
Capítulo 484
O Extra é um Gênio!?
Por um momento, ninguém falou. A rua destruída ao redor deles permanecia silenciosa, o pó se depositando onde seus passos haviam parado. Elyra foi a primeira a quebrar o silêncio.
Ela virou um pouco o corpo, os olhos mirando Noir com uma expressão calma, mas curiosa. "Noir," ela perguntou, "o que exatamente você sentiu?"
Noir não respondeu em voz alta.
Sua voz entrou na mente deles, firme e concentrada.
'Há um odor,' ela disse. 'Forte. Antinatural. Não pertence a nenhum monstro que enfrentamos até agora.'
Elena franziu levemente a testa, abraçando um pouco mais os braços enquanto ouvia.
'Ele persiste,' Noir continuou. 'Como algo que esteve aqui por muito tempo. Não parece hostil por si só… mas parece importante. Como um rastro deixado de propósito ou por descuido.'
Noel assentiu lentamente, embora não pudesse vê-lo.
"Isso bate com o que eu estava pensando," ele disse. "Se há uma chance sequer de estar ligado ao que está acontecendo aqui, eu não quero ignorar."
Ele olhou para o norte por um breve momento, depois voltou para as ruas mais escuras à frente. "Reunir o grupo ainda é prioridade. Mas passar por uma pista potencial assim sem verificar seria um descuido."
Ele colocou a mão na bolsa dimensional e tirou o dispositivo que Theo lhe dera anteriormente. As linhas suaves ao longo da superfície dele brilhavam suavemente enquanto o ativava.
"Theo," Noel falou com firmeza. "Você pode verificar os outros para mim? Preciso saber se alguém está em perigo imediato."
O dispositivo silenciou.
Segundos se passaram.
O grupo esperou silenciosamente. Elyra observava ao redor automaticamente, Elena se manteve perto de Noel, e Laziel ajustou a pegada na vara, nervoso ainda não totalmente acalmado pelas lutas anteriores.
Finalmente, o dispositivo começou a emitir um zumbido novamente.
"Estou verificando agora," a voz de Theo veio do outro lado, distante, mas clara. "Ilha por ilha."
Outro intervalo se seguiu, maior desta vez.
Por fim, Theo falou novamente. "Não vejo nada fora do normal. Nenhum sinal de perigo iminente. Se alguma coisa mudar, aviso imediatamente. Por enquanto… podem ficar tranquilos."
Noel respirou aliviado. "Certo. Obrigado, Theo."
Ele desativou o dispositivo e voltou a olhar para os demais.
"Vocês ouviram," ele disse. "Temos um pouco de espaço para respirar."
Elyra deu uma leve cabeça, já aceitando a mudança de prioridades. Elena relaxou uma fração, embora a inquietação ainda não tivesse desaparecido completamente. Laziel não discutiu, o que por si só dizia bastante.
Sua atenção voltou para Noir mais uma vez.
"Mostre o caminho," ele ordenou.
Noir avançou, com o focinho baixo, as orelhas alertas, seguindo a trilha invisível que só ela conseguia perceber.
Noir continuou andando, firme e precisa, com o focinho próximo ao chão como se o cheiro tivesse se transformado em uma linha que só ela podia ler. Os outros a seguiam em fila dispersa, passos silenciosos contra a pedra rachada.
Esta parte da ilha parecia diferente.
Nenhum monstro saía de becos. Nenhuma corrente se arrastava no escuro. Nenhum grito distante de feitiços sendo conjurados ecoava entre os prédios. Apenas ruas destruídas, janelas quebradas e aquele silêncio que fazia até a própria respiração parecer alta demais.
Elena se aproximou um pouco mais do que o usual, com os ombros levemente encolhidos. Depois de alguns minutos, finalmente falou:
"Não gosto disso," ela revelou baixinho. "Esse lugar me dá… calafrios. Me lembra as ruas mais sombrias de Valon."
Noel olhou para ela e depois para o horizonte.
"É, entendo," disse. "A vibe é parecida." Sua atenção percorreu os cantos vazios, as passagens estreitas entre os prédios. "Não é seguro, não porque algo esteja garantido a acontecer, mas porque ninguém está de olho. Nenhum olhar. Nenhum testemunha. Se der ruim, vai acontecer na surdina."
Laziel fez um som que parecia um arrependimento por ter ouvidos.
"Podem parar de falar coisas assim?" ele reclamou. "Querem que algo realmente aconteça? Porque é assim que começa. Você fala de rua esquisita, compara com lugares onde coisas ruins acontecem, e aí—bum—surge alguma coisa."
Elyra nem sequer olhou para trás.
"Não há monstros por perto," ela disse com calma. "Se houvesse, já teriam se jogado em nós como os outros. É assim que essas criaturas se comportam."
Laziel franziu o cenho. "A menos que estejam esperando."
A postura de Elyra permaneceu plana. "Se estiverem esperando, deixaremos o Noel cuidar disso."
Noel não conseguiu segurar uma risada curta.
Seu comentário não estava errado.
Ele olhou para o chão por um instante, não exatamente para o chão, mas para o caminho invisível ao qual sua mente sempre retornava agora—a subida constante, implacável. Cada criatura abatida. Cada fração. Cada um aproximando-o do próximo Núcleo.
Não importava se era 0,01% ou 0,02%. Tudo se acumulava. Sempre se acumulava.
E com o Segundo Pilar ainda lá fora… com o Primeiro Pilar ainda vivo…
Ficar mais forte não era opcional. Era a única escolha responsável.
"Vamos ficar bem," disse em voz alta, principalmente para Laziel. "Mas tenta não manifestar o pior cenário."
Laziel fez uma careta. "Não estou manifestando nada. Só estou dizendo que não gosto disso."
Noir diminuiu ligeiramente a velocidade, as orelhas se mexendo ao inclinar para uma rua mais estreita.
Sua voz entrou na mente de todos novamente.
'Estamos chegando mais perto,' ela afirmou. 'O cheiro está mais forte aqui.'
O olhar de Noel se aguçou.
"Ok," ele murmurou. "Fiquem atentos."
Noir foi praticamente parando, corpo tenso, músculos enrijecidos sob sua pelagem, orelhas levemente achatadas. A rua à frente parecia igual às demais, pedra colapsada, portas quebradas, sombras acumulando onde o sol não chegava, mas algo no ar tinha mudado.
Sua voz voltou a entrar na mente dos outros.
'Está mais forte agora,' ela disse. 'Estamos bem próximos da origem.'
Noel sentiu uma pressão familiar apertar no peito.
'Às vezes,' pensou, 'você realmente é uma espécie de código trapaça.'
Ele já tinha perdido a conta de quantas vezes os sentidos de Noir os tinham levado direto à verdade. Inimigos escondidos. Armadilhas. Mentiras que não podiam ser vistas, mas podiam ser cheiradas. Mais de uma vez, sua intuição transformou uma situação ruim em uma sobrevivência possível—ou uma causa perdida em uma vitória definitiva.
Por tudo que se lembrava, o olfato dela nunca tinha errado.
…Quase nunca.
"Sabe," Noel refletiu com ela, "acho que você só errou uma vez."
A cabeça de Noir inclinado um pouco enquanto continuava a avançar.
"Hã?" ela perguntou. "Não me lembro de ter errado nenhuma vez. Você tem certeza?" Houve um leve tom de confusão genuína em sua voz mental. "Quando isso aconteceu? Relembre-me."
Os passos dele ficaram mais lentos.
"No navio," respondeu. "Quando o Roberto tentou te fazer carinho. Quase te mordeu."
Noir não respondeu imediatamente.
Depois—
"Disse que não gosto do cheiro dele," ela afirmou com firmeza. "Já tinha falado isso na época."
"Sim," Noel concordou, "mas nunca entendi por quê."
Dessa vez, Noir hesitou.
"Porque é estranho," ela admitiu. "É parecido com o cheiro do Círculo. Não igual—mas próximo. Bem mais suave. Como se tivesse sido diluído… ou misturado com outra coisa."
Noel parou de andar completamente.
As palavras ficaram na sua cabeça, encaixando-se uma a uma.
Semelhante ao Círculo.
Mas não idêntico.
Misturado.
Seu olhar se ergueu lentamente, as sombras se aprofundando ao redor de seus pés sem que ele percebesse.
'Então…' pensou, a realização surgindo antes que pudesse controlá-la.
Depois falou em voz baixa, com tono sombrio.
"Quer dizer… Roberto é do Círculo?"
A rua permaneceu silenciosa.
E a pergunta pairou no ar, sem resposta.