
Capítulo 433
O Extra é um Gênio!?
A lanchonete fervilhava com o barulho familiar de estudantes retornando após o intervalo, mas Noel mal teve tempo de entrar antes que uma voz alta cortasse a sala.
"Noel! Aqui!"
Marcus acenava com os braços como se estivesse tentando sinalizar uma embarcação de resgate. Garron sorria de orelha a orelha, e Laziel deu uma breve aprovação — sutil para ele, significando apenas moderadamente irritado.
Noel foi se aproximando, contornando as mesas. Assim que se sentou, Marcus inclinou-se para frente com um suspiro aliviado.
"Rapaz, faz tempo que a gente não se vê."
Garron assentiu firmemente. "De verdade. Depois de tudo que aconteceu… é bom te ver inteiro de novo."
Laziel cruzou os braços, mas não conseguiu esconder o alívio em seus olhos. "Você desapareceu logo depois de Tharvaldur. A gente sabia que você tava vivo, mas… ainda assim."
Noel deu uma risadinha, esfregando a nuca. "Pois é. Aconteceu muita coisa. Precisava… de tempo. Minha família também."
Marcus soltou um suspiro que vinha segurando. "Bem, fosse qual fosse o tempo que você precisasse — você tá melhor. Cansado, mas melhor."
Noel sorriu de lado. "Isso é só meu rosto."
Garron explodiu numa risada, quase engasgado com o ar.
Laziel revirou os olhos. "Nada mudou. Ótimo."
Por um momento, a tensão aliviou. O peso dos últimos meses — o treinamento, o perigo, Tharvaldur, o ataque à sua casa — parecia desvanecer sob o calor da conversa familiar.
Marcus bateu palmas uma vez, recostando-se na cadeira. "Então, vamos lá. Contem tudo. O que aconteceu lá fora?"
Noel respirou fundo, relaxando os ombros. "História longa. Mas, sim… é bom estar de volta."
Marcus se inclinou à frente, apoiando os antebraços na mesa, seu rosto mudando de descontraído para sério. A cafeteria ao redor deles fervia com o ruído de fundo — pratos tavuados, conversas dispersas — mas o cantinho deles parecia isolado, mais quieto, com um ar pesado de coisas não ditas.
"Mas falando sério", insistiu Marcus, com um leve sorriso de desconfiança, "o que aconteceu lá fora? Eu sei que você disse que eram os 'inimigos de sempre', mas… você não parece estar falando de algo pequeno."
Noel soltou um suspiro lento e cansado. "Não foi pouco, não. Os mesmos canalhas de sempre — aqueles que estão por trás de tudo desde o ataque à academia. Eles voltaram e… a coisa ficou feia."
Garron resmungou, jogando-se na cadeira. "Cara, esses caras não desistem. Parece que quase todo mês tem alguma coisa."
"Parece toda semana", murmurou Laziel, massageando as têmporas. "Cara, tô de saco cheio de surpresas. Só quero um ano — um — onde nada exploda."
Marcus concordou com um sorriso sombrio. "Desde o ataque à academia, é caos direto. Nem lembro a última vez que tivemos uma rotina normal."
Noel sorriu cansado. "Bem-vindo à minha vida."
"É, é isso aí", Marcus deu de ombros. "Mas e sua família… eles estão bem?"
Noel levantou de ombros casualmente. "Estão. Todos vivos."
Seu tom era calmo, quase indiferente — aquele tipo de indiferença que só quem já fez as pazes com uma família que nunca foi exatamente 'normal' consegue manter.
Marcus assentiu lentamente. Ele e os outros trocaram um olhar; todos sabiam que Noel não tinha exatamente a relação mais calorosa com a Casa Thorne.
Sem perguntas. Sem pena.
p>"Contanto que você esteja seguro", disse Garron, exalando alívio. "Isso que importa."
"Pois é", respondeu Noel simplesmente. "E não pretendo voltar lá tão cedo. Não há necessidade."
Não havia ressentimento — apenas uma sensação de finalização.
Sua casa tinha sobrevivido. Isso já era suficiente.
A conversa mudou de assunto, mas a tensão nos ombros deles diminuiu.
Então Marcus bateu os dedos na mesa.
"Espera aí — falando em pessoas. Alguém viu o Roberto? Ele tinha que estar de volta há dias."
Garron franziu o cenho. "Você tem razão… ele não nos procurou. Disse que voltaria depois de visitar a família, mas já faz um tempo. E as aulas começam a qualquer momento."
Noel piscou, sentado mais ereto. "Ele ainda não voltou?"
Laziel balançou a cabeça. "Não. Nada dele. E, pelo jeito, se estivesse vindo, teria pelo menos se gabado de que estava a caminho."
Uma linha de ansiedade se enrolou no estômago de Noel.
A voz de Noir invadiu sua mente, tímida, mas afiada. 'Pai… eu não gosto do Roberto.'
Noel respondeu silenciosamente. 'De novo? Você brigou com ele da última vez. Por quê?'
'Não sei,' respondeu Noir. 'O cheiro dele… não parece certo. Errado. Perigoso.'
A tensão sutil na voz dela fez os dedos de Noel se fecharem ao redor da xícara.
Marcus continuava falando, sem perceber a sombra que cruzava o rosto de Noel. "Ele vai aparecer. Provavelmente só ficou mais tempo com a família."
"Sim", disse Noel de forma casual, forçando um tom relaxado. "Provável."
Mas a sensação de angústia permaneceu — gelada, teimosa, impossível de ignorar. Noir raramente ficava assustado.
E quando ficava… nunca sem motivo.
Um garçom passou perto da mesa, colocando uma bandeja carregada de comida — fatias grossas de pão torrado, manteiga ainda derretendo por cima; uma cesta de frutas; canecas de chá e café fumegantes; e uma jarra de suco pálido de cor laranja.
"Finalmente", disse Garron com um sorriso, indo direto buscar a torrada. "Tô morrendo de fome."
"Você vive com fome", murmurou Laziel, embora sem ressentimento.
Garron deu uma mordida gigante, flexionando um braço com um movimento dramático que capturou a luz da manhã. "Não dá pra evitar. Músculos como esses precisam de combustível. Minha menina diz que gosta ainda mais —"
"Para," disse Laziel imediatamente, levantando as mãos. "Por favor. Pelo amor de tudo que é santo, vamos evitar falar da obsessão da sua namorada pelos bíceps na hora do café?"
Marcus sussurrou de trás da xícara. "Alguém tá com ciúmes."
"Não tô com ciúmes", Laziel retrucou, com uma expressão de irritação. "Sou realista. Alguns de nós não receberam desconto por relacionamento."
Garron deu outro mordida exagerada. "Parece ciúmes pra mim."
Noel recostou na cadeira, escondendo um sorriso meio constrangido atrás da xícara. "Você disse que tava tão próximo daquela garota que conheceu em Tharvaldur?"
"NÃO", disse Laziel imediatamente, lançando olhares de rufianes. "A gente não tava ‘tão próximo’. Nem ‘de longe’. Eu interpretei errado os sinais — UMA VEZ — e ela riu — UMA VEZ — e agora acabou pra sempre. FIM DA HISTÓRIA."
Marcus soltou uma risada entre o chá.
"Mano, essa foi brutal", disse Garron, ainda comendo.
"Pois é. Então, por favor, vamos evitar falar dos romances perfeitinhos de todo mundo?" murmurou Laziel, espetando o pão com jeito de que aquilo tinha magoado pessoalmente.
Noel levantou as mãos em sinal de rendição. "Ok, ok."
Enquanto se serviam, o clima descontraído voltou — caloroso e familiar. Uma paz rara.
Mas o aviso de Noir ainda sussurrava no fundo da cabeça de Noel, uma brisa fria por trás do riso.
Noel tentou empurrar o pensamento para o lado, focando no momento — no calor do chá em suas mãos, nas discussões de Marcus sobre a qualidade da torrada, na tentativa e erro de Laziel de defender sua vida amorosa.
Porém, a preocupação permanecia sob a superfície.
Como uma primeira rachadura no gelo.
Marcus terminou sua torrada, recostou-se e lançou a Noel um sorriso malicioso — daquele tipo que não prometia coisa boa.
"Então…", ele falou devagar, "falando de romance."
O rosto de Laziel caiu na mesa com um bofetão seco. "Por favor. Tô implorando. Nada de novo."
Mas Marcus nem olhou para ele. Seus olhos estavam fixos em Noel, como um atirador de elite.
"Você", disse, apontando dramaticamente, "é inacreditável."
Garron assentiu de forma séria. "Na estatística, isso é até injusto."
Noel piscou. "…O quê?"
"Ah, chega de fingir que não," continuou Marcus. "Vamos fazer uma lista, que tal?"
Ele levantou um dedo.
"Primeiro — Selene. Gênio literal. Assustadora. Mais bonita que a própria temperatura da mana."
Selene provavelmente teria congelado ele em pedra por aquela frase, Noel pensou.
Segundo dedo.
"Elena. Uma das garotas mais bonitas da academia. Graça, elegância, notas máximas. Quase um halo ambulante."
Terceiro dedo.
"Elyra. Herdeira da casa mais rica do continente. Nível de perigo: catastrófico. Nível de beleza: ilegal."
Garron entrou na conversa. "Ela poderia comprar toda a academia, demolir, reconstruir e ainda sobraria dinheiro pra sobremesa."
Marcus ergueu o quarto dedo com pompa.
"E, por último — Charlotte. A Santa. O símbolo vivo da fé do império. Uma das pessoas mais importantes do mundo."
Laziel levantou o rosto só o suficiente para franzir a testa para Noel. "Santos, Noel… nesse ritmo você tá colecionando cartas raras."
"Eu—" Noel abriu a boca, mas Marcus já tinha se aproximado mais.
"E ENTÃO", disse Marcus, com a voz teatralizada, "você aparece hoje todo relaxado, radiante e dizendo — 'ah, tivemos uma manhã agradável'—"
Garron bateu a mão na mesa. "Me conta o segredo! Você toma banho de mana? Come bênçãos no café da manhã?"
Laziel apontou acusador. "Você é o motivo de eu estar solteiro. Alguém comeu toda a sorte antes de eu nascer!"
Noel passou a mão no rosto. "A gente não— não é— olha, é complicado."
"Complicado?" repetiu Marcus. "Mano, o próximo vai ser a Serafina. Vai lá, pega a princesa enquanto estiver nisso!"
Noel puxou a expressão de desprezo. "Ela é só uma amiga."
"Hã-hã. É o que eles sempre dizem", disse Garron, estreitando os olhos dramaticamente.
Laziel gemeu. "Vou embora. Não quero ouvir mais isso. Vou morrer."
Mas ele não se mexeu um centímetro.
Noel finalmente deixou a colher cair com um suspiro. "…Cansei de vocês."
A risada correu pela mesa no instante em que Noel disse isso.
Marcus limpou uma lágrima falsa no canto do olho. "Você diz isso, mas sem a gente… você ficaria perdido."
Garron concordou com uma sabedoria exagerada. "Provavelmente morreria de fome. Ou apanharia. Ou os dois."
Laziel ergueu um dedo de onde tinha o rosto apoiado na mesa. "Com certeza, os dois."
Noel revirou os olhos, mas um pequeno sorriso nasceu no canto da boca. "Vocês são insuportáveis."
"Isso aí", respondeu Marcus imediatamente. "Mas é necessário."
A cafeteria ao redor deles voltava ao barulho habitual — xícaras tilintando, risadas de outras mesas, fagulhas de mana que às vezes pulavam de algum estudante irresponsável. O caos familiar envolvia Noel como um cobertor quente que ele nem sabia que tinha saudade.
Por um tempo, conversaram sobre assuntos mais seguros — aulas futuras, rumores sobre o novo semestre, a rotina de ginástica de Garron, a trágica história amorosa de Laziel.
Marcus gemeu quando Laziel descreveu uma vez que uma garota rejeitou ele porque ele "parecia demasiado heróico".
"Isso é um elogio!" insistiu Marcus.
"Não, é uma armadilha", murmurou Laziel. "Sou mal interpretado."
Noel bufou, tomando um gole de chá. "Talvez ela quisesse dizer intimidante."
Laziel lançou um olhar de ameaça. "Você não ajuda."
Garron deu uma palmada nas costas dele, tão forte que quase fez ele cair de boca na mesa. "Relaxa, amigo. Um dia você encontra alguém que valorize sua… hum… personalidade."
Laziel estreitou os olhos. "Essa foi a conversa de motivação mais ruim que já ouvi."
"De nada", respondeu Garron, com orgulho.
Noel recostou na cadeira, deixando o ruído ao seu redor fluí-lo. Pela primeira vez desde as terras de Thorne, desde as revelações de Noctis, desde o pulso praticamente morto de Nicolas — ele sentiu algo parecido com paz.
Normalidade.
Mesmo que momentânea.
Marcus puxou a torrada de Laziel, que ainda não tinha tocado nela.
"EI!"
"O quê? Considere isso um imposto", disse Marcus.
"Imposto por QUE?!"
"Por estar solteiro."
"ISTO NÃO FAZ SENTIDO— devolve!"
Eles lutaram pelo pão como dois animais selvagens enquanto Garron tentava separá-los, só tornando tudo mais caótico.
Noel riu e balançou a cabeça.
Era por esses momentos, por essas pessoas, que ele lutava.
Até a própria voz de Noir em sua cabeça parecia mais suave. 'Eles te deixam feliz, pai.'
'Sim', pensou Noel, uma sensação de calor crescendo no peito. 'Eles conseguem.'