O Extra é um Gênio!?

Capítulo 451

O Extra é um Gênio!?

O vento no alto do Castelo de Valon soprava suavemente na capa de Charlotte enquanto ela olhava para o balção de pedra. Lá embaixo, a cidade pulsava como uma única criatura viva — centenas de milhares reunidos em silêncio, esperando sua voz.

Ela inspirou lentamente.

Não era a primeira vez que Valon a olhava. Mas era a primeira vez que ela iria falar ao mundo com toda a intenção.

E sua mente vagou — não muito longe, pouco mais de um ano atrás — até o momento em que tudo começou.

Para o beco.

Para ele.

Para a primeira vez que Noel Thorne a viu.

A lembrança veio vívido:

Uma figura menor que ele virou a esquina da igreja a toda velocidade e colidiu direto contra seu peito. Charlotte cambaleou para trás e caiu no chão, atordoada —

E seu capuz escorregou.

Cabelos cor-de-rosa espalhados pelos ombros como pétalas de cerejeira sobre a pedra branca.

Noel congelou.

“…O Santo?”

Charlotte lembrou como seu coração quase parou. Olhos bem abertos — os dela — fitando-o. Ela não o conhecia. Ele não a conhecia. E mesmo assim ele falou assim, como se fosse óbvio. Como se fosse evidente.

Antes que pudesse dizer mais alguma coisa, ela se levantou de um salto, agarrou sua mão e sussurrou:

"Venha comigo."

Noel mal conseguiu um "O que—?" confuso,

mas ela o arrastou mesmo assim, entre as paredes da igreja e as barracas do mercado.

Só quando ela se agachou em um beco estreito entre dois prédios de pedra é que ela parou.

E então — pelos céus — ela empurrou-o suavemente contra a parede.

Charlotte quase cobriu o rosto agora, lembrando o quão intensa ela tinha sido.

Noel ficou parado, olhando para ela com uma expressão de que tinha acabado de conjurar um demônio.

Ela se lembrou do quão perto estavam — muito perto — a palma de sua mão no peito dele, os olhos fixos nos dele, desesperadamente procurando garantia, segurança, qualquer coisa.

Ele a encarava como se ela fosse uma anomalia mágica.

“…Olá?” ele disse, finalmente. “Precisa de alguma coisa?”

Isso até que é quase engraçado agora.

Mas na época?

Ela estava apavorada. Acorretada pelo dever. Fugindo dos padres que pretendiam anunciá-la como a nova Santa naquele mesmo dia.

E Noel — completamente inocente — tinha se tornado o estranho qualquer que ela implorou para esconder.

Ele não o fez. Na verdade… entregou ela direto para as pessoas que estavam atrás dela.

Por semanas, ela o chamava secretamente de "Traidor".

Mas…

O olhar de Charlotte se suavizou.

Se não fosse por Noel, ela nunca teria conseguido adiar seu papel. Ela não teria passado meses como uma estudante comum. Não teria conhecido Elena, Elyra, Selene. Não teria rido, estudado, lutado, chorado e crescido ao lado de pessoas que agora amava.

Ela olhou para sua direita.

Noel, Elena, Elyra, Selene — e Noir, orgulhoso sobre o ombro de Noel — todos a esperavam, confiando nela, acreditando nela completamente.

Charlotte expirou.

Dessa vez, ela não iria correr. Dessa vez, ela ficaria firme como a Santa — porque escolheu assim.

Ela deu um passo à frente enquanto as portas do balcão se abriam.

O mundo silenciou.

Era hora.

As portas do balcão se abriram e a luz do sol banhou Charlotte enquanto ela saía para a plataforma elevada. O grito da multidão diminuiu até um silêncio unificado — o tipo que só se dá a reis… ou santos.

Charlotte permaneceu ereta, com os ombros firmes, as mãos juntas na frente. O vento levantou fios de seu cabelo cor-de-rosa, elevando-os suavemente como banners leves.

Por um momento, ela simplesmente os olhou.

Para Valon.

Então sua voz se estendeu pelo balção — clara, calorosa, firme:

"Povo de Valon… e cidadãos do Império."

O impacto de seu tom atravessou a praça, alcançando até as bordas mais distantes da multidão reunida.

"Vocês viram as tempestades dos últimos meses. Sentiram a incerteza. Testemunharam mudanças no ar… e muitos de vocês temeram o que viria a seguir."

Uma onda de murmúrios percorreu a multidão, mas ninguém interrompeu.

Charlotte continuou:

"Hoje, retorno a vocês não como estranha, nem como alguém que se esconde de sua missão… mas como a Santa desta geração. Pronta para guiar nossa era — com honestidade, compaixão e a verdade que precisamos para crescer."

As pessoas escutaram — não com devoção cega, mas com esperança.

Charlotte fez uma pausa, deixando as palavras penetrarem fundo em cada coração.

Ela estava prestes a continuar — mas Noel já se afastara do balção.

Porque alguém familiar atraiu seu olhar.

Uma figura solitária, encostada cuidadosamente na grade do corredor interno do balção, atrás deles — alta, de cabelos negros, com olhos que carregavam exaustão e uma inteligência afiada ao mesmo tempo.

Nicolas von Aldros.

Noel piscou de surpresa.

'Que diabos… Como ele ainda consegue ficar de pé?’

Ele olhou uma vez para as garotas — todas ainda focadas em Charlotte — e silenciosamente se afastou ao lado delas.

Elena percebeu primeiro. Elyra seguiu seu olhar. Selene estreitou os olhos — depois suavizou ao ver quem Noel se aproximava.

Nenhuma delas o deteve.

Entendiam.

Charlotte continuou falando com o povo, sua voz ecoando por Valon…

…mas o foco agora se voltou para Noel.

Para a conversa que ele estava prestes a ter com o homem que quase morreu pelo mundo.

E o mundo não fazia ideia.

Noel se aproximou silenciosamente, parando ao lado de Nicolas.

"Sério," murmurou. "Como você está de pé? Nem devia estar aqui."

Nicolas virou lentamente a cabeça em direção a ele — e sorriu com calor genuíno.

Nicolas soltou um suspiro baixo, uma expressão de dor e diversão ao mesmo tempo.

"Faz tempo, Noel," ele disse, com voz baixa, mas firme. "Achei que isso fosse… uma das suas situações."

Noel bufou. "Sim. Mais ou menos isso."

Os olhos de Nicolas suavizaram enquanto o estudava. "Você sempre acaba no meio das maiores tempestades. Não devia me surpreender te ver aqui."

Noel cruzou os braços, encostando-se na grade ao lado dele.

"Pois é… alguém tem que resolver essa bagunça. Melhor que seja eu."

Nicolas lançou um olhar sabendo. "Porque você se importa."

Noel não respondeu de imediato — mas não negou.

Sua atenção foi para a cidade lá embaixo, onde a voz de Charlotte se elevava em ondas constantes, atraindo a atenção de centenas de milhares.

"…Tenho pessoas que importam para mim," finalmente disse Noel. "Não posso ficar de braços cruzados esperando que tudo dê certo. Se houver perigo, mudança ou algo grande — tenho que estar lá. Mesmo que seja incômodo. Mesmo que seja exaustivo."

Nicolas deu uma risada suave. "Você não mudou." Então seu semblante se suavizou. "E estou feliz que não tenha."

Noel lhe lançou um olhar de lado. "E a Academia? Quer uma atualização? Algo que você queira saber?"

Nicolas balançou a cabeça. "Não. Daemar está lidando bem. Melhor do que esperávamos. Graças a você, não vai repetir o que aconteceu antes."

Noel não argumentou — mas também não tirou o crédito.

Os olhos de Nicolas se estreitaram levemente. "Então… qual o próximo passo? Depois deste discurso?"

Noel olhou firme em direção à multidão infinita, ao futuro que Charlotte estava moldando — e sua voz caiu.

"…As Ilhas do Norte."

Nicolas se endireitou.

"Aquele lugar," ele sussurrou. "Perigoso?"

Noel não respondeu com palavras.

A expressão em seus olhos — fria, determinada, inabalável — foi suficiente.

Nicolas compreendeu imediatamente.

"…Entendo," ele murmurou. "Então cuide-se, Noel. Não arrisque desnecessariamente."

Noel exalou pelo nariz. "Quando é que eu não arrisco?"

Nicolas levantou uma sobrancelha. Noel se corrigiu.

"Ok, vale. Quando é que eu não arrisco de verdade?"

Nicolas riu — uma risada baixa, calorosa, que parecia doer suas costelas.

Nesse momento, uma onda de gritos de comemoração explodiu na praça abaixo.

Charlotte tinha acabado de terminar de falar.

Nicolas olhou para a silhueta dela no balção, depois voltou a olhar para Noel.

"Parece que sua namorada lidou com tudo perfeitamente," ele disse com um sorriso de quem sabe algo. "Apesar de imaginar que o resto também deve ser incrível."

As orelhas de Noel ficaram quentes. "É… são incríveis. E, honestamente, insanas por estarem comigo."

"Fico feliz que esteja com elas," Nicolas disse. "Cuide bem delas, Noel. Como eu não fiz."

O peso dessas palavras não precisava de explicação.

Noel não perguntou sobre Redna.

Ele nunca perguntaria.

Em vez disso, ele assentiu uma única vez — firme e sincero.

"Vou cuidar."

Noel colocou a mão no ombro de Nicolas — cuidado, suave, porque o corpo do homem ainda carregava as marcas de batalhas que o mundo nem sequer sabia que tinham acontecido.

"Tente segurar firme até tudo acabar," Noel disse baixinho. "Quando terminar essa confusão toda… vamos celebrar de verdade."

Nicolas piscou uma vez, depois sorriu — um sorriso pequeno, cansado, que chegou aos olhos dele.

Noel endireitou-se um pouco e acrescentou: "E você realmente deveria descansar. Não está exatamente na sua idade, igual a eu."

Ele levantou o braço e exagerou no bíceps com uma expressão séria.

Nicolas deu uma risada — de verdade, uma risada calorosa que fez ele se agarrar às costelas.

"Sou velho, não estou morto," ele tossiu. "E para de se exibir. Meu coração não aguenta tanta arrogância."

"Você começou," retrucou Noel.

Os dois ficaram ali, ombro a ombro, assistindo às últimas ecos das comemorações sumirem em murmúrios. Lá embaixo, Charlotte se afastou do púlpito, voltou a Elena, Elyra, Selene e Noir. As garotas avistaram Noel no balção — e Charlotte sorriu para ele de cima.

Dedo indicador para cima. Brilhante e orgulhosa.

Noel retribuiu o gesto.

Nicolas também olhou para ela. "Ela fez lindo. Você escolheu bem, Noel."

Noel exalou suavemente. "Mais ou menos… elas me escolheram."

"Então valorize-as," Nicolas murmurou. "E não vá sozinho para as Ilhas do Norte."

Charlotte e as demais subiam as escadas internas do castelo agora. Ela olhou novamente nos olhos de Noel, com passos leves, sorriso mais quente que o sol sobre Valon.

"Vou partir," disse Nicolas, ajustando-se cuidadosamente. "Você tem pessoas esperando por você."

Noel assentiu. "Sim. Até mais, Nicolas."

"Fique vivo, Noel," respondeu Nicolas, com uma voz calorosa, mas firme. "Todos vocês."

Ele desapareceu de volta pelos corredores do castelo — deixando Noel com o murmurinho distante de Valon, o peso do Norte que vem aí…

e a visão de Charlotte e suas meninas aproximando-se.

O mundo mudou hoje.

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