O Extra é um Gênio!?

Capítulo 459

O Extra é um Gênio!?

A tensão diminuiu — não de uma só vez, mas o suficiente para que todos respirassem aliviados.

Noel recostou-se levemente na cadeira, à medida que o peso da conversa se assentava. O fragmento. As Ilhas do Norte. Colunas. Aliados. Tudo estava exposto agora, pelo menos entre eles.

Por um momento, ninguém falou.

Então Laziel esclareceu a garganta. "Então," disse casualmente, cruzando os braços atrás da cabeça, "antes que as aulas comecem... podemos conversar sobre algo realmente importante?"

Marcus levantou uma sobrancelha. "Isso não era importante?"

"Não," respondeu Laziel, sério como sempre. "Isso sim."

Todos se voltaram para ele.

Clara inclinou a cabeça. "Nunca é bom quando vem de você quando é assim."

Laziel tossiu uma vez. "…Eu posso estar começando a conhecer alguém."

Pronto. Lá estava.

Roberto engasgou com a bebida. "ESPERA. Pera aí. Rewind. Você?"

Garron piscou. "Tipo—romanticamente?"

Marcus encarou. "Depois de quase dois anos?"

A mesa explodiu em risadas.

"De jeito nenhum," riu Roberto. "A Academia está chegando ao fim e esse é o milagre que a gente tem?"

Laziel franziu o cenho. "Eu odeio todos vocês."

Clara sorriu calorosamente. "Acho até que é bonitinho."

"Traidor," murmurou Laziel.

Noel observavaquieto, um sorriso tenue sobressaindo em seus lábios. O barulho, as brincadeiras, a normalidade — era aquilo que o mantinha firme, mais do que ele imaginava precisar.

Noir se espreguiçou sobre seu ombro. 'Isso é melhor que ficar remoendo, pai.'

"É,..." Noel murmurou. "É mesmo."

Gradualmente, as risadas diminuíram, sendo substituídas pelo baixo burburinho da cafeteria voltando ao seu ritmo habitual.

Roberto reclinou-se na cadeira, ainda sorrindo. "Sabe de uma coisa? Eu já sei. Começa o terceiro ano e de repente Laziel decide que é protagonista de um romance."

"Juro," Laziel disse sério, "se isso virar uma piada recorrente—"

"Ah, já virou," interrompeu Marcus, sorrindo. "Você só não percebe ainda."

Garron concordou solenemente. "Vamos marcar na história: O Dia em que Laziel Quase Pegou Uma Namorada."

"Isso não—!" Laziel se conteve, exalando pelo nariz. "…Eu odeio esse grupo."

Clara riu suavemente e olhou para a entrada. "Estranho, no entanto. As aulas estão para começar e nem a Seraphina nem o Diretor Daemar estão em lugar algum."

Noel seguiu seu olhar. Ela tinha razão. Normalmente, pelo menos um deles já teria passado por ali — Seraphina, com sua urgência sempre composta, ou Daemar, fazendo suas rondas silenciosas.

"Talvez já estejam ocupados," disse Noel casualmente, embora seus pensamentos permanecessem nisso por mais tempo do que queria.

Marcus inclinou a cabeça, observando-o. "Tá tudo bem?"

Noel encontrou seus olhos e assentiu. "Sim. Só… o tempo."

Roberto sorriu com ironia. "Agora vai: o olhar misterioso do Noel."

'Ele está fazendo a coisa,' murmurou Noir com satisfações na cabeça. 'A coisa de pensar antes do caos.'

Noel ignorou.

O sino tocou novamente — mais alto desta vez.

Estudantes começaram a se levantar, cadeiras arrastando no chão de pedra. As conversas cessaram no meio da frase enquanto as rotinas voltavam a se impor.

Garron se espreguiçou. "Manipulação de Mana primeiro, né?"

Marcus assentiu. "A aula do Daemar."

Ih, alguns reclamaram.

"Ele é brutal de manhã," reclamou Roberto.

"Mas justo," acrescentou Clara.

Noel se levantou, ajustando o casaco. "Vamos lá."

Enquanto recolhiam suas coisas, Laziel hesitou — então olhou para Noel. "Ei... sobre o que você falou antes."

Noel o olhou.

"…Obrigado por nos contar primeiro," terminou Laziel. "Seja lá no que isso der, estamos do seu lado."

Noel pausou por meio segundo.

Depois, assentiu. "Sei disso."

E saíram em fila, se misturando com os estudantes que seguiam para os anfiteatros.

O auditório estabeleceu um silêncio disciplinado enquanto os alunos tomavam seus assentos.

Daemar ficou na frente, com as mãos entrelaçadas atrás das costas, postura relaxada, porém imponente. Apesar de ser o Diretor da academia, ainda ministrava aulas regularmente — e, quando o fazia, ninguém tratava aquilo levianamente. Sua presença carregava peso.

"Mana," começou calmamente, sua voz sem esforço, "não é um recurso que você usa. É uma força com a qual você negocia."

Alguns estudantes se endireitaram por impulso.

Noel recostou-se um pouco na cadeira, prestando atenção total. Não era material novo — mas o Daemar nunca repetia uma lição do mesmo jeito duas vezes. Sempre havia algo escondido entre as linhas.

"Aqueles que tentam dominar a mana," prosseguiu, "acabarão sendo esmagados por ela. Quem teme, nunca evolui. Equilíbrio não é uma ideia—é um hábito."

Ele ergueu uma mão, e uma esfera de mana pálida se formou acima da sua palma. Ela cintilou, instável por uma fração de segundo — depois estabilizou numa quietude perfeita.

"Isso," disse, "é controle através do entendimento."

Os olhos de Noel estreitaram-se levemente. Ele podia senti-lo — a forma discreta com que Daemar não forçava a mana a forma, mas a deixava repousar ali.

Marcus anotava freneticamente. Clara observava com cuidado silencioso. Garron fazia cara de esforço, como se tentasse fisicamente impor o conceito em sua cabeça. Roberto já tinha se recostado, de braços cruzados, fingindo entender.

O olhar de Daemar percorreu a sala — e parou em Noel.

"Para vocês que já estão se aproximando de limiares superiores," disse ele com equilíbrio, "esse estágio se torna perigoso. A mana começa a responder não só à vontade… mas à intenção."

Noel sentiu aquilo exatamente sobre ele.

"Seu estado de espírito," continuou, "vai moldar a velocidade do seu lançamento, a estabilidade e o risco de retrocesso mais do que a saída bruta jamais faria."

A esfera de mana dispersou-se sem causar impacto.

"É por isso," concluiu, "que avanço imprudente mata mais prodígios do que lâminas inimigas."

O sino tocou pouco depois.

Estudantes se levantaram, recolheram seus pertences, conversas recomeçando em sussurros baixos.

Daemar permaneceu na frente, com os olhos brevemente encontrando os de Noel enquanto a sala se esvaziava.

Noel hesitou.

Depois, ao invés de seguir o grupo, permaneceu sentado.

Daemar percebeu imediatamente.

Quando o último estudante saiu, o Diretor falou sem se virar.

"…O que aconteceu desta vez, Noel Thorne?"

Noel respondeu. "Preciso me ausentar da academia. Não só eu — a maior parte da Turma S."

Isso levantou lentamente uma sobrancelha de Daemar. "Entendi."

Noel se endireitou um pouco.

"Fui até a Capital Sagrada," continuou calmo. "Com Charlotte. Depois do ocorrido na região da minha família… e de tudo que se seguiu."

Daemar soltou uma respiração lenta, apoiando uma mão na mesa.

"Achei que fosse algo assim," respondeu ele. "Eventos desse porte não acontecem isolados. Especialmente quando você está envolvido."

"Lá, encontramos algo," prosseguiu Noel. "Um fragmento. Um cristal. Ainda não entendemos direito o que é — mas sabemos que não é algo bom."

O ar alterou-se.

Uma ondulação de sombra se desprendeu dos pés de Noel, e Noir apareceu, pulando na beirada da mesa de Daemar e sentado com uma postura desconcertante.

"Detectei traços de um Pilar," disse Noir com franqueza. 'Só restam dois.'

Os olhos de Daemar se arregalaram um pouco.

"…Você pode falar agora?" perguntou em tom tranquilo.

"Mentalmente," Noel esclareceu. "Com as pessoas que ela escolhe. Antes, só comigo. Mas à medida que fico mais forte… ela também fica."

Daemar olhou para Noir com atenção por um momento, depois assentiu uma vez. "Entendi. Continue."

"O fragmento vem das Ilhas do Norte," disse Noel, passando o polegar pela borda da mesa. "Orthran tinha certeza disso."

Daemar concordou. "Isso bate com o pouco de registros que existem."

"E está sendo usado como fonte de energia," continuou Noel. "Para iluminação, encantamentos, infraestrutura… o que significa que deveria ter se espalhado rápido."

Ele fez uma pausa.

"Em Valor, não."

Daemar levantou uma sobrancelha.

"Nenhum relatório de comércio. Nenhum boato. Nenhuma escassez. Nada," disse Noel lentamente. "E isso só faz sentido por uma razão."

Ele levantou o olhar.

"Os Estermont."

Daemar franziu os olhos, compreendendo. "Controlam a maior parte das rotas comerciais de grande porte em Valor."

"Exatamente," disse Noel. "Se algo assim entrou no continente, Elyra — ou sua família — teria notado imediatamente."

Silêncio.

Os pensamentos de Noel continuaram a se mover.

Ilhas do Norte como fonte. Valor intocado. Então, e em outros lugares?

Sua respiração ficou presa.

"…Droga."

Daemar endireitou-se. "Você percebeu algo."

Noel assentiu uma vez, com expressão séria.

"Não é Valor que está em perigo," disse em tom baixo. "Se os fragmentos estão se espalhando sem controle em qualquer lugar…"

Ele levantou o olhar.

"…então um continente inteiro está ameaçado."

A voz de Daemar caiu. "Qual?"

Noel não hesitou.

"Elarith."

Daemar exalou devagar, então — surpreendentemente — sorriu.

"Tudo bem," disse calmamente. "Então prepare-se para partir."

Noel piscou. "…É só isso?"

"Você já juntou as peças," respondeu Daemar, virando-se para encarar totalmente. "Pânico não vai ajudar. O que vai é preparação."

A tensão nos ombros de Noel aliviou um pouco. Daemar não estava alarmado — ele estava focado. Isso, por si só, o tranquilizou.

"Você não vai entrar às cegas," continuou o Diretor. "Vou começar a apurar informações com nossos contatos em Elarith. Se algo estiver se espalhando lá, saberemos mais quando você partir."

Noel assentiu. "Obrigado."

Daemar o estudou por um momento, depois acrescentou, quase casualmente: "E não se preocupe com a academia. Ausências assim fazem parte do nosso acordo. Igual ao Nicolas."

Noel soltou uma respiração curta. "Já tinha imaginado isso."

Ele hesitou, então falou de novo. "Tem mais uma coisa. Seraphina."

Daemar levantou uma sobrancelha. "O que dela?"

"Deveria falar com ela," disse Noel. "Mas… seria melhor se você dissesse primeiro. De você, ela vai levar mais a sério."

Daemar fez um biquinho com os lábios. "Quer que eu dê a notícia ruim."

"…Sim."

O Diretor deu uma risada suave. "Muito bem. Vou avisar a presidenta do Conselho dos Estudantes."

Noel sentiu um aperto interno.

Ela vai ficar brava.

Daemar voltou para a janela, com as mãos entrelaçadas atrás das costas. "Se ela ficar, ela vai se recuperar. Ela sempre se cura."

Noel não tinha tanta certeza — mas confiava no julgamento de Daemar.

Levantou-se. "Então vou começar a me preparar."

Daemar concordou com um gesto. "Vai. E, Noel?"

Noel parou na porta.

"Volte vivo," disse simplesmente o Diretor.

Um sorriso tênue surgiu no rosto de Noel. "Esse é o plano."

Ele saiu para o corredor, Noir deslizando de sua sombra para o ombro.

'Ela vai gritar, vai se sobrecarregar, vai precisar de mais estudantes no conselho para ajudá-la,' murmurou Noir.

"É,..." suspirou Noel. "E vou deixar o Daemar levar a culpa primeiro."

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