
Capítulo 485
O Extra é um Gênio!?
Noir não respondeu em voz alta.
Seus passos nunca vacilaram, patas suavemente sobre pedras rachadas enquanto seguia o cheiro, mas sua voz chegou até Noel, mais baixa do que antes.
'Não, pai', ela disse. 'Não é isso que estou dizendo.'
Noel continuou caminhando.
Ele não diminuiu o ritmo, não parou, nem virou a cabeça. Do lado de fora, nada mudou. Permaneceu a um passo atrás de Noir, com as mãos relaxadas ao lado do corpo, o olhar fixo à frente, exatamente como tinha estado momentos antes.
'O cheiro dele é simplesmente… too similar,' Noir continuou. 'Quase igual, o que me incomoda. Por isso nunca deixei ele me tocar. Nunca pareceu certo.'
Pausa.
'E eu não te contei,' ela acrescentou, com as palavras carregadas de uma leveza que parecia pesar na fala, 'porque sei o quanto sua amizade com Roberto é importante. Não queria colocar dúvidas onde não havia necessidade.'
Noel ficou em silêncio.
À frente deles, a rua se estreitava, os edifícios se comprimir cada vez mais perto. Atrás, ele podia sentir olhares.
Elyra percebeu.
Ela sempre percebia.
Elena também notou, de maneira mais sutil, seu olhar permanecendo um instante maior em Noel do que o usual. Eles não ouviam a conversa, não sabiam as palavras trocadas, mas o conheciam. Sabiam quando seus pensamentos se voltavam para dentro, quando algo mudava sob a superfície.
Nenhum deles perguntou.
Eles confiaram nele o suficiente para esperar.
Já Laziel, por outro lado, ainda se equilibrava à beira de uma descarga de adrenalina e espanto, murmurecendo para si mesmo enquanto escaneava telhados e cantos, demasiado abalado pelos combates anteriores para perceber algo tão silencioso quanto uma troca mental.
A quietude de Noel se prolongou.
'Você tem certeza de que não está insinuando outra coisa?' ele perguntou a Noir, com cuidado, mentalmente. 'Sabe o quanto isso é sério.'
A memória surgiu sem convite.
A voz de Noctis. Calma. Irredutível.
Não confie cegamente. Nem mesmo naqueles que são próximos.
Elyra tinha estado lá. Elena. Selene. Charlotte. Noir mesma.
E ele.
'Lembra o que Noctis nos disse,' Noel continuou. 'Você sabe que precisamos ser cautelosos. Se algo parecer errado, preciso saber. Você devia ter me contado.'
As orelhas de Noir caíram levemente enquanto ela caminhava, sua postura mudando de forma sutil, perceptível para quem estivesse atento.
Culpa.
'Eu não queria te magoar,' ela respondeu. 'É só isso.'
Noel respirou fundo lentamente.
Ele não respondeu imediatamente.
Continuou acompanhando o ritmo dela, deixando o silêncio se alongar entre eles enquanto as ruas se fechavam e o cheiro ficava mais intenso.
Noir seguia andando, mas a mudança era sutil e inconfundível.
Seu ritmo diminuiu ligeiramente. Sua cabeça abaixou, as orelhas não mais alertas, agora inclinadas para trás, como se o peso da conversa estivesse pressionando fisicamente contra ela. A linha de confiança que ela seguira momentos antes suavizou, sua linguagem corporal virou-se inward.
Elyra percebeu imediatamente.
Ela parou, tremulando as botas levemente sobre as pedras enquanto se virava para Noel, com os olhos agudos e protetores ao mesmo tempo.
"Noel," ela disse, com a voz calma, porém mais firme, "o que você fez com a Noir?"
A pergunta foi mais pesada do que parecia.
Por um instante, Noel ficou visivelmente surpreso.
Depois, algo inesperado se estabeleceu no peito dele — calor.
Era absurdamente familiar.
Como um pai sendo chamado pela mãe porque, sem perceber, deixou a criança triste. Protetor, instintivo, imediato. Elyra não estava brava por ele em si — ela estava defendendo Noir.
E, estranhamente… Noel não gostou disso.
Se fosse o caso, isso o tranquilizou. Não porque estivesse sendo repreendido, mas porque significava que Noir não estava sozinho naquele momento, e porque Elyra tinha percebido antes dele.
"...Desculpe," ele disse, esfregando a nuca. "É importante. Eu explico depois."
Elyra o estudou por mais um instante, então assentiu uma vez. Ela não pressionou. A confiança caminhava nos dois sentidos.
Noel voltou sua atenção para dentro de si.
'Noir,' ele disse suavemente, 'me desculpe se soei duro. Não quis repreender você.'
Ela não respondeu imediatamente.
'Só preciso que me diga essas coisas,' ele continuou. 'Mesmo que sejam desconfortáveis. Ainda mais quando forem.'
Noir hesitou.
'Você acreditaria em mim?' ela perguntou baixinho. 'Você se importa muito com o Roberto. Eu sei disso.'
Os pensamentos de Noel desaceleraram.
'Você realmente acha que o Roberto pode fazer parte da Ordem?' ele perguntou. 'Vimos os Pilares. A Segunda é uma mulher. A Primeira… ele foi instável. Violento, mentalmente doente. Você realmente acha que o Roberto poderia ser alguém assim? Alguém que deixaria Nicolas à beira da morte, com o núcleo dele destruído, a meses de morrer?'
Noir ficou em silêncio.
Depois, perguntou algo que cortou mais fundo ainda.
'O que você realmente sabe sobre o Roberto, pai?'
Noel franziu ligeiramente a testa.
'Não só desta vida,' Noir insistiu. 'Do romance. Você se lembra de alguma coisa sobre ele?'
A resposta veio fácil demais.
Não.
Roberto nunca apareceu.
E isso… era estranho.
Ele está na Classe S agora. Forte. Hábil. O tipo de aliado que Marcus — ou qualquer um dos outros — deveria conhecer. Depender. Ainda assim, de alguma forma, Roberto escorregou pelas brechas da narrativa que Noel se lembrava.
'Isso te incomoda?' Noir perguntou suavemente.
Sim, incomodava.
Noel revisitou as conversas na cabeça. As histórias de Roberto sobre sua família. Como os detalhes nunca batiam exatamente. Como ele tinha acabado na Classe S quase por acaso. Sempre havia lacunas. Coisas omitidas.
Ele queria acreditar que havia uma razão inocente. Distância. Vergonha. Uma família de que não queria falar.
Ele queria acreditar nisso.
Mas a dúvida não precisava de provas para existir.
Ela só precisava de espaço.
E agora, tinha.
Noir parou de repente, a ponto de todos atrás dela também pararem.
Seu corpo ficou rígido, as orelhas se virando para frente enquanto ela ergueu a cabeça. O rastro invisível que vinha seguindo acabou ali.
'É aqui,' sua voz ecoou na mente deles. 'Chegamos.'
Os pensamentos de Noel sobre Roberto foram interrompidos, forçados a um lado pela mudança no ar. Quaisquer dúvidas que tivessem surgido permaneciam com ele, silenciosas e sem resolução, mas não havia espaço para se aprofundar nelas agora.
Ele ergueu o rosto.
A primeira impressão foi de uma casa simples.
Dois andares. Paredes de pedra desgastadas pelo tempo. Uma estrutura que talvez já tivesse pertencido a uma família, a um comerciante, a alguém que viveu uma vida comum antes que a ilha ficasse silenciosa.
Então ele viu as correntes.
Elas não estavam apenas enroladas ao redor dela.
Elas faziam parte da estrutura.
Elos de metal espesso atravessavam a pedra, embutidos profundamente nas paredes, estendendo-se de um lado ao outro. Algumas desapareciam no solo. Outras subiam, sumindo no telhado. O metal era escuro, manchado, pulsando levemente com a mesma mana opressiva que tinham sentido por toda a ilha.
A influência da Ordem era inconfundível.
O respiração de Elena deslizou suavemente ao lado dele. Laziel engoliu em seco, apertando com força seu cajado. Mesmo Elyra, que tinha a expressão rígida, seus olhos traçando as linhas anormais na construção.
Noel deu um passo à frente.
A dúvida que carregava não desapareceu. Ela apenas se transformou, mudando de forma, aprofundando-se. Tudo o que estivesse acontecendo ali — tudo o que tinha acontecido com este lugar — refletia aquela corrupção. Sutil. Invasiva. Envolvendo até que não houvesse mais uma linha clara entre o que era próprio e o que não era.
Ele não tinha tempo para pensar em Roberto agora.
Mas algo havia mudado.
Ele levantou ligeiramente a mão, as sombras respondendo sem comando.
"Vamos entrar," Noel disse.