O Extra é um Gênio!?

Capítulo 469

O Extra é um Gênio!?

Passaram-se vários dias sem incidentes.

Isso por si só já parecia errado.

O mar permanecia calmo, mas não de uma forma reconfortante, como os marinheiros costumavam rezar. Ele simplesmente existia — liso, cinza e observador. Ondas rolavam sob o navio com uma regularidade mecânica, como se a água tivesse se estabelecido em um padrão e se recusasse a desviar dele.

A tripulação se ajustou a essa condição.

Os turnos ficaram mais longos. O sono veio em fragmentos superficiais, interrompidos pelo instinto mais do que pelo som. Ninguém reclamava abertamente, mas as conversas mudaram. Menos piadas. Menos olhares por cima da borda. Quando os marinheiros falavam do mar agora, faziam-no de forma indireta, como se nomeá-lo claramente pudesse atrair sua atenção de volta.

Noel também sentiu a mudança.

Ele permanecia sozinho perto da proa, com o capucho puxado contra o vento frio, os olhos fixos na imensidão à sua frente. Noir permanecia próxima, sua sombra se espalhando aos seus pés mesmo quando ela não estava completamente visível. Ela não se afastava há dias. Nem ele.

Não havia combate para se concentrar. Nenhuma ameaça imediata a responder. Apenas o tempo — lento, implacável, inexorável.

Noel fechou os olhos por um momento, verificando-se da mesma forma que aprendera a fazer quando a adrenalina não estava ali para anular tudo o que acontecia ao seu redor. Seu corpo estava bem. Sem ferimentos persistentes. O fluxo de mana estava estável, embora mais pesado do que o normal. Sua mente, porém... alerta de uma forma que nunca se desligava completamente.

Demasiados dias ouvindo o mar respirar.

Ele abriu os olhos e falou suavemente, quase um suspiro:

"Status."

O sistema respondeu sem cerimônia.

[Status da Missão]

[Tempo Restante: 102 dias.]

Noel expirou lentamente.

"Perdemos mais tempo chegando aqui do que eu esperava," pensou, com o olhar fixo no horizonte escuro. A viagem, por si só, tinha cobrado seu preço — desvios, precaução, sobrevivência. Necessários, mas caros de qualquer forma.

Outra linha apareceu na tela.

[Progresso Atual do Núcleo: 90,44% — Núcleo de Mana: Ascendente]

O número permanecia ali, duro e inegável.

Noel não sentia orgulho ao olhá-lo. Apenas peso.

Cada porcentagem conquistada significava inimigos que batiam mais forte, pressões que penetravam mais fundo, situações em que erro não era mais permitido. Crescimento, sim — mas nunca de forma gratuita.

Ao seu lado, Noir se moveu levemente, com as orelhas inclinadas na direção do horizonte, como se também sentisse.

'Você cresce mais rápido quando as coisas tentam te matar,' ela comentou calmamente.

Noel fungou de leve. "Isso não é incentivo."

'É observação.'

Ele não contestou.

Por um tempo, permaneceram em silêncio novamente. O navio cortava as águas que refletiam pouco claramente, a luz das lanternas se estendendo e se quebrando a cada lenta ondulação.

Então Noel percebeu.

Primeiro, parecia uma ilusão de neblina — uma interrupção tênue onde o mar deveria estar sem obstáculos. Uma sombra que não se moveu com as ondas.

Ele encheu os olhos, focando com atenção.

Ela permaneceu.

Baixa, distante, indistinta.

Porém, inconfundível.

Terra.

A luz nunca quebrou totalmente.

A manhã chegou em camadas de cinza, o sol uma mancha pálida atrás de nuvens e névoa, enquanto o navio continuava a norte. O mar tinha perdido sua calmaria vidrada, substituída por ondas lentas e deliberadas que rolavam sob o casco com um movimento silencioso e decidido.

Noel saiu para o convés justo quando o vigia abaixou seu binóculo.

"Lá," disse alguém suavemente.

Ninguém se apressou.

À frente deles, o horizonte havia mudado.

O que antes era uma única interrupção distante na noite anterior agora tinha se transformado em formas — muitas formas, na verdade. Os Arquipélagos do Norte não surgiam como uma única massa, mas como um espalhamento de silhuetas dispersas na água. Algumas eram altas e irregulares, seus picos rasgando as baixas nuvens. Outras estavam mais achatadas, mais escuras, quase engolidas pela névoa. A neblina grudava em várias como um ser vivo, enquanto manchas de luz quebrada revelavam toques de verde, pedra ou algo intermediário.

Mesmo de longe, não pareciam iguais.

Alturas diferentes. Contornos distintos. Atmosferas variadas.

Regras diferentes.

O convés foi se enchendo silenciosamente à medida que os outros surgiam, puxados mais pelo instinto do que por anúncio. Marcus encostava-se na ré, franzindo os olhos como se esperasse que as ilhas piscassem primeiro. Garron ficava com os braços cruzados, peso plantado firmemente, os olhos nunca deixando a água entre eles e terra. Laziel pairava próximo ao mastro, incomumente silencioso.

Selene demorou a falar.

Seu olhar passava de uma silhueta a outra, sem permanecer nem reagir, apenas catalogando. Noel percebeu o leve tensionar da mandíbula dela.

"Não são aleatórias," ela disse finalmente. "O espaçamento. Como a neblina se acomoda. Aquele grupo a leste — isso não é deriva natural."

Elyra permaneceu calada, mas Noel sentia seu mana se espalhar no ar, cuidadosamente, como fios resistentes; já testava o ambiente, já mediava o que as ilhas ainda não diziam.

Noel ia falar quando o mundo tremeu.

Uma presença familiar emergiu em sua consciência — precisa, clínica, sem convite no momento errado.

[NovaMeta Detectada]

Sobreviver e derrotar a ameaça máxima local.

Recompensa: ???

Noel parou de respirar por meia fração de segundo.

Não por medo.

Simplesmente por timing.

O sistema sempre escondia recompensas. Isso não era novidade. Fazia isso desde o começo.

O que era incomum era isto.

Uma nova meta surgindo agora.

Exatamente quando a terra aparecia no horizonte.

Exatamente quando a primeira fase verdadeira da jornada deveria ter acabado.

Noir reagiu imediatamente, a sombra se ajustando sutilmente ao redor de suas botas.

'Isso não estava aqui há um momento.'

"Eu sei," respondeu Noel suavemente.

Seu olhar nunca abandonou as ilhas.

O timing o incomodava — não porque a missão fosse perigosa, mas porque o sistema raramente interrompia transições. Costumava esperar até que se cruzasse uma linha.

E eles ainda não tinham cruzado.

'Então não são as ilhas,' disse Noir após um instante. 'É o que vem antes delas.'

Isso encaixava também demais.

As criaturas em águas abertas.

O teste.

A retirada, ao invés da aniquilação.

Noel exalou lentamente enquanto o mar abaixo deles mudava novamente — não de forma violenta, nem agressiva, mas com uma tensão sutil, correntes se estreitando como músculos prontos para mover-se.

"Eles não estão deixando a gente pousar sem problemas," murmurou.

As orelhas de Noir se mexeram uma vez. 'Parece que foi meu pai...'

Assim que Noel virou-se do corrimão e começou a andar com propósito, as pessoas que importavam perceberam. Não era autoridade pelo volume — era autoridade pela direção. Ele atravessou o convés em direção a Elyra primeiro, Noir a acompanhando como uma sombra viva, com as orelhas alertas para o mar mesmo enquanto seus olhos o seguiam.

"Elyra," disse Noel suavemente. "Vamos ser atacados de novo."

Ela não questionou como ele sabia.

Ao invés disso, fechou o sigilo que mantinha e endireitou-se completamente, a expressão ficando aguçada, como se estivesse esperando a permissão para agir. "Timing?"

"Em breve," respondeu Noel. "Antes de chegarmos à costa."

Isso foi suficiente.

Elyra imediatamente virou-se, a mana já fluindo enquanto expandia sua rede de sigilos pelo convés. As linhas tênues gravadas no casco se iluminaram, espalhando-se em formações de camadas — estabilização primeiro, depois reforço, depois contingência.

"Tripulação não essencial permanece no porão," ordenou com calma e precisão. "Pessoal de combate preparado para setores atribuídos. Pressupõe interferência mental."

A última parte fez a cabeça de todos virar.

Charlotte olhou de onde verificava uma bandagem, interpretando o rosto de Noel num instante. Ela não sorriu — pelo menos, não desta vez — mas assentiu uma vez e levantou as mãos, já acumulando luz em suas palmas.

"Estarei pronta," disse suavemente.

Noel hesitou por meia fração de segundo. "Não se force se não for necessário."

Ela olhou nos olhos dele. "Não vou," respondeu, gentilmente, mas com firmeza. "Você tem minha palavra."

Elena já avançava pela borda vindo à bombordo, raízes se desenrolando sob suas botas e afundando na estrutura do navio. Eles não rompiam as tábuas — entrelaçavam-se nelas, reforçando pontos de tensão, sustentando grades, espessando o casco onde mais importava.

"O navio vai aguentar," disse Elena sem se virar. "Mas só se não deixarmos que eles se multipliquem."

"Não vamos deixar," respondeu Noel.

Marcus juntou-se a eles perto do meio do convés, dando uma rodada de ombros enquanto faíscas azuis dançavam ao seu redor. "Então," perguntou, olhando para o mar, "o mesmo padrão de antes, ou pior?"

"Mais inteligente," respondeu Noel. "Sabem o que não funcionou."

Garron deu uma pancada nas mãos ao lado. "Ótimo," resmungou. "Achava que eles iriam ficar previsíveis."

Selene chegou por último, com o frio já se espalhando pelos antebraços enquanto observava o horizonte. "A pressão está errada," ela disse. "O mar está se preparando."

Noel assentiu. "O que significa que não devemos esperar pelo primeiro golpe."

Vireu-se, mantendo o volume suficiente para que a equipe ouvisse.

"Escutem," disse com firmeza. "Ainda não vamos pousar. O que quer que venha, quer nos cansar, dispersar ou apressar. Não vamos dar isso para eles. A formação permanece. Ordens do leme e minhas — sem exceções."

A tripulação se moveu rapidamente.

Quando Noel voltou ao corrimão, a água à frente escureceu.

Os passos de Gustave soaram no convés antes mesmo dele se virar.

O capitão apareceu ao seu lado, o casaco balançando ao sabor do vento forte, uma mão já repousando no leme, como se fosse a sua casa. Seus olhos varreram as águas turvas à frente, calmos e avaliadores — a expressão de um homem que julgava o clima, não monstros.

Sem rodeios, Noel falou.

"Capitão," disse numa voz baixa, mas clara. "Acha que consegue manter a gente em movimento — em segurança — até alcançarmos as ilhas, mesmo que isso vire uma luta de fuga?"

Gustave demorou a responder.

As águas à frente tremeram novamente, sutis, mas deliberadas. Correntes puxando em ângulos estranhos. Reflexos de lanternas se alongando demais, depois encurtando de repente. Água que mentia sobre suas intenções.

Então o velho marinheiro deu uma risadinha.

Um som áspero, quieto, mais divertido do que arrogante.

"Filho," disse finalmente, virando a cabeça na direção de Noel, "já naveguei em tempestades que tentaram me comer os pensamentos e águas que se lembraram do meu nome muito tempo depois de eu as deixar para trás." Sua mão apertou o leme com força, veias ressaltando sob a pele enrugada. "Se alguma coisa quiser nos perseguir até a terra, vai fazer isso pelos meus termos."

Noel o observou por um instante, depois assentiu uma vez.

"Ótimo," disse. "Porque não vamos deixar que ela dite o ritmo."

Sorriso de Gustave se intensificou. "Esse é o espírito."

Ele se virou completamente para o leme, a voz carregando sem elevar o tom.

"Leme firme. Velas ajustadas. Não desaceleramos, não deixamos o navio à deriva. O que vier, vem enquanto estivermos em movimento."

O navio respondeu como se tivesse entendido.

As cordas se tensionaram. O casco avançou, empurrando-se contra a água tensa, ao invés de esperar que ela empurrasse de volta. O gemido suave de madeira e metal aumentou.

Noel apoiou uma mão no corrimão, a Presa do Retornado Vibrando suavemente ao seu lado, com relâmpagos se formando logo abaixo da sua pele — paciente e preparado.

Ao redor, o ambiente mudou.

O mar à frente escureceu ainda mais, sua superfície formando círculos enquanto algo enorme se movia lá embaixo. Ao longe, as formas borradas dos Arquipélagos do Norte se destacavam através da névoa e sombras — ainda distantes, ainda inatingíveis.

Pelo menos por ora.

Os olhos de Noel se estreitaram.

"Certo," murmurou, mais para a água do que para alguém mais. "Sua jogada."

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