O Extra é um Gênio!?

Capítulo 472

O Extra é um Gênio!?

O mar ficou calmo.

Ao redor do núcleo do Guardião, a água deixou de se comportar como água de verdade. Nenhum redemoinho passava pelo funil mais. Nenhuma corrente transversal raspava na empenagem. Até o vento parecia hesitar, com velas pendendo em um equilíbrio tenso e artificial, como se o próprio mundo tivesse sido mandado esperar.

No centro de tudo, a pressão se condensou.

O Guardião se reuniu.

Noel sentiu a mudança imediatamente. O padrão sob a superfície se apertou, camadas de massa se dobrando de forma metódica para dentro. Onde antes a criatura negava espaço, testava reações, readequava limites—agora ela estava retraindo tudo para um único ponto.

"Ele terminou de julgar", disse Noel em voz baixa.

Um relâmpago percorreu Revenant Fang, desta vez não selvagem, mas restrito—comprimido até vibrar com um foco afiado e perigoso. A sombra grudava na lâmina como uma segunda borda, mais pesada do que antes.

Marcus ficou a alguns passos de distância, uma luz derretida pulsando sob a pele enquanto a terra respondia lentamente ao seu chamado, resistindo à poderosa pressão que saturava o mar. Ele não olhou para Noel por muito tempo.

Seus olhos se cruzaram por um instante quase imperceptível.

Agora.


Selene foi a primeira a se mover.

"Mantém a gravidade!"

A gravidade se distorceu para fora de sua posição em um arco amplo e estabilizador—não esmagando, não prendendo, mas negando fixação. Os âncoras invisíveis que o Guardião vinha tecendo no espaço à sua frente tremeram e se soltaram, desalinhando-se apenas o suficiente para fazer diferença.

"Não deixe ela travar o campo!", alertou Selene, com os dentes cerrados enquanto o gelo subia pelo braço dela. "Eu posso mantê-lo instável—mas não para sempre!"

Roberto já começava a se mover na borda do convés.

Ele atacou onde o olho não conseguia acompanhar—intervenções rápidas e precisas nos veios que não deveriam existir. Sempre que a massa do Guardião tentava reconectar, redistribuindo pressão pelas estruturas como uma armadura, algo quebrava. Não violentamente. De forma limpa.

"Sem território", murmurou Roberto. "Sem chão. Sem reinicializar."

A água tremeu.

Pela primeira vez, a contenção do Guardião vacilou.

Noel respirou lentamente.

A sombra se espessou ao redor de seu braço. O relâmpago se condensou para dentro, tecendo na escuridão em vez de combatê-la.

"Precisamos fodê-lo de vez", murmurou Noel.

Ele deu um passo à frente.

A reação do mar foi imediata.

O Guardião moveu toda a sua massa em direção a ele—não atacando o navio, nem a tripulação, mas ao próprio Noel. O espaço ao redor de sua posição se comprimiu violentamente, a pressão aumentando com uma precisão cirúrgica.

O julgamento foi passado.

Noel não recuou.

Ele avançou.

Relâmpagos e sombras se fundiram em uma descarga cegante—não uma magia com nome, nem uma técnica exibicionista. Apenas intenção bruta solidificada, forçada a um vetor estreito que perfurou direto através do espaço comprimido à sua frente.

A colisão quebrou a superfície da realidade.

A água se partiu sem som. A pressão gritou. A armadura do Guardião cedeu para dentro como se algo fundamental—algo estrutural—falhasse.

Marcus rugiu.

A terra respondeu.

Ele caiu em uma postura enraizada, os pés fixos numa base impossível enquanto uma energia derretida spiralava por seus braços. O feitiço que estava formando era maior que qualquer outro que já tivesse feito, o calor distorcendo o ar violentamente enquanto fogo azul e magma se fundiam num algo denso, instável e letal.

"Me cubram!", ordenou Marcus.

Noel atendeu.

Ele entrou na pressão contrária do Guardião, com as sombras se expandindo ao redor enquanto relâmpagos criavam uma trilha no espaço colapsado, prendendo a atenção da criatura—a obrigando a responder a ele.

Esse foi o erro.

Marcus terminou de lançar o feitiço.

O Lança de Magma se formou lentamente, dolorosamente, sua superfície rachando com energia contida, como se fosse explodir antes mesmo de ser lançado. Marcus cerrou os dentes, sangue escorrendo pelos cantos da boca enquanto apontava.

"Para o registro", rosnou, "detesto coisas que acham que são leis."

Ele o arremessou.

A lança não atravessou.

Ela colapsou no núcleo do Guardião e explodiu de dentro para fora.

O mar se rompeu.

O Guardião gritou,

enquanto sua massa presa se desfazia violentamente, sua estrutura desmoronando mais rápido do que podia se recompor.

E naquele instante, com o espaço se rasgando ao seu redor enquanto o ente em decadência se desfazia, o Guardião se virou completamente em direção a Noel—

E atirou.

O golpe não parecia um ataque.

Não houve onda de água, nem rajada de força, nem magia visível arremessando-se pelo ar. O espaço entre Noel e o Guardião simplesmente… falhou.

A realidade se encolheu para dentro. Uma parte do mundo à sua frente perdeu definição, como se alguém tivesse apagado o conceito de para onde ir. Onde a vontade do Guardião pressionava, o movimento deixou de ser válido.

Noel sentiu imediatamente.

Seus pensamentos não se dispersaram. Suas memórias não foram tocadas. Não havia ilusão a combater nem voz a silenciar. Em vez disso, uma certeza esmagadora se instalou no seu peito, fria e absoluta:

Você não pertence aqui.

Seu corpo vacilou no meio do passo, músculos travando como se o próprio ar tivesse decidido que ele tinha ido longe demais. Relâmpagos relampejavam ao longo de Revenant Fang, arcos se espatifando inutilmente no vazio onde o espaço se recusava a aceitá-los.

Noir reagiu instantaneamente.

Sombra se elevou ao redor de Noel, densa e sufocante do melhor jeito possível, envolvendo suas pernas, seu tronco, seus braços—ora o fixando a si mesmo, ao convés, ao agora.

'Não,' — sua voz rangia dentro da cabeça dele, cortante e firme—'Você existe. Você está de pé. Você se move.'

A pressão se intensificou.

A visão de Noel ficou turva nas bordas, não por tontura, mas por algo mais profundo—como se o mundo estivesse tentando substituí-lo por vazio. Sua respiração ficou pesada, cada inspiração parecendo precisar justificar-se.

Logo atrás dele, Marcus rugiu de frustração enquanto a contraofensiva rasgava seu corpo. Um joelho bateu forte no convés, a pedra rachando sob ele enquanto sangue espirrava pelos tablados. O feitiço carregado demais o queimara profundamente—braços tremendo, veias iluminadas por um calor azulado instável.

Ele não parou.

"Ainda não acabou!", rosnou Marcus, forçando-se a ficar de pé, energia derretida ainda fervendo sob a pele.

Roberto se moveu como um espectro ao longo da borda da formação, atingindo onde a estrutura do Guardião em colapso tentava reconectar. Cada golpe preciso interrompia outro fio de coerência, impedindo que a criatura estabilizasse sua própria falha.

"Essa coisa não está mais lutando", gritou Selene, gelo rodopiando caoticamente enquanto a gravidade se distorcia ao seu redor. "Ela está reforçando seu propósito!"

O Guardião se contorceu.

A pressão voltou a subir—não para fora, mas para dentro, colapsando camadas do espaço em campos de negação que engoliam magias inteiras. O fogo se apagou no meio da formação. O gelo se despedaçou antes de existir. Os relâmpagos desapareceram nos vãos nulos como se nunca tivessem sido lançados.

A voz de Selene cortou a confusão, aguda com a compreensão.

"Ele está colapsando sua própria função!", gritou. "Ele não consegue recuar—se falhar aqui, deixa de existir!"

Noel ouviu.

Ele entendeu.

Isso não era uma criatura escolhendo lutar. Era uma regra se recusando a ceder. Uma função que chegou ao momento em que sucesso ou aniquilamento eram os únicos resultados possíveis.

E regras não fazem concessões.

A pressão voltou a aumentar, direcionada diretamente a Noel—negação sobre negação, o mundo insistindo cada vez mais que ele não deveria dar mais um passo.

Noel rangeu os dentes.

Ele desistiu de tentar recuar.

De bloquear.

De resistir.

Em vez disso, inclinou-se para frente.

Relâmpagos brilhavam—não de forma caótica, mas controlada e precisa. A sombra se aproximava mais, presença de Noir firme e absoluta às suas costas.

"Então tudo bem", murmurou Noel, o sangue escorrendo pelo queixo enquanto seus olhos queimavam de intenção. "Eu não preciso de permissão."

Ele deu um passo.

Na negação.

No pressionamento.

No lugar que o Guardião dizia que não poderia cruzar.

E continuou avançando.

Ele não desacelerou.

O pressão rugia ao redor dele, o espaço se dobrando e recusando sua presença com certeza absoluta—mas ele já tinha passado do ponto de negociação.

"Stormpiercer".

Relâmpagos explodiram.

O mundo se alinhou numa linha ofuscante de luz branca enquanto Noel desaparecia à frente, seu corpo impulsionado pelo próprio negação. Raios de eletricidade o cercavam completamente, arcos gritando enquanto ele destruía o campo comprimido de frente. Por um instante, a resistência atingiu seu pico—o espaço gritando ao tentar rejeitá-lo.

Então, ele quebrou.

Noel reapareceu imediatamente diante do núcleo do Guardião em colapso, os tênis escorregando sobre a água que já não se comportava como líquido. Revenant Fang já estava levantado.

Ao seu lado, Marcus rugia entre suspiros com sangue e fumaça.

"Lança de Magma".

A lança sobrecarregada foi lançada.

O timing foi perfeito.

Stormpiercer rasgou uma fenda na negação—uma ferida aberta na função do Guardião—e a Lança de Magma mergulhou direto nela, magma e fogo azul perfurando profundamente o núcleo exposto. A colisão não explodiu para fora.

Ela implodiu para dentro.

A estrutura do Guardião tremeu. Segmentos semelhantes a armadura perderam o alinhamento, as costuras piscando de forma instável enquanto regras internas falhavam em conciliar os danos.

E então Noel falou novamente.

"Sol Escuro".

A magia já estava lá.

Uma esfera de fogo hiper comprimido, preta como um vazio sem estrelas, vinha se formando atrás dele há segundos—alimentada silenciosa e incessantemente enquanto Marcus lançava, Selene e Roberto mantinham a linha. Agora, ela pairava às suas costas, distorcendo a luz, consumindo calor, puxando tudo para sua densidade impossível.

Noel a guiou para frente.

A esfera negra se lançou ao núcleo rasgado, engolida pela função do Guardião em desintegração—e depois liberada.

O mar não explodiu.

As regras sim.

O espaço colapsou por dentro enquanto a implosão se acendia, o fogo se enroscando em si mesmo com força devastadora. A água desapareceu ao tocar o efeito, transformada instantaneamente em vapor gritando e pressão, antes de ser apagada por completo. O Guardião não se debateu nem gritou.

Ele simplesmente deixou de ser coerente.

Estruturas empilhadas se desmancharam em nada. Limites se dissolveram. A presença imensa que negava passagem perdeu a capacidade de se definir — completamente.

O mar se convulsionou, à medida que a condição que o mantinha unido deixou de existir.

Noel foi arremessado para trás, sombras se apertando ao redor dele como uma ferradura. Marcus caiu de joelhos, tossindo fumaça e sangue enquanto as últimas ecos de seu feitiço se apagavam.

À frente deles, o Guardião se desfez—não morrendo como uma fera, mas colapsando como uma lei que foi provada errada.

A água entrou para preencher a ausência.

E nada voltou a subir.

A massa que uma vez definiu a fronteira se fragmentou em uma inexistência flutuante, suas estruturas remanescentes perdendo alinhamento enquanto o conceito que as sustentava se desmanchava. A água entrou onde a resistência desapareceu, e o espaço voltou ao lugar como uma corda esticada finalmente solta.

Por meia fração de segundo, tudo parecia sem peso.

Então, o sistema reapareceu.

Uma janela azul translúcida se abriu na frente da visão de Noel.

[Missão Concluída]

Sobrevivência e derrota da ameaça local de topo.

Status: Concluído.

[Recompensa: ???]

Noel não se moveu.

Algo estava errado.

O mar sob eles não estava se acalmando—estava se desfazendo, correntes se dobrando para dentro e para fora ao mesmo tempo, como se o próprio espaço tivesse perdido a concordância sobre onde as coisas pertencem. O convés cambaleou violentamente, não por impacto, mas por deslocamento.

Elyra gritou algo—Noel não conseguiu ouvir o que.

Charlotte gritou ao ver o mastro torcer de lado, uma luz surgindo instintivamente enquanto ela tentava agarrar alguém por perto. Marcus tentou alcançar a escada, mas ela se desprendeu do convés, metal gritando enquanto desaparecia no vazio.

Não caiu.

Sumiu.

A linha do horizonte se quebrou.

O navio não explodiu.

Ele foi destruído.

Madeira, aço, mana, corpos—tudo foi puxado ao longo de linhas invisíveis, estendido em faixas de movimento e sombra. O próprio ar se dobrou, a luz se distorcendo em ângulos impossíveis enquanto o mundo perdia sua estrutura.

Noel sentiu Noir colidir nele por trás, sombras se fechando forte como ferro.

'Segure-se—!' ela grunhiu.

Já era tarde.

Não havia mais direção.

Cima e baixo perderam sentido. A distância se colapsou. A sensação de cair chegou sem gravidade, uma queda nauseante no silêncio enquanto o mundo desaparecia.

A janela do sistema piscou uma vez—

Então tudo ficou escuro.

Não havia som.

Sem peso.

Sem sentido de tempo.

Só a sensação interminável de separação.

Os pensamentos de Noel rodaram por uma fração de segundo antes que ele os reprimisse com força. ‘Droga.’

O que acabou de acontecer?

Onde estavam todos?

Eles—

A presença de Noir pressionou contra ele, feroz e firme, sua sombra se enrolando como se pudesse ancorar a própria realidade, se fosse preciso.

'Respire',— ela rosnou, baixa e afiada. 'Você não se foi. Eu estou com você.'

O vazio ao redor deles tremia.

Algo mudou.

E então—

A escuridão caiu.

Noel teve tempo de pensar: 'O que diabos acabou de acontecer!?'

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