
Capítulo 474
O Extra é um Gênio!?
Noel não ficou parado.
Sentar e pensar tinha seu lugar, mas esta ilha não lhe daria respostas por cortesia. O que quer que estivesse observando-o claramente não tinha interesse em se aproximar primeiro — e isso por si só dizia mais do que o silêncio jamais poderia.
Ele se levantou da areia, escovando os finos grãos vítreos de seu casaco, e virou-se para o interior da ilha.
"Certo," falou em voz alta, com a voz áspera mas firme, mais enraizada do que se sentia. "Se você vai ficar me encarando, pelo menos tenha a decência de fazer isso de um lugar interessante."
A presença de Noir mudou atrás dele, sua sombra se alongou e se ajustou como um manto repousando sobre os ombros.
'Você está indo na direção da maior concentração,' ela observou. 'A densidade de mana aumenta nesse sentido. Não de forma abrupta. Mais como… uma mudança lenta na pressão. Como subir uma ladeira sem perceber até suas pernas começarem a queimar.'
"Sim," murmurou Noel, já em movimento. "Eu também sinto isso. Como se a ilha estivesse puxando seus pensamentos para dentro."
O terreno mudou enquanto ele avançava.
A areia ficou mais rala, dando lugar a pedra que não se quebrava sob os pés, mas aceitava seu peso. Formações irregulares surgiam ao redor, em agrupamentos desiguais, blocos de rocha inclinados em ângulos que faziam seus olhos coçarem se ele olhasse por muito tempo. Algumas superfícies refletiam luz como obsidiana polida, outras a absorviam completamente, tragando cor até as sombras parecerem mais profundas do que deveriam.
Parecia menos caminhar por terra e mais atravessar as cinzas congeladas de algo que tentou se reconfigurar — e parou no meio do caminho.
Sem vento. Sem insetos. Sem chamados distantes de criaturas.
Apenas seus passos, e o suave zumbido que vinha de baixo deles.
"Sabe o que me incomoda?" depois de um tempo, Noel quebrou o silêncio. Sua voz soou estranha, não repetindo, apenas… permanecendo. "Se este lugar quisesse minha morte, eu já estaria sangrando. Se quisesse que eu fosse embora, eu nem estaria aqui."
'Então, ele quer algo mais,' respondeu Noir.
"Provavelmente." Ele respirou fundo pelo nariz. "E eu realmente não gosto de jogos de adivinhação onde as regras ainda não existem."
A pressão ficou mais perceptível à medida que subia. Não mais pesada — mais próxima. Como se o próprio ar estivesse se inclinando para escutar. A mana se movia ao redor dele em correntes preguiçosas, sem tocá-lo diretamente, sem recuar também. Lembrou-o de estar até o joelho na água que nunca espirrava de verdade.
Noel desacelerou, a mão repousando frouxamente perto de Revenant Fang, sem puxá-la ainda.
"Sei que você está aí," disse, a voz se espalhando mais longe do que deveria. "Não sei o que você é — guardião, construto, vontade remanescente, ou algo que simplesmente gosta de colecionar segredos — mas você tem me observado desde os seus dez passos para dentro."
Não houve resposta.
Nem uma ondulação.
Noel soltou um risinho silencioso. "Dá para entender."
Ele continuou andando.
O terreno elevou-se formando uma planície rasa à frente, cercada por pilares de pedra que não formavam exatamente um círculo, mas mais uma ideia de um. Cada pilar era diferente — alguns finos como lâminas, outros largos e quebrados, inclinados como velhos soldados que esqueceram por que ainda estavam de pé.
O zumbido intensificou aqui, vibrando suavemente por dentro das botas, pelos braços, até o peito.
A sombra de Noir se espalhou mais. 'Este é o foco,' ela disse. 'O que estiver te observando não está em todo lugar. Está centrado aqui. Mas… está contido.'
"Contido como?"
'Como um cachorro numa coleira longa,' ela respondeu após uma pausa. 'Com liberdade suficiente para observar. Mas não para agir.'
Isso fez Noel parar.
Ele franziu o cenho, apertando os olhos enquanto escaneava os pilares, o espaço entre eles, o vazio que de algum modo parecia ocupado.
"…De novo, correntes," murmurou. "Esse é o tema do Segundo Pilar."
Ele pisou totalmente na planície.
Nada tentou atacá-lo.
Nada falou.
Mas a sensação mudou imediatamente — não mais aguda, nem ameaçadora. Era como entrar na sala de alguém e, instinctivamente, saber que essa pessoa tinha notado sua presença.
Noel cruzou os braços de leve, postura relaxada mas alerta, como alguém que pisa num gelo fino tentando fingir que está em terra firme.
"Então," disse, com tom de conversa apesar da tensão que se acumulava na sua coluna. "Você está me observando. Não está me impedindo de seguir em frente. E também não está me ajudando."
Ele virou a cabeça ligeiramente, os olhos traçando as linhas do pilar como se ele pudesse piscar primeiro.
"Assim, posso tirar duas conclusões. Primeiro — você não está no comando. E segundo — você está esperando para ver qual erro eu vou cometer."
A presença de Noir se aproximou mais, protetora. 'Cuidado,' ela avisou. 'Ela está reagindo. Não se move — ajusta.'
"Já suspeitava," respondeu Noel suavemente.
Ele deu mais um passo adiante, mais fundo na planície, em direção ao centro invisível de atenção.
"E aí está o problema dessa estratégia," continuou, voz baixa mas firme. "Já estou além do ponto em que hesitar faz alguma diferença. Se você está aqui para testar se faço ou não parte disso — se posso ou não me mover por este lugar — então escolheu o dia errado."
Ele expirou lentamente, se firme, com os olhos se tornando duros.
"Porque não vou voltar atrás," disse Noel. "Nem por você. Nem por esta ilha. E nem por qualquer coisa que finja que tem direito de decidir quem se move e quem não se move."
Noel passou a última elevação de pedra quebrada e, finalmente, viu.
O terreno se abriu numa bacia rasa, com o chão inclinando-se para dentro como uma tigela talhada com intenção, e não por erosão. No centro, havia uma edificação que de qualquer outro ponto da ilha não era visível — não porque estivesse escondida, mas porque a própria terra desviava a linha de visão, angulando a vista de modo a só se alinhar se você estivesse exatamente onde Noel agora estava.
Uma torre.
Não alta como fortalezas, mas estreita e vertical, erguendo-se como um dedo apontando para o céu. Sua superfície era de pedra pálida, cheia de veios escuros que pulsavam suavemente, como um batimento sentir através do mármore. Lembrou Noel de um farol — não para navios, mas para algo completamente diferente.
A sombra de Noir parou ao seus pés.
'Lá,' ela disse em voz baixa. 'É isso que tem estado nos observando.'
Noel assentiu uma vez e começou a descer a encosta.
Cada passo pesava mais do que o anterior — não por força, mas por percepção. O ar engrossava, não hostil, mas atento, como uma sala que muda quando alguém importante para de fingir que não está ouvindo.
A entrada estava aberta.
Sem portas. Sem barreiras. Apenas uma abertura circular limpa na pedra.
"Claro," murmurou Noel. "Seria suspeito se estivesse trancada."
Dentro, a torre era oca.
A luz penetrava de uma abertura estreita lá em cima, banhando o interior com um brilho prateado, pouco intenso. Correntes percorriam as paredes como veias, convergindo para o centro da sala.
E lá — sentado no coração de tudo — estava um homem.
Velho. Muito mais velho do que sua aparência sugeriria manter-se íntegra. Os cabelos finos e brancos, a pele puxada tensa sobre traços marcantes, olhos semi-cerrados e fixos em alguma coisa distante. Correntes pesadas o amarravam a uma cadeira de pedra, envoltas nos braços, no peito e nas pernas, afundando-se no chão como se a própria torre se recusasse a soltá-lo.
Noel parou a alguns passos de distância.
Por um momento, o homem não reagiu.
"Então," disse Noel, quebrando o silêncio. Sua voz soou suave, abafada pela pedra. "Você é quem tem me observado desde que cheguei nesta ilha?"
Nada.
Os lábios do homem se abriram levemente. Sua garganta funcionou, seca e tensa.
"…Água," ele conseguiu balbuciar.
A palavra mal saiu ao ar.
Noel hesitou.
Todos os instintos que tinha treinado por meses gritavam cautela. Figuras acorrentadas em locais estranhos raramente aparecem sem complicações. Armadilhas nem sempre se ativam por agressividade — às vezes, dependem de simpatia.
A primeira a se mover foi Noir.
Ela se aproximou, a sombra se estendendo em direção ao homem, sentidos ardendo enquanto a circundava uma vez. Sua presença tocou as correntes, a pedra, o pulsar fraco na torre.
'Ele não está mentindo,' ela afirmou com certeza. 'Sem malícia. Sem engano. Ele… está esvaziado. Extenuado.'
Noel exalou lentamente.
"Certo," murmurou. "Certo."
Ele mergulhou a mão em sua bolsa dimensional e retirou uma simples garrafinha de vidro, que se movia suavemente com água fresca. Ajoelhando-se, levou-a aos lábios do homem, cuidadoso para não balançar as correntes.
As mãos do velho tremiam o máximo que podiam dentro das restrições.
Ele bebeu como alguém que se lembra de como fazer isso.
O velho tossiu violentamente, o corpo se sacudindo contra as correntes enquanto a água descia rápido demais. Noel puxou a garrafa de volta imediatamente, apoiando-o com uma mão no ombro até a tosse passar. Respirava arfando, cada suspiro parecendo riscar o ar na saída.
"…Obrigado," o homem conseguiu engolir ao final, a voz áspera mas sincera. Deixou a cabeça cair de volta na pedra, as pálpebras tremendo. "De verdade. Quase tinha esquecido como é beber sem contar cada gole."
Noel observou-o atentamente. "Você está bem?"
O velho soltou uma risada seca, sem humor, que se transformou em outra tosse. "Já estive melhor," disse, olhando para baixo, tanto quanto as correntes permitiam. "Como dá para ver, estou preso nesta cadeira como um enfeite que ninguém lembra de limpar."
A mandíbula de Noel se apertou. Olhou de perto para as correntes — metal escuro, espesso, fundido na estrutura, com um leve zumbido de uma energia antiga e obstinada. Não decorativo. Funcional.
"O que aconteceu aqui?" perguntou Noel.
O velho ficou em silêncio por um longo momento. Quando falou novamente, a fadiga na voz se aprofundou, quase como uma tristeza. "Fomos atacados. Não por exércitos. Não inicialmente. Os Ilhas do Norte foram… tomadas. Uma a uma. Controladas." Seus olhos se elevaram, nublados mas agudos. "Tem uma mulher por trás disso. A que agora rege o centro."
Noel assimilou as peças na cabeça. "Estão usando a população," falou lentamente. "Para gerar energia."
Os lábios do velho se contorceram. "Fragmentos," confirmou. "Sim. Eles levam, desmontam, refinam. Pessoas, rotas, trabalho — tudo vira combustível para ela."
"Sabia," murmurou Noel. Olhou novamente no olhar do homem. "Posso libertá-lo?"
O velho hesitou, depois balançou a cabeça suavemente. "Não sei. Faz tanto tempo que estou assim. Um ano, talvez mais. Tempo suficiente para fazer a gente perder a noção de que o tempo existe de verdade."
Noel franziu o cenho. "Como sobreviveu?"
Um sorriso melancólico surgiu no rosto do homem. "Eles trazem comida uma vez por mês. O suficiente. E quando chove…" Olhou para o teto fraturado do farol. "Bebo o que consegue passar pelas rachaduras."
"E quando eles voltam?" perguntou Noel.
"Em três semanas," respondeu o homem. "Estiveram aqui há uma semana."
Noel endireitou-se.
"Certo," disse com calma. "Não entre em pânico."
Ele puxou Revenant Fang, a lâmina deslizando com um som familiar baixo. Sombras e relâmpagos mexeram-se na borda enquanto respirava fundo.
Então, em voz baixa e clara, afirmou:
"Reclamar recompensa."