O Extra é um Gênio!?

Capítulo 464

O Extra é um Gênio!?

Marcus apoiou o peso contra o corrimão ao lado do leme, balançando levemente com o movimento do navio. Ele lançou um olhar para Noel, depois para Elyra, antes de voltar sua atenção ao homem ao volante.

"Então, Gustave," disse, com tom casual mas curioso, "você navega por essas águas há mais tempo do que todos nós juntos, certo?"

Gustave não desviou o olhar da imensidão do mar. "Bastante tempo para esquecer como é tocar o solo firme às vezes."

Marcus sorriu. "Perfeito. Então deve ter histórias."

Isso finalmente despertou uma reação. A boca do capitão contraiu-se levemente — ainda não era um sorriso de verdade, mas quase.

"Histórias," repetiu Gustave. "É o que as pessoas chamam de advertências quando conseguem sobreviver a elas."

Noel apoiou os antebraços no corrimão, relaxado, mas atento. "Estamos ouvindo de qualquer maneira."

Gustave olhou para ele de relance, medindo. O que viu parecia satisfazê-lo. Ajustou a pegada no leme, depois fez uma exalação pausada.

"Quer passar o tempo de alguma forma," perguntou, "ou quer algo para lembrar quando as coisas derem errado?"

Marcus nem hesitou. "Ambos, idealmente."

Elyra assentiu uma vez. "Se for o último, melhor ainda."

Gustave bufou, um som silencioso que poderia ter sido uma risada baixa. "Justo. Estermont manda lutadores e estudiosos, e não turistas."

"Ei," protestou Marcus levemente, "posso ser um turista."

"Não, não pode," respondeu Noel de forma seca.

Elyra não se incomodou em esconder o sorriso debochado.

Gustave balançou a cabeça, agora divertido. "Certo. Então, duas histórias. Uma sobre as próprias ilhas. Outra sobre as águas ao redor delas." Ele fez uma pausa. "Vocês não interrompem, a menos que queiram a versão resumida."

Marcus imediatamente silenciou e simulou jogar uma chave fora.

O capitão continuou, a voz firme, sem pressa.

"As pessoas acham que as Ilhas do Norte são simplesmente… terra espalhada por águas geladas. Erro primeiro. Cada ilha aí tem seu temperamento. Algumas te recebem, outras te testam e algumas fingem ser inofensivas até você estar demasiado fundo para voltar atrás."

Noel franziu levemente a testa. "Você está dizendo que elas não são padronizadas."

Gustave assentiu. "Nem de longe. Uma ilha pode ser só gelo e vento. Outra pode ser verde, calma, quase pacífica." Seus olhos se estreitaram. "Isso não quer dizer que seja mais segura."

Elyra se inclinou um pouco. "Porque o perigo nem sempre é ambiental."

"Exatamente," concordou Gustave, satisfeito. "Às vezes, é o que vive lá. Outras vezes, o que já viveu."

Marcus moveu-se inquieto. "Isso… é perturbador."

"Isso é honestidade," respondeu Gustave. Então, após um instante, acrescentou secamente: "Percebeu que não falei nada sobre tesouros? É proposital."

Noel respirou uma vez, os olhos brevemente voltados para as pontas distantes. "E a segunda história?"

O olhar de Gustave voltou-se para o mar à frente, a expressão tornando-se séria novamente.

"Essa é sobre a água em si."

Gustave apoiou ambas as mãos no leme, os olhos fixos à frente, como se o próprio mar estivesse ouvindo.

"A água ao redor das Ilhas do Norte não se comporta como água comum," disse calmamente. "Essa é a primeira coisa que você precisa entender. Ela não te atropela, não riuderra. Na maior parte do tempo… ela espera."

Marcus franziu o cenho. "Espera o quê?"

"Por erros," respondeu Gustave sem hesitar.

O navio rangeu suavemente sob eles, um som lento e constante que de repente pareceu mais alto.

"Lá fora," continuou o capitão, apontando para o mar aberto além dos Picos de Iskandar, "o mar nem sempre ataca o corpo primeiro. Algumas vezes, vai pela mente."

Os olhos de Noel se aguçaram. "Como assim?"

Gustave respirou pelo nariz. "Canções. Sussurros. Ilusões. Você vai ouvir coisas que não pertencem ao vento."

Marcus inclinou a cabeça. "Sereias?"

Gustave olhou para ele, depois balançou a cabeça. "Não exatamente. Sereias é uma história que as pessoas entendem, então usam esse nome. Mas essas…"

[1] - Referem-se a entidades ou magias mais antigas, menos polidas, que atuam na mente de forma mais sutil e perigosa. "São mais antigas. E menos educadas."

A expressão de Elyra ficou pensativa. "Magia mental?"

"Em parte," concordou Gustave. "Confusão. Ilusão. Sugestão. Elas não precisam gritar feitiços em você. Elas empurram, dobram, torcem o que você já sabe."

Noel cruzou os braços lentamente. "Elas têm uma forma física?"

"Às vezes," disse Gustave. "Às vezes, não. É isso que as torna perigosas. Você nem sempre verá um monstro surgindo das ondas. Mais frequentemente, vai sentir que algo está errado antes de entender por quê."

Ele os olhou de volta, os olhos afiados apesar da idade.

"A tripulação começa a duvidar das ordens. Alguém jura que ouviu seu nome chamando — de uma voz em quem confia. Outros veem terra onde não há. Águas calmas. Gaivotas ao porto." Ele fez uma pausa. "São mentiras."

Elyra assentiu uma vez. "Esse tipo de magia interromperia a sincronização de maná. Mesmo magos treinados poderiam hesitar."

"E hesitar já é o suficiente," respondeu Gustave com expressão severa. "Se um navio divide sua atenção — se a tripulação discute, se alguém acha que sabe mais do que o leme — você já morreu."

Marcus engoliu em seco. "Então… qual é a regra?"

A voz de Gustave se tornou mais firme. "Fiquem juntos. Confie no timón. Sempre. Quando alguém decidir agir sozinho, o mar leva."

Um silêncio frio tomou conta do convés.

"Tem naufrágios lá em cima," continuou Gustave lentamente, "que não deixaram destroços. Nenhum corpo. Apenas navios encontrados à deriva dias depois. Velas intactas. Carga intocada."

Noel franziu a testa. "Vazio?"

Gustave assentiu uma vez.

"Vazio," repetiu.

O vento mudou, ficando mais frio agora, trazendo o cheiro de neve ao ar.

Gustave deixou o silêncio passar alguns segundos a mais, depois relaxou o aperto no leme. A expressão severa suavizou — não desapareceu, mas se moderou, como quem sabe quando o medo cumpriu seu papel.

"Essa é a água," disse finalmente. "Se você sobreviver a ela, aí sim, ganha o direito de lidar com as ilhas."

Marcus soltou um suspiro lento. "Confortante."

Gustave bufou, o canto da boca se mexendo. "Você ainda está respirando. Isso já é bastante conforto."

Ele ajustou um pouco a rota, os olhos se deslocando para as pontas brancas e distantes dos Picos de Iskandar. Agora eles estavam mais próximos — visíveis, com suas encostas cobertas de neve, cortando o céu em linhas irregulares.

"As pessoas cometem um segundo erro," continuou Gustave. "Acham que o perigo acaba quando tocam a terra. Não termina. Só muda as regras."

Noel observou os picos atentamente. "Você falou que cada ilha tem um temperamento."

"Falei," respondeu Gustave, "e quis dizer isso mesmo."

Ele se inclinou um pouco no leme, a voz firme porém deliberada.

"Algumas ilhas são barulhentas. Tempestades, feras, terreno que quer quebrar seus ossos ao menor erro. Essas são lugares honestos. Dizem exatamente como pretendem te matar."

Marcus bufou. "Acho que prefiro essas."

"A maioria prefere," Gustave respondeu secamente. "Elas não sobrevivem às outras."

Os olhos de Elyra se estreitaram. "As calmas."

Gustave apontou para ela sem olhar. "Exatamente. Ilhas que parecem razoáveis. Terreno firme. fluxo de mana gerenciável. Talvez até um porto seguro." Ele fez uma pausa. "São justamente essas que atraem as tripulações a ficar tempo demais."

"Como assim?" perguntou Noel.

"Padrões," respondeu Gustave. "Uma ilha onde monstros não atacam à noite. Uma ilha onde as feridas cicatrizam mais rápido do que o normal. Uma ilha onde seus feitiços parecem mais nítidos, mais limpos." Seu olhar se destacou. "Você começa a confiar nisso. Depender. E quando ela muda — porque todas mudam — você não está pronto."

Marcus mexeu-se inquieto. "Então, as ilhas se adaptam."

"Ou reagem," disse Gustave. "Difícil distinguir aí em cima."

Elyra cruzou os braços, pensativa. "Isso sugere ecossistemas de mana localizados. Autossuficientes, possivelmente autocorretivos."

Gustave a olhou, impressionado. "Você tem uma cabeça boa. Segure isso."

Ele se endireitou, a voz novamente firme.

"As Ilhas do Norte não são um único destino. São uma cadeia de testes. Você não as conquista. Sobrevive a elas tempo suficiente para partir."

Noel sentiu o peso disso se instalar no peito.

"E se não conseguir?" perguntou baixinho.

Gustave olhou para frente, em direção às pontes, ao que estava além delas.

"Então você passa a fazer parte da história," disse ele. "E as ilhas não contam duas vezes a mesma história."

Uma mudança de vento como se fosse de propósito começou, trazendo ar frio e cortante, num golpe decisivo que parecia picar a pele exposta. As velas se ajustaram com um estalido sutil, o pano tensionando enquanto o navio ajustava seu ângulo. Em algum lugar lá embaixo, o casco gemeu — madeira e metal respondendo à pressão com disciplina, sem pânico.

Gustave ficou em silêncio.

Ele não precisou dizer mais nada.

Por alguns momentos, ninguém falou. Até Marcus, acostumado a quebrar a tensão, manteve a boca fechada. Apoiou os antebraços no corrimão, o olhar fixo nas Ilhas de Iskandar à frente. Estavam mais próximos agora — o suficiente para distinguir picos individuais, sombras profundas cortando o branco como cicatrizes.

"Então," disse finalmente, com a voz mais baixa que o normal, "sem água cantando, sem ilhas amigáveis e, principalmente, sem ficar confortável."

Gustave deu uma leve mordida. "Você aprende rápido."

"Isso é novidade," murmurou Marcus.

Noel não sorriu.

Ele observava o mar — não a superfície, mas o movimento dele. A água não batia, não revolvia. Deslizava. Rolava. Muito lisa para estar tão ao norte, tão perto de correntes quebradas. Um tipo de calma que parecia proposital.

'Ela está ouvindo,' murmurou Noir de dentro de sua sombra.

Noel não respondeu alto, mas seus dedos se apertaram um pouco mais no corrimão.

Elyra se aproximou dele lentamente. "Se o que ele diz é verdadeiro," ela falou baixinho, "então a separação é o verdadeiro perigo. Não a força bruta. Nem mesmo os monstros."

Noel assentiu. "Então, se algo tentar dispersar a gente..."

"…é para nos reagruparmos imediatamente," completou Elyra. "Sem improvisos."

Marcus os olhou de um lado ao outro, soltando um suspiro. "Vocês dois são assustadores quando estão de sintonia."

"Estar vivo é melhor do que assustar," respondeu Elyra calmamente.

Gustave ajustou levemente o leme, com precisão. A leve mexida era medida — como alguém manejando uma lâmina adormecida.

"Vamos passar pelos Picos em alguns dias," disse. "Depois, a visibilidade fica imprevisível. Você vai sentir antes de ver."

Marcus ergueu uma sobrancelha. "Sentir o quê?"

Gustave não olhou para trás. "O momento em que o mundo para de concordar consigo mesmo."

Isso arrancou uma assobiada baixa.

A campainha tocou lá debaixo, convocando a próxima equipe. Os membros da tripulação se moveram com eficiência silenciosa, vozes contidas, sem risadas. O que de leve existia antes tinha sido suavizado pela verdade.

Noel deu uma última olhada nas pontes.

Elas não eram apenas montanhas.

Eram uma porta de entrada.

E além delas — em algum lugar além das águas distorcidas e das ilhas que observavam de volta — estavam respostas que não viriam sem um preço.

"Certo," disse Marcus finalmente, endireitando-se. "Já odeio esse lugar."

Noel respirou lentamente.

"Bom," respondeu. "Eu também."

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