
Capítulo 465
O Extra é um Gênio!?
A noite havia se instalado completamente sobre o navio.
O mar estava calmo, quase inquietantemente calmo, sua superfície escura refletindo linhas fragmentadas de luz lunar enquanto a embarcação avançava silenciosa pelo água. Acima, o céu estava limpo—estrelas frias espalhadas como brasas distantes—mas era o horizonte que chamava a atenção.
Os Picos de Iskandar.
Eles surgiam ao longe como gigantes silenciosos, suas cristas cobertas de neve banhadas por uma luz prateada pálida. Jagged, imensos e completamente indiferentes ao tempo, dominavam a noite sem fazer som algum. O ar aqui era mais afiado, mais puro—cada respiração mordia o suficiente para lembrar o corpo de que ainda estava longe de águas seguras.
Noel ficou sozinho próximo à amurada, com seu capa puxada mais para perto enquanto o frio apertava. Seus antebraços repousavam contra o metal, os olhos fixos nas montanhas enquanto o navio passava pela borda de seu alcance. Havia algo opressivo nelas. Não hostil—mas pesado. Como se a própria terra estivesse observando.
"Elas sempre parecem assim", disse uma voz suavemente ao seu lado.
Noel não se virou de surpresa. Já a tinha percebido ali.
Selene permanecia ao seu lado, sua presença tão natural quanto a própria noite. Ela não se anunciou, não perturbou o silêncio. Simplesmente existia ao seu lado, com o olhar levantado para as vertiginosas montanhas.
"Frio?" perguntou Noel suavemente.
"Um pouco," ela respondeu. "Mas é um frio familiar."
O vento soprava suavemente, levando seus cabelos curtos azuis, que reluziam em prata sob a luz da lua. Ela apoiou as mãos na amurada, com postura composta, os olhos fixos nas montanhas à frente.
"Estão mais perto do que parecem," disse Noel.
Selene assentiu. "Sempre estão."
Por um momento, nenhum dos dois falou. O navio seguia em frente, seu casco sussurrando através da água. De tão distante, as árvores pareciam sem fim—camadas e mais camadas de pedra e neve congeladas, estendendo-se além da vista.
Noel olhou para ela, realmente observando.
A expressão de Selene não era de admiração nem de medo.
Era de distância.
Como alguém olhando para um lugar que conhece intimamente—mas que já não pertence mais.
'Esse lugar tem um peso diferente para ela', pensou Noel. 'Não é só uma paisagem.'
"Você ficou quieta," ele disse.
Selene exalou lentamente. "Não há muito o que dizer."
Seus olhos seguiram a linha da serra, acompanhando a ascensão e descida abruptas das montanhas como se estivesse mapeando memórias antigas que não tinha intenção de revisitar.
"Este é território de Iskandar," ela disse finalmente.
Noel esperou, deixando que as palavras respirassem.
A voz de Selene permaneceu tranquila ao continuar, mas havia algo firme por baixo—indomável.
"Estas montanhas…" ela fez uma pausa, depois concluiu em voz baixa, "não mudam. Por mais que o tempo passe."
Seu olhar ficou mais duro, por uma fração.
"As pessoas sim."
Selene deixou o silêncio se estabelecer após suas últimas palavras.
O vento passava entre as cordas, carregando o cheiro seco de neve e pedra, mesmo de tão longe. O navio avançava de forma constante, suas lanternas lançando reflexos longos na água escura abaixo.
Noel manteve o olhar nas montanhas por mais um instante antes de falar.
"Iskandar," dizia suavemente. "Deve parecer… estranho. Passar tão perto."
Selene não o olhou imediatamente.
"Estranho não é a palavra certa," ela respondeu. "Seria estranho se sentisse alguma coisa familiar."
Ela finalmente virou a cabeça um pouco, os olhos ainda focados nas vertentes. "Isso não é um retorno. É só… passar perto."
Noel assentiu uma vez. Entendia a distinção.
Ficaram assim por alguns segundos, lado a lado, sem apressar a conversa.
Depois, Noel falou novamente, com cuidado.
"E sua mãe? Como estão as coisas… agora?"
A pergunta ficou no ar entre eles.
Os dedos de Selene se cerraram brevemente ao redor da borda do seu capa. Não de raiva—mais por hábito. Um reflexo que ainda não havia se dissipado.
"Estão iguais," ela disse após uma curta pausa. "Sempre foram assim."
Noel não interrompeu.
"Eu não a perdoo," Selene continuou, com a voz equilibrada. "Não a considero minha mãe. Isso não mudou."
Ela respirou fundo, a respiração visível na frição do ar. "Mas já não acordo mais com raiva."
Isso, pelo menos, era novidade.
Noel a observou—não com surpresa, mas com atenção.
"A raiva costumava ser alta," ela comentou. "Enchia tudo. Cada memória. Cada pensamento sobre este lugar." Seu olhar voltou às montanhas. "O tempo a tornou insensível. Não porque ela mereça—mas porque carregar isso para sempre era exaustivo."
Ele ficou em silêncio. Não tentou enquadrar isso como cura ou crescimento. Selene não precisava disso.
"Ela tentou consertar as coisas," Selene acrescentou suavemente. "À sua maneira. Tarde demais. E pelos motivos errados." Seus lábios se comprimiram numa linha fina. "Eu não a odeio. O ódio ainda dá poder a alguém."
Noel apoiou os antebraços na amurada, espelhando sua postura.
"Mas o perdão," ela disse agora, mais firme, "não é algo que as pessoas merecem só porque o tempo passou."
A luz da lua iluminou a ponta de seus olhos—clara, firme, imperturbável.
"Não julgo alguém pelos seus erros," ela terminou. "Mas também não tenho que aceitá-los na minha vida."
Noel inclinou a cabeça um pouco.
"Isso é justo," disse. Sem contestação. Sem correção.
Selene soltou uma respiração tranquila, a tensão relaxando um pouco de seus ombros.
Selene permaneceu em silêncio por mais alguns segundos, com o olhar fixo nas montanhas sob a luz do luar. O vento puxava suavemente seu casaco, levando o cheiro limpo e agudo de neve e pedra.
"…O que você acha que vai acontecer?" ela perguntou finalmente.
Noel virou levemente a cabeça. "Aqui?"
Ela assentiu. "Adiante."
"Nas Ilhas do Norte, quer dizer?"
"Sim."
Noel refletiu, olhando das montanhas para a vastidão escura do mar além delas. "Honestamente?" disse. "Não sabemos. Na verdade, não sabemos. Tudo o que sabemos é que o relógio está correndo. E desta vez, ele está mais alto."
Selene olhou para ele. "Ainda pensando em limites de tempo."
"É um hábito difícil de largar," Noel respondeu calmamente. "Mas desta vez é diferente. Não estamos entrando às cegas. Temos mais informações, mais pessoas, e um tempo real para nos prepararmos." Ele fez uma pausa. "Isso faz diferença."
Ela concordou com um som suave, reconhecendo o argumento. "Faz sentido."
O navio rangia ao cortar a água, firme e constante. Por um momento, ninguém falou.
Depois, Selene falou quase pensando, "Você mudou."
Noel piscou uma vez. "Eu?"
"Sim," ela disse, virando-se para olhar bem para ele agora. "Quando nos conhecemos, mal falávamos. Você estava sempre treinando. Sempre esforçando. Estávamos no mesmo espaço, mas era só isso."
Ele soltou uma risada silenciosa. "Isso não é totalmente justo. Eu tentei."
Selene levantou uma sobrancelha. "Tentou?"
"Sim," Noel respondeu leve. "Você só ficava me olhando friamente toda vez que eu me aproximava."
Os lábios dela se contrairam, mesmo que parcialmente. "É porque eu não confiava em você."
"Justo," ele admitiu. "Você tinha um olhar muito eficaz."
Ela balançou a cabeça de leve. "Eu era diferente na época. Mais… fechada." Seu olhar suavizou, só um pouco. "Não sabia o que fazer com pessoas que não eram ameaças ou ferramentas."
"E agora?" perguntou Noel.
Selene olhou de volta para as montanhas, depois para o mar. "Agora sei que nenhuma delas dura para sempre."
Noel a observou por um momento, iluminada pela luz lunar— composta, aguda, mas já não distante da mesma forma.
"Acho que ambos mudamos," ele disse calmamente.
Selene não discordou.
O frio aumentou enquanto a noite avançava.
Um toque de sino soou em algum lugar abaixo do convés—suave, distante—marcando o fim de mais uma vigília. O navio seguia avançando silencioso, suas lanternas balançando suavemente como se embalado pelo mar calmo. Aos poucos, os Picos de Iskandar começaram a desaparecer ao longe, suas formas imponentes não mais dominando o horizonte, mas ainda presentes, à beira da vista.
Selene percebeu primeiro.
"Estão desaparecendo," ela disse em voz baixa.
Noel seguiu seu olhar. As montanhas ainda estavam lá, mas o ângulo tinha mudado. Menos opressivas. Menos imediatas.
"Dá uma sensação diferente quando estão atrás de você," comentou.
"Sim," concordou Selene. "É assim o tempo todo." Ela fez uma pausa. "As coisas só parecem pesadas enquanto você as encara."
Ela ajustou um pouco seu capa, puxando-a mais apertada ao redor do corpo. O movimento foi pequeno, quase involuntário—mas Noel percebeu.
"Você não precisa ficar aqui fora," ele disse. "Agora está mais frio."
Selene tossiu levemente. "Estou bem." Então, após um instante, completou: "Não me incomoda o frio. Assim, tudo fica mais claro."
Noel sorriu levemente. "Faz sentido."
Ficaram em silêncio novamente, mas não era o mesmo silêncio de antes. Não carregado de memórias ou feridas antigas. Era mais firme. Compartilhado.
Depois de um tempo, Selene voltou a falar.
"Noel."
Ele virou um pouco na direção dela. "Hã?"
Ela demorou a olhar diretamente para ele. Seus olhos permaneciam na água escura, onde a luz da lua se fragmentava em prata às ondas.
"…Obrigada," ela disse.
A palavra era simples. Crua. Não carregava peso de obrigação—apenas sinceridade.
Noel piscou uma vez. "Por quê?"
Ela exalou suavemente, como se escolhesse suas palavras com cuidado.
"Por ter aparecido," respondeu Selene. "Na minha vida." Uma pausa. "Mesmo quando você não fazia parte daqui."
Noel se enrijeceu um pouco—mas sem interromper.
"Sei que veio de outro lugar," ela continuou calma. "Outro mundo. Outra vida. Você não devia nada a este lugar. Não devia nada a nós."
Seus dedos repousavam levemente na amurada.
"E mesmo assim… ficou."
O vento puxou seu capa. Ela finalmente virou a cabeça para ele, olhos firmes e claros.
"Você não tentou me mudar," ela disse. "Não exigiu confiança. Não me mandou como deveria me sentir." Uma leve curva apareceu em seus lábios. "Simplesmente… existiu. E, de alguma forma, isso importou mais do que tudo."
Noel sentiu algo apertar no peito.
"Não sou bom em dizer coisas assim," Selene acrescentou silenciosamente. "Mas queria que você soubesse."
Ele olhou para ela por um longo momento, depois assentiu uma vez.
"Fico feliz por ter estado aqui," disse Noel.
Selene olhou de volta para o mar.
"Também estou," ela respondeu.
O navio seguia navegando sob a lua de Iskandar, levando-os adiante—distantes das montanhas, e mais perto do que pudesse esperar além delas.