
Capítulo 462
O Extra é um Gênio!?
A ponte de treino lentamente foi ficando vazia.
O vento salgado soprou pela plataforma superior da embarcação, levando embora os últimos vestígios de pedra queimada e do mana que ainda permanecia. Os membros da tripulação voltaram às suas tarefas, murmurando entre si, trocando olhares breves em direção a Noel e Marcus antes de desviar o olhar novamente.
Noel apoiou os antebraços na grade, com os olhos fixos no mar infinito à sua frente. O horizonte estava calmo—demasiado calmo para o que aguardava além dele.
Marcus se juntou a ele um instante depois, mexendo os ombros uma vez, um sorriso satisfeito ainda estampado no rosto.
"…Preciso disso," Marcus disse com sinceridade. "Nada limpa a cabeça como uma boa luta."
Noel o olhou de relance por um momento, depois voltou a olhar para o mar. "Também é assim comigo."
Logo atrás deles, o grupo se reunia de forma dispersa. Clara flutuava perto de Marcus, fingindo não se preocupar, mas claramente checando se havia ferimentos. Laziel e Garron discutiam alto sobre qual troca tinha sido a mais brutal, enquanto Roberto declarava—de forma exageradamente confiante—that ele podia “segurar o ritmo na próxima”.
O olhar sério de Noir silenciou aquilo na hora.
Elyra estava um pouco afastada, com os braços cruzados, os olhos atentos enquanto observava as rotas marítimas à frente. Elena conversava em voz baixa com Charlotte, a Santa escutando com calma e concentração. Selene permanecia por perto, silenciosa, com o olhar fixo em Noel de uma maneira que só ele percebia.
A atmosfera era leve.
Mas, por baixo dela, a tensão se enroscava apertada.
Todos aqui entendiam isso.
Isso não era apenas treino.
Noel endireitou-se lentamente.
O porto já ficara bem longe.
A costa de Valon tinha encolhido até se transformar numa silhueta fina, torres e muralhas desaparecendo na névoa enquanto o navio cortava firmemente em direção ao oeste. A embarcação movia-se com confiança deliberada—seu casco reforçado cortando as ondas, a plumagem encantada ao longo do lado vibrando levemente enquanto dispersava a pressão do mana do mar.
Não era um navio mercante.
Foi feito para resistir.
Noel agora estava próximo da proa, seu capuz tremulando suavemente, observando a água se abrir sob eles. O som ritmico das ondas batendo contra o casco era quase meditativo—quase.
De dentro da sombra, Noir espirrou um pouco, as orelhas se agitando. "A gente realmente está indo agora, pai."
"Sim," Noel respondeu silenciosamente. "Sem mais atrasos."
Percorreram passos. Marcus parou ao seu lado, apoiando-se na grade, com os cotovelos descansando confortavelmente enquanto olhava para o mar.
"…Então," ele disse de modo descontraído, "seja honesto. Você acha que Garron foi o primeiro a vomitar ou Laziel?"
Noel deu uma risadinha. "Garron. Laziel fala demais pra ficar enjoado. Garron guarda até explodir."
"Como esperado." Marcus sorriu. "Em dez minutos, no máximo."
Logo atrás deles, como se tivessem combinado, Laziel elevou a voz abruptamente. "Tô falando, Garron, se você vomitar perto de mim—"
Garron roncou algo ininteligível.
Roberto riu de onde se apoiava no mastro. "Aposto que os dois."
Clara percebe Roberto o observando e balança a cabeça com carinho, depois levanta um punho em sinal de advertência de brincadeira. Assim dizia a expressão: comporta-se.
Marcus olhou de volta para Noel. "Pois é, né? Estranho, não? Estar numa embarcação ao invés de correr em volta ou levar bronca do Daemar."
"Um pouco," Noel admitiu. "Mas prefiro isso a treinos matinais."
"Mesma aqui." Marcus esticou os braços uma vez, relaxado. "Pelo menos aqui, se algo explodir, provavelmente a culpa é sua."
Roberto se empurrou do mastro e se aproximou, com as mãos preguiçosamente enfiadas nos bolsos, como se estivesse apenas passando por ali. Parou a alguns passos, com os olhos na direção do mar.
"Ei," ele falou casualmente. "Se algo explodir, a culpa é de vocês dois."
Marcus deu uma risadinha. "Claro que sim."
Noel olhou para Roberto, depois voltou ao mar. Por um instante, nada falou. O navio balançava suavemente sob seus pés, firme e indiferente ao peso da conversa que ainda não tinha começado.
Até que Noel quebrou o silêncio.
"…Como você tem estado, Roberto?"
Roberto piscou lentamente, surpreso com a mudança de assunto.
"Quer dizer," Noel continuou, com tom calmo, mas direto, "nestes últimos meses. Você esteve bem ausente."
As palavras não eram acusatórias. Apenas honestas.
Roberto coçou a nuca, o olhar desviando do horizonte para o convés. Soltou um suspiro baixo.
"Argh… é, acho que sim." Ele sorriu torto, mas sem brilho nos olhos. "Acho que sim."
Marcus se endireitou um pouco, o sorriso descontraído sumindo para algo mais atento.
"E então?" ele perguntou. "O que aconteceu?"
Roberto hesitou. O navio rangeu suavemente ao redor, as velas mudando de posição com o vento.
"…Coisas lá em casa," ele disse finalmente. "Coisas que não podia ignorar. Tive que ficar. Estar presente."
Ele deu de ombros, como se aquilo explicasse tudo.
Marcus assentiu lentamente. "Tudo bem?"
Roberto inclinou a cabeça pra um lado e para o outro. "Depende do que você entende por 'tudo bem'." Então rapidamente, "Mas sim. Está… resolvido. Na maior parte."
Marcus o observou por um segundo a mais, depois bateu levemente na grade com a mão.
"Sabe," disse ele com tom firme, "qualquer que seja o problema—você não precisa lidar com isso sozinho. Você sabe disso, né?"
Roberto o olhou, depois voltou o olhar para Noel.
Por um instante, uma coisa passou pelo seu rosto—gratidão, talvez. Ou algo mais pesado.
"…Sim," ele falou em voz baixa. "Sei."
Noel não respondeu. Observou Roberto de perto, mais atento do que sua expressão sugeria. 'Essa não é a resposta completa,' pensou. 'Mas vou respeitar a privacidade dele.'
Marcus parecia perceber apenas o peso que se instalava. Aclarou a garganta e deu um passo atrás.
"De qualquer forma," disse suavemente, forçando o clima a subir de nível, "prometi à Clara que ajudaria em alguma coisa antes que ela decida me matar por ignorar o olhar de advertência dela."
Clara, um pouco distante, levantou uma sobrancelha como se tivesse ouvido seu nome.
Marcus apontou para Noel e Roberto. "Não pulam do navio."
"Não posso prometer nada," respondeu Roberto com secura.
Marcus deu uma risada, já se afastando. "Tenta não ficar muito pensativo. Jantar já já."
E assim, desapareceu.
O espaço que deixou parecia maior do que deveria.
Noel e Roberto ficaram lado a lado, com o mar se estendendo infinitamente à frente.
Pouco depois, a campainha soou pelo convés, impossível de ignorar.
"Comida," murmurou Garron reverente. "Finalmente."
O grupo se reuniu na sala de jantar do navio, uma câmara larga e reforçada abaixo do convés, com lâmpadas de mana penduradas que balançavam suavemente com o movimento das ondas. Mesas longas já estavam prontas, simples porém fartas—tigelas fumegantes, pão fresco, peixe assado e bandejas de vegetais preservados encantados para manter a temperatura.
O clima se transformou quase instantaneamente.
Laziel começou a contar, exageradamente, a luta, insistindo alto que tinha "totalmente previsto aquele golpe", enquanto Marcus abertamente o chamava de mentiroso. Clara deu um empurrão em Marcus no meio da discussão, lembrando—de forma calma, mas firme—que ainda tinha um hematoma se formando no ombro dele.
Garron comia como um guerreiro prestes a entrar na batalha, alheio ao comentário contínuo de Laziel. Roberto ria junto, intervindo na medida certa para manter a conversa animada. Charlotte ouvia com um sorriso suave, de vez em quando fazendo um comentário gentil que, de alguma forma, acalmava a mesa sempre que o volume aumentava demais.
Elena ria mais do que falava. Selene permanecia observando, com um prato pequeno à sua frente, olhando entre Noel e o resto do grupo.
Noel se acomodava entre eles, respondendo quando lhe dirigiam a palavra, sorrindo quando sentia que era apropriado.
Mas sua atenção ficava sempre se desviando.
Roberto agia normalmente. Ou talvez, demais.
Brincava, ria, com postura relaxada. Mas Noel percebia os detalhes—a maneira como Roberto quase não tocava na bebida, o retardo na própria risada, o olhar perdido quando a conversa ficava silenciosa.
Finalmente, Roberto empurrou a cadeira para trás.
"Vou pegar um ar," ele falou de modo casual. "Demais gente, pouco céu."
"Já está fugindo?" Laziel provocou.
"Sobrevivendo," Roberto corrigiu, já se levantando.
Ele saiu antes que alguém pudesse responder.
A conversa seguiu sem interrupções. Garron reclamou do peixe. Clara pediu para ele parar de comer assim. Marcus se recostou, com os braços cruzados, claramente curtindo o raro momento de calma.
Noel esperou.
Cinco minutos.
Depois, levantou-se.
"Já volto," disse, já partindo.
Selene olhou para cima, seus olhos cruzando com os dele por um instante. Ela não perguntou onde ele ia. Já sabia.
Assim que pisou de volta no convés, a brisa noturna o atingiu—refrescante, cortante, carregando sal e o som de água roçando contra o casco. O céu acima estava limpo, estrelado, espesso e brilhante, sem influência das luzes da cidade.
Roberto estava perto do corrimão, com os cotovelos encostados nele, olhando para o mar escuro.
Noel se aproximou silencioso e parou ao lado dele.
Primeiro, nenhum deles falou.
O navio seguia, firme e implacável, levando-os para frente, quer estivessem prontos ou não.
Finalmente, Roberto exalou.
"…Sabia que você viria."
Noel não negou.
"Sim," disse suavemente. "A gente ainda não terminou."
Noel apoiou os antebraços na grade ao seu lado, com o olhar fixo na água escura lá embaixo.
"…O que está te incomodando?" ele perguntou em voz baixa. "O que vem martelando na sua cabeça há tanto tempo?"
Roberto soltou uma risada baixa, sem humor. Passou a mão pelo rosto, depois olhou para o mar, com a mandíbula cerrada.
"Não sei o que fazer," admitiu. "Sério... Essa é a primeira vez que me vejo numa situação assim, Noel."
Noel permaneceu em silêncio.
Roberto engoliu a saliva, as omoplatas tensas.
"Duas pessoas que importam pra mim," continuou, a voz mais áspera agora. "Digamos que elas... não estão do mesmo lado. E, de alguma forma, estou bem no meio disso." Ele balançou a cabeça lentamente. "Ambas esperam algo de mim. Uma resposta. Uma escolha."
O vento puxava a capa dele enquanto o navio seguia adiante.
"E o problema é," Roberto falou em tom mais baixo, "se eu escolher uma... perco a outra. Completamente. Sem volta. Sem consertar. Sem fazer as pazes depois."
Os dedos de Noel apertaram levemente a grade.
Roberto, enfim, virou-se para ele, com os olhos cansados, sem a bravata habitual.
"Já lutei com monstros. Assumi riscos. Perdi antes," disse. "Mas isso? Escolher de quem vou me afastar pra sempre?" A voz dele se quebrou, quase um sussurro. "Não sei como fazer isso."