O Extra é um Gênio!?

Capítulo 476

O Extra é um Gênio!?

Noel moveu assim que o corpo do velho caiu.

A Lança do Ruminante foi colocada de lado sem cerimônia, o leve zumbido da lâmina desaparecendo enquanto Noel se ajoelhava ao lado dele. Antes que pudesse estender a mão, uma sombra se deslocou lentamente até o chão e Noir surgiu de sua silhueta, assumindo a forma de um filhote de lobo. Ela foi à frente primeiro, com as orelhas alertas, o focinho tremendo enquanto circulava a cadeira caída e o homem recostado nela.

"Estou aqui, tenho você," disse Noel em voz baixa, com as mãos firmes enquanto ajudava o velho a se sentar, erguendo-o com cuidado. O homemfranziu a testa ao ouvir o ranger da cadeira contra a pedra, um gesto de desconforto cruzando seu rosto, mas Noel manteve a pegada gentil, paciente. Eles o acomodaram de volta na cadeira no centro do farol, mesmo que seus dedos se fechassem no madeira como se ela pudesse traí-lo novamente.

Por um longo momento, ele apenas respirou.

Depois, hesitante, levantou o braço esquerdo.

Ele subiu poucos centímetros, tremeu, e permaneceu nesse movimento.

Seus olhos se arregalaram. Ele o abaixou de novo, e tentou o direito. Mais lentamente desta vez. Com mais cuidado. Como se o membro pudesse desaparecer se se movesse rápido demais. Depois, vieram as pernas — chutes pequenos, desajeitados, no ar vazio, os dedos nos pés flexionando e relaxando enquanto ele os observava com algo próximo à incredulidade.

Ele parou.

Sedou ali.

Inspirou profundamente, com tremores.

Quando olhou novamente para Noel, o medo tinha desaparecido.

O que ocupou seu lugar foi mais forte.

O velho empurrou-se para frente sem aviso, fraco, mas decidido, e Noel mal teve tempo de reagir antes que braços finos se envolvessem ao redor de seus ombros. O abraço era desajeitado, desequilibrado, mas apertado — desesperado, de uma maneira que não precisava de palavras.

Ele chorou.

Não alto, não dramático. Apenas soluços silenciosos e partidos pressionados contra o sobretudo de Noel, anos de isolamento vazando tudo de uma vez. Noel não se moveu. Não falou. Simplesmente ficou lá, deixando acontecer, com uma mão repousando entre as omoplatas do homem, firme e quente.

Pela ponta de sua percepção, Noir recostou-se sobre as patas traseiras, a cauda enrolada ao redor das patas.

"Você sempre foi assim, pai," ela disse suavemente pelo vínculo. "Nunca passa por alguém que esteja sofrendo."

A calor subiu pelo pescoço de Noel. Ele desviou o olhar, envergonhado — não pelas palavras, mas pelo quão exposto o momento parecia.

Por fim, o velho recuou, enxugando o rosto com a manga do robe. Sua respiração voltou ao normal. As mãos tremeram menos.

O farol permanecia silencioso ao redor deles.

O velho deu um passo para trás, esclarecendo a garganta como se estivesse envergonhado pelo momento. Enxugou o rosto com a manga do robe, levando a peça sobre os olhos avermelhados, e então respirou fundo, lentamente, para se firmar. Quando se sentou novamente, foi por vontade própria — não porque correntes o obrigassem, mas porque as pernas ainda não confiavam nele.

Noel observou atentamente, preparado para agir se ele vacilasse.

O homem rolou os ombros uma, depois outra, testando as articulações como alguém que despertasse de uma doença longa. Suas mãos se flexionaram, os dedos tremendo um pouco antes de se acomodarem. Ele assentiu consigo mesmo, como se estivesse se tranquilizando pelo simples fato de que seu corpo lhe obedecia ao menos isso.

O silêncio entre eles não era constrangedor. Era pesado, mas não desconfortável — como a pausa após uma tempestade, quando o ar ainda não decidiu o que virá a seguir.

Noel quebrou-o puxando uma mesa baixa com o pé. Uma das pernas dela raspou alto contra o piso de pedra antes que ele a estabilizasse e a colocasse na posição. Puxou uma cadeira e sentou-se de frente para o velho, com postura relaxada, mas atento.

"Quer comer enquanto conversamos?" perguntou Noel, com tom direto. Sem pena, sem exagerada suavidade.

O velho piscou para ele, claramente surpreso. "Depois de… tudo isso?" ele perguntou com voz rouca. "Você ainda —?"

Noel não respondeu.

Em vez disso, pegou sua bolsa dimensional e começou a colocar as coisas na mesa. Apareceram, uma a uma, três rações embrulhadas. Uma foi colocada de lado para Noir — carne crua, ainda fresca — e as outras duas foram colocadas entre ele e o velho. Arroz, legumes e frango cozido. Simples. Quente.

noir se afastou com sua porção, acomodando-se um pouco distante, atento, mas à vontade.

Por um momento, o velho apenas encarou a comida. Depois, pegou com cuidado, como se ela pudesse evaporar se se movesse rápido demais, e começou a comer. Devagar no começo. Depois, com mais confiança. Cada mordida parecia afrouxar alguma coisa nele, os ombros afundando enquanto a tensão se evaporava.

"Deveria ter me apresentado antes," ele disse finalmente, engolindo. "Perdoe-me. Meu nome é Theo."

Noel assentiu. "Eu sou Noel. Noel Thorne. Sou do continente de Valor."

Theo congelou na metade de uma mordida. "Valor?" Ele respirou fundo, parecendo entre surpresa e descrença. "Isso… é bem longe. Muito mais longe do que alguém veio aqui há muito tempo."

Noel o estudou silenciosamente. "Como você está se sentindo?"

Theo refletiu sobre a pergunta, depois sorriu de cansaço. "Melhor do que há anos. Fraco — mas vivo." Sua expressão ficou mais séria. "Você terá perguntas. Responderei tudo que puder." Ele hesitou, então acrescentou suavemente: "Preciso te pedir uma coisa primeiro. Por favor... ajude minha esposa."

Noel não apressou a resposta.

"Vou tentar," ele disse sinceramente. "Mas antes de tudo, quero a história completa. Desde o começo. E preciso saber como você estava me observando quando cheguei."

Theo concordou, colocando cuidadosamente a comida na mesa. "Então eu começarei do começo," disse ele. "Para não deixar nada de fora."

Theo respirou lentamente, os olhos vagando além de Noel até a janela estreita onde o mar permanecia calmo e distante.

"Começarei pelo dia que tudo mudou," ele falou em voz baixa. "Quase dois anos atrás. Uma embarcação chegou — uma que não pensamos duas vezes na época. Carregava materiais, suprimentos, mercadorias comerciais. Isso não era incomum para nós." Uma leve, amarga sorriso surgiu em seus lábios. "Nós fazíamos comércio regularmente com Valor, afinal. Se bem me lembro… era através da família Estermont. Sim, eles."

Seus dedos se apertaram um pouco mais na borda da mesa.

"Aquela embarcação veio sob as mesmas bandeiras. Mesmas rotas. Mesmos papéis. Mas, desta vez, tinha uma garota a bordo." Ele olhou de volta para Noel, com um olhar pesado. "Ela não estava sozinha. E, desde o instante em que colocou os pés na ilha, as coisas deixaram de seguir as regras que achávamos que entendíamos."

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