
Capítulo 489
O Extra é um Gênio!?
Primeiro, as sombras se reuniram.
Derreteram-se pelo chão de areia e pedra quebrada, estendendo-se em direção a Noel como se fossem atraídas pela gravidade e não pela vontade. O ar esfriareu; a beira da praia escureceu enquanto a luz se curvava ao redor dele. Não foi de repente ou violento, parecia mais uma maré recuando antes de uma onda.
"Precisamos manter a conexão," disse Noel calmamente. "É assim que funciona."
Ele estendeu uma mão na direção de Elyra e outra em direção de Elena. Elyra pegou sua mão sem hesitar, com firmeza e segurança. Elena veio um instante depois, encaixando os dedos firmemente ao redor dele, como se estivesse se ancorando a algo sólido.
Laziel olhou para os três, depois franziu a testa. "E eu?"
"Segure no meu ombro," respondeu Noel.
Laziel fez exatamente isso, com a mão apoiada de forma desajeitada no casaco de Noel. Hesitou por um momento, então se inclinou mais perto. "Seja honesto. Você já tentou algo assim antes?"
"Não," respondeu Noel. "E estou esperando que nada dê errado."
O silêncio que se seguiu foi pesado.
"…Isso não é lá muito reconfortante," murmurou Laziel. "Qual você acha que é a pior coisa que pode acontecer?"
Noel inclinou levemente a cabeça, realmente pensando na questão. "Pior cenário? A gente para na metade. Mas isso não deve acontecer. Preciso de uma sombra para me ancorar, e o mar não tem sombras exatamente. A não ser que…" Ele fez uma pausa. "Peixes lançam sombras, certo? Se a sombra se agarrar a um deles, podemos acabar debaixo d'água."
Laziel ficou rígido. "Debaixo d'água?" repetiu. "Dependendo da profundidade, não sobreviveríamos. Então, sim, espero sinceramente que isso não aconteça."
Elena olhou para ele de relance. "Você devia confiar mais no Noel."
"Confio," respondeu Laziel rapidamente. "Mas isso não me impede de ficar assustado com a possibilidade de sumir e reaparecer em outro lugar. Sabe aquela sensação de dar um passo errado na escada e o coração cair? É isso, só que pior."
Ele continuou falando, as palavras escapando mais rápido enquanto as sombras se espessavam ao redor de seus pés.
Noel suspirou.
"Salto pela Sombra."
O mundo se dobrou sobre si mesmo.
A linha da praia desapareceu, engolida pela escuridão que se moveu sem direção ou peso. Por um único instante, só houve movimento, como se fosse puxado pela ideia de um lugar, e não o lugar em si. Noir já estava lá, escondida na sombra de Noel, como sempre estava, movendo-se com ele tão naturalmente quanto o ar.
Então, a escuridão os soltou.
A praia sumiu.
Um chão sólido reapareceu do nada.
Eles emergiram sob a sombra ampla de uma árvore, cujo tronco era áspero sob as mãos e cujas folhas sussurravam suavemente acima, ao vento. O ar aqui parecia diferente, mais frio, carregando o cheiro de sal e de terra desconhecida. A ponte não foi curta. Três quilômetros não é pouca coisa, mesmo que seja menos que a distância até a ilha do farol. E desta vez, Noel não tinha estado sozinho.
Ele soltou uma respiração lenta, o cansaço se acomodando nos músculos um instante depois. Carregar outras pessoas pelas sombras exigiu muito mais mana do que se mover sozinho. Núcleos fortes resistem a serem puxados pelo espaço, mesmo confiando na mão que os guia.
Por um momento, ninguém falou.
Ficaram ali, sob a árvore, verificando o equilíbrio, o entorno, entre si.
Então, Elena arregalou os olhos.
"Funcionou," disse ela, um sorriso surgindo no rosto antes mesmo que pudesse controlling. "Realmente funcionou."
Elyra respirou fundo, os dedos se flexionando ao lado, como se se ancorasse. "Impressionante," falou ela, a sinceridade clara na voz. "Não esperava que fosse assim. Ainda estou arrepiada."
Laziel fez um som pequeno, sufocado.
Ele caiu de joelhos.
"Por favor," gemeu, apoiando uma mão no chão. "Me deixa repousar um minuto."
Elyra virou-se imediatamente, com a expressão fechada. "Isso é desagradável."
Noel se agachou ao lado de Laziel e deu algumas palmadas firmes nas costas dele. "Viu? Não é tão ruim assim."
Laziel limpou a boca com o punho da manga e lançou um olhar de reprovação. "Não sei como você faz isso. Já te vi piscar pra dentro e pra fora da existência como se fosse nada."
Noel se endireitou, deu uma leve Encolhida de ombros. "Você se acostuma. No começo é estranho." Ele fez uma pausa, olhando ao redor da ilha desconhecida. "Depois fica meio inacreditável. Pense como os feitiços de teletransporte do Nicolas."
Noel deixou o momento se estabelecer por um instante suficiente para que todos se estabilizassem.
Depois, endireitou-se, a expressão ficando séria novamente, com o foco fixo ali. A sensação de alívio pelo sucesso já tinha passado. Eles não vieram aqui pra testar limites ou celebrar pequenas vitórias.
"Certo," disse ele. "Já chega."
Elyra virou-se para ele imediatamente, percebendo a mudança sem precisar de explicação. Elena o seguiu um segundo depois, sua animação anterior suavizando-se pela mudança de tom. Até Laziel se colocou de pé de novo, limpando a manga e forçando a respiração a se acalmar.
"Hora de partir," continuou Noel. "Nosso próximo objetivo é a Selene. A Clara deve estar com ela."
Ele enfiou a mão na pasta e puxou o dispositivo, ativando-o com um movimento treinado. "Theo," falou, a voz clara. "Você consegue vê-las? Pode nos guiar?"
Houve uma breve pausa. Um ruído de estática sussurrando ao longe, como se Theo ajustasse o foco, escaneando além das distâncias que não conseguimos enxergar.
"Sim," respondeu finalmente. "Consigo vê-las."
Noel não relaxou. "E?"
Outra pausa, mais curta desta vez.
"Elas não estão sozinhas," disse Theo. "Tem outras pessoas com elas. Pessoas da ilha."
A expressão de Elena se fechou. "Moradores?"
"Sim," confirmou Theo. "Estão perto. Chegando a um ponto que as coisas podem mudar rapidinho."
As palavras pesaram sobre o grupo, drenando o pouco de calma que ainda havia no ar.
Não era mais só uma questão de se reagrupar.
Noel abaixou devagar o dispositivo. "Certo," disse, já direcionando o olhar para o interior da ilha. "Então, não vamos perder tempo."
As sombras aos seus pés se esticaram sutilmente, reagindo à intenção dele antes mesmo da movimentação. Elyra caminhou ao lado dele sem dizer uma palavra, postura firme, olhos aguçados. Elena veio logo atrás, sua apreensão anterior substituída por concentração silenciosa, mana já se movendo sob a pele. Laziel ajustou a pegada na bengala e suspirou. "Claro que nunca pode ser simples."
À frente deles, a ilha se ergue com terreno irregular e trilhas quebradas, desconhecida e vigilante.