia sinais de aviso que pudéssemos apontar depois e dizer: ali — esse foi o momento. Certo dia, tudo funcionava. No próximo..." Ele sacudiu a cabeça. "As conexões sumiram."

Noel permaneceu em silêncio, deixando-o falar.

"Rotas entre as ilhas pararam de responder," continuou Theo. "Não foram destruídas. Apenas... tornaram-se inacessíveis. Os sinais falharam. Navios que deviam ser visíveis nunca chegaram. Outros partiram e nunca retornaram. O movimento em si parecia restrito, como se o mar tivesse decidido que certos caminhos não existiam mais."

Seu olhar caiu sobre a mesa.

"Não sei exatamente o que aconteceu na ilha central. Não diretamente. O que ela fez, não foi algo que pudéssemos testemunhar pelo lado de fora. Só sentimos as consequências." Seus dedos se curvaram levemente. "Tudo foi... redistribuído. Pessoas, recursos, posições. Como se toda a região tivesse sido levantada e rearranjada por uma mão invisível."

A mandíbula de Noel se apertou. "Então isso não foi um acidente. Nem um colapso."

Theo assentiu uma vez. "Não. Não foi uma queda."

Ele olhou para cima então, encontrando o olhar de Noel. "E você está certo. Você não veio sozinho. Sinto outras pessoas. Ilhas diferentes. Pontos separados. A mesma condição que nos aprisionou também... espalhou vocês."

Noel respirou lentamente. "Isso faz sentido."

Theo hesitou, depois ajeitou um pouco a postura. "Dá um momento."

Ele ficou em silêncio, fechando os olhos. Por um instante, nada aconteceu. Depois, o topo do farol respondeu — não com uma luz ou pulso, mas com um brilho constante, prático. A luz se espalhou para fora, calma e precisa, como uma ferramenta sendo ligada.

Noel percebeu imediatamente.

Noir mexeu-se em sua mente. 'É assim,' ela murmurou. 'É assim que ele nos viu.'

Noel observou a luz, sentidos quase tocando algo complexo e desconhecido. "Não é um feitiço," pensou. "Mas também não é simples."

Theo abriu os olhos.

Sua voz permaneceu firme quando falou:

"Posso vê-las."

Theo permaneceu um momento mais no olhar de Noel, depois relaxou um pouco os ombros, como se um peso interior tivesse finalmente sido aliviado.

"Como?" Noel perguntou antes que surgisse qualquer outra coisa. Não impaciente — apenas preciso. "Como você consegue vê-las?"

Theo olhou para cima, em direção à luz ainda suave que jorrava do topo do farol. "Não é um feitiço," disse ele. "Pelo menos... não do jeito que você está pensando." Ele deu leves cutucadas com dois dedos na testa. "Tem um mecanismo. Trabalho antigo. Conectado a mim e à torre. Construi faz muito tempo, com a ajuda de um amigo anão. Ele era melhor com metal e estruturas do que qualquer um que eu conheça."

Noel franziu ligeiramente. "Quer dizer que funciona com mana?"

"Quase não," Theo respondeu com uma risada cansada. "Estou só no núcleo inicial. Não tenho reservas para algo grandioso. Isso aqui não puxa energia. O farol sempre foi feito para guiar. Eu só... dei a ele olhos melhores."

Isso explicou muita coisa.

Theo fechou os olhos novamente, só por um instante, e começou a falar mais devagar, com cuidado, como se estivesse traduzindo impressões em palavras.

"Vejo uma jovem com cabelo azul curto," disse. "Ela é firme. Concentrada. Ao lado dela, há outra garota — claramente assustada, mas ilesa. Estão próximas uma da outra."

Noel respirou fundo, sem perceber que estava prendendo a respiração. 'Selene e Clara.'

"Um pouco mais distante," Theo continuou, "há um homem com aspecto de fortaleza. Músculos, uma presença que parece fixa ao chão. Ele está com uma garota de cabelo rosa. Ela fica se movendo ao redor dele tentando acalmá-lo, porque ele está assustado."

'Garron e Charlotte.' Claro.

Theo mudou um pouco a postura, como se focasse em outro ponto mais longe. Sua expressão virou confusão.

"Há outro grupo," falou lentamente. "Uma garota de cabelo preto, trançado com cuidado. Olhos cinza." Ele franziu o cenho, inclinando-se para frente. "Espere…"

O foco de Noel se aguçou instantaneamente.

Os olhos de Theo se arregalaram um pouco. "Aquela insígnia — aquelas feições. É... uma Estermont, não é?" Ele olhou de volta para Noel, genuinamente surpreso. "Elyra von Estermont. O que ela está fazendo aqui?"

Noel soltou um silêncio, a tensão nos ombros aliviada. 'Elyra,' pensou. 'Ela está viva.'

Theo continuou, recuperando o foco. "Ela não está sozinha. Tem uma elfa com ela — calma, atenta. E um rapaz que parece estar sempre pensando demais em tudo." Um sorriso cansado cruzou seu rosto. "Esse aí não para de se mover."

Noel soltou uma risada suave, mesmo sem querer. 'Laziel e Elena,' pensou.

Theo passou adiante, a voz agora firme. "Em outra ilha, consigo ver seu navio. Está danificado, mas inteiro. A tripulação está viva. Desorientada, mas se movendo."

Ótimo. Noel fechou os olhos por meia fração de segundo.

"E o último," disse Theo, com o olhar novamente desviando. "Dois jovens homens. Estão separados de tudo e conversando. Discutindo, talvez. Planejando."

Não precisou adivinhar desta vez. 'Marcus e Roberto,' pensou. 'Ficou esperando.'

Theo recostou-se, a luz no topo do farol escurecendo um pouco enquanto o mecanismo se desligava.

"Nenhum que eu consiga ver está morto," disse calmamente. "Espalhados. Isolados. Mas vivos."

Noel exalou lentamente, a tensão no peito finalmente se soltando em algo mais gerenciável.

Já era suficiente.

Eles não estavam perdidos.

Simplesmente não estavam juntos.

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