O Extra é um Gênio!?

Capítulo 470

O Extra é um Gênio!?

A mudança aconteceu silenciosamente.

Não com uma onda batendo forte na proa ou um grito do vigia, mas com resistência—sutil à princípio, como navegar contra uma ladeira invisível. O navio seguiu em frente, velas cheias, vento constante… e, mesmo assim, seu ritmo começou a desacelerar.

Noel sentiu isso através do convés antes que alguém dissesse uma palavra. A vibração leve sob seus botas se intensificou, não por esforço, mas por correção—constante, deliberada correção.

Gustave também percebeu.

Suas mãos mudaram de posição no leme, não de forma abrupta, mas com frequência. Pequenos ajustes. Viradas fracionadas. Aquele tipo de movimento só alguém que viveu no mar por décadas se daria ao trabalho de fazer.

"Essa corrente não deveria existir," murmurou o capitão.

Noel se virou levemente. "Qual delas?"

Gustave não desfez o olhar do mar. "Todas."

O mar à frente se enfurecia em ondas longas e rasas, que não se quebravam. Deslizavam lateralmente contra o casco, pressionando mais do que colidindo, como se a água tivesse decidido que o movimento para frente fosse opcional. Os reflexos das lanternas se alongavam de forma artificial na superfície, depois se recolhiam no ritmo—demasiado regular para ser sorte.

A superfície parecia respirar.

Para dentro. Para fora. Devagar. Rápido.

A mana de Elyra se agitava de forma aguda ao lado de Noel.

"Isso não é localizado," ela disse, afinando os olhos enquanto sigilos brilhavam fracamente ao seu redor. "Sem ponto focal. Sem âncora. Seja lá o que for, está em toda parte, ao mesmo tempo."

"Então não é um feitiço," murmurou Marcus.

"Não," respondeu Elyra. "É uma condição."

O olhar de Noel varreu a água, depois o horizonte, e volta a olhar para o mar ao redor imediato do navio. Ainda não havia formas sob a superfície. Nem sombras atravessando as profundezas. Nem sussurros ao limite da audição.

Sem canto.

Aquela ausência pesava mais do que qualquer barulho já tivera.

"Eles não estão se anunciando," disse Noel de forma tranquila. "O que quer dizer que não precisam."

A sombra de Noir apertou-se ao redor de seus pés, as orelhas achatando-se enquanto ela acompanhava a linha d'água com os olhos.

“Não estamos atraindo nada,” ela disse. “O espaço ao nosso redor está encolhendo.”

Ele sentiu então—como as correntes se cruzavam, não ao acaso, mas de propósito. Uma pressão do lado de bombordo. Resistência à frente. Uma puxada sutil sob o fundo do casco.

Um funil.

O navio embicou—não violentamente, mas o suficiente para alguns marinheiros se prepararem instintivamente.

Gustave terminou de expirar pelo nariz e reajustou o leme novamente. Dessa vez, a resistência revidou.

Mais forte.

As velas estalaram uma vez, apesar do vento permanecer constante.

"Estamos perdendo velocidade," alguém chamou de cima.

Sem tocar nas cordas.

Gustave firmou a mandíbula.

Ele não elevou a voz ao falar, mas todos ao redor ouviram claramente.

"Estamos sendo puxados para uma linha de combate."

A água à frente escureceu.

Não de uma só vez, mas lentamente, como se tinta se espalhasse sob a superfície. O mar não se agitava. Deslocava-se. Uma massa vasta se movia sob o fundo, empurrando a água para o lado com uma paciência inevitável.

Não houve enxame de criaturas.

Somente uma presença.

O navio rangeu enquanto a pressão se acumulava por baixo dele, o casco gemia baixo e profundo, um som que atravessava o convés como uma campainha de aviso batida debaixo d'água. Os reflexos das lanternas se distorciam, alongando-se e estalando enquanto a tensão superficial mudava.

Marcus percebeu primeiro.

Ele espalhou mais suas pernas, a mandíbula se tensionando enquanto seus ombros se recuavam instintivamente.

Selene inspirou lentamente. Um leve gelado percorria seus dedos—não por causa do frio, mas pela sensação. Seus olhos fixavam a escuridão que se aproximava.

"A gravidade está errada," ela disse em voz baixa. "Está puxando para baixo. Não nos arrastando para trás—nos prendendo."

Garron não disse nada. Avançou, postura afiada e focada, como um lutador se preparando para um adversário único, ao invés de se proteger de uma multidão.

Noel ficou próximo à proa, com os olhos fixos na perturbação.

Sem canto.

Era isso que fazia sua pele arrepiar.

Sem sussurros na beira do pensamento. Sem vozes falsas. Sem puxões na memória ou na dúvida. O que vinha não precisava de distração. Não tentava romper a formação ou dispersar a tripulação.

Era algo que exigia uma resposta.

'Isso não é um teste de coesão,' Noel percebeu.

Um desafio.

A água se encheu para cima.

Por um breve momento, a superfície se abriu—não explosivamente, mas como algo imenso passando muito perto do ar. Uma estrutura rompendo a superfície: não um cabeça, não propriamente. Era uma massa de estruturas interligadas, placas sobrepostas que lembravam armadura, mais crescida do que forjada, escorregadia com água do mar e levemente luminosa ao longo das juntas.

Ela desapareceu novamente tão rapidamente quanto tinha surgido, mergulhando de volta sob a superfície.

O navio tremeu em sua esteira.

Gustave não amaldiçoou. Não deu ordens. Apenas se inclinou um pouco à frente no leme, olhos estreitando-se, a voz baixando para um tom reservado a quem conhece mares que também caçam.

"Isso não é um caçador," disse ele baixinho. "É um guardião."

Noel apertou ainda mais a mão na amurada.

Sua mente acelerou—não por estratégias ainda, nem por feitiços—mas por compreensão. A escala. A contenção. A certeza.

Isso não estava aqui para sondar.

Estava aqui para pará-los.

Noel respirou fundo lentamente, relâmpagos surgindo sob a pele enquanto seu olhar permanecia fixo na água à frente.

'Porra,' pensou com carranca. 'Que diabos é aquela coisa.'

A resposta do mar veio.

A água se encheu para cima na proa, como se algo vasto estivesse pressionando contra a superfície por baixo, não com pressa, nem forçando—simplesmente afirmando que estava ali. O navio gemeu enquanto a pressão rolava por baixo, as tábuas vibrando em um ritmo profundo e irregular que percorria tanto as botas quanto os ossos.

Então, a água se partiu.

A criatura emergiu lentamente, deliberadamente, como se tivesse todo o tempo do mundo.

Era enorme—maior do que a largura do navio, seu comprimento verdadeiro impossível de medir enquanto a maior parte permanecia submersa. O que rompeu a superfície não era uma cabeça, ou propriamente, uma coisa assim. Era uma massa de estruturas interligadas, placas sobrepostas que pareciam mais crescidas do que forjadas. Segmentos escuros se sobrepunham e se moviam contra uns aos outros, cada junta levemente luminosa com um brilho bioluminescente frio, pulsando em sintonia com as correntes ao redor.

Não havia olhos visíveis.

O que, de alguma forma, tornava tudo pior.

No momento em que rompeu, a pressão atingiu.

Uma carga—direta e pessoal—pressionando sobre cada mente a bordo. Pensamentos lentos. Equilíbrio vacilando. O mundo de repente… mais pesado, como se a gravidade tivesse se aproximado.

Marcus cambaleou meio passo, rangendo os dentes. "Isso—" Ele se interrompeu, se preparando. "É uma pressão enorme."

Selene prendeu a respiração, o frio subindo por seu braço antes que ela forçasse a volta.

Garron espalhou as pernas, músculos se coçando. Não desviou o olhar da criatura. "Que diabos. " murmurou.

Noel também sentiu—a puxada, a distorção, a antiga sensação de invasão mental que se sobrepunha à força bruta.

O convés rangeu.

Alguém gritou.

Noel se virou a tempo de ver um marinheiro saltar sobre a amurada, saltando, os olhos vidrados e vazios, como se respondesse a um chamado apenas ele pudesse ouvir.

"Não—!" gritou Noel.

O homem nem tocou a água.

Um espigão surgiu rapidamente num borrão de movimento—uma das muitas estruturas pontiagudas que saíam debaixo da superfície. Empalou o marinheiro exatamente no torso e continuou, levantando-o no ar enquanto a água do mar caía de seu corpo inerte.

A pressão aumentou ainda mais.

Vários membros da tripulação se lançaram instintivamente na direção da amurada.

Isso foi suficiente.

"Noir!" gritou Noel.

Sombra explodiu para fora.

Escuridão emergiu debaixo dos pés de Noel enquanto Noir prontamente respondia, sua força se espalhando pelo convés numa onda violenta, viva. Sombras se alongaram e engrossaram, envolvendo botas, tornozelos, pulsos—prendendo a tripulação às próprias silhuetas, amarrando-os às tábuas como correntes de ferro feitas de noite.

Se alguém tentasse se mover, a sombra recuava.

'Ninguém pula,' rosnou Noir na cabeça dele, a fúria ardendo intensamente. 'Enquanto eu estiver aqui.'

O marinheiro empalado foi puxado de volta sob a superfície, desaparecendo numa turbulência de água escura e ondulações.

Seguimos silêncio.

Não calma—jamais calma—mas uma respiração presa por tempo demais.

Noel avançou, a Dentada do Ente gemendo enquanto relâmpagos se acumulavam na lâmina, seus olhos nunca desviando da forma colosal à frente.

Ele foi primeiro.

Sumiu.

"Passo Sombrio."

Seu corpo se fundiu à escuridão sob seus pés e reapareceu um instante depois na beira da criatura, a sombra se desprendendo dele como seda rasgada. A sua escala, de tão próxima, era esmagadora—camadas sobre camadas, segmentos de armadura se movendo contra uns aos outros como se o próprio mar estivesse vestindo uma coluna vertebral.

Ele nem parou para medir.

"Rasgadura de Eclipse."

A sombra engoliu a luz.

A lâmina de Dentada do Ente se quebrou em imagens sobrepostas de preto, uma meia-lua de vazio absoluto rasgando em um arco amplo. A onda não escavava—apagava. A água se partia sem espirrar. Segmentos em armadura se dissolviam no meio do movimento, as bordas desaparecendo como se nunca tivessem existido.

A água começou a gritar.

Não audivelmente, mas através da pressão—por uma distorção violenta que golpeou o navio e estremeceu todos os ossos a bordo. A besta recuou, seu volume mudando enquanto a parte apagada não se reconstituía.

Ela sangrava escuridão.

Marcus já tinha assumido sua posição.

A mana pulsava nele, o calor crescendo—não de forma selvagem, nem apressada. Chamas azuis se condensavam no antebraço enquanto a terra derretida respondia sob seus pés.

"Lança de Lava."

O feitiço se formou com um murmúrio baixo e violento—uma lança de magma solidificado entrelaçada por chamas azuis, calor intenso a ponto de distorcer o ar ao redor. Marcus arremessou tudo que tinha.

A lança atravessou a distância num piscar de olhos.

Ela penetrou fundo.

O impacto não foi explosivo—foi catastrófico. O magma perfurou a armadura em camadas e se enterrrou no interior da massa sob a superfície, as chamas azuis explodindo de dentro para fora. A água ao redor da área do impacto fervia violentamente, vapor surgindo enquanto a criatura se contorcia.

A pressão inchou.

A força que puxava o navio vacilou pela primeira vez desde que o funil se formara.

Noel pousou suavemente no convés enquanto as sombras se recolhiam ao redor da tripulação. Os relâmpagos voltaram a correr na lâmina de Dentada do Ente, afiados e ágeis.

Olhou para a esquerda.

Marcus já o encarava.

Não trocaram palavras.

Não precisavam.

Sentiram o quê—a resistência cedendo, o mar hesitando, a reação da coisa lá embaixo.

Podia ser ferida.

O que significava que podia ser derrotada.

Noel voltou o olhar para a água, com os olhos duros, relâmpagos e sombras enroscados ao seu redor enquanto o mar se agitava de dor e fúria à sua frente.

"Bom," disse calmamente.

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