O Extra é um Gênio!?

Capítulo 463

O Extra é um Gênio!?

O silêncio se estendia entre eles, denso, mas não desconfortável.

A embarcação seguia seu avanço constante, ondas quebrando suavemente contra o casco, como se o próprio mar tivesse decidido comportar-se — pelo menos por enquanto. Noel permanecia apoiado na escada, olhando para as águas escuras abaixo, deixando que as palavras de Roberto se assentassem sem pressa, sem tentar preencher o espaço.

"Você não precisa decidir essa noite," disse Noel por fim, com a voz calma. "Seja lá o que for… decisões assim não devem ser tomadas às pressas."

Roberto respirou lentamente pelo nariz. "Se ao menos funcionasse assim."

Noel olhou para ele. "O que eles querem de você?"

Roberto hesitou, depois encolheu os ombros, olhando para o convés como se a resposta fosse óbvia.

"Querem que eu escolha," explicou. "Que eu pare de ficar no meio do caminho."

"Família?" perguntou Noel, suavemente.

Roberto assentiu uma vez. "Sim."

Ele coçou a nuca, a expressão ficando um pouco mais fechada. "Duas pessoas que importam pra mim. Ambas convencidas de que estão certas. Ambas convencidas de que a outra passou dos limites."

"E se você não escolher?" insistiu Noel.

Roberto soltou uma risada sem humor, baixinha, silenciosa. "Então eu estou ‘evitando responsabilidade’. Ou ‘correndo’. Depende de quem pergunta."

Isso fazia muito mais sentido. Noel relaxou um pouco, recostando-se novamente na escada.

"Então é uma dessas situações," disse ele. "Não importa o que você faça, alguém sai machucado."

"Exatamente." Roberto fixou o olhar no mar. "E o pior é… uma vez que você toma partido numa questão de família assim, as coisas não voltam ao que eram."

Noel assentiu lentamente. Já tinha visto aquilo antes. Muitas vezes.

"Você escolhe um," continuou Roberto, com a voz mais baixa agora, "e o outro não fica só bravo. Eles fecham a porta. E mesmo que anos passem…" Ele balançou a cabeça. "Algumas portas não se reabrem mais."

O vento passava entre eles, carregando o perfume de sal e frio.

"Isso é difícil," disse Noel honestamente. "Mas não é tudo responsabilidade sua."

Roberto sorriu de leve. "Famílias têm um jeito de fazer isso."

Os corredores estavam silenciosos naquele horário.

A maior parte da tripulação já havia ido dormir, e o som do navio se acomodara num ritmo lento, constante—madeira, metal e mana trabalhando juntos como um só. Noel caminhava lentamente, com as botas suaves sobre o piso reforçado, as mãos nos bolsos do casaco.

Ele deveria estar à vontade.

Em vez disso, seus pensamentos continuavam voltando.

Família, tinha dito Roberto.

Fazia sentido. Talvez demais. Brigas familiares eram confusas, pesadas e raramente racionais. As pessoas diziam coisas que não podiam mais tirar de volta. Linhas eram desenhadas onde antes não existiam.

Mesmo assim…

Noel parou perto de sua cabine, apoiando a mão na parede fria.

Roberto tinha falado como se a decisão apagasse alguém completamente.

Algumas portas não se abrem mais.

O ar saiu lentamente dos pulmões de Noel. 'Estou pensando demais,' disse a si mesmo. 'Nem todo problema familiar precisa fazer sentido pra mim.'

Uma sombra familiar se moveu ao lado dele.

A cabeça de Noir surgiu da escuridão próxima à viga do teto, os olhos levemente brilhando. 'Você está dando passos de um lado para o outro,' observou.

"Estou pensando," respondeu Noel em tom baixo.

'Isso não é bom.'

Noel quase sorriu.

"Não é nada," disse ele. "Só… Roberto. Ele está lidando com umas questões familiares."

Noir inclinou a cabeça. 'E isso te incomoda?'

"Não," respondeu Noel imediatamente. Depois hesitou. "…Talvez um pouco."

Noir pulou suavemente, aterrissando sem fazer som. Cheirou o ar uma vez, as orelhas se mexendo.

'Você sentiu dúvida hoje à noite.'

Noel franziu a testa. "Senti preocupação."

'Mesma coisa, pai.'

Noel recostou-se na parede, fechando os olhos por um instante. "Ele é meu melhor amigo," disse. "Se ele diz que é família, então é família."

NOir o estudou em silêncio.

'Algumas pessoas mudam quando se sentem encurraladas,' disse finalmente. 'Até por coisas que amam.'

Noel abriu os olhos. "Você acha que ele está escondendo alguma coisa?"

A cauda de Noir se mexeu uma vez. 'Todo mundo esconde alguma coisa.'

Essa resposta não ajudou.

Noel balançou a cabeça. "Não vou começar a desconfiar dele por coisa boba. Estamos entrando numa área perigosa. Preciso manter a cabeça clara."

Nosso Não argumentou, simplesmente desapareceu de volta para as sombras.

Quando Noel entrou na sua cabine, o navio deu uma vibração baixa, quase imperceptível.

Noel parou.

Por um instante, a mana no ar parecia… tensa.

Ele olhou para o teto, para o mar invisível acima.

"Pois é," murmurou para ninguém. "Estou mesmo pensando demais."

A manhã chegou silenciosa.

Uma luz pálida e fria espalhou-se pelo convés enquanto o navio seguia seu rumo firme para o norte. O ar tinha uma picância mais aguda do que no dia anterior, suficiente para deixar um leve ardor na pele exposta. Geada começou a se formar, pouco, nas correntes de metal, dissipando-se rapidamente.

Noel ficou perto do lado de bombordo, com os braços apoiados de leve no corrimão, observando o mar que se estendia sob eles.

"Estamos chegando próximo às Montanhas de Iskandar," disse Marcus ao se juntar a ele, esticando os braços para cima. "Você sente no ar."

Noel levantou o rosto.

No horizonte, quase invisíveis através da névoa matinal, formas brancas agudas rasgavam o céu—duras, imponentes, e inconfundíveis. Picos cobertos de neve erguiam-se como dentes quebrados contra o azul pálido, grandes o bastante para deixar tudo ao redor menor, insignificante.

"…Sim," falou baixinho. "Difícil não notar."

"Dizem que, passar delas, o mar muda," continuou Marcus, numa entonação descontraída. "Correntes ficam estranhas. O tempo para fazer sentido."

"Parece reconfortante."

Marcus sorriu. "Muito."

Por um tempo, ficaram ali, silenciosos, observando o navio cortando as águas. A tripulação se movimentava com destreza ao redor, ajustando velas, puxando cordas. Aqui longe, tudo parecia mais lento. Mais pesado.

Marcus quebrou o silêncio.

"Quer que eu te conte uma coisa interessante pra passar o tempo?"

Noel olhou para ele. "Depende. É realmente interessante ou só mais uma das suas ‘verdades’?"

"Ei. Minhas verdades são de alta qualidade." Marcus se apoiou no corrimão. "Mas, sério, temos uma tripulação inteira aqui. Aposto que eles têm histórias."

Noel deu uma risadinha. "Você quer dizer rumores."

"Exatamente. Os melhores." Marcus apontou para um par de marinheiros que enrolavam corda por perto. "Quem navega por esses caminhos sempre sabe de coisas. Lugares para evitar. Coisas que nem mapa escreve."

Noel pensou. "Podia ser útil."

"E se não for," acrescentou Marcus, "é melhor do que ficar aqui fingindo que não estamos pensando no que nos espera."

Noel hesitou. Depois, assentiu uma vez.

"Certo," disse ele. "Vamos ouvir o que eles sabem."

Marcus sorriu, satisfeito, e empurrou-se do corrimão. "Vou procurar alguém que goste de falar."

Enquanto se afastava, Noel permaneceu no mesmo lugar, olhos voltando às Montanhas de Iskandar. Elas se erguiam ao longe—silenciosas, imóveis, escondendo o que quer que estivesse além delas.

As Ilhas do Norte ainda estavam longe.

Um tempo passou.

O navio manteve o ritmo firme, as velas cheias, o vento favorável. O sol subia, amenizando o frio matinal, mas sem nunca realmente expulsá-lo. Noel já tinha perdido a conta de quanto tempo ficou observando as Montanhas de Iskandar quando uma voz familiar quebrou o ritmo do convés.

"Noel!"

Ele levantou o olhar.

Marcus estava na plataforma superior perto do leme, com uma mão levantada. Ao lado dele, a capitã.

"Aqui em cima," chamou Marcus. "Você vai querer ouvir isso."

Noel subiu as escadas, com os passos leves fazendo eco no madeirame reforçado. Elyra já estava lá, com os braços cruzados, observando atentamente o homem mais velho no leme.

"Este é o capitão Gustave," disse Elyra suavemente, ao aproximar-se. "Um dos marinheiros mais experientes a serviço de Estermont."

O capitão inclinou a cabeça um pouco. Estava bem além do seu melhor, cabelo grisalho, pele marcada pelo vento e sal ao longo de décadas. No entanto, sua postura mantinha-se firme, as mãos no leme com segurança.

"Navego essas águas há mais tempo do que a maioria vive," disse Gustave, com a voz calma e firme. "Se vão para o norte, é melhor escutar do que se apressar."

Marcus encostou-se no corrimão, sorrindo. "Viu só? Falante."

Gustave ignorou.

"Vê aquelas montanhas?" ele continuou, apontando para a distante cadeia de Iskandar. "São o último marco verdadeiro. Depois disso, os mapas começam a mentir."

Noel franziu a testa. "Mentem como?"

"As rotas mudam," explicou Gustave. "As correntes puxam de lado. Névoa forma onde não deveria. Ilhas aparecem e na próxima passagem não estão mais lá."

"Magia?" perguntou Elyra.

"Em parte," respondeu Gustave. "E em parte, coisas antigas que nunca foram embora."

Ele olhou para Noel, os olhos afiados apesar da idade.

"Navios que sobrevivem às Ilhas do Norte fazem isso justamente por respeitá-las," continuou Gustave. "Você não força um caminho. Espera que um se mostre."

Marcus soltou um assobio baixo. "Isso é bem sombrio, hein?"

Gustave permitiu um sorriso fino. "O sombrio te mantém vivo."

Noel apoiou a mão no corrimão, ouvindo atentamente. Essas não eram palavras de um homem que contava lendas para assustar marinheiros inexperientes. Eram observações. Avisos conquistados à força dos anos.

"O mar lá em cima não é hostil," acrescentou o capitão. "É paciente. Observa. E quando se move… age com propósito."

Elyra trocou um olhar breve com Noel.

"Obrigado por nos contar," disse ela. "Vamos guardar isso na mente."

Gustave ergueu um dedo. "Fazem isso."

A conversa foi se acomodando em silêncio, apenas quebrado pelo ranger do leme e pela correnteza constante batendo contra o casco.

Gustave voltou sua atenção inteira ao curso, os olhos fixos à frente. Marcus se alongou uma última vez e resmungou algo sobre procurar comida, já descendo a escada.

Elyra ficou ao lado de Noel.

"O capitão não está exagerando," disse ela calmamente. "Essas águas não obedecem às regras. Precisamos estar prontos para mudanças repentinas."

Noel concordou. "Vamos estar."

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