
Capítulo 431
O Extra é um Gênio!?
A sala estava tranquila nesta hora — sem pressa, sem cerimônias formais. Apenas alguns poucos acompanhantes preparando duas carruagens leves, daquelas usadas para viagens rápidas dentro da capital. Lanternas de mana zumbiam suavemente ao longo das estruturas, numa cadência calma, misturando-se à brisa suave da manhã que entrava pelos arcos abertos.
Seraphina esperava ao lado da primeira carruagem, vestindo um simples sobretudo de viagem nobre — rosa pálido com detalhes prateados. Nada pesado, nada cerimonial. Dior estava ao lado dela, vestido de modo semelhante, com um casaco escuro ajustado, sem brasões, com as mãos nos bolsos, parecendo que tinha acabado de acordar, mas se recusando a demonstrar.
Quando Noel e Charlotte se aproximaram, Seraphina virou-se, com uma postura relaxada.
"Sua carruagem é a segunda," ela disse. "Como a viagem é curta, chegaremos quase ao mesmo tempo. Dior e eu vamos primeiro revisar a entrada da academia."
Charlotte assentiu. "Claro."
Os olhos de Dior piscavam para Noel, com um olhar de quem parecia desconfiado, como se alguma coisa não estivesse muito certa. "Tente não dormir e perder a sua parada," ele falou de forma direta.
Noel franziu a testa. "…Por quê eu perderia?"
"Nenhuma razão," Dior murmurou, claramente irritado com algo que só ele entendia.
Charlotte soltou uma risada silenciosa, cobrindo a boca.
Seraphina entrou na sua carruagem, parando apenas para acrescentar, "A segurança ainda está reforçada após os últimos incidentes. Fiquem perto quando desembarcarmos."
"Entendido," respondeu Noel.
Dior entrou logo atrás, a porta se fechando com um clique suave.
Um guarda gesticulou para a segunda carruagem. "Senhor Thorne, Lady Charlotte — sempre que estiverem prontos."
Noel ofereceu a Charlotte a mão. Ela aceitou com um sorriso discreto, subindo com graça.
Dentro, a carruagem era quente e modesta, com assentos acolchoados alinhados às paredes. Seus casacos roçaram-se levemente ao sentarem-se lado a lado.
Com um solavanco suave, as rodinhas começaram a se mover.
Charlotte encostou o ombro nele, a voz quase um sussurro.
"Tá meio estranho voltar assim," ela murmurou.
"É," Noel respondeu, deixando o olhar drifar pela janela enquanto as ruas de Valon surgiam — prédios familiares, vendedores de manhã montando barracas, estudantes já caminhando em direção à academia. "Vinte minutos não é muito… mas parece mais longo depois de tudo."
Os dedos de Charlotte tocaram os dele suavemente. "Só a gente por um tempinho."
Ele sorriu levemente, aproximando-se mais.
"É. Só a gente."
As carruagens deslizaram suavemente pelas ruas, atravessando o distrito nobre e se aproximando do lado leste de Valon, onde ficava a academia — torres altas de pedra branca envoltas em trepadeiras verdes e linhas de mana brilhantes. Mesmo de longe, o lugar parecia vivo, pulsando com a energia familiar de estudantes voltando para o novo semestre.
Ao se aproximarem do portão principal, a carruagem desacelerou.
Noel inclinou-se um pouco, observando a multidão. "Parece que metade da academia já voltou."
Charlotte assentiu, com a expressão suavizando ao notar os uniformes e mantos familiares. "Tá… mais normal de novo. Ou pelo menos mais perto disso."
"Normal é coisa de frase feita," Noel disse com seco humor.
Ela o cutucou suavemente com o cotovelo. "Depois de tudo, você diz isso? Eu mataria por uma vida normal."
Noel soltou uma risada. "É. Eu e você somos os mesmos."
Quando a carruagem entrou pelos portões da academia, os guardas se ficaram alertas.
Alguns estudantes pararam para olhar enquanto passavam — mas desta vez, a atenção deles não era de Noel.
Era de Charlotte.
Sussurros começaram a correr pelo pátio ao serem reconhecidos os cabelos cor-de-rosa, o manto branco, a luz inconfundível ao redor dela.
Charlotte, a Santa desta geração.
Charlotte, sem o Véu Sagrado escondendo sua identidade.
Charlotte percebeu — claro que percebeu. Seus ombros se tensaram por um instante, depois ela exalou suavemente.
Noel deu um passo um pouco mais próximo. "Estão te encarando," ele murmurou.
Charlotte sorriu de forma desconcertada, meio sem jeito. "Sei disso."
"É porque você não está usando o Véu Sagrado," Noel comentou. "Tenho quase certeza de que metade ficou chocado com a Santa vindo para a academia."
Ela olhou para frente novamente, calma, mas pensativa. "Acho que chegou a hora," ela disse baixinho. "De parar de fingir."
Noel sorriu de canto. "Prepare-se. Você vai ganhar uma quantidade enorme de fãs."
Charlotte virou-se para ele com uma sobrancelha levantada. "Por quê? Medo de que roubem você?"
Ele não hesitou nem por um segundo.
"Não. Nem um pouco."
Charlotte piscou, então sorriu — de verdade, suave, a tensão desaparecendo de seu rosto. "Confiante, hein?"
"Demais," Noel respondeu com um pequeno encolher de ombros. "Sou quem sou."
Ela deu uma risada baixinha, quase um suspiro. "Você realmente é impossível."
"Obrigado," ele disse.
A carruagem real parou diante dos portões da academia. Logo atrás, chegou outra carruagem — a que levava Noel e Charlotte.
Primeiro, Noel e Charlotte saíram. Quando seus pés tocaram o chão de pedra familiar, uma figura alta e magra, com olhos violetas, já se adiantava.
Daemar.
Seu casaco flutuava levemente atrás dele, cabelo de fios prateados amarrado para trás em uma cauda ordenada. Sua expressão era a mesma de sempre — severa, intradutível, mas com uma estranha sensação de calor escondida sob a disciplina.
Ele fez uma reverência respeitosa para Seraphina, ao sair de sua carruagem.
"Vossa Alteza. Sejam bem-vindos de volta à Academia de Valor."
Seraphina assentiu com uma calma ereta. "Obrigado, Daemar."
Dior saiu logo atrás, com seus olhos verdes afiados como sempre. Não falou nada, apenas fez um breve gesto de cabeça.
Só então, Daemar virou-se para Noel.
Seu tom mudou — por pouco, mas suficiente para chamar atenção de Noel.
"Você atrasou."
Noel arregalou os olhos. "Chegamos ao mesmo tempo que a princesa—"
"E mesmo assim," Daemar interrompeu secamente, "você ainda está atrasado."
Charlotte tentou segurar uma risada contida.
Seraphina suspirou. "Daemar, por favor."
Daemar clarificou a garganta, ajustando a postura. "Venham. Os quatro. Temos muito o que conversar."
Ele os conduziu pelo halls de entrada da academia — corredores cheios de banners, luz do sol entrando por janelas altas. Os estudantes pararam no meio da conversa, os olhos arregalados ao notarem Charlotte andando aberta, sem o Véu Sagrado.
Sussurros se espalharam num instante.
Seraphina continuou caminhando com graça, Dior ignorou os murmúrios completamente. Charlotte andava ao lado de Noel, um pouco mais próxima do que o de costume, e Noel fez o possível para que a atenção não a incomodasse.
Dentro do escritório do diretor — antigo escritório de Nicolas — Daemar fechou a porta atrás deles.
De repente, o clima mudou.
"Primeiro," disse Daemar, com os olhos varrendo os quatro, "fico aliviado em ver que todos estão vivos."
Dior fez um som de escárnio silencioso, mas não discordou.
Dentro do escritório do diretor — que antes era de Nicolas, agora de Daemar — a porta se fechou com um clique suave. O quarto parecia familiar, mas um pouco diferente: a organização de Daemar substituindo o caos ordenado de Nicolas.
Daemar foi até sua mesa, as mãos entrelaçadas atrás das costas, os olhos passando cuidadosamente por cada um deles com uma intensidade tranquila.
"Primeiro," falou com voz baixa, porém firme, "fico aliviado em ver que todos estão bem."
Dior fez um pequeno ruído — não um discordar, apenas sua impaciência habitual.
Seraphina deu um passo à frente, sempre composta. "Enviei-lhe tudo que sabia num relatório lacrado," ela explicou. "Meu pai e eu achamos importante informar a academia."
Daemar assentiu. "E recebi cartas adicionais dos mensageiros da Casa Thorne nesta manhã. Rumores estão se espalhando entre comerciantes e viajantes também."
Seu olhar se afiou.
"Aquilo… não foi um incidente pequeno."
Noel exalou pelo nariz. "Pois é. Pode dizer isso."
Daemar inclinou a cabeça. "O relatório de Seraphina mencionou sua participação em vários momentos críticos." Ele fez uma pausa. "Mais uma vez."
Noel resmungou baixinho. "Todo mundo fica presumindo que a culpa é minha quando alguma tragédia acontece?"
"Essa suposição," disse Daemar secamente, "parece estatisticamente precisa."
Charlotte abafou uma risada com a mão.
Seraphina fingiu que não sorriu.
Até Dior rolou os olhos, com menos azedume do que de costume.
Daemar continuou, suavizando o tom — como sempre fazia ao falar com Noel, mesmo que nunca admitisse isso.
"Existe… certos padrões," disse ele. "Cada grande crise ocorrida no último ano parece ter ocorrido na sua direção."
Noel cruzou os braços. "Não é como se eu fosse procurá-las."
"Mm," Daemar resmungou. "Problemas simplesmente te encontram. Constantemente."
Charlotte riu baixinho. Noel lançou um olhar de reprovação para ela. Ela não parou.
Daemar endireitou-se um pouco. "De qualquer forma, Nicolas… teria se orgulhado." Sua voz ficou quase um sussurro, quase inaudível. "Ele sempre acreditou que você se tornaria alguém importante. Uma pessoa que vale a pena apoiar."
Noel respirou de maneira trêmula — mas Daemar não deu tempo para ele responder.
"E então," concluiu o diretor, "pretendo apoiá-lo, como ele uma vez fez. Não porque sou obrigado — mas porque a academia deve estar ao lado de seus próprios."
Seraphina assentiu. "E, como Presidente do Conselho Estudantil, farei o mesmo. O que aconteceu na Casa Thorne agora é questão de segurança continental."
Daemar entrelaçou as mãos. "Sentem-se. Todos vocês. Comecem do começo. Quero todos os detalhes."
Noel trocou uma olhada com Charlotte — uma mistura de exaustão e alívio.
Passaram vários minutos dando a Daemar as informações gerais — nada aprofundado, apenas as partes indispensáveis.
Noel recostou-se na cadeira, com os braços cruzados suavemente. "Resumindo… foi o mesmo grupo que atacou Nicolas. aquele que destruiu seu núcleo."
A expressão de Daemar escureceu imediatamente.
"E," continuou Noel, "o mesmo grupo que roubou algo importante da Casa Thorne."
Dior se endireitou. "Aquele grupo… aquele com quem quase me enredei?"
Seu tom não carregava orgulho — apenas um reconhecimento silencioso e amargo.
"Sim," disse Noel de forma firme. "Aquele mesmo."
Dior engoliu em seco, apertando a mandíbula. "Eu não sabia. Eu—"
Ele exalou pelo nariz, o olhar caindo. "Foi um erro. E já paguei por isso."
Seraphina lançou um olhar breve e advertidor para ele, mas Daemar apenas assentiu lentamente.
"Entendo." Sua voz foi fria, analítica. "Tudo se encaixa, então. A queda de Nicolas… a insatisfação no continente… e o ataque na Thorne."
Ele deu uma volta atrás da mesa, com as mãos entrelaçadas às costas.
"Preocupante, para dizer o mínimo."
Noel deu de ombros. "Bem-vindo à minha vida."
Daemar soltou um suspiro suave — o mais próximo de um cansaço de olhos rollados que tinha.
Então, Noel se inclinou para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos.
"Então, Diretor… Ainda bem que me perguntou. Como está o seu novo cargo?"